sábado, 28 de fevereiro de 2026

Os números do PT


by Deise Brandão

Existe a narrativa de que o PT é um partido gigante, mas, quando se observam os números institucionais, o cenário é mais modesto.

Atualmente, o partido ocupa aproximadamente:

  • 3.130 vereadores (cerca de 5% do total nacional)

  • 252 prefeitos (em torno de 4,5%)

  • 1 prefeito de capital

  • 68 deputados federais (aproximadamente 13% da Câmara)

  • 4 governadores

  • 9 senadores (cerca de 11% do Senado)

Considerando uma média simples desses percentuais, o partido detém algo próximo de 9% das posições políticas eletivas no país. É um percentual relevante, mas distante da imagem de hegemonia que muitas vezes se constrói no debate público.

Senado: o ponto mais sensível

No Senado Federal, o PT conta com 9 parlamentares. À primeira vista, pode parecer um número expressivo. Contudo, parte significativa dessas cadeiras está sujeita a renovação eleitoral, o que impõe risco político concreto.

Entre os nomes frequentemente mencionados no cenário eleitoral:

  • Jaques Wagner (BA) e Humberto Costa (PE) são apontados como nomes competitivos em seus estados.

  • Paulo Paim (RS) enfrenta disputa acirrada, dependendo de arranjos locais.

  • Rogério Carvalho (SE) também enfrenta cenário desafiador.

  • Gleisi Hoffmann (PR) tem avaliação de campanha difícil.

  • Fabiano Contarato (ES) e Randolfe Rodrigues (AP) são vistos como vulneráveis em determinados diagnósticos políticos.

  • Fátima Bezerra (RN) aparece como incógnita no cenário eleitoral.

Em estados estratégicos como São Paulo e Minas Gerais, o partido ainda depende fortemente de lideranças nacionais para viabilizar candidaturas competitivas.

Dependência de liderança

O argumento central apresentado por críticos é que o PT aparenta ser maior do que efetivamente é porque conta com a liderança nacional de Luiz Inácio Lula da Silva como principal ativo político.

A comparação feita por alguns analistas é com o que ocorreu com o PSDB após o declínio da liderança de Fernando Henrique Cardoso: a perda gradual de protagonismo nacional.

Há também a avaliação de que o partido enfrenta dificuldades na renovação de quadros e na construção de novas lideranças com projeção nacional equivalente.

Por fim, os números mostram que o PT permanece relevante no cenário nacional, mas não possui hegemonia institucional ampla. Sua força política está concentrada em determinados estados e fortemente associada à figura de sua principal liderança histórica.

O debate, portanto, não é sobre inexistência do partido, mas sobre seu tamanho real dentro do sistema político brasileiro e sua capacidade de renovação para o futuro.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Manifesto pela Praia que Não É Mais a Mesma

 


by Deise Brandão

Na Praia Brava, algo se quebrou. E não foi apenas a vida de dois cães.

Orelha foi assassinado. Pretinha resistiu o quanto pôde, mas também morreu, carregando no corpo as marcas da violência. Não foi por acaso, nem uma doença isolada. Foi consequência — de mãos humanas, da covardia, da omissão, de um tipo de brutalidade que não termina no ato, mas se estende no tempo, nos corpos, na memória.

Dizem que a medicina fez tudo o que era possível. E fez. O que nunca foi feito — e ainda não é — foi impedir que essa violência acontecesse.

Hoje há casinhas vazias na praia. Isso não é metáfora. É sinal visível de que a crueldade não mata só indivíduos: ela mata o espírito de um lugar.

Quem fez isso não feriu apenas dois animais indefesos. Feriu uma comunidade inteira, feriu a ideia de convivência, feriu a sensação de segurança, feriu o direito de existir sem medo.

Não aceitamos o silêncio como resposta, nem o esquecimento como solução. Não aceitamos que isso seja tratado como “mais um caso”, porque não foi.

Enquanto não houver responsabilização real, enquanto a violência contra os vulneráveis continuar sendo relativizada, enquanto a vida seguir sendo tratada como descartável — nenhuma praia será apenas uma praia.

Este manifesto não é sobre cães. É sobre humanidade.
E se isso não nos revolta, então já perdemos muito mais do que Orelha e Pretinha.

#JustiçaPorOrelhaEPretinha
#PraiaBravaFerida
#ViolênciaNãoÉAcidente
#CausaAnimalÉUrgente
#NãoFoiSóUmCaso
#OmissãoTambémMata
#ProteçãoAnimalJá
#VulneráveisImportam
#NenhumaPraiaÉSóPraia
#ManifestoPorHumanidade

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Do Supremo ao Master: os R$ 5 milhões que a nota oficial não explica



by Deise Brandão

O que era para ser uma transição tranquila do mundo jurídico para o governo federal ganhou contornos controversos. A ministra Gleisi Hoffmann, ao ser questionada nesta semana sobre os contratos de consultoria privada firmados por Ricardo Lewandowski antes de assumir o Ministério da Justiça, declarou que o então ministro “avisou” o presidente Lula. E, ao ser instada sobre o contrato específico com o Banco Master, respondeu que Lewandowski "deve ter avisado".

O tom vago da resposta revela um desconforto inegável. Afinal, o escritório do ex-ministro do STF firmou contrato de R$ 5 milhões com o banco de Daniel Vorcaro, o mesmo que seria posteriormente alvo de intervenção do Banco Central e cujo presidente seria preso pela Polícia Federal, justamente durante a gestão do próprio Lewandowski no Ministério da Justiça. A cronologia, por si só, já merece atenção.
 
A legalidade não encerra a discussão
A ministra insiste que “não há crime, irregularidade ou problema” no contrato, e que o então ministro teria se desligado das consultorias. Contudo, a legalidade formal não basta para encerrar o debate. Trata-se de uma questão que vai além do Código Penal: envolve ética pública, moralidade administrativa e confiança institucional.

