06/11/2026

Quando o alívio some na soma: o cabo de guerra tributário no preço do gás

by Deise Brandão

Em 2021, quando o governo Bolsonaro zerou o PIS/Cofins do gás de cozinha, eu já levantava uma questão no X: de que adiantaria retirar o imposto federal se a cobrança estadual avançasse sobre o alívio concedido ao consumidor? Na época, falei sozinha. Hoje, os números ajudam a entender minha preocupação.

O novo reajuste do ICMS sobre o gás de cozinha está aprovado. A partir de 1º de fevereiro de 2027, a cobrança unificada passa de R$ 1,47 para R$ 1,54 por quilo. No botijão de 13 kg, o imposto estadual sobe de R$ 19,11 para R$ 20,02. São R$ 0,91 a mais de ICMS por botijão, um aumento de aproximadamente 4,8% deliberado no Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz).

Para quem olha apenas os centavos desse último aumento, pode parecer pouco. Mas a verdadeira questão aparece quando colocamos a trajetória histórica dessa cobrança na mesa.

O desconto federal de 2021

Em março de 2021, o governo federal zerou as alíquotas de PIS e Cofins sobre o GLP destinado ao uso doméstico em recipientes de até 13 kg. O Decreto nº 10.638/2021 retirou uma cobrança equivalente a aproximadamente R$ 2,18 por botijão.

Houve, portanto, uma redução concreta do tributo federal. Contudo, isso nunca foi garantia de queda equivalente no preço final, que depende do valor do produto nas refinarias, do transporte, das margens da distribuição e, claro, da tributação estadual. E era justamente esse o ponto da minha observação na época: o consumidor corria o risco de perder, em outra parcela da conta, o benefício anunciado pela União.

O ICMS já existia, mas o modelo mudou

No Rio Grande do Sul, a alíquota histórica do ICMS sobre o gás de cozinha era de 12%. Tudo mudou com a unificação nacional da cobrança por quantidade (ad rem). Em maio de 2023, o GLP passou a ter um ICMS uniforme de R$ 1,2571 por quilo, o que dava cerca de R$ 16,34 por botijão de 13 kg. Com os sucessivos reajustes dos estados nos anos seguintes, a cobrança chegou aos atuais R$ 19,11 e alcançará R$ 20,02 em fevereiro de 2027.

Evolução do ICMS sobre o botijão de 13 kg

Valor

Início do modelo nacional (Maio de 2023)

R$ 16,34

Valor atual (Novembro de 2026)

R$ 19,11

Valor aprovado (Fevereiro de 2027)

R$ 20,02

Entre o início do modelo unificado e o valor aprovado para 2027, são R$ 3,68 a mais de ICMS por botijão. Esse aumento, sozinho, já supera com folga os R$ 2,18 retirados da cobrança federal em 2021.

E a conta real no Rio Grande do Sul?

Embora o preço encontrado na revenda mude de cidade para cidade e não sirva de base de cálculo direta no modelo antigo, uma simulação nos ajuda a visualizar o tamanho do impacto. Se tomarmos como base um preço de referência antigo de R$ 85, a alíquota gaúcha de 12% correspondia a R$ 10,20 de ICMS. Comparada aos R$ 20,02 previstos para 2027, a diferença é de R$ 9,82 a mais de imposto estadual.

Descontando os R$ 2,18 que o governo federal abriu mão, nessa simulação, o aumento do ICMS supera em R$ 7,64 o alívio federal por botijão”. Assim, a conclusão continua vinculada à base hipotética de R$ 85.

Quem sente a soma é o consumidor

Independentemente das justificativas fiscais de cada estado para reajustar suas alíquotas, o resultado prático merece atenção. Isso não significa que todo aumento de imposto seja repassado integralmente ou de forma imediata pelas distribuidoras — o livre mercado flutua. Mas o imposto maior passa, inevitavelmente, compor a carga tributária do produto.

Foi essa preocupação que levei ao X anos atrás. O anúncio barulhento de uma redução tributária precisava ser acompanhado da observação silenciosa do restante da conta. Afinal, ninguém compra um botijão pagando apenas a parte federal ou a parte estadual. O consumidor paga a soma. E é exatamente nessa soma que o alívio desaparece.

 

02/11/2026

O Efeito Dunning-Kruger: Por que os ignorantes são tão confiantes (e os gênios duvidam de si)?

