25/09/2026

QUANDO O JORNALISMO ENCONTRA O QUE O ESTADO NÃO VÊ


by Deise Brandão

Converso com todo mundo. No mercado, nas lojas, nas filas e nas ruas. É nesses lugares que as pessoas contam suas histórias — muitas vezes sem perceber que estão contando.

Recentemente, comecei uma conversa banal com uma senhora idosa. Falávamos sobre alimentação, rótulos e aquelas preocupações cotidianas que surgem diante de uma prateleira. Aos poucos, porém, percebi que havia nela uma tristeza muito maior do que o assunto permitia enxergar.

Ela tentava conversar normalmente, mas estava fechada, abatida, quase pedindo licença para existir.

Como sou naturalmente expansiva, permaneci ali por mais tempo. Escutei. Fiz algumas perguntas com cuidado. O que surgiu daquela conversa foram sinais preocupantes de controle familiar, gritos, ausência de liberdade e possível dependência patrimonial. Não tenho elementos para acusar ninguém nem transformar uma conversa casual numa conclusão definitiva. Mas também não consigo fingir que não ouvi.

E então aparece o dilema: o que fazer?

Uma intervenção precipitada pode piorar a vida de quem se pretende ajudar. Uma denúncia feita sem conhecer toda a situação pode retirar da pessoa idosa o pouco controle que ainda possui sobre a própria vida. Pode provocar represálias, rompimentos familiares ou encaminhamentos que ela não deseja.

Também não posso levá-la para minha casa e assumir uma responsabilidade que pertence à família, à rede de proteção e ao Estado.

É nesse momento que ser jornalista se torna complicado.

Não se trata de encontrar uma história triste, publicá-la e colher atenção. Isso seria fácil — e irresponsável. Jornalismo não é transformar a fragilidade alheia em espetáculo. Muito menos numa cidade pequena, onde dois ou três detalhes bastam para identificar alguém.

Todos os dias aparecem anúncios sobre programas, verbas, campanhas e estruturas destinadas à proteção dos idosos. Há autoridades, entidades e profissionais apresentando projetos e garantindo que existe uma grande rede de atendimento.

Mas quem encontra a senhora entristecida numa conversa comum sou eu.

É no mercado, na farmácia, na loja e na calçada que surgem as histórias que não chegam aos relatórios oficiais. A matéria-prima do jornalismo está ali: nas pessoas, no olhar, na mudança de voz, na frase interrompida e naquilo que alguém conta quando finalmente encontra quem escute.

Jornalista que permanece apenas dentro de uma redação pode analisar notícias, escrever colunas e comentar acontecimentos. Mas o jornalismo vivo está na rua. É lá que a realidade aparece antes de virar estatística.

O problema é que enxergar não significa automaticamente saber como agir.

Se eu publicar detalhes, posso expor essa senhora. Se fizer uma denúncia impensada, posso colocá-la em situação ainda mais vulnerável. Se me calar completamente, permaneço com a sensação de ter encontrado alguém que precisava de ajuda e ter seguido adiante.

Por isso, responsabilidade também é reconhecer limites.

Nem toda história que chega a um jornalista deve virar matéria. Algumas exigem silêncio, cuidado, acompanhamento e uma tentativa discreta de mostrar caminhos — sempre respeitando a vontade e a autonomia de quem está vivendo aquela situação.

O Estado anuncia que protege. A família afirma que cuida. Os relatórios apresentam números.

Enquanto isso, uma senhora desconhecida revela sua tristeza entre uma prateleira e outra, e uma jornalista volta para casa tentando descobrir como ajudá-la sem destruir o pouco que ainda lhe resta.

Essa parte nunca aparece nas campanhas oficiais.

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