26/09/2026

O FATO X INVENÇÃO X ABSURDO


by Deise Brandão

Projeto arquivado em 2008 é ressuscitado como “ameaça atual” em 2026 — e ainda atribui ao Estado um poder que ele nunca teve

Está circulando nas redes sociais a afirmação de que a bancada evangélica estaria articulando o desarquivamento de um projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A narrativa foi associada à atual disputa eleitoral e até à candidatura de Flávio Bolsonaro.

O projeto existiu. A ameaça atual, até o momento, não.

O PL nº 2.623/2007 foi apresentado em 12 de dezembro de 2007 pelo então deputado Professor Victório Galli, eleito pelo PMDB de Mato Grosso. A proposta pretendia alterar a Lei nº 6.802/1980, substituindo a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.

Em 9 de julho de 2008, o parecer pela rejeição foi aprovado por unanimidade na Comissão de Educação e Cultura da Câmara. Como não houve recurso, o projeto foi arquivado definitivamente em 22 de agosto de 2008.

Portanto, não se trata de projeto atual, não está em votação, não foi apresentado por Flávio Bolsonaro e não existe ato oficial demonstrando que a atual bancada evangélica esteja promovendo seu desarquivamento.

O que existe é um projeto rejeitado e arquivado há mais de 18 anos, recuperado das gavetas da Câmara para produzir medo e desgaste político em 2026.

A GloboNews, cuja manifestação ajudou a alimentar a repercussão, posteriormente fez uma retratação. Isso, porém, costuma alcançar muito menos pessoas do que a informação alarmista original.

UM DEPUTADO PODE PROPOR ATÉ A REVOGAÇÃO DA LEI DA GRAVIDADE

Um deputado pode apresentar projeto sobre praticamente qualquer assunto. Poderia, se quisesse, propor até a revogação da Lei da Gravidade.

A existência de um projeto não significa que ele seja juridicamente possível, politicamente viável, aprovado pelo Congresso ou transformado em lei. Muito menos significa que seus efeitos ultrapassem os limites da autoridade do Estado.

No caso de Nossa Senhora Aparecida, há uma confusão conveniente entre duas coisas completamente diferentes: o reconhecimento civil estabelecido por uma lei brasileira e o título religioso concedido pela Igreja Católica.

A Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980, declarou feriado nacional o dia 12 de outubro para culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida, mencionando-a como Padroeira do Brasil.

Mas não foi o Congresso Nacional que lhe concedeu esse título.

Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi proclamada Padroeira principal do Brasil pelo Papa Pio XI em 1930, a pedido dos bispos e do povo católico brasileiro. A proclamação solene ocorreu em 31 de maio de 1931, no Rio de Janeiro.

A lei brasileira surgiu cinquenta anos depois. Ela reconheceu civilmente uma condição religiosa que já existia havia décadas.

O Congresso pode alterar a lei civil, mudar a redação da norma ou discutir a existência do feriado. O que não pode é revogar uma proclamação pontifícia, destituir uma padroeira da Igreja ou apagar a devoção de milhões de brasileiros.

Essa competência não pertence a deputado, senador, presidente da República ou ministro do Supremo. Pertence à autoridade eclesiástica competente — a Santa Sé.

E nem uma decisão política da Igreja teria o poder de arrancar a fé do coração do povo.

NÃO SE REVOGA A FÉ POR VOTAÇÃO

Aparecida não se tornou Padroeira do Brasil porque um parlamentar escreveu isso numa lei em 1980. A lei reconheceu uma devoção nascida no povo, consolidada durante séculos e formalizada pela Igreja.

Nenhum projeto de lei faz alguém acreditar. Nenhum projeto de lei impede alguém de acreditar.

O Estado pode modificar seus próprios atos, mas não possui autoridade para reescrever a fé católica. Não pode determinar quem será venerado pelos fiéis, como não pode votar a existência de Deus, revogar um sacramento ou destituir a Mãe de Jesus daquilo que ela representa para seus devotos.

