domingo, 26 de abril de 2026

Herança do Temer


 

Gilmar Mendes: indicado por FHC, há 24 envergonhando o Brasil


Senado aprova indicação de Gilmar Mendes para o STF

Da Redação | 22/05/2002, 00h00
Agência Senado

O Senado aprovou nesta quarta-feira (22), com 57 votos favoráveis e 15 contrários, a indicação do ex-advogado-geral da União Gilmar Ferreira Mendes para exercer o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) na vaga decorrente da aposentadoria do ministro José Néri da Silveira. Apesar da votação ter sido secreta, a oposição manifestou seu voto contrário a indicação, por entender que Gilmar Mendes poderá ser parcial em matérias que envolvam interesses de integrantes do governo e da elite econômica.

O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) lembrou que a oposição deu uma "espécie de voto de confiança" quando não criou embaraços às indicações de Nelson Jobim e Ellen Gracie ao mesmo STF.

- Lamentavelmente, somos forçados a reconhecer que a performance deles na Suprema Corte tem dado azo à jocosa manifestação de muitos operadores do direito de que ambos funcionam como líder e vice-líder do governo no STF - afirmou.

Suplicy disse considerar mais grave, ainda, o fato de que Gilmar Ferreira Mendes, "em que pese seu notório saber jurídico, é um jurista de extração conservadora". Segundo o senador, "basta consultar a lista de juristas que o apóiam para o STF, para que se verifique que quase todos eles são notórios defensores das elites dominantes, dos grandes conglomerados econômicos e das diretrizes governamentais que espelham esses interesses".

O senador José Eduardo Dutra (PT-SE) disse que a visão jurídica de Gilmar Mendes é seletiva, classificando como positivo tudo aquilo que o beneficie. Como exemplo, Dutra citou as obras de Gilmar sobre o modelo alemão de escolha de ministros para a Suprema Corte, onde são omitidas as condições e os pré-requisitos exigidos para os candidatos. Segundo Dutra, na sabatina da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), Gilmar Mendes, quando questionado, disse que o modelo alemão é confuso por tirar o caráter pessoal das indicações. "A parte boa do modelo alemão é a que concentra poder na Suprema Corte, mas a parte que explica como lhe dá legitimidade para exercer esse poder, é omitida", afirmou.

O senador Jonas Pinheiro (PFL-MT) disse que Gilmar Mendes chegou onde está por seu esforço pessoal. A opinião foi compartilhada pelo senador José Agripino (PFL-RN), que o classificou como um "homem feito por si só e que chegou onde chegou sem pistolão". O senador Carlos Bezerra (PMDB-MT) disse que Mendes desenvolveu um trabalho revolucionário na Advocacia Geral da União (AGU), defendendo o interesse público com criatividade.

O senador Sérgio Machado (PMDB-CE) disse que Gilmar Mendes marcou sua carreira pela paixão e o ardor com que se dedicou à causa pública. O senador Renan Calheiros (PMDB-AL) destacou a "idoneidade indiscutível" de Gilmar Mendes, os seus livros sobre direito constitucional, seu temperamento equilibrado e seu senso de justiça. O líder do governo, senador Artur da Távola (PSDB-RJ) ressaltou o "altíssimo grau" de conhecimento jurídico da ministro.

O senador Lauro Campos (PDT-DF) lembrou o ex-ministro do STJ Aliomar Baleeiro, que afirmava ser um ato político a escolha de ministros para a Suprema Corte. "Mas, ele não se referia à política com "p" minúsculo e a pessoas com um ideário que ninguém sabe qual é". Para o senador, em vez de ver reformado o seu conteúdo com mestres do direito e independentes do governo, terá o "escriba" mais competente e mais "subserviente ao príncipe".

O senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT) disse que Gilmar Mendes obteve unanimidade no que diz respeito ao preenchimento dos dois requisitos necessários a um ministro do STF: reputação ilibada e notório saber jurídico. Segundo ele, Mendes angariou adversários por ter defendido o interesse público e contrariado interesses da banda privada e corporativos, conseguindo economizar algo em torno de R$ 20 bilhões para os cofres públicos.

O senador José Sarney (PMDB-AP) lembrou que é na divergência que se exerce a democracia. Ele deu seu testemunho sobre Gilmar Mendes afirmando que sempre o viu agir com correção na AGU e que tem todas as qualidades para exercer o cargo de ministro do STF. O senador Casildo Maldaner (PMDB-SC) disse que Mendes é um dos maiores constitucionalistas do Brasil e quem ganha com sua indicação é a Justiça. O senador Leomar Quintanilha (PFL-TO) apoiou a indicação pela "honradez, competência e combatividade" do indicado. O senador Carlos Patrocínio (PTB-TO) disse que o critério de escolha de ministros para o STF não é o melhor, mas observou que "Gilmar Mendes reúne todas as condições para ser um magistrado".

Agência Senado

Beba na Fonte

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Onde há intimidade, que haja mais cuidado — não menos

by Deise Brandão

Há um paradoxo silencioso nas relações humanas que poucos gostam de admitir: tendemos a ser mais duros justamente com quem mais amamos. Não é falta de afeto — é, em grande parte, um efeito colateral da convivência e da forma como administramos nossas emoções ao longo do dia.

A psicóloga Deborah South Richardson aponta, em seus estudos, que somos estatisticamente mais propensos a direcionar agressividade a pessoas próximas do que a estranhos. À primeira vista, isso parece contraditório. Afinal, não deveriam ser essas relações as mais cuidadosas? Mas a explicação é menos sobre intenção e mais sobre contexto.

No convívio social mais amplo — trabalho, ambientes públicos, interações ocasionais — existe um freio constante: o custo social. Ser ríspido com um desconhecido pode gerar conflito imediato, rejeição ou até prejuízos concretos. Por isso, filtramos palavras, ajustamos o tom, medimos reações. Em outras palavras, nos policiamos.

Já na intimidade, esse freio enfraquece. Criamos, muitas vezes sem perceber, uma sensação de “território seguro”, onde acreditamos que pequenos excessos serão compreendidos ou perdoados. É nesse espaço que as frustrações acumuladas encontram vazão. Não porque valorizamos menos essas pessoas, mas porque confiamos — ainda que de forma equivocada — que elas permanecerão.

A situação se intensifica com outro fator: o desgaste emocional. Ao longo do dia, exercemos autocontrole contínuo. Decidimos o que dizer, o que calar, como agir. Esse esforço consome energia psicológica. Quando essa “reserva” se esgota, ficamos mais impulsivos, menos tolerantes, mais suscetíveis a respostas bruscas. E, quase sempre, quem está por perto nesse momento são justamente as pessoas mais próximas.

O problema não está em reconhecer que isso acontece — afinal, é humano. O risco surge quando essa dinâmica se transforma em padrão. Quando o espaço de confiança vira, aos poucos, um espaço de descuido.

Talvez o verdadeiro desafio seja inverter a lógica automática: tratar com a mesma consideração que oferecemos a estranhos aqueles que já conquistaram nossa proximidade. Não por obrigação, mas por consciência de que intimidade não deveria ser sinônimo de permissão para ferir — e sim de responsabilidade ampliada para cuidar.

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