quarta-feira, 1 de abril de 2026

BARCO QUE PRODUZ O PRÓPRIO COMBUSTÍVEL? O QUE É REAL E O QUE ESTÃO EXAGERANDO

by Deise Brandão

Um projeto brasileiro começou a circular nas redes com cara de ficção científica: um barco que produziria o próprio combustível enquanto navega em alto-mar, sem depender de reabastecimento. A proposta existe, é real, tem nome — JAQ H2 — e envolve parcerias com instituições como o IPT. Mas, como quase tudo que viraliza rápido demais, a história vem sendo contada pela metade.

A ideia por trás do projeto não é absurda. O barco utiliza um processo conhecido e estudado há décadas: a eletrólise da água. Nesse sistema, a água é separada em hidrogênio e oxigênio com o uso de eletricidade. O hidrogênio, então, passa a ser utilizado como combustível para gerar energia e movimentar a embarcação. Até aqui, nada de mágico. É ciência aplicada, e bastante coerente com a busca atual por fontes energéticas menos poluentes.

O problema começa quando a narrativa simplifica demais — ou pior, distorce. Dizer que o barco “transforma água em combustível” dá a entender que a água, por si só, resolve o problema energético. Não resolve. Água não é fonte de energia, é matéria-prima. Para extrair hidrogênio dela, é necessário gastar energia antes. E bastante. Ou seja, o sistema não cria energia do nada — ele depende de uma fonte energética prévia para funcionar.

É aí que mora o ponto que quase ninguém menciona: de onde vem essa eletricidade a bordo? Sem uma fonte robusta — seja solar, eólica ou outro sistema auxiliar — o processo não se sustenta. O hidrogênio, nesse contexto, funciona como um meio de armazenamento e uso da energia, não como solução autônoma. Portanto, a ideia de um barco totalmente independente apenas “usando água do mar” é, no mínimo, incompleta.

Outro detalhe importante é o estágio do projeto. O que existe até agora são anúncios, desenvolvimento em andamento e previsão de entrega. Não há comprovação pública de que uma embarcação desse porte, com esse sistema funcionando plenamente em alto-mar, já esteja operando. No Brasil, inclusive, já houve demonstrações reais com hidrogênio, mas em escala menor, como no caso do BotoH2, que serve mais como prova de conceito do que como solução comercial consolidada.

Isso não diminui a importância do projeto. Muito pelo contrário. O transporte marítimo ainda depende fortemente de combustíveis pesados e poluentes, e qualquer avanço nessa área tem relevância global. O que precisa ser separado é o entusiasmo legítimo da promessa inflada. Uma coisa é desenvolver tecnologia baseada em hidrogênio; outra, bem diferente, é vender a ideia de autonomia energética quase infinita.

No fim, o JAQ H2 representa uma direção interessante, alinhada com o futuro da energia limpa, mas ainda dentro do campo de testes, ajustes e validação. Não é milagre, não é revolução pronta, e certamente não é um barco que “se abastece sozinho com água”. É engenharia em evolução — e como toda inovação real, ainda precisa provar, na prática, tudo aquilo que já estão afirmando como certo.

terça-feira, 31 de março de 2026

Dubai respeita. O Brasil distorce.

Enquanto Dubai dá nome ao que importa, o Brasil brinca de desconstruir o óbvio.


by Deise Brandão

O príncipe herdeiro Sheikh Hamdan bin Mohammed Al Maktoum decidiu chamar “dona de casa” pelo que de fato é formadora de gerações. Simples. Direto. Correto.Porque é isso que uma mulher faz quando está presente na vida dos filhos: forma gente.

Agora olha o contraste.
No Brasil, ao invés de valorizar, a discussão virou outra:como evitar até dizer a palavra “mulher”. Criam termos técnicos. Inventam substituições. Transformam algo básico em debate ideológico.E no meio disso tudo, a mulher real desaparece: A que gera. A que cria. A que educa. A que segura a estrutura emocional de uma família inteira. Enquanto isso, a realidade segue:

– filhos sendo criados por terceiros
– vínculos cada vez mais frágeis
– mulheres sem autonomia financeira
– e uma romantização perigosa da dependência

Porque vamos falar claro: dependência não é proteção. É risco.
Mulher precisa ter renda. Precisa ter independência.Precisa poder sair de qualquer situação — sem pedir permissão.

E aqui entra a maior incoerência: Se formar gerações é o trabalho mais importante que existe,por que não é tratado como trabalho de verdade?

Ou se valoriza de fato — inclusive financeiramente —ou se para de romantizar.
O Brasil hoje faz o pior dos mundos: não remunera, não reconhece e ainda confunde. Reduz a mulher á nada,  fora e dentro dos tribunais. 

Dubai fez só uma troca de palavra.
Mas às vezes é exatamente isso que revela tudo:quem entendeu o papel da mulher…e quem ainda está perdido tentando redefinir o óbvio.

segunda-feira, 30 de março de 2026

UMA CIDADE ONDE NINGUÉM ESTÁ PERDIDO — MESMO QUANDO A MEMÓRIA SE FOI



by Deise Brandão

Não é ficção ou é cenário de filme. E também não é um asilo como estamos acostumados a imaginar.Na Holanda, existe um lugar onde a demência não é tratada com portas trancadas —mas com liberdade controlada, dignidade e rotina.Esse lugar é Hogeweyk, e situa-se na Holanda.
Uma vila inteira construída para pessoas com Alzheimer e demência avançada.
Mas não uma instituição fria. é uma 'cidade'. onde os moradores caminham pelas ruas, fazem compras, tomam café, sentam na praça.Vivem.
Nada ali é exatamente o que parece: O caixa do mercado? É um enfermeiro.O garçom do café? Também.O carteiro, o cabeleireiro, o vizinho simpático…todos são profissionais de saúde treinados.Mas sem uniforme.Sem jalecos.Sem corredores brancos.Sem a sensação constante de que estão doentes.


Porque, naquele espaço, a lógica é outra:em vez de forçar o paciente a se adaptar à realidade…a realidade é adaptada ao paciente.
Sem barreira. Sem o peso institucional que transforma cuidado em vigilância.Eles acompanham, observam, intervêm —mas sem romper a ilusão necessária para quem já perdeu partes da memória.E isso muda tudo.
Quando o cuidado respeita amente - mesmo fragentada
A proposta de Hogeweyk é simples — e radical:parar de tratar a demência como um erro a ser corrigido e começar a tratá-la como uma condição a ser compreendida
Em vez de confrontar o paciente com aquilo que ele já não reconhece,o ambiente oferece familiaridade, segurança e autonomia.
Tudo é controlado — mas nada parece controle.
O espaço é fechado, sim. Mas por dentro, ele respira liberdade, e os resultados são claros: menos agressividade, menos uso de medicação, mais bem-estar.


Hogeweyk não é apenas um lugar. É uma pergunta: Por que ainda insistimos em modelos frios, isolados e hospitalarespara pessoas que já perderam o vínculo com essa lógica? O que é mais humano:corrigir a mente…ou acolher a realidade que ela consegue viver?Essa vila não cura Alzheimer.Mas devolve algo que muita gente perde antes mesmo da memória: dignidade. autonomia, sensação de pertencimento.

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