29/08/2026

Assassinato de reputações

                          

by Deise Brandão

Destruir a imagem de alguém não é uma invenção da era do cancelamento ou do Twitter. O cancelamento moderno é apenas a democratização industrial de uma tecnologia política milenar. Desde o ostracismo na Grécia Antiga até as campanhas de difamação da Guerra Fria, a destruição do caráter sempre foi a ferramenta mais eficiente para neutralizar inimigos sem a necessidade de criar mártires. Quando você mata um homem, você o transforma em herói ou em símbolo. Mas quando você mata a sua reputação, você o transforma em um pária. Você faz com que os seus próprios aliados cruzem a calçada para não serem vistos ao seu lado. É a morte social, o banimento do debate público.

O assassinato de reputações opera em uma lógica perversa: a acusação é sempre impressa na primeira página, em letras garrafais; a absolvição, quando vem, anos depois, aparece enterrada na nota de rodapé da página dezessete. Porque a verdade, meus amigos, é pesada, complexa e exige tempo. A calúnia, por outro lado, é leve, veloz e deliciosamente palatável. Ela se alimenta do nosso viés de confirmação e do nosso desejo quase primitivo de ver o outro cair do pedestal.

Anatomia de um Crime Perfeito

Para entender como se destrói uma reputação, precisamos entender a mecânica do processo. Não se trata de uma mentira deslavada contada numa mesa de bar. O assassinato de reputações profissional exige método. Ele se baseia no que os especialistas em guerra psicológica chamam de "A Técnica da Linha de Contato": você pega uma verdade irrefutável, por menor que seja, e constrói ao redor dela uma catedral de insinuações.

O processo geralmente segue três fases distintas:

  1. A Seleção e o Isolamento: O alvo é escolhido não necessariamente pelo que fez, mas pelo impacto que sua queda causará no xadrez político, econômico ou social. Ele é isolado. Cortam-se suas redes de apoio através do medo por associação.
  2. A Descontextualização: Uma frase dita há dez anos, um relatório financeiro mal interpretado deliberadamente ou uma foto ambígua. O contexto é a primeira vítima. Sem o contexto, qualquer um de nós pode parecer um monstro ou um criminoso.
  3. A Amplificação Sincronizada: É aqui que entram os cúmplices involuntários e os profissionais. No passado, eram os colunistas de jornais de aluguel. Hoje, são as redes de bots, as páginas de fofoca que operam como milícias digitais e os influenciadores que lucram com a indignação.

"Uma mentira dá meia volta ao mundo antes que a verdade tenha tempo de calçar as botas." — Frase frequentemente atribuída a Mark Twain, que sintetiza perfeitamente a assimetria da informação.

O elemento mais cruel dessa dinâmica é que ela inverte o princípio fundamental do direito moderno: a presunção de inocência. No tribunal da opinião pública, você é sumariamente culpado até que prove o contrário. E mesmo se você provar, o veredito popular raramente é revogado. A mancha permanece. O "ouvi dizer" ganha status de fato consumado.

O Caso de Estudo: A História como Testemunha

Se olharmos para a história recente do Brasil e do mundo, os exemplos abundam. Lembram-se do caso da Escola Base em 1994? Proprietários de uma escola infantil em São Paulo foram acusados falsamente de abuso sexual contra os alunos. A imprensa comprou a narrativa de um delegado ambicioso sem checar os fatos. O resultado? A escola foi depredada, a vida daqueles cidadãos foi completamente destruída, a saúde mental deles colapsou. Meses depois, provou-se que tudo não passava de uma terrível histeria coletiva e má-fé. Mas a escola nunca reabriu. A reputação deles foi assassinada em praça pública, com transmissão ao vivo.

No plano geopolítico, o assassinato de reputações é a base da diplomacia de coerção. Antes de se invadir um país ou sancionar uma economia, destrói-se a reputação do seu líder. Ele deixa de ser um adversário político e passa a ser retratado como um psicopata, um louco, um perigo iminente para a humanidade. Toda nuance é jogada no lixo. A complexidade das relações internacionais é reduzida a um filme de super-herói maniqueísta, onde o público é induzido a torcer pela aniquilação do "vilão".

E não se enganem achando que isso é um privilégio de apenas um espectro político. A destruição de reputações é uma arma de uso universal. À esquerda, rotula-se o dissidente como fascista, traidor da causa ou agente infiltrado. À direita, o opositor é transformado em comunista devorador de criancinhas, corrupto degenerado ou ameaça à família tradicional. O rótulo varia, mas a fôrma é a mesma: desumanizar o outro para que sua eliminação do debate não cause remorso.

