24/09/2026

POR QUE DESEJARÍAMOS QUE FOSSE VERDADE?

 

by Deise Brandão

Existe uma pergunta muito simples que os defensores de Luiz Inácio jamais respondem: por que pessoas normais, lúcidas e diretamente atingidas pelo que acontece no país desejariam inventar escândalos sobre o presidente da República?

Que vantagem teríamos nisso?

Por que alguém desejaria viver cercado por suspeitas, desmandos do Estado, abusos institucionais, contratos inexplicáveis, autoridades sem limites e escândalos que se sucedem antes mesmo que o anterior tenha sido compreendido?

Eu gostaria que tudo fosse mentira.

Gostaria de ter boas notícias para publicar. Gostaria de acreditar que o presidente trabalha pelo país, que as instituições funcionam, que o dinheiro público é respeitado e que as autoridades têm algum compromisso com os limites do próprio cargo.

Eu não ganho absolutamente nada quando uma denúncia se confirma. Ao contrário: perco um pouco mais da confiança no país em que vivo.

Durante muitos anos, um dos meus maiores prazeres como jornalista era preparar uma jarra melita de café preto e percorrer as notícias do dia. Eu lia, comparava versões, procurava informações e fazia um apanhado do que estava acontecendo no Brasil e no mundo.

Hoje, esse prazer desapareceu.

Vejo as manchetes e já não sei em quem acreditar. Não acredito imediatamente na acusação, mas também não acredito no desmentido oficial. Preciso procurar documentos, confrontar datas, identificar a origem da informação e descobrir o que foi omitido por cada lado.

Isso não é prazer jornalístico. É sobrevivência informativa.

Transformaram o noticiário numa guerra de versões em que a palavra “fake news” passou a servir como escudo universal. Em vez de responder ao fato, atacam quem pergunta. Em vez de apresentar documentos, acusam o mensageiro. Em vez de explicar a contradição, dizem que tudo é perseguição contra Luiz Inácio.

Evidentemente existem notícias falsas. Existem montagens, exageros, manchetes enganosas e acusações sem prova. Tudo isso precisa ser identificado e desmentido.

Mas não é possível classificar automaticamente como mentira toda informação inconveniente ao governo.

Questionar não é desejar que a denúncia seja verdadeira. Investigar não é torcer contra o país. Criticar Luiz Inácio não significa ter prazer na desgraça nacional.

Muito pelo contrário.

Queremos saber a verdade justamente porque somos nós que vivemos sob as decisões desse governo. Somos nós que pagamos os impostos, suportamos os abusos, financiamos as instituições e enfrentamos as consequências quando o Estado ultrapassa seus limites.

A pergunta, portanto, não deve ser por que tanta gente fala sobre os escândalos envolvendo o governo.  A pergunta correta é: por que surgem tantos fatos que precisam ser explicados — e por que qualquer tentativa de examiná-los é imediatamente chamada de fake news?

Não quero que as denúncias sejam verdadeiras. Quero que sejam seriamente investigadas.

Se forem falsas, que se mostre a falsidade com documentos e fatos. Se forem verdadeiras, que os responsáveis respondam por elas. O que não aceito é ser tratada como mentirosa simplesmente porque me recuso a acreditar cegamente.

Não inventamos um país pior por diversão. Estamos tentando compreender o país que colocaram diante de nós. E, sinceramente, eu preferia continuar tomando meu café e encontrando razões para acreditar no Brasil. Democrático. Justo. Livre. 

23/09/2026

ELIANA CALMON: ENTRE A CORAGEM DO DIAGNÓSTICO E OS LIMITES DA AÇÃO

 

by Deise Brandão

Eliana Calmon construiu uma imagem pública rara dentro da magistratura brasileira. Primeira mulher a ocupar uma cadeira no Superior Tribunal de Justiça, tornou-se nacionalmente conhecida durante sua passagem pela Corregedoria Nacional de Justiça, entre 2010 e 2012, quando afirmou que existiam “bandidos de toga” infiltrados no Judiciário.

A frase atravessou os anos e transformou Calmon em símbolo de enfrentamento ao corporativismo judicial. Para muita gente — inclusive para mim — ela representava a possibilidade de que alguém de dentro finalmente abrisse as portas, levantasse os tapetes e mostrasse o que o Judiciário escondia.

