01/11/2026

O Espelho de Panem: Como Jogos Vorazes Reflete o Mundo Real



by Deise Brandão

Em sua essência, a trilogia Jogos Vorazes narra a trajetória de Panem, uma nação fragmentada onde uma elite abastada e fútil (a Capital) desfruta do luxo, do consumo desenfreado e de avanços tecnológicos à custa da exploração extrema de 12 distritos empobrecidos. 

Para manter essa estrutura intocada, o governo recorre ao medo, à vigilância constante e ao entretenimento midiático alienante: os Jogos Vorazes, um reality show sádico que espetaculariza a dor e força a população a assistir à violência para esquecer a própria opressão.

A jornada atravessa três fases marcantes:

A Desigualdade e o Espetáculo (Jogos Vorazes): Katniss Everdeen surge de um distrito esquecido e miserável (o Distrito 12). Ao desafiar o sistema na arena para salvar sua irmã e a si mesma, ela expõe a fragilidade da elite dominante. O ato de rebeldia não surge de uma grande teoria política, mas do desespero humano contra a injustiça.

A Polarização e a Faísca (Em Chamas): A tentativa do sistema de conter a insatisfação popular apenas acelera a revolta. A opressão estatal se intensifica, os protestos ganham as ruas dos distritos e o abismo entre a abundância da Capital e o trabalho precarizado do povo torna a convivência insustentável.

A Guerra de Narrativas e o Poder (A Esperança): A insurreição transforma-se em uma guerra aberta, travada tanto com armas quanto com propaganda na mídia. Ao final, a história nos alerta sobre um perigo real: o risco de substituir uma tirania por outra se os novos líderes buscarem apenas o poder, mantendo as velhas lógicas de dominação.

Os Pontos de Contato com a Nossa Realidade

Ao olharmos para o Brasil e o cenário global, as analogias tornam-se evidentes:

Desigualdade Geográfica e Social: A divisão entre a Capital e os Distritos reflete a profunda discrepância de renda e de acesso a direitos fundamentais. A abundância de recursos concentrada em bolhas de riqueza contrasta com regiões ou periferias que sustentam a economia através do trabalho bruto, mas colhem escassez.

A Cultura do Espetáculo e a Distração Midiática: Na era das redes sociais e do hiperconsumo, a informação muitas vezes é transformada em entretenimento fútil. A espetacularização da violência, da pobreza e da vida alheia consome a atenção pública, anestesiando a sociedade para problemas estruturais urgentes.

Guerra de Informação e Polarização: Em A Esperança, a batalha por narrativas mostra como a mídia e os discursos públicos podem ser manipulados para moldar a opinião popular, mover multidões e legitimar ações extremas de ambos os lados.

Os Traumas Coletivos e a Busca por Mudança: A trajetória de Katniss lembra que as grandes crises sociais cobram um preço alto da população comum. A busca por justiça muitas vezes esbarra em jogos políticos complexos, onde a sociedade civil precisa se manter atenta para que a promessa de mudança não se converta em novas formas de controle.

Ao término da saga, a mensagem que permanece é a de que a esperança e a solidariedade humana são capazes de romper ciclos de opressão, mas a verdadeira transformação exige vigilância constante sobre o poder e empatia com a dor do outro.

31/10/2026

Zucco escolhe Roni Miranda para a Educação após resultados do Paraná no Ideb

 

by Deise Brandão

Professor de História e secretário da Educação paranaense desde 2023, Roni Miranda Vieira foi anunciado para integrar o futuro governo gaúcho. Ensino técnico e aprendizagem estão entre as prioridades apresentadas.

O governador eleito do Rio Grande do Sul, Luciano Zucco (PL), anunciou, em 27 de outubro, Roni Miranda Vieira como futuro secretário estadual da Educação. Com mais de 20 anos de atuação na educação pública, o professor chega à equipe de transição após comandar a pasta no Paraná, estado que alcançou a liderança nacional no Ideb 2025.

Natural de Foz do Iguaçu, Roni começou a trabalhar como professor de História na rede estadual em 2005. A partir de 2015, passou a atuar em departamentos da Secretaria da Educação e, em 2023, assumiu o comando da pasta no governo Ratinho Junior.

Resultados e aprendizagem

Segundo os dados divulgados pela Secretaria da Educação do Paraná, o estado alcançou nota 5,1 no ensino médio no Ideb 2025, a maior do país. Nos anos finais do ensino fundamental, a rede pública registrou 5,8. Os resultados foram divulgados em agosto de 2026.

A evolução também aparece nas avaliações de aprendizagem. Entre 2023 e 2025, a proficiência em Matemática da rede estadual paranaense cresceu 10,70 pontos nos anos finais do ensino fundamental e 10,61 pontos no ensino médio. Em Língua Portuguesa, os avanços foram de 7,98 e 8,48 pontos, respectivamente, conforme a pasta.