Por isso, mesmo o antigo projeto de Victório Galli, se tivesse sido aprovado, alteraria apenas a redação da legislação brasileira. Nossa Senhora Aparecida continuaria sendo reconhecida pela Igreja como Padroeira do Brasil e continuaria ocupando o mesmo lugar na fé dos católicos.

A proposta poderia produzir uma agressão simbólica, um conflito político e uma mudança no reconhecimento estatal. Não produziria o efeito religioso que seus defensores ou críticos lhe atribuem.

QUEM TEM FÉ NÃO PRECISA INVENTAR AMEAÇAS

É justamente por se tratar de um tema sagrado para milhões de brasileiros que a informação deveria ser tratada com responsabilidade.

Quem recupera um projeto de 2007, esconde seu arquivamento em 2008 e o apresenta como articulação atual não está defendendo Nossa Senhora. Está utilizando a fé dos católicos como ferramenta eleitoral.

O truque é conhecido: parte-se de um fato verdadeiro — a existência do PL —, elimina-se a data, omite-se sua rejeição, inventa-se uma movimentação contemporânea e acrescenta-se o nome do adversário político que se pretende atingir.

O autor do projeto trabalhou, anos depois, durante alguns meses como assessor especial no governo Jair Bolsonaro. Esse vínculo posterior pode ser informado, mas não transforma uma proposta individual apresentada por um deputado do PMDB em 2007 num projeto atual de Flávio Bolsonaro, de Jair Bolsonaro ou de toda a bancada evangélica.

Fé não precisa de mentira para ser defendida.

Quem acredita que Nossa Senhora Aparecida é Padroeira do Brasil não deveria temer uma proposição parlamentar arquivada. E quem diz respeitar a religião não deveria falsificar datas e fatos para provocar pânico entre os fiéis.

Há algo profundamente contraditório em usar Nossa Senhora como instrumento de desinformação eleitoral e, ao mesmo tempo, apresentar-se como defensor da fé.

Talvez estejam tão acostumados a pensar que enganam o povo que começaram a acreditar que também podem enganar Deus.

O FATO X INVENÇÃO X ABSURDO

O fato é que o PL nº 2.623/2007 existiu. O fato é que pretendia mudar a forma como Nossa Senhora Aparecida era mencionada na legislação.O fato é que foi rejeitado por unanimidade e arquivado definitivamente em 2008.

A invenção é apresentá-lo como projeto atual.
A invenção é afirmar, sem ato oficial que o comprove, que a atual bancada evangélica está articulando seu desarquivamento.  A invenção é atribuí-lo a Flávio Bolsonaro, que não era parlamentar federal quando a proposta foi apresentada.

E o absurdo maior é imaginar que o Congresso Nacional teria poder para destituir uma padroeira proclamada pela Igreja e consagrada há gerações pela fé popular.

Deputados podem apresentar projetos. Podem alterar leis humanas. Podem até escrever absurdos em papel timbrado.

O que não podem é legislar sobre o coração dos fiéis.

Nossa Senhora Aparecida não depende de Brasília para continuar sendo a Padroeira do Brasil.

QUANDO A MEDICINA TEM ALMA




by Deise Brandão

O médico que aparece ao centro desta fotografia é o Dr. Carlos Thompson Flores, endocrinologista de Alegrete. Pensem em um homem bom. Uma pessoa iluminada, dona de um coração que parece não caber dentro do próprio peito e de um amor pela medicina como poucas vezes testemunhei.

Conheci o Dr. Carlos em 1998, quando atravessei um dos maiores medos da minha vida. Minha filha tinha apenas 15 anos quando realizou um exame da tireoide na PUC. O diagnóstico foi de carcinoma papilífero, com encaminhamento urgente para cirurgia e retirada da tireoide.

Perdi o chão.

Naquela época, eu morava em Santa Maria do Herval e já enfrentava problemas graves na cidade em razão do embuste. Uma amiga contou que, em Alegrete, havia um endocrinologista maravilhoso. Consegui emprego no Diário de Alegrete, mudei-me para lá e, assim que cheguei, fui procurar o Dr. Carlos no local onde atendia pelo SUS.

E logo no primeiro encontro ele me ensinou uma lição que nunca esqueci.