A Economia Política do Cancelamento

Por que isso se intensificou tanto nos últimos anos? A resposta está na economia da atenção. Hoje, a indignação gera engajamento. O engajamento gera cliques. Os cliques geram receita publicitária. Destruir uma reputação tornou-se um negócio altamente lucrativo.

As plataformas digitais não são neutras. Elas foram desenhadas para privilegiar o conflito em detrimento do consenso. Um tuíte ponderado, que analisa os dois lados de uma questão, recebe três curtidas e nenhum compartilhamento. Um tuíte bombástico, acusatório, recheado de adjetivos violentos e certezas absolutas, viraliza em minutos. Nós fomos condicionados a atuar como juízes de um coliseu digital, onde o algoritmo nos pede, diariamente, para apontar o polegar para baixo e exigir o sangue do gladiador da vez.

Nesse cenário, a verdade é apenas um dano colateral. O que importa é a narrativa. Se a narrativa se alinha com o que o meu grupo político ou social acredita, eu a compartilho sem pestanejar. Nós nos tornamos cúmplices da execução pública de reputações pelo simples prazer hedonista de nos sentirmos moralmente superiores por alguns segundos.

O Efeito Silenciador e o Fim do Debate

O maior perigo do assassinato de reputações não é apenas o sofrimento individual do alvo — embora este seja devastador. O perigo real é o efeito colateral coletivo: o efeito silenciador (chilling effect).

Quando a sociedade assiste a um cientista, a um jornalista, a um político ou a um artista ser linchado publicamente por emitir uma opinião divergente ou por cometer um erro menor, a mensagem enviada para todos os outros é clara: "Cale-se". O medo de ser a próxima vítima faz com que as mentes mais brilhantes se recolham. O debate público empobrece. As pessoas passam a policiar cada palavra, cada gesto, cada curtida. A mediocridade e o conformismo passam a ser a única estratégia de sobrevivência segura.

Quem ganha com isso? Os extremistas de todos os matizes. Os donos do poder que não querem ser questionados. Afinal, se você não pode refutar o argumento de alguém, a saída mais fácil é destruir o argumentador. Se você não consegue vencer o debate no campo das ideias, você quebra as pernas do seu oponente no vestiário.

Considerações Finais: Como Sobreviver ao Linchamento?

Existe vacina contra o assassinato de reputações? Infelizmente, não uma que seja 100% eficaz. Mas o primeiro passo para o antídoto é o ceticismo radical. Diante de uma denúncia bombástica, de um escândalo moralizante ou de um exposed apoteótico, a nossa primeira reação deve ser a pausa.

Devemos nos perguntar:

  • A quem interessa a destruição desta pessoa neste exato momento?
  • Quais são as fontes originais e onde está o contexto completo desta declaração?
  • Estou compartilhando isso porque tenho certeza do fato ou porque odeio o alvo?

Precisamos resgatar urgentemente o direito ao erro, à contradição e, acima de tudo, a presunção de inocência. Uma sociedade que troca o devido processo legal pelo linchamento virtual está a apenas um passo da barbárie. A reputação de um indivíduo leva uma vida inteira para ser construída e apenas alguns segundos para ser desfeita por um clique impensado.

21/08/2026

Quem anda pela cabeça alheia é piolho. E jamais terá seu próprio chapéu!


by Deise Brandão

Ganhei meu primeiro chapéu aos 16 anos. Yellow! Foi presente da minha mãe.

Talvez ela não soubesse, naquele momento, que não estava apenas colocando um acessório sobre a minha cabeça. Estava me entregando um símbolo que me acompanharia pela vida inteira: minha identidade, minha liberdade e o direito de pensar por conta própria.Desde então, tive muitos chapéus. Mas a cabeça sempre foi minha.

Pensar por conta própria exige estudo, coragem e disposição para enfrentar o pensamento dominante. Exige observar os fatos, comparar informações e não aceitar uma afirmação apenas porque foi pronunciada por alguém com aparência de autoridade.

Há pessoas que atravessam a vida repetindo opiniões alheias. Falam o que ouviram, defendem o que não compreenderam e obedecem a ideias que jamais tiveram o trabalho de examinar.

Chamam isso de opinião. Não é. Opinião nasce da reflexão. A repetição nasce da dependência.

Quem não conhece a própria história, não enfrenta os próprios medos e não reconhece suas fragilidades torna-se presa fácil de qualquer pessoa que fale mais alto, use palavras difíceis ou se apresente como dona de uma verdade superior.

Também não existe profundidade automática em um texto porque ele menciona física, energia, vibração, códigos, sistemas, geometria ou consciência. Palavra complicada não transforma banalidade em conhecimento.

No fim, certas construções aparentemente profundas querem dizer apenas isto: Estude. Fortaleça sua personalidade. Conheça a si mesmo. Examine o que lhe dizem. Pense por conta própria.