Entre as medidas adotadas está o Programa de Recomposição da Aprendizagem, implantado em 2025. A iniciativa ofereceu aulas extras de Português e Matemática a estudantes do 9º ano e da 3ª série do ensino médio, com dois professores em sala e acompanhamento periódico. Segundo a Secretaria, mais de 251 mil estudantes foram atendidos no primeiro ano.

Escolas cívico-militares

O Paraná chegou a 345 colégios cívico-militares em 2026. A expansão mais recente ocorreu após consultas públicas que aprovaram a adesão de outras 33 unidades. Nesse modelo, professores, pedagogos e diretores permanecem responsáveis pelo trabalho pedagógico, enquanto a equipe cívico-militar auxilia na organização da rotina escolar.

De acordo com levantamento da Agência Estadual de Notícias, entre as unidades com resultados disponíveis no Ideb 2025, 89% alcançaram ou superaram a média nacional nos anos finais do ensino fundamental. No ensino médio, o percentual foi de 95,2%.

Prioridades para o Rio Grande do Sul

Ao ser apresentado, Roni informou que pretende fortalecer a educação técnica integrada ao ensino médio, dialogar com os professores e trabalhar a prevenção da violência contra as mulheres nas escolas. Também defendeu parcerias para infraestrutura e manutenção escolar, com foco da gestão educacional no trabalho pedagógico.

O futuro secretário participará da transição para conhecer os números e as necessidades da rede gaúcha. O detalhamento das medidas para o Rio Grande do Sul será apresentado após esse levantamento.

Boicote pacífico: o consumidor tem o direito de escolher onde gastar

 


by Deise Brandão

Deixar de comprar de uma empresa e explicar publicamente essa decisão É forma legítima de manifestação. O artigo 198 do Código Penal pune a coação mediante violência ou grave ameaça.

O consumidor escolhe produtos pelo preço, pela qualidade, pelo atendimento e também pelos valores que uma empresa representa. Questões ambientais, condições de trabalho, posicionamentos públicos e divergências políticas podem influenciar essa escolha. Em regra, decidir não comprar e defender pacificamente essa posição integra o exercício das liberdades de escolha e de expressão. A Constituição protege a manifestação do pensamento, e o Código de Defesa do Consumidor assegura expressamente a liberdade de escolha em seu artigo 6º, inciso II. 

É nesse contexto que deve ser compreendida a diferença entre boicote pacífico e boicotagem violenta.

O artigo 198 do Código Penal trata do atentado contra a liberdade de contrato de trabalho e da boicotagem violenta. Ele pune quem utiliza violência ou grave ameaça para obrigar alguém a celebrar contrato de trabalho ou a deixar de fornecer ou adquirir determinadas matérias-primas e produtos industriais ou agrícolas. A pena prevista é de detenção de um mês a um ano e multa, além da pena correspondente à violência praticada. 

Portanto, esse dispositivo não criminaliza a simples decisão de deixar de comprar. Tampouco transforma, por si só, uma campanha pacífica de consumidores em crime. A violência ou a grave ameaça são elementos necessários ao enquadramento no artigo 198. 

Uma pessoa anunciar “não compro mais dessa marca porque discordo de sua atuação” é uma situação diferente de ameaçar agredir um fornecedor caso ele continue entregando mercadorias à empresa. Na primeira hipótese, há uma decisão de consumo acompanhada de manifestação de opinião. Na segunda, há imposição pela ameaça, que pode preencher os elementos do crime.

A distinção também evita um equívoco: o artigo 198 não cria um direito irrestrito ao boicote nem resume todos os seus limites jurídicos. A ausência de violência ou grave ameaça afasta esse enquadramento específico, mas outras condutas continuam sujeitas à lei. Uma campanha pode gerar responsabilidade se envolver, por exemplo, acusações falsas, ataques à honra ou práticas anticoncorrenciais entre empresas. A liberdade de expressão convive com a proteção da honra e da imagem e com a responsabilização por abusos. 

Isso preserva o espaço da crítica e da escolha consciente. Discordar de uma empresa não obriga o consumidor a continuar financiando suas atividades. Quem discorda do boicote também pode responder, apresentar argumentos e incentivar compras naquela empresa.

A mesma liberdade alcança as doações voluntárias. Uma empresa, campanha ou ação social pode pedir apoio, mas não exigir que alguém a financie. A relevância de uma causa não transforma a contribuição voluntária em obrigação.

Nas relações de emprego, também é necessário distinguir as situações. Ser petista, bolsonarista ou ter qualquer outra preferência política não cria estabilidade automática. Demitir um funcionário, por si só, não é crime.

O empresário pode realizar uma dispensa sem justa causa, respeitando as garantias legais aplicáveis e pagando as verbas devidas.

Quem deseja apoiar os atingidos por um boicote pode comprar seus produtos, divulgar seus serviços, abrir oportunidades e contribuir com os próprios recursos. O consumidor pode escolher onde comprar, a quem doar e por que fazê-lo — e pode expressar pacificamente essas escolhas.

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