29/10/2026

ESCALA 5x2: O “MAS” QUE O TRABALHADOR PRECISA CONHECER


by Deise Brandão

A mudança prevê mais descanso, mas não garante duas folgas juntas em todas as semanas

Quem ouviu “fim da escala 6x1” pode ter entendido: cinco dias trabalhando, dois descansando, toda semana. A Emenda Constitucional nº 141/2026, porém, contém uma ressalva importante.

Excepcionalmente, acordo ou convenção coletiva poderá permitir que as duas folgas semanais sejam calculadas pela média dentro do mês. Nesse regime, pelo menos uma folga precisa ocorrer dentro de cada semana de trabalho.

Isso significa que poderá haver uma semana com seis dias trabalhados e apenas um de descanso. A outra folga terá de ser compensada, respeitando a média mensal e os limites de jornada.

O que a mudança não garante automaticamente

ExpectativaO que está previsto
Duas folgas em toda semanaPode haver compensação excepcional dentro do mês, por negociação coletiva.
Duas folgas seguidasO texto não estabelece essa exigência geral.
Sábado e domingo livresDomingo é preferencial. O fim de semana inteiro não está garantido.
O patrão decide sozinhoNão. A compensação excepcional exige acordo ou convenção coletiva.
O sindicato pode retirar a segunda folgaNão. A média mensal de descanso precisa ser preservada.

Por que isso importa?

Descansar toda semana em dias previsíveis é diferente de receber uma folga compensatória em outro momento. A distribuição interfere no cuidado com os filhos, nos estudos e na possibilidade de organizar compromissos familiares.

Para saber como ficará sua rotina, o trabalhador precisará conhecer o acordo aplicável à sua categoria.

A redução das horas também será gradual

O limite passa primeiro a 42 horas semanais e, depois, a 40. Durante a transição, negociação coletiva pode autorizar dias mais longos para distribuir as 42 horas. Em cinco dias iguais, seriam 8 horas e 24 minutos diários, sem contar intervalos.

A mudança determina preservação salarial.

A conquista existe. A promessa precisa vir completa.

Não é correto dizer que nada mudou. Também não é correto vender uma rotina idêntica de cinco dias trabalhados e dois dias livres para todos.

A pergunta que cada trabalhador deve fazer ao sindicato é simples: quais serão meus dias de descanso, quando haverá compensação e onde isso estará escrito?

Zucco anuncia fusão de secretarias; não há anúncio de fim do apoio à agricultura familiar


by Deise Brandão

O governador eleito do Rio Grande do Sul, Luciano Zucco (PL), anunciou a incorporação da Secretaria do Desenvolvimento Rural à Secretaria da Agricultura. A informação não equivale ao encerramento das políticas de apoio aos pequenos agricultores, como pode sugerir uma postagem que apresenta a mudança como “descaso com 294 mil famílias”.

A reorganização prevê uma pasta conjunta de Agricultura e Desenvolvimento Rural, comandada por Paulo Herrmann, ex-presidente da John Deere no Brasil. Portanto, o anúncio é de mudança na estrutura administrativa: o Desenvolvimento Rural deixará de ter uma secretaria independente e suas atribuições serão incorporadas à Agricultura.

Não foi identificado, nas fontes consultadas, anúncio de cancelamento geral dos programas ou de interrupção do atendimento à agricultura familiar. Afirmar que centenas de milhares de famílias ficarão desassistidas antecipa uma consequência que não foi demonstrada.

Em entrevista à Rádio Caxias, em 28 de outubro, Herrmann afirmou que não recebeu orientação para promover cortes orçamentários nos programas existentes. Também declarou que pretende avaliar as particularidades das pequenas propriedades. A manifestação sinaliza continuidade, embora os detalhes da estrutura e do orçamento ainda precisem ser apresentados.

Fetag cobra manutenção de secretaria própria

A preocupação das entidades representativas existe. Em nota publicada em 27 de outubro, a Fetag-RS manifestou-se contra a fusão e defendeu uma secretaria própria, com orçamento, equipe técnica e capacidade de executar políticas específicas para a agricultura e a pecuária familiar.

A federação pediu reunião com Zucco e a equipe de transição, além de garantias de continuidade dos programas, preservação da capacidade técnica e participação dos agricultores nas decisões.

Essa posição expressa uma preocupação com a perda de autonomia e de prioridade institucional. Não comprova, entretanto, que os serviços serão encerrados.

Número de agricultores não representa benefícios cancelados

A referência a aproximadamente 294 mil famílias descreve a dimensão da agricultura familiar no Estado. Não corresponde a uma relação de famílias que perderam atendimento ou recursos em consequência da reorganização anunciada.

A fiscalização deve acompanhar o orçamento, a composição das equipes, a continuidade dos programas e o atendimento nas comunidades rurais.


25/10/2026

Sob Fogo Cruzado: Quando a Farsa Vira Notícia e o Jornalismo Vira Cúmplice

 Foto criada por IA. No filme foi isso. Ele estava morto e foi colocado um JORNAL do     dia, nas mãos do morto. Por isso os óculos. 

by Deise Brandão

Se você quer entender como as narrativas são fabricadas para controlar o poder — e como a engrenagem da informação realmente funciona —, existe uma obra fundamental que precisa ser resgatada: Under Fire (Sob Fogo Cruzado, 1983).