Autonomia não consiste em dominar os outros nem em imaginar que o universo se curvará aos nossos desejos. Consiste em assumir responsabilidade pelas próprias escolhas e suportar as consequências de não seguir o rebanho.

Meu primeiro chapéu veio de minha mãe quando eu tinha 16 anos.Os outros eu escolhi, e continuo usando cada um deles sobre a única cabeça na qual sempre fiz questão de pensar: a minha.

Porque quem pensa pela cabeça alheia é piolho. E piolho jamais terá seu próprio chapéu.

20/08/2026

CONTAS DE LUZ ASTRONÔMICAS NO RS: ONDE ESTÁ O MINISTÉRIO PÚBLICO?


by Deise Brandão

Milhares de consumidores gaúchos receberam contas de energia elétrica com aumentos incompatíveis com seu histórico de consumo. Faturas que habitualmente ficavam entre R$ 200 e R$ 400 saltaram para R$ 800, R$ 1 mil, R$ 2 mil e, em alguns casos, valores ainda maiores.

O problema alcança diferentes municípios do Rio Grande do Sul. Em Caxias do Sul, somente nos meses de julho e agosto, o Procon recebeu 298 solicitações e instaurou 114 processos relacionados às contas de energia elétrica e à dificuldade de atendimento pela CPFL/RGE.

Em Passo Fundo, o Procon suspendeu o pagamento de faturas e notificou a concessionária. Consumidores de Gramado, Canela e de diversas outras cidades também contestam aumentos que não correspondem a qualquer alteração real em sua rotina.

A própria RGE afirma que o reajuste tarifário autorizado pela Aneel foi de aproximadamente 14,98% para consumidores residenciais. Esse percentual não explica contas que duplicaram, triplicaram ou aumentaram cinco, seis e até dez vezes.

Alegar frio, chuveiro elétrico ou aquecedor também não resolve a questão. Não estamos diante de um consumidor isolado que esqueceu um equipamento ligado. Estamos diante de milhares de consumidores, distribuídos por inúmeros municípios, relatando aumentos extraordinários no mesmo período.Isso tem nome: problema coletivo.

O PARCELAMENTO NÃO RESOLVE A COBRANÇA

Paralelamente aos aumentos, a RGE informou que uma alteração em seu sistema de faturamento afetou aproximadamente 740 mil consumidores — 23% de seus clientes no Estado.A conta correspondente a agosto será apresentada apenas para conferência e cobrada automaticamente em seis parcelas, entre outubro de 2026 e março de 2027.

A concessionária apresenta o parcelamento como forma de reduzir o impacto financeiro. Mas parcelar uma cobrança não comprova que ela esteja correta.

Se uma conta de R$ 300 foi transformada em uma cobrança de R$ 1.800, dividir os R$ 1.800 em seis parcelas de R$ 300 não corrige o consumo, não explica a leitura, não demonstra a memória de cálculo e não elimina a cobrança indevida. Apenas esconde o aumento dentro das contas seguintes.

O consumidor continuará pagando o consumo mensal normal e, ao mesmo tempo, uma parcela correspondente ao valor que contesta.A RGE criou o problema no faturamento, definiu unilateralmente o parcelamento e transferiu aos consumidores a obrigação de pagar primeiro e discutir depois.

O PROBLEMA NÃO DEVE SER TRANSFORMADO EM MILHARES DE AÇÕES INDIVIDUAIS

Não é aceitável obrigar cada consumidor a enfrentar sozinho a concessionária, reunir faturas, registrar protocolo, procurar o Procon e ingressar no Juizado Especial para impedir o pagamento de uma conta que não reconhece.

Quando milhares de pessoas são atingidas pela mesma empresa, no mesmo período e por cobranças com características semelhantes, existem direitos individuais homogêneos de origem comum.

É exatamente para situações como essa que o Ministério Público possui atribuição constitucional para instaurar inquérito civil e propor ação civil pública.

O artigo 129, inciso III, da Constituição Federal atribui ao Ministério Público a defesa do patrimônio público e social e dos interesses difusos e coletivos. O Código de Defesa do Consumidor também reconhece sua legitimidade para atuar coletivamente em defesa dos consumidores. Portanto, não falta competência. Falta atuação proporcional à dimensão do problema.