É legítimo questionar: por que um banco como o Master, envolvido em uma das maiores fraudes bancárias do país, contrataria justamente o ex-presidente do STF, que logo viria a ocupar o comando da pasta responsável pela Polícia Federal? E por que o contrato permaneceu ativo mesmo após sua posse, sendo encerrado apenas sob pressão pública?

“Foi na gestão de Lewandowski que Vorcaro foi preso”
A frase de Gleisi Hoffmann — usada como argumento de defesa — é dúbia. Sim, a prisão ocorreu sob sua gestão. Mas isso não apaga o fato de que, antes disso, o ex-ministro mantinha contrato milionário com o mesmo banco. O fato de a apuração ter se dado “dentro de casa” não é blindagem suficiente; ao contrário, deveria ter imposto um grau máximo de transparência e cautela — o que não se viu.

Além disso, a revelação de que o contrato foi intermediado por um senador governista, Jaques Wagner (PT-BA), lança mais dúvidas sobre a rede de relações entre poder político, elite jurídica e mercado financeiro.
 
O silêncio seletivo da moralidade institucional
Não se trata de criminalizar a advocacia privada nem de demonizar consultorias jurídicas. O problema está na superposição de funções e interesses: a consultoria privada de um ex-ministro do STF, a posterior nomeação para o Executivo, a permanência do contrato durante o exercício do cargo, e o vínculo com uma instituição investigada por fraude. Tudo isso, somado, compromete a confiança pública.

A saída de Lewandowski, embora oficialmente justificada por “razões pessoais e familiares”, ocorre sob a sombra dessa sequência de eventos que, no mínimo, exigem respostas claras — não suposições vagas como “deve ter avisado o presidente”.

Quando ex-ministros do Supremo, agora no Executivo, mantêm vínculos com instituições alvo de investigação e recebem milhões sob a rubrica genérica de “consultoria”, não é só a lisura do contrato que deve ser analisada, mas sim o impacto sobre a legitimidade democrática e o princípio republicano da impessoalidade.

A Atuação do Filho de Lewandowski e os Tentáculos da Cadeia Consignada
A teia de relações envolvendo o Banco Master, o Ministério da Justiça sob comando de Ricardo Lewandowski e o núcleo familiar do ex-ministro ganhou mais um capítulo revelador: em dezembro de 2025, Enrique de Abreu Lewandowski, filho do então ministro, atuou no Superior Tribunal de Justiça (STJ) em favor da Capital Consig S.A., uma financeira sob investigação por fraudes em empréstimos consignados a servidores do Estado de Mato Grosso.

Segundo apuração da Gazeta do Povo, a empresa é apontada como uma das fornecedoras de crédito que integraram as carteiras do Banco Master — justamente o banco que, à época, mantinha um contrato de R$ 5 milhões com o escritório da família Lewandowski.

Trata-se, mais uma vez, de uma situação em que não há ilegalidade formal, mas há clara sobreposição de interesses, proximidade familiar e funcional, e uma cadeia de vínculos que desafia os princípios republicanos de impessoalidade e moralidade pública.

O processo no STJ — um pedido de tutela cautelar antecedente contra o governo de Mato Grosso — tinha como objetivo reverter a suspensão da autorização da Capital Consig para operar empréstimos consignados. Enrique Lewandowski atuava formalmente como advogado da empresa. O relator, ministro Francisco Falcão, indeferiu a liminar.

O que está em jogo: aparência de imparcialidade
Embora Ricardo Lewandowski tenha se afastado da advocacia ao assumir o Ministério da Justiça, o fato de seu filho ter atuado em causa sensível ligada a uma empresa envolvida em cadeia de negócios que cruzava com o Master — financiador do escritório da família — agrava ainda mais o cenário de confusão entre o público e o privado.

A coincidência de datas e de vínculos (contratos, ministério, processos, família) não é mero detalhe técnico: compromete a aparência de imparcialidade, valor basilar do Estado Democrático de Direito.

O relatório ignorado
Importa notar que a suspensão dos consignados imposta pelo governo de Mato Grosso teve por fundamento um relatório técnico do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT), que apontou irregularidades graves: das mais de 90 mil operações analisadas, apenas 30% estavam regulares. Ainda assim, a Capital Consig acionou o Judiciário para tentar suspender a medida, com Enrique Lewandowski como patrono.

A empresa nega as irregularidades e sustenta que o relatório é inconclusivo. Ainda assim, o episódio reforça a sobreposição de esferas de poder, típicas de um ambiente institucional enfraquecido por tramas paralelas ao interesse público.

A sociedade brasileira não pode naturalizar a promiscuidade entre a advocacia de influência, o exercício de funções públicas sensíveis e a atuação de parentes em setores diretamente impactados pelas decisões governamentais. Em tempos de desconfiança generalizada, a blindagem institucional deve ceder lugar à responsabilidade e à transparência.

E, mais uma vez, é preciso repetir: criticar não é atacar. Denunciar não é subverter. O verdadeiro atentado contra a democracia é ignorar os sinais de corrupção sistêmica que se alojam nos corredores do poder.

Apontar possíveis irregularidades não é ataque. É vigilância cidadã. É cumprir o dever de questionar o poder — qualquer poder. Afinal, como já dito, criticar o Estado quando tudo aponta para corrupção endêmica, sistêmica e epidêmica não é atentar contra a democracia. É usá-la. E, sobretudo, é exercê-la.

Em Alta

Os números do PT

by Deise Brandão Existe a narrativa de que o PT é um partido gigante, mas, quando se observam os números institucionais, o cenário é mais m...

Mais Lidas