 

                                     O Vale do Desespero (O Banho de Realidade)

by Deise Brandão

       Você já deve ter se deparado com aquela situação em que alguém assiste a um vídeo de dez minutos na internet ou lê a introdução de um artigo e, instantaneamente, passa a se comportar como o maior especialista do mundo no assunto. Por outro lado, profissionais com décadas de experiência costumam ponderar suas falas com um cauteloso "depende" ou "precisamos estudar mais".

     Se isso já te irritou ou te deixou confuso, saiba que a ciência tem uma explicação para o fenômeno. Trata-se do Efeito Dunning-Kruger, um viés cognitivo que afeta a todos nós em maior ou menor grau.  Mas como funciona essa gangorra entre confiança e competência? 

      O que é o Efeito Dunning-Kruger?

Identificado em 1999 pelos psicólogos David Dunning e Justin Kruger, da Universidade Cornell, o efeito descreve uma tendência psicológica em que pessoas com baixa competência em uma determinada área superestimam drasticamente o seu próprio conhecimento ou habilidade. Em termos simples: quanto menos você sabe sobre algo, mais competente você acha que é.

O estudo clássico que deu origem ao termo foi inspirado por um caso real e bizarro de roubo a banco. Um homem chamado McArthur Wheeler assaltou duas agências à luz do dia sem usar máscara, acreditando que o suco de limão passado no rosto tornaria sua face invisível para as câmeras de segurança (já que o limão é usado como tinta invisível em papel). Ele foi preso no mesmo dia, completamente chocado por seu plano ter falhado.

Ao analisar o caso, Dunning e Kruger formularam a tese de que a incompetência não apenas causa erros e más decisões, mas também rouba a capacidade de reconhecer essa mesma incompetência.

     O gráfico da ilusão: Do "Monte da Estupidez" ao "Vale do Desespero"

Para entender visualmente como o efeito age na nossa mente, pense em uma linha do tempo do aprendizado dividida em quatro fases principais:

     O Monte da Estupidez (Excesso de Confiança Inicial)

 Quando entramos em contato com um assunto pela primeira vez, aprendemos algumas poucas noções básicas. Nesse momento, nosso cérebro sofre de uma sobrecarga de otimismo. Achamos que dominamos o tema porque ignoramos totalmente a imensidão de coisas que ainda não sabemos. É a fase do "eu já entendi tudo".

     O Vale do Desespero (O Banho de Realidade)

Conforme nos aprofundamos nos estudos, começamos a perceber as nuances, as exceções e a complexidade real do campo. É aqui que a ficha cai: percebemos o quanto ainda somos ignorantes. A confiança despenca ladeira abaixo, dando lugar à famosa Síndrome do Impostor.

      A Inclinação da Iluminação (O Crescimento Consciente)

À medida que continuamos estudando e praticando por anos, a competência real finalmente começa a subir. A confiança se reconstrói, mas agora baseada em fatos, erros superados e experiência sólida.

      O Platô da Sustentabilidade (A Sabedoria Real)

O verdadeiro especialista atinge um estágio onde reconhece seus limites. Ele sabe exatamente o que domina e — o mais importante — tem clareza sobre o que não sabe. É por isso que os maiores cientistas e pensadores da história costumam ser tão humildes intelectualmente.

       O perigo invisível: Por que isso importa hoje?

Na era das redes sociais, o Efeito Dunning-Kruger encontrou o terreno fértil perfeito para se multiplicar. Algoritmos recompensam conteúdos assertivos, passionais e rápidos, o que favorece quem grita mais alto, mesmo que saiba menos.Esse viés gera consequências reais e preocupantes:

  •  Na saúde: Pessoas que acham que sabem mais sobre vacinas ou tratamentos do que médicos com 10 anos de residência.
  •  No trabalho: Profissionais recém-contratados que rejeitam feedbacks por acharem que inovaram tudo do zero.
  • Nas discussões diárias: A polarização tóxica, onde quem tem argumentos superficiais é o que mais se recusa a mudar de ideia.

      Como escapar da armadilha do Efeito Dunning-Kruger?

