quinta-feira, 2 de julho de 2026

RS - Ação da Polícia Civil apura fraudes em licitações e orçamentos judiciais envolvendo medicamentos de alto custo. Sete pacientes morreram durante o período de tratamento.

                                                  (Polícia Federal/Divulgação) 
by Deise Brandão

Uma investigação liderada pela Delegacia de Polícia de São Gabriel, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, desarticulou um grupo criminoso suspeito de fraudar o fornecimento de medicamentos oncológicos de alto custo custeados por verbas públicas. Denominada Operação Placebo, a ação cumpriu 57 mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão preventiva contra envolvidos em fraudes de orçamentos, uso de empresas de fachada e fornecimento de remédios falsificados.

As medidas cautelares miraram 15 pessoas e 14 empresas. Entre as decisões da Justiça, estão o bloqueio de R$ 2,5 milhões em bens dos investigados e a suspensão temporária do exercício profissional dos operadores do esquema.

Como funcionava a fraude

De acordo com os investigadores, o esquema começava com a atuação do médico oncologista Fernando Borges da Silva, que atua em Santa Maria. Cabia a ele captar os pacientes em tratamento e fornecer os laudos médicos necessários. Em seguida, o médico os encaminhava para três advogados parceiros no esquema: Éverson Dornelles de Dornelles, Esther Cowan Kotula e Rita Gabriela Schweickardt Werner.

Esse núcleo jurídico ingressava com ações na Justiça solicitando o bloqueio de verbas públicas para garantir o tratamento. Uma vez liberado o dinheiro — que chegava a R$ 800 mil por lote —, entrava em ação o núcleo empresarial, comandado pelo empresário Lisandro Henriques Hermes, de São Gabriel, que acabou preso preventivamente.

Lisandro utilizava sócios "laranjas" e empresas de fachada (como a Licifarma e a LH Medicamentos) para simular concorrência nos processos judiciais e garantir que suas distribuidoras vencessem as cotações. Em vez de entregar os remédios originais, o grupo fornecia medicamentos sob forte suspeita de falsificação ou realizava entregas parciais.

Erros de grafia chamaram a atenção

O caso começou a ser descoberto depois que uma farmacêutica da Santa Casa de São Gabriel desconfiou de embalagens do medicamento Enhertu (indicado para o tratamento de câncer de mama). O produto apresentava diversas inconsistências visuais e até erros grosseiros de grafia na caixa.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já havia emitido um alerta de apreensão e proibição de comercialização de lotes do medicamento após constatar unidades falsificadas no mercado.

Vítimas e desdobramentos

A Polícia Civil já mapeou pelo menos 39 pacientes que foram vítimas do golpe. Desse total, sete pessoas faleceram durante o tratamento. Exames periciais estão em andamento para determinar se as mortes foram aceleradas pela ausência do princípio ativo ou pela toxicidade do produto adulterado.

O prefeito de São Gabriel, Lucas Menezes, confirmou o afastamento do médico investigado das funções públicas no município. O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) informou que abrirá uma sindicância para apurar a conduta ética do profissional assim que receber os documentos oficiais da polícia.

O que dizem os citados

Lisandro Henriques Hermes (empresário): Negou qualquer envolvimento com o médico ou com os advogados, e declarou desconhecer a falsificação dos medicamentos. Sobre as caixas sem identificação apreendidas em sua posse, afirmou que eram descartes de controle de qualidade de uma fábrica, mas não explicou por que ele mantinha os produtos.

Fernando Borges da Silva (médico): Por meio de sua defesa, negou categoricamente a prática de qualquer conduta ilícita, afirmando estar totalmente à disposição da Justiça e confiante de que os fatos serão esclarecidos no decorrer das investigações.

Desdobramento: Caminhão da Polícia Civil chega a São Gabriel lotado de medicamentos apreendidos em Taquara

As investigações da Operação Placebo ganharam um novo e robusto capítulo. No final da tarde desta quarta-feira (1º), um caminhão da Polícia Civil desembarcou na Delegacia de Polícia de São Gabriel trazendo uma grande quantidade de medicamentos apreendidos. O material é fruto de novas diligências realizadas no município de Taquara, na Região Metropolitana de Porto Alegre.