O QUE O MINISTÉRIO PÚBLICO DEVE FAZER
  • O Ministério Público do Rio Grande do Sul deve ter instaurado imediatamente procedimento coletivo estadual para:requisitar à RGE os dados completos da alteração realizada em seu sistema de faturamento;
  • identificar todos os consumidores atingidos, os períodos de leitura e os critérios utilizados para calcular as contas;
  • comparar as cobranças atuais com o histórico de consumo das unidades;
  • determinar a apresentação das leituras reais dos medidores e das respectivas memórias de cálculo;
  • apurar a existência de faturamento acumulado, estimado ou produzido por falha operacional;
  • investigar a relação entre a migração do sistema e os aumentos extraordinários;
  • exigir auditoria técnica independente;
  • impedir a cobrança das parcelas relativas aos valores contestados;
  • proibir cortes de energia, negativação, protesto e cobrança de encargos enquanto durar a apuração;
  • determinar o refaturamento das contas incompatíveis com o consumo comprovado;
  • assegurar a restituição dos valores indevidamente pagos;
  • e ajuizar ação civil pública, caso a concessionária não apresente solução imediata e coletiva.
  • A Aneel e a Secretaria Nacional do Consumidor já foram acionadas. O superintendente de Mediação Administrativa e das Relações de Consumo da Aneel declarou que serão verificadas as causas das “majorações expressivas” registradas em Caxias e em todo o Rio Grande do Sul.
  • O Procon de Caxias também informou que mantém agenda com o Ministério Público para discutir as reclamações e avaliar medidas conjuntas.
  • Mas uma agenda para discutir providências não suspende contas, não impede cortes e não protege os consumidores quando as parcelas começarem a ser cobradas.
  • A dimensão estadual do problema exige uma atuação estadual, pública, imediata e transparente.
A DISFUNÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO

O Ministério Público foi criado para defender a sociedade quando a desigualdade entre o cidadão e o poder econômico impede uma reação individual eficiente.

Uma concessionária de serviço público possui estrutura jurídica, técnica e financeira para enfrentar milhares de reclamações separadamente. O consumidor, por outro lado, precisa faltar ao trabalho, enfrentar filas, repetir a mesma história em diversos canais e provar que não gastou aquilo que a empresa decidiu cobrar.

Quando o Ministério Público permanece aguardando que cada pessoa resolva isoladamente o mesmo problema, deixa de exercer a função coletiva que justifica sua existência. A disfunção está em transformar um fato estadual em milhares de conflitos particulares.

Está em permitir que a RGE escolha unilateralmente como cobrará valores ainda não explicados.
Está em admitir que o parcelamento automático seja apresentado como solução antes da comprovação da dívida. Está em deixar a investigação nas mãos da própria empresa que produziu as cobranças.

O Ministério Público não precisa esperar que milhares de consumidores sejam negativados, tenham a energia cortada ou ingressem na Justiça. As reclamações já existem. Os aumentos já foram documentados. Os Procons já identificaram o caráter coletivo. A Aneel já reconheceu a necessidade de verificar as majorações expressivas. O fato está posto.

Cabe ao Ministério Público decidir se cumprirá sua função constitucional ou se assistirá à transformação de um problema coletivo em milhares de processos individuais.

EM TEMPO DE ELEIÇÕES: AS OBRIGAÇÕES DO ESTADO

Em tempo de eleições, convém lembrar ao povo — transformado em chacota na atual “democracia” e cuja soberania virou limpa-pés de qualquer autoridade — que o Procurador-Geral de Justiça é nomeado pelo governador do Estado, entre os integrantes da lista tríplice formada dentro do próprio Ministério Público.

Também convém lembrar que o Estado não existe apenas para arrecadar, autorizar tarifas e assegurar a continuidade dos lucros das concessionárias.

O Estado possui obrigação de fazer: fiscalizar, investigar, exigir transparência, proteger os consumidores, impedir cobranças indevidas e assegurar a prestação adequada de um serviço público essencial.

E possui obrigação de não fazer: não pode permitir que valores ainda não explicados sejam automaticamente parcelados e cobrados; não pode admitir cortes de energia, negativação, protesto ou imposição de encargos enquanto a dívida estiver sob contestação; tampouco pode transferir a cada consumidor a obrigação de enfrentar sozinho uma irregularidade que atinge milhares de pessoas.

O cidadão vota, paga impostos, sustenta as instituições e recebe contas de energia que não consegue explicar nem pagar. Enquanto isso, precisa aguardar que as autoridades decidam se cumprirão as funções para as quais existem.

Como estamos vendo, podemos ficar no escuro por muito tempo.E não será o apocalipse enviado por Deus. Será apenas a RGE abusando, o Ministério Público se omitindo e o Estado descumprindo sua obrigação de impedir. O Povo? Melhor não comentar.

"Tem um Ministério Público no nosso caminho. No nosso caminho tem um Ministério Público"

Em Alta

Assassinato de reputações

                           by Deise Brandão Destruir a imagem de alguém não é uma invenção da era do cancelamento ou do Twitter. O cancelame...

Mais Lidas