Apavorada e sem saber sequer se o caso deveria ser acompanhado por um endocrinologista ou por um oncologista, eu disse que, se fosse ele o médico responsável, levaria minha filha ao seu consultório particular. Ele fechou a expressão imediatamente e respondeu:

— Não há necessidade. Lá eu dou o mesmo atendimento que dou aqui.

Senti como se tivesse levado um tapa — não de humilhação, mas de humanidade. Eu acabava de conhecer um médico para quem o paciente continuava sendo paciente, independentemente de pagar uma consulta ou ser atendido pelo SUS.

Ele examinou minha filha com atenção, solicitou todos os exames necessários, conversou conosco e me acalmou. Foram realizadas três punções, todas pelo Dr. Erasmo, outro médico muito querido que, mais tarde, seria prefeito de Alegrete.

Ao final da investigação, descobriu-se que minha filha não tinha carcinoma. O diagnóstico correto era tireoidite de Hashimoto, causadora de hipotireoidismo. O diagnóstico inicial mostrou-se equivocado, e o encaminhamento urgente para a retirada da tireoide, precipitado. Uma adolescente esteve muito perto de passar por uma cirurgia irreversível da qual não precisava.

Desde então, minha filha faz reposição hormonal e mantém acompanhamento constante.  A convivência exigiu muita paciência e amor, especial, naqueles dias femininos do mês. Pode-se ter um Tsunami a qualquer momento. Aprendemos a disciplinar estes momentos e hoje com efetivos limites para a falta ou desalinhamento do T4, TSH,T3.

Pois. Voltando á 1998 e Dr. Carlos.
O medo e a tensão daquele período também atingiram minha saúde. Aos 35 anos, desenvolvi uma crise hipertensiva gravíssima: minha pressão chegou a 23 por 16. Fiquei internada durante uma semana. Meus filhos, ainda menores, também ficaram comigo no quarto naquela noite,  porque eu insistia em levá-los para casa e retornar depois — algo que, naquele estado, evidentemente não era possível.

Durante aquela semana, o Dr. Carlos cuidou de mim com uma atenção e um carinho que jamais esqueci. Acompanhou-me, tranquilizou-me e esteve presente quando eu me encontrava assustada, fragilizada e longe de casa. Por todo aquele cuidado, cobrou-me uma única consulta.

Poucas pessoas caminharam verdadeiramente comigo ao longo da vida. O Dr. Carlos Thompson Flores é uma delas.

Tenho por ele um carinho imenso e uma gratidão que não cabe dentro de mim. Não apenas porque ajudou a impedir uma cirurgia desnecessária em minha filha, mas porque me mostrou, num momento de absoluto desespero, o que significa exercer a medicina com conhecimento, responsabilidade, igualdade e amor.

Existem pessoas que passam por nossa história. Outras permanecem nela para sempre. 
Nas minhas lembranças, o lugar do Dr. Carlos é lugar de Rei.

UM JÚRI SEIS ANOS DEPOIS; UM RELEASE NO DIA SEGUINTE

by Deise Brandão


Em apenas dois dias, duas notícias mostraram faces muito diferentes da atuação do Ministério Público em Dois Irmãos.

Na quinta-feira, 24 de setembro, um casal foi levado ao Tribunal do Júri por um crime ocorrido em 4 de abril de 2020. Foram necessários mais de seis anos para que o processo chegasse ao julgamento.

O homem foi condenado por homicídio privilegiado, com o reconhecimento de que agiu sob intensa emoção depois de descobrir que sua filha, então com apenas seis anos, havia sido vítima de grave violência sexual. A pena foi fixada em quatro anos e oito meses. A mulher, que também permaneceu submetida ao processo durante todos esses anos, foi absolvida pelo Conselho de Sentença, que acolheu a tese de negativa de participação.

No dia seguinte, 25 de setembro, o próprio Ministério Público do Rio Grande do Sul publicou uma notícia institucional destacando a atuação do promotor Wilson Luís Grezzana na denúncia contra um professor municipal investigado por crimes sexuais contra alunas.