Sua gestão não foi inerte. A Corregedoria recebeu mais de dez mil procedimentos, realizou inspeções, examinou a evolução patrimonial de magistrados, instaurou processos disciplinares e promoveu afastamentos preventivos. Houve também aposentadorias compulsórias, entre elas a do desembargador Roberto Wider, ex-corregedor do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Não se pode, portanto, afirmar honestamente que Eliana Calmon nada fez.

Também é necessário reconhecer que ela não tinha poderes ilimitados. A corregedora podia investigar, propor a abertura de processos e recomendar punições, mas não decidia sozinha. Dependia do plenário do CNJ, enfrentava a resistência das associações de magistrados e ainda via procedimentos serem contestados no Supremo.

Além disso, naquela época, a punição administrativa máxima aplicável a magistrados era a aposentadoria compulsória com vencimentos proporcionais. Era a indecência legalmente instituída: descobria-se uma conduta incompatível com a magistratura, afastava-se o responsável e preservava-se sua remuneração.

A própria Eliana Calmon defendia punições mais severas. Nesse ponto, é preciso ser justo: ela não poderia aplicar uma pena que a legislação não autorizava.

O problema começa depois.

A imagem pública que permaneceu foi a da magistrada destemida, implacável e disposta a enfrentar qualquer integrante do sistema. Entretanto, quando se observa sua trajetória posterior, aparece uma personagem mais contraditória.

Em 2014, depois de deixar o STJ, Calmon ingressou na política, filiou-se ao PSB, candidatou-se ao Senado pela Bahia e, no segundo turno, apoiou Aécio Neves contra Dilma Rousseff. Não se elegeu e voltou à condição de comentarista privilegiada das crises nacionais.

Em 2017, afirmou que a Operação Lava Jato precisava alcançar o Poder Judiciário. Dizia estranhar que Executivo e Legislativo fossem atingidos enquanto juízes e tribunais permaneciam na sombra. Chegou a prever que a Lava Jato alcançaria a magistratura em um “segundo momento”.

Esse segundo momento nunca chegou como ela previa.

Na mesma entrevista, Calmon elogiou a indicação de Alexandre de Moraes ao Supremo. Disse conhecê-lo, chamou-o de jovem, talentoso e brilhante intelectualmente e afirmou ter gostado de sua escolha para a vaga de Teori Zavascki.

Hoje, é justamente Moraes quem ocupa o centro das críticas de Eliana Calmon.

Em 2019, ela apoiou a ideia de investigar os tribunais superiores, mas declarou que a CPI da Lava Toga dificilmente avançaria porque muitos senadores e deputados estariam “nas mãos do STF”, em razão dos processos que tramitavam contra eles. Mais uma vez, o diagnóstico era grave. Mais uma vez, nenhuma consequência concreta apareceu.

Nos últimos anos, Calmon voltou a criticar os poderes excessivos do Supremo, o inquérito das fake news, as decisões de Alexandre de Moraes e a desorganização institucional do país. Agora, diante das informações que relacionam Moraes a Daniel Vorcaro e ao Banco Master, inicialmente defendeu uma investigação séria.

Depois da sessão tumultuada do STF, porém, recuou para a perplexidade.

Disse estar “profundamente confusa”. Afirmou que uma investigação poderia “implodir a República”, atingir o Congresso e a Presidência e até prejudicar as eleições. Ao mesmo tempo, declarou que o Supremo perdeu a credibilidade, que as instituições estão esfaceladas e que os “bandidos de toga” agora estariam dentro da própria Corte.

É aqui que surge a verdadeira incongruência.

Se existem fatos suficientemente graves para implodir a República, a investigação não se torna menos necessária. Torna-se ainda mais urgente.

A possibilidade de alcançar ministros, parlamentares, integrantes do governo ou a Presidência não pode ser utilizada como argumento para temer a apuração. Preservar instituições não significa ocultar aquilo que pode comprometê-las. Uma instituição não é protegida quando seus integrantes são poupados; é protegida quando consegue investigar e responsabilizar os próprios membros.

