quinta-feira, 23 de abril de 2026

Onde há intimidade, que haja mais cuidado — não menos

by Deise Brandão

Há um paradoxo silencioso nas relações humanas que poucos gostam de admitir: tendemos a ser mais duros justamente com quem mais amamos. Não é falta de afeto — é, em grande parte, um efeito colateral da convivência e da forma como administramos nossas emoções ao longo do dia.

A psicóloga Deborah South Richardson aponta, em seus estudos, que somos estatisticamente mais propensos a direcionar agressividade a pessoas próximas do que a estranhos. À primeira vista, isso parece contraditório. Afinal, não deveriam ser essas relações as mais cuidadosas? Mas a explicação é menos sobre intenção e mais sobre contexto.

No convívio social mais amplo — trabalho, ambientes públicos, interações ocasionais — existe um freio constante: o custo social. Ser ríspido com um desconhecido pode gerar conflito imediato, rejeição ou até prejuízos concretos. Por isso, filtramos palavras, ajustamos o tom, medimos reações. Em outras palavras, nos policiamos.

Já na intimidade, esse freio enfraquece. Criamos, muitas vezes sem perceber, uma sensação de “território seguro”, onde acreditamos que pequenos excessos serão compreendidos ou perdoados. É nesse espaço que as frustrações acumuladas encontram vazão. Não porque valorizamos menos essas pessoas, mas porque confiamos — ainda que de forma equivocada — que elas permanecerão.

A situação se intensifica com outro fator: o desgaste emocional. Ao longo do dia, exercemos autocontrole contínuo. Decidimos o que dizer, o que calar, como agir. Esse esforço consome energia psicológica. Quando essa “reserva” se esgota, ficamos mais impulsivos, menos tolerantes, mais suscetíveis a respostas bruscas. E, quase sempre, quem está por perto nesse momento são justamente as pessoas mais próximas.

O problema não está em reconhecer que isso acontece — afinal, é humano. O risco surge quando essa dinâmica se transforma em padrão. Quando o espaço de confiança vira, aos poucos, um espaço de descuido.

Talvez o verdadeiro desafio seja inverter a lógica automática: tratar com a mesma consideração que oferecemos a estranhos aqueles que já conquistaram nossa proximidade. Não por obrigação, mas por consciência de que intimidade não deveria ser sinônimo de permissão para ferir — e sim de responsabilidade ampliada para cuidar.

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