O texto posteriormente reproduzido pela imprensa local não resultou de investigação jornalística própria. A publicação anuncia expressamente: “Confira, na íntegra, a notícia divulgada pelo MPRS”.

O próprio Ministério Público do Rio Grande do Sul publicou uma notícia institucional para divulgar as providências adotadas no caso. Trata-se, portanto, da versão oficial produzida pela instituição sobre sua própria atuação, e não de uma apuração jornalística independente. 

Por essa razão, o conteúdo deve ser lido como comunicação institucional: apresenta as medidas tomadas pelo órgão, mas não necessariamente responde a todas as questões que o caso suscita.

O que chegou ao leitor foi, essencialmente, um release produzido pela própria instituição para divulgar sua atuação.

O QUE O RELEASE CONTA

Segundo o MPRS, o professor foi denunciado por dois crimes de importunação sexual contra duas alunas de 14 anos. Os fatos teriam ocorrido dentro de salas de aula de escolas diferentes: um em 2019 e outro em 2026.

O promotor requisitou ao Município a ficha funcional completa do servidor e informações sobre as transferências realizadas entre escolas. Pretende saber se elas ocorreram por iniciativa do próprio professor ou por interesse da administração e, neste último caso, se tiveram relação com alguma penalidade administrativa.

Também requisitou à Polícia Civil o interrogatório do denunciado e ajuizou uma ação de produção antecipada de provas para colher o depoimento especial de outras seis alunas ou ex-alunas. A finalidade declarada é preservar as provas, evitar a revitimização e apurar a possível existência de outros crimes.

Trata-se de investigação necessária e de extrema gravidade. As possíveis vítimas devem ser protegidas, ouvidas em ambiente adequado e preservadas de exposição pública. O acusado, por sua vez, deve ser investigado e julgado conforme as provas, com observância do devido processo legal e da presunção de inocência.

Isso, porém, não impede — e muito menos dispensa — perguntas sobre a atuação das instituições envolvidas.

O QUE O RELEASE NÃO EXPLICA

Se um dos fatos denunciados teria ocorrido em 2019, a primeira pergunta é inevitável:

Quando esse fato chegou ao conhecimento da escola, da Secretaria de Educação, do Município, da Polícia Civil e do Ministério Público?

A simples referência ao ano de 2019 não permite afirmar que o Ministério Público conhecia o caso desde aquela época. Seria irresponsável fazer essa acusação sem documentos. Mas é igualmente irresponsável divulgar uma notícia institucional exaltando providências recentes sem esclarecer quando cada órgão público tomou conhecimento dos fatos.

Outra questão importante envolve as transferências do professor entre escolas. Por que ocorreram? Houve reclamações anteriores? Alguma direção escolar comunicou comportamentos inadequados? Existiu sindicância, advertência ou procedimento administrativo? Alguém decidiu apenas transferir o problema de lugar?

É correto requisitar essas informações. O que precisa ser explicado é por que elas estão sendo buscadas somente agora e o que já era conhecido pelos responsáveis pela educação municipal.

Também chama atenção a sequência informada pelo próprio MPRS: a denúncia foi oferecida por dois fatos, enquanto ainda se requisita o interrogatório do acusado e se tenta produzir antecipadamente o depoimento de outras seis estudantes.

Isso não torna automaticamente a denúncia ilegal. O interrogatório policial não é condição indispensável para que o Ministério Público ofereça uma acusação, desde que já existam elementos suficientes. Entretanto, a própria sequência demonstra que a apuração ainda está em desenvolvimento e que o caso pode ser muito mais amplo do que os dois fatos inicialmente denunciados.

A sociedade tem o direito de saber, com clareza, o que já foi apurado, o que ainda depende de investigação e por que existe diferença entre o universo de possíveis vítimas mencionado durante a investigação e os dois fatos incluídos na denúncia inicial.

DUAS NOTÍCIAS, DUAS IMAGENS DA MESMA INSTITUIÇÃO

O contraste não pode ser ignorado.

No dia 24, o promotor atuou em um julgamento referente a um crime ocorrido em abril de 2020. Uma mulher permaneceu durante mais de seis anos na condição de acusada para, somente no Tribunal do Júri, ser absolvida por negativa de participação.