      A boa notícia é que a autoconsciência é a cura para a ignorância confiante. Algumas atitudes simples podem te proteger desse viés:

  • Adote a humildade intelectual: Sempre que for emitir uma opinião forte sobre um tema complexo, pergunte-se: "Quão profunda é a minha base de dados sobre isso?"
  • Busque feedbacks honestos: Cerque-se de pessoas que não tenham medo de discordar de você e de apontar falhas no seu raciocínio.
  • Pratique a escuta ativa: Em vez de esperar a sua vez de falar para "vencer" uma discussão, escute para entender as nuances que você provavelmente está deixando passar.
  • Lembre-se de Sócrates: A famosa frase "Só sei que nada sei" não é falsa modéstia, é a constatação científica de que quanto mais aprendemos, mais percebemos o tamanho do oceano do conhecimento.

     O Efeito Dunning-Kruger nos lembra que a ignorância gera confiança com muito mais frequência do que o conhecimento. Na próxima vez que você se deparar com alguém com uma certeza absoluta sobre um tema complexo, respire fundo: é apenas o cérebro humano pregando suas peças habituais.

01/11/2026

O Espelho de Panem: Como Jogos Vorazes Reflete o Mundo Real



by Deise Brandão

Em sua essência, a trilogia Jogos Vorazes narra a trajetória de Panem, uma nação fragmentada onde uma elite abastada e fútil (a Capital) desfruta do luxo, do consumo desenfreado e de avanços tecnológicos à custa da exploração extrema de 12 distritos empobrecidos. 

Para manter essa estrutura intocada, o governo recorre ao medo, à vigilância constante e ao entretenimento midiático alienante: os Jogos Vorazes, um reality show sádico que espetaculariza a dor e força a população a assistir à violência para esquecer a própria opressão.

A jornada atravessa três fases marcantes:

A Desigualdade e o Espetáculo (Jogos Vorazes): Katniss Everdeen surge de um distrito esquecido e miserável (o Distrito 12). Ao desafiar o sistema na arena para salvar sua irmã e a si mesma, ela expõe a fragilidade da elite dominante. O ato de rebeldia não surge de uma grande teoria política, mas do desespero humano contra a injustiça.

A Polarização e a Faísca (Em Chamas): A tentativa do sistema de conter a insatisfação popular apenas acelera a revolta. A opressão estatal se intensifica, os protestos ganham as ruas dos distritos e o abismo entre a abundância da Capital e o trabalho precarizado do povo torna a convivência insustentável.

A Guerra de Narrativas e o Poder (A Esperança): A insurreição transforma-se em uma guerra aberta, travada tanto com armas quanto com propaganda na mídia. Ao final, a história nos alerta sobre um perigo real: o risco de substituir uma tirania por outra se os novos líderes buscarem apenas o poder, mantendo as velhas lógicas de dominação.

Os Pontos de Contato com a Nossa Realidade

Ao olharmos para o Brasil e o cenário global, as analogias tornam-se evidentes:

Desigualdade Geográfica e Social: A divisão entre a Capital e os Distritos reflete a profunda discrepância de renda e de acesso a direitos fundamentais. A abundância de recursos concentrada em bolhas de riqueza contrasta com regiões ou periferias que sustentam a economia através do trabalho bruto, mas colhem escassez.

A Cultura do Espetáculo e a Distração Midiática: Na era das redes sociais e do hiperconsumo, a informação muitas vezes é transformada em entretenimento fútil. A espetacularização da violência, da pobreza e da vida alheia consome a atenção pública, anestesiando a sociedade para problemas estruturais urgentes.

Guerra de Informação e Polarização: Em A Esperança, a batalha por narrativas mostra como a mídia e os discursos públicos podem ser manipulados para moldar a opinião popular, mover multidões e legitimar ações extremas de ambos os lados.

Os Traumas Coletivos e a Busca por Mudança: A trajetória de Katniss lembra que as grandes crises sociais cobram um preço alto da população comum. A busca por justiça muitas vezes esbarra em jogos políticos complexos, onde a sociedade civil precisa se manter atenta para que a promessa de mudança não se converta em novas formas de controle.

Ao término da saga, a mensagem que permanece é a de que a esperança e a solidariedade humana são capazes de romper ciclos de opressão, mas a verdadeira transformação exige vigilância constante sobre o poder e empatia com a dor do outro.

Em Alta

Quando o alívio some na soma: o cabo de guerra tributário no preço do gás

by Deise Brandão Em 2021, quando o governo Bolsonaro zerou o PIS/Cofins do gás de cozinha, eu já levantava uma questão no X: de que adiant...

Mais Lidas