Não se trata de mero registro histórico da Nicarágua nos anos 1970. Trata-se do momento em que a cortina da farsa cai.

A virada de chave para abandonar as redações de jornalismo começou justamente assistindo a esse filme, em 1987. A decisão definitiva veio logo no ano seguinte: fechar a porta do jornalismo tradicional para nunca mais voltar. A ruptura com o meio foi tão drástica quanto necessária — a ponto de não restar um único amigo jornalista pelo caminho.

O motivo? O filme expõe sem pudor a ilusão da "neutralidade" e escancara do que a imprensa é capaz quando o objetivo é simplesmente vencer.

A Sinopse e o Spoiler da Farsa

O filme se passa em 1979, durante os últimos dias da ditadura sanguinária de Anastasio Somoza na Nicarágua. O protagonista é Russell Price (Nick Nolte), um fotojornalista norte-americano viciado na adrenalina das guerras, mas que ostenta a vaidade da "neutralidade profissional": ele garante que não toma lados, apenas "tira fotos".

A virada e o ponto central do filme acontecem quando os rebeldes sandinistas precisam provar ao mundo que seu líder, o Comandante Rafael, continua vivo — condição essencial para manter a revolução acesa e cortar o apoio financeiro dos EUA ao ditador. Price consegue acesso ao esconderijo dos rebeldes para registrar a imagem que mudaria o rumo do conflito.

O SPOILER DA FARSA:

Ao chegar ao local, o fotógrafo descobre a verdade: Rafael já estava morto, assassinado dias antes. Para não deixar o movimento ruir, os rebeldes propõem ao jornalista o maior pecado da profissão: fabricar uma mentira.

Price aceita. Ele pega o cadáver de Rafael, coloca óculos escuros no morto, ajusta um jornal do dia ao lado do corpo para simular a data e clica a foto. A imagem forjada roda o mundo. A imprensa internacional compra a fraude como verdade absoluta sem checar nada. A narrativa vence, a ajuda militar cessa e o ditador cai.

Para Vencer, Vale Tudo: O Modus Operandi da Imprensa

Essa cena de Under Fire não é ficção isolada; é a síntese do ecossistema da notícia. A história e a prática provam que a imprensa sempre foi cúmplice das grandes mentiras construídas para moldar a opinião pública:

  • A Manipulação Direta: A busca pela verdade crua é secundária. O que importa é o controle da narrativa. Se for preciso maquiar a realidade — ou um defunto — para sustentar a versão que interessa ao sistema, isso será feito.

  • A Adesão da Maioria: A grande massa que ocupa as redações repete a pauta do dia, engole os relatórios oficiais e replica discursos sem questionar. A cumplicidade nasce tanto do interesse quanto da covardia em não confrontar a linha editorial.

  • O Expurgo da Minoria: Aqueles poucos que recusam a farsa, que apontam a manipulação e insistem na independência real, são prontamente isolados, rotulados e cancelados. A exclusão de quem pensa fora do rebanho é o método clássico de autopreservação do sistema.

A Ilusão do Ciclo: De Somoza a Ortega

A tragédia do poder fica ainda mais evidente ao olhar o que veio depois na própria Nicarágua. A queda de Somoza em 1979 não trouxe uma libertação permanente:

  • O Caminho Incerto: Após a revolução, a Nicarágua viveu anos de guerra civil e, entre 1990 e 2006, teve governos de oposição eleitos.

  • O Retorno e a Nova Ditadura: Daniel Ortega — o mesmo líder sandinista do período pós-Somoza — articulou pactos políticos nos bastidores, alterou as regras eleitorais para voltar ao poder em 2007 e de lá nunca mais saiu.

Hoje, o antigo libertador transformou-se no exato espelho do ditador que ajudou a derrubar: persegue opositores, fecha veículos de imprensa, expulsa religiosos e isola o país diplomaticamente (culminando até na recente expulsão mútua de embaixadores entre Brasil e Nicarágua). As narrativas mudam de mãos, mas a engrenagem do autoritarismo permanece a mesma.

Do Passado ao Presente: Por Que Ver Este Filme Hoje?

Os métodos de 1983 apenas se aperfeiçoaram. As câmeras analógicas deram lugar ao ambiente digital, mas a lógica da manipulação é idêntica: constroem-se "verdades" sob medida para atender a interesses de ocasião.

Recusar esse teatro não foi uma desistência, mas um ato de preservação e dignidade.

O recado fica registrado: assistam a Under Fire. Olhem para a tela e vejam sem filtros o que são capazes de fazer para vencer. Só assim é possível entender por que a busca pela verdade de fato exige, antes de tudo, coragem para não se curvar à versão oficial.

*Vídeo Completo Dublado (OK.ru): Existe uma cópia completa com a dublagem clássica disponível diretamente na plataforma OK.ru sob o título em português: Assistir "Sob Fogo Cerrado / Sob Fogo Cruzado" (1983) Dublado no OK.ru


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