A chegada dessa nova carga comprova que as ramificações do esquema de fraudes na saúde — que utilizava verbas públicas judiciais destinadas a pacientes com câncer — iam muito além da Fronteira Oeste e da região central do Estado.

Perícia ou Incineração: O destino das apreensões

Sob a coordenação do delegado Daniel Severo, a equipe da DP de São Gabriel agora se debruça sobre o inventário do material trazido de Taquara. O destino de cada lote de medicamento seguirá critérios rigorosos:

Análise Pericial: Parte dos remédios de alto custo passará por exames laboratoriais detalhados para verificar a composição química e atestar se o princípio ativo foi adulterado ou se os produtos são integralmente falsificados.

Incineração: Os medicamentos que não tiverem sua procedência legal comprovada pelas distribuidoras investigadas, mas que não se enquadrarem como falsificações diretas, serão destruídos e queimados, seguindo os protocolos legais de descarte de resíduos de saúde.

O cerco se fecha contra a organização

A descoberta desse depósito de medicamentos em Taquara reforça a tese dos investigadores de que o grupo mantinha uma logística estruturada para simular concorrências e estocar insumos duvidosos.

O esquema consistia em usar empresas interligadas e sócios "laranjas" para vencer cotações judiciais de remédios oncológicos (como o Enhertu), elevando artificialmente os preços pagos pelo poder público e entregando remédios sob forte suspeita de falsificação.

A Polícia Civil reitera que os trabalhos continuam em ritmo acelerado para rastrear a rota financeira do grupo, identificar novos depósitos clandestinos e apontar todos os envolvidos que lucraram às custas da vida de pacientes oncológicos no Rio Grande do Sul.

Origem dos dados: Setor de Investigações da Delegacia de Polícia de São Gabriel.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Do texto para a voz: Bem-vindos ao PODSIM



by Deise Brandão

Há muito tempo este blog ganhou vida própria. Escrever aqui é, para mim, um exercício de liberdade, de diálogo e de respeito ao que acredito. Nunca precisei recorrer a modismos, dancinhas ou fórmulas prontas para encontrar vocês; a substância do texto sempre bastou.

Mas o mundo muda, e as formas de nos comunicarmos também.

Ainda que imperfeito, o PODSIM não nasceu para agradar algoritmos, buscar likes ou perseguir fama. Aos 65 anos, certamente essa não é minha prioridade. Nasceu para algo muito mais simples: criar um espaço onde pessoas comuns possam ser elas mesmas.

Neste novo espaço também vamos falar de tudo um pouco. Teremos quadros diferentes, conversas leves, histórias inspiradoras, momentos de riso e também dias em que nem tudo serão flores. Porque a vida real é assim. Somos pessoas comuns, vivendo vidas comuns, tentando encontrar sentido em algo maior do que apenas trabalhar, pagar boletos e sobreviver à rotina.

No PODSIM vamos contar histórias. Histórias reais. Vamos ouvir quem normalmente não é ouvido. Vamos olhar para o lado B das situações, para aquilo que muitas vezes ninguém quer dizer em voz alta.
Não tenho compromisso com narrativas. Tenho compromisso com fatos. Não jogo palavras ao vento. O que afirmo, sustento. O que denuncio, documento. O que questiono, assumo.
Meu único propósito diante deste projeto é ser eu mesma e abrir espaço para que outras pessoas também o sejam.

A liberdade de expressão não é um favor concedido por ninguém. É uma garantia constitucional. E uma sociedade saudável depende da existência de pessoas dispostas a pensar, questionar, concordar, discordar e conversar.O PodSim nasce exatamente para isso.Sem máscaras.Sem roteiro engessado.Sem dono da verdade.

Apenas pessoas, histórias e conversas que conectam. Histórias que nos engrandecem e algumas que nos indignam.