No dia 25, o MPRS publicou um release apresentando uma sucessão de providências tomadas pelo mesmo promotor em outro caso: denúncia, requisições, investigação funcional e produção antecipada de provas.

Uma notícia mostra a demora concreta de um processo que atravessou mais de seis anos. A outra constrói a imagem institucional de atuação rápida, firme e protetiva.

As providências no caso das estudantes são necessárias. O problema não está em divulgá-las. O problema está em transformar atos que constituem obrigação funcional em peça de promoção institucional, sem oferecer ao público o contexto completo e sem responder pelas demoras observadas em outros processos da mesma comarca.

O texto oficial coloca o promotor no centro da narrativa. As vítimas aparecem como fundamento das medidas anunciadas, mas as perguntas sobre o funcionamento da rede de proteção, a eventual circulação do professor por diferentes escolas e o tempo decorrido desde o fato de 2019 continuam sem resposta.

A ATUAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO SE MEDE PELOS RESULTADOS, NÃO PELA PROPAGANDA

A atuação de um promotor não pode ser medida pela quantidade de notícias institucionais publicadas nem pela reprodução dessas notícias por veículos locais.

Ela precisa ser avaliada pelo conjunto do trabalho:

  • pelo tempo de tramitação dos procedimentos;

  • pela qualidade jurídica das denúncias;

  • pelo respeito ao devido processo legal;

  • pela proteção efetiva das vítimas;

  • pela ausência de nulidades;

  • pela capacidade de concluir investigações;

  • pela coerência entre acusações e provas;

  • e pelos resultados concretos entregues à sociedade.

Quando processos levam seis, oito ou mais anos para chegar ao julgamento, não basta divulgar no dia seguinte uma notícia cuidadosamente construída para transmitir eficiência.

Quando uma pessoa é mantida durante mais de seis anos como ré e termina absolvida por negativa de participação, é necessário perguntar quais elementos justificaram a permanência daquela acusação até o último momento.

Quando um fato envolvendo uma estudante remonta a 2019, é necessário esclarecer quando ele foi conhecido, quem tomou providências, quem permaneceu em silêncio e por quais escolas o servidor passou desde então.

Não se trata de reduzir a gravidade das acusações contra o professor. Muito menos de impedir a investigação. Ao contrário: justamente porque se trata de crianças e adolescentes, a apuração precisa ser completa, técnica, transparente e independente de interesses de imagem.

PROPAGANDA NÃO SUBSTITUI PRESTAÇÃO DE CONTAS

O Ministério Público dispõe de estrutura pública, assessoria de comunicação e espaço institucional para apresentar suas ações. A imprensa pode reproduzir esse conteúdo, mas precisa deixar claro ao leitor quando está apenas replicando a versão oficial — e quando realizou apuração própria.

Reproduzir integralmente um release do MPRS, sem contrapontos e sem investigar as lacunas existentes, produz um resultado evidente: fortalece a imagem do agente público escolhido como protagonista da notícia.

Não é possível afirmar, sem prova, qual foi a intenção pessoal de quem publicou. Mas é possível avaliar o efeito editorial da escolha: o leitor recebe a versão produzida pelo próprio órgão interessado em demonstrar eficiência, sem as perguntas que uma matéria jornalística independente deveria fazer.

    As duas notícias precisam ser lidas juntas.

De um lado, um júri realizado mais de seis anos depois do crime, com uma ré absolvida após atravessar todo esse período sob acusação.

Do outro, um release institucional publicado no dia seguinte, enumerando providências e projetando uma imagem de atuação imediata.

A sociedade não precisa de heróis produzidos por assessorias de comunicação. Precisa de instituições que funcionem, processos conduzidos dentro da lei, vítimas protegidas, acusações sustentadas por provas e respostas oferecidas em tempo razoável.

O Ministério Público não presta favor quando denuncia, requisita documentos ou pede a produção de provas. Está cumprindo sua obrigação.

E publicidade institucional, por mais bem redigida e reproduzida que seja, jamais poderá substituir transparência, eficiência e prestação de contas.