Eliana Calmon passou anos dizendo que o Judiciário precisava ser investigado. Disse que a Lava Jato deveria chegar aos tribunais. Apoiou a Lava Toga. Denunciou o corporativismo. Defendeu punições mais duras. Alertou que pessoas desonestas encontravam na magistratura um ambiente protegido contra investigações.

Agora, quando uma apuração pode finalmente alcançar o coração do Supremo e espalhar-se pelas demais instituições, ela teme que a República não suporte a verdade.

Talvez seja exatamente essa a pergunta que Eliana Calmon deva responder: para que serviram tantos anos denunciando os “bandidos de toga” se, no momento em que a investigação pode efetivamente alcançá-los, o tamanho do escândalo passa a ser motivo para hesitação?

Não se trata de apagar sua trajetória nem de negar a coragem que demonstrou quando enfrentou o corporativismo judicial. Trata-se de separar a mulher real da imagem pública construída ao redor dela.

Eliana Calmon sempre foi muito mais contundente no diagnóstico do que efetiva na transformação do sistema. Parte disso decorreu dos limites do cargo, da legislação e da resistência institucional. Outra parte, porém, pertence às escolhas, aos recuos e aos silêncios da própria magistrada.

Ela identificou a doença antes de muitos. Falou sobre ela com clareza e coragem. Mas a história não pode se contentar eternamente com diagnósticos.

Chega um momento em que é preciso tratar o paciente — ainda que a verdade faça a República tremer.

O SILÊNCIO COMPROMETEDOR DE RICARDO LEWANDOWSKI

 

by Deise Brandão

Durante anos, Ricardo Lewandowski ocupou alguns dos cargos mais importantes da República. Foi ministro e presidente do Supremo Tribunal Federal, comandou o julgamento do impeachment de Dilma Rousseff e, depois de se aposentar antecipadamente da Corte, tornou-se ministro da Justiça do governo Lula.

Em janeiro de 2026, deixou o ministério alegando razões pessoais e familiares. Saiu discretamente e recolheu-se. O problema é que os fatos não se recolheram com ele.

Entre a aposentadoria do STF e a entrada no governo LULA, Lewandowski atuou como advogado do Banco Master. Posteriormente, o escritório de seu filho, Enrique Lewandowski, também manteve contrato com o banco de Daniel Vorcaro.

Agora, mensagens obtidas pela Polícia Federal e divulgadas pela imprensa indicam que Vorcaro pediu ao então diretor jurídico do Master que entregasse “algum caso ou parecer” ao filho de Lewandowski para justificar o contrato existente.

A frase é devastadora porque inverte a lógica normal de uma contratação profissional. Primeiro existiria o contrato; depois seria necessário encontrar algum trabalho capaz de justificá-lo.

Na época dessas mensagens, Ricardo Lewandowski não era apenas um ministro aposentado. Era o ministro da Justiça e Segurança Pública, autoridade máxima da estrutura política sob a qual atua a Polícia Federal.

Não se pode atribuir automaticamente ao pai um contrato firmado pelo escritório do filho. Também não se pode condenar ninguém com base apenas em mensagens de terceiros. Mas é indispensável esclarecer quando começou a relação do escritório com o banco, quais serviços foram efetivamente prestados, quanto foi pago, quais pareceres foram produzidos e por que Vorcaro falava em conseguir algum trabalho para “justificar” a contratação.

O escritório de Enrique afirma que prestava consultoria nas áreas fiscal e tributária. É uma resposta formal. Não é, porém, uma explicação suficiente para a conversa atribuída ao banqueiro.

E Ricardo Lewandowski permanece em silêncio.

O mesmo homem que passou décadas falando sobre Constituição, democracia, legalidade e instituições parece não encontrar palavras quando a questão alcança sua própria relação profissional e familiar com o Banco Master.

Lewandowski deixou o Supremo, passou pelo escritório que atendia Vorcaro, assumiu o Ministério da Justiça, saiu do governo e desapareceu do debate público justamente quando começaram a surgir as perguntas mais incômodas.

Seu paradeiro é conhecido. O que ainda não apareceu foi a explicação.

Em determinadas circunstâncias, o silêncio pode ser prudência. Quando envolve um ex-presidente do STF, um ex-ministro da Justiça, contratos familiares e um banqueiro investigado, porém, o silêncio deixa de ser simples reserva pessoal.

Torna-se um fato político.

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