by Deise Brandão
Durante anos, Ricardo Lewandowski ocupou alguns dos cargos mais importantes da República. Foi ministro e presidente do Supremo Tribunal Federal, comandou o julgamento do impeachment de Dilma Rousseff e, depois de se aposentar antecipadamente da Corte, tornou-se ministro da Justiça do governo Lula.
Em janeiro de 2026, deixou o ministério alegando razões pessoais e familiares. Saiu discretamente e recolheu-se. O problema é que os fatos não se recolheram com ele.
Entre a aposentadoria do STF e a entrada no governo LULA, Lewandowski atuou como advogado do Banco Master. Posteriormente, o escritório de seu filho, Enrique Lewandowski, também manteve contrato com o banco de Daniel Vorcaro.
Agora, mensagens obtidas pela Polícia Federal e divulgadas pela imprensa indicam que Vorcaro pediu ao então diretor jurídico do Master que entregasse “algum caso ou parecer” ao filho de Lewandowski para justificar o contrato existente.
A frase é devastadora porque inverte a lógica normal de uma contratação profissional. Primeiro existiria o contrato; depois seria necessário encontrar algum trabalho capaz de justificá-lo.
Na época dessas mensagens, Ricardo Lewandowski não era apenas um ministro aposentado. Era o ministro da Justiça e Segurança Pública, autoridade máxima da estrutura política sob a qual atua a Polícia Federal.
Não se pode atribuir automaticamente ao pai um contrato firmado pelo escritório do filho. Também não se pode condenar ninguém com base apenas em mensagens de terceiros. Mas é indispensável esclarecer quando começou a relação do escritório com o banco, quais serviços foram efetivamente prestados, quanto foi pago, quais pareceres foram produzidos e por que Vorcaro falava em conseguir algum trabalho para “justificar” a contratação.
O escritório de Enrique afirma que prestava consultoria nas áreas fiscal e tributária. É uma resposta formal. Não é, porém, uma explicação suficiente para a conversa atribuída ao banqueiro.
E Ricardo Lewandowski permanece em silêncio.
O mesmo homem que passou décadas falando sobre Constituição, democracia, legalidade e instituições parece não encontrar palavras quando a questão alcança sua própria relação profissional e familiar com o Banco Master.
Lewandowski deixou o Supremo, passou pelo escritório que atendia Vorcaro, assumiu o Ministério da Justiça, saiu do governo e desapareceu do debate público justamente quando começaram a surgir as perguntas mais incômodas.
Seu paradeiro é conhecido. O que ainda não apareceu foi a explicação.
Em determinadas circunstâncias, o silêncio pode ser prudência. Quando envolve um ex-presidente do STF, um ex-ministro da Justiça, contratos familiares e um banqueiro investigado, porém, o silêncio deixa de ser simples reserva pessoal.
Torna-se um fato político.

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