25/09/2026

QUANDO O JORNALISMO ENCONTRA O QUE O ESTADO NÃO VÊ


by Deise Brandão

Converso com todo mundo. No mercado, nas lojas, nas filas e nas ruas. É nesses lugares que as pessoas contam suas histórias — muitas vezes sem perceber que estão contando.

Recentemente, comecei uma conversa banal com uma senhora idosa. Falávamos sobre alimentação, rótulos e aquelas preocupações cotidianas que surgem diante de uma prateleira. Aos poucos, porém, percebi que havia nela uma tristeza muito maior do que o assunto permitia enxergar.

Ela tentava conversar normalmente, mas estava fechada, abatida, quase pedindo licença para existir.

Como sou naturalmente expansiva, permaneci ali por mais tempo. Escutei. Fiz algumas perguntas com cuidado. O que surgiu daquela conversa foram sinais preocupantes de controle familiar, gritos, ausência de liberdade e possível dependência patrimonial. Não tenho elementos para acusar ninguém nem transformar uma conversa casual numa conclusão definitiva. Mas também não consigo fingir que não ouvi.

E então aparece o dilema: o que fazer?

Uma intervenção precipitada pode piorar a vida de quem se pretende ajudar. Uma denúncia feita sem conhecer toda a situação pode retirar da pessoa idosa o pouco controle que ainda possui sobre a própria vida. Pode provocar represálias, rompimentos familiares ou encaminhamentos que ela não deseja.

Também não posso levá-la para minha casa e assumir uma responsabilidade que pertence à família, à rede de proteção e ao Estado.

É nesse momento que ser jornalista se torna complicado.

Não se trata de encontrar uma história triste, publicá-la e colher atenção. Isso seria fácil — e irresponsável. Jornalismo não é transformar a fragilidade alheia em espetáculo. Muito menos numa cidade pequena, onde dois ou três detalhes bastam para identificar alguém.

Todos os dias aparecem anúncios sobre programas, verbas, campanhas e estruturas destinadas à proteção dos idosos. Há autoridades, entidades e profissionais apresentando projetos e garantindo que existe uma grande rede de atendimento.

Mas quem encontra a senhora entristecida numa conversa comum sou eu.

É no mercado, na farmácia, na loja e na calçada que surgem as histórias que não chegam aos relatórios oficiais. A matéria-prima do jornalismo está ali: nas pessoas, no olhar, na mudança de voz, na frase interrompida e naquilo que alguém conta quando finalmente encontra quem escute.

Jornalista que permanece apenas dentro de uma redação pode analisar notícias, escrever colunas e comentar acontecimentos. Mas o jornalismo vivo está na rua. É lá que a realidade aparece antes de virar estatística.

O problema é que enxergar não significa automaticamente saber como agir.

Se eu publicar detalhes, posso expor essa senhora. Se fizer uma denúncia impensada, posso colocá-la em situação ainda mais vulnerável. Se me calar completamente, permaneço com a sensação de ter encontrado alguém que precisava de ajuda e ter seguido adiante.

Por isso, responsabilidade também é reconhecer limites.

Nem toda história que chega a um jornalista deve virar matéria. Algumas exigem silêncio, cuidado, acompanhamento e uma tentativa discreta de mostrar caminhos — sempre respeitando a vontade e a autonomia de quem está vivendo aquela situação.

O Estado anuncia que protege. A família afirma que cuida. Os relatórios apresentam números.

Enquanto isso, uma senhora desconhecida revela sua tristeza entre uma prateleira e outra, e uma jornalista volta para casa tentando descobrir como ajudá-la sem destruir o pouco que ainda lhe resta.

Essa parte nunca aparece nas campanhas oficiais.

24/09/2026

POR QUE IRÍAMOS DESEJAR QUE FOSSE VERDADE?

 

by Deise Brandão

Existe uma pergunta muito simples que os defensores de Luiz Inácio jamais respondem: por que pessoas normais, lúcidas e diretamente atingidas pelo que acontece no país desejariam inventar escândalos sobre o presidente da República?

Que vantagem teríamos nisso?

Por que alguém desejaria viver cercado por suspeitas, desmandos do Estado, abusos institucionais, contratos inexplicáveis, autoridades sem limites e escândalos que se sucedem antes mesmo que o anterior tenha sido compreendido?

Eu gostaria que tudo fosse mentira.

Gostaria de ter boas notícias para publicar. Gostaria de acreditar que o presidente trabalha pelo país, que as instituições funcionam, que o dinheiro público é respeitado e que as autoridades têm algum compromisso com os limites do próprio cargo.

Eu não ganho absolutamente nada quando uma denúncia se confirma. Ao contrário: perco um pouco mais da confiança no país em que vivo.

Durante muitos anos, um dos meus maiores prazeres como jornalista era preparar uma jarra melita de café preto e percorrer as notícias do dia. Eu lia, comparava versões, procurava informações e fazia um apanhado do que estava acontecendo no Brasil e no mundo.

Hoje, esse prazer desapareceu.

Vejo as manchetes e já não sei em quem acreditar. Não acredito imediatamente na acusação, mas também não acredito no desmentido oficial. Preciso procurar documentos, confrontar datas, identificar a origem da informação e descobrir o que foi omitido por cada lado.

Isso não é prazer jornalístico. É sobrevivência informativa.

Transformaram o noticiário numa guerra de versões em que a palavra “fake news” passou a servir como escudo universal. Em vez de responder ao fato, atacam quem pergunta. Em vez de apresentar documentos, acusam o mensageiro. Em vez de explicar a contradição, dizem que tudo é perseguição contra Luiz Inácio.

Evidentemente existem notícias falsas. Existem montagens, exageros, manchetes enganosas e acusações sem prova. Tudo isso precisa ser identificado e desmentido.

Mas não é possível classificar automaticamente como mentira toda informação inconveniente ao governo.

Questionar não é desejar que a denúncia seja verdadeira. Investigar não é torcer contra o país. Criticar Luiz Inácio não significa ter prazer na desgraça nacional.

Muito pelo contrário.

Queremos saber a verdade justamente porque somos nós que vivemos sob as decisões desse governo. Somos nós que pagamos os impostos, suportamos os abusos, financiamos as instituições e enfrentamos as consequências quando o Estado ultrapassa seus limites.

A pergunta, portanto, não deve ser por que tanta gente fala sobre os escândalos envolvendo o governo.  A pergunta correta é: por que surgem tantos fatos que precisam ser explicados — e por que qualquer tentativa de examiná-los é imediatamente chamada de fake news?

Não quero que as denúncias sejam verdadeiras. Quero que sejam seriamente investigadas.

Se forem falsas, que se mostre a falsidade com documentos e fatos. Se forem verdadeiras, que os responsáveis respondam por elas. O que não aceito é ser tratada como mentirosa simplesmente porque me recuso a acreditar cegamente.

Não inventamos um país pior por diversão. Estamos tentando compreender o país que colocaram diante de nós. E, sinceramente, eu preferia continuar tomando meu café e encontrando razões para acreditar no Brasil. Democrático. Justo. Livre. 

23/09/2026

ELIANA CALMON: ENTRE A CORAGEM DO DIAGNÓSTICO E OS LIMITES DA AÇÃO

 

by Deise Brandão

Eliana Calmon construiu uma imagem pública rara dentro da magistratura brasileira. Primeira mulher a ocupar uma cadeira no Superior Tribunal de Justiça, tornou-se nacionalmente conhecida durante sua passagem pela Corregedoria Nacional de Justiça, entre 2010 e 2012, quando afirmou que existiam “bandidos de toga” infiltrados no Judiciário.

A frase atravessou os anos e transformou Calmon em símbolo de enfrentamento ao corporativismo judicial. Para muita gente — inclusive para mim — ela representava a possibilidade de que alguém de dentro finalmente abrisse as portas, levantasse os tapetes e mostrasse o que o Judiciário escondia.

Sua gestão não foi inerte. A Corregedoria recebeu mais de dez mil procedimentos, realizou inspeções, examinou a evolução patrimonial de magistrados, instaurou processos disciplinares e promoveu afastamentos preventivos. Houve também aposentadorias compulsórias, entre elas a