Porque a paz que buscamos não é a paz do silêncio imposto, da omissão ou do medo de falar. A verdadeira paz só existe quando há espaço para a verdade, para a consciência e para a livre expressão. Afinal, já disse o poeta: "paz sem voz não é paz. É medo."Este é, talvez, o propósito mais primordial do PodSim.

Desejo perto de mim pessoas que pensem por si mesmas, que valorizem o diálogo, que saibam concordar ou discordar sem abrir mão da própria consciência. Pessoas que jamais permitam o sequestro das suas opiniões, dos seus valores ou da sua liberdade de pensar.Ninguém, absolutamente ninguém, deve ser cancelado por se expressar.
 
Se vocês já acompanham minhas ideias por aqui, convido-os a puxar uma cadeira e acompanhar esse novo formato. É um projeto feito com calma, focado na fala e na verdade de cada assunto.
A base está pronta e o projeto começou a rodar. Conto com o ouvido atento e o feedback sincero de vocês. Nos vemos nos links abaixo.
E hoje estamos indo para o Spotify. O link em seguida vem para cá.

 Muitas vozes. Um só propósito: conectar.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

A Ditadura da Metade da Laranja

 

by Deise Brandão

É impressionante como, mesmo em pleno século XXI, a sociedade ainda insiste na falácia medieval de que uma mulher, por mais bem-sucedida, inteligente, autônoma ou realizada que seja, continua sendo uma obra inacabada. Segundo o senso comum — esse barulho de fundo ignorante —, o "sucesso" feminino só é oficializado quando ela tem um "macho" para chamar de seu. É como se a nossa vida fosse um contrato que só entra em vigor com uma assinatura masculina.

Para muitos, a mulher que caminha sozinha não está "em busca de si", está "sobrando". O sucesso profissional, a estabilidade financeira e a independência intelectual são frequentemente vistos como prêmios de consolação para quem não conseguiu fisgar um parceiro. É uma inversão perversa: o homem é visto como o "provedor" ou o "coroamento" da existência da mulher, como se fôssemos incapazes de ocupar o espaço do mundo por mérito próprio, sem precisar de um braço para nos conduzir.

O "Acessório" Obrigatório

A pressão é insidiosa. Em eventos, jantares ou mesmo em círculos sociais, a pergunta "está solteira?" não é uma curiosidade sobre o estado civil; é uma tentativa de localizar a falha no seu sistema. Se você não tem um parceiro para exibir, supõe-se que há algo de errado com você. A solteirice é lida como uma carência, nunca como uma escolha deliberada. É o velho mecanismo de controle que tenta nos convencer de que a solidão é um defeito de fabricação, e não um estado de soberania.

Por que o sucesso de uma mulher incomoda tanto quando ela não está "sob tutela"? Porque uma mulher que se basta é um perigo. Ela não precisa negociar sua liberdade para atender aos caprichos de um ego masculino. Ela não precisa validar suas conquistas através do olhar de um companheiro. A mulher de sucesso que escolhe o seu próprio caminho — com ou sem um parceiro, por desejo e nunca por obrigação — desmantela toda a estrutura que nos quer pequenas, dependentes e, acima de tudo, ansiosas por uma aprovação que nunca deveria ter sido necessária.

Vamos parar de medir o nosso valor pelo que nos falta aos olhos dos outros. O sucesso não é um "acessório" que vem na forma de um homem. Sucesso é ter as rédeas da própria vida, é construir a casa, a carreira e o pensamento sem pedir licença ou buscar um avalista.

Se o "macho" vier, que seja como companhia, como parceiro de jornada, alguém que soma, amigo, amante... Jamais 'marido' — nunca como um requisito de existência. Mas, se não vier, que o silêncio da nossa casa seja celebrado como a música da nossa própria independência.

O "macho" não define a mulher; o que define a mulher é o que ela faz com a liberdade que conquistou. E, convenhamos, essa é uma liberdade que, para muitos, é assustadora demais para entender.

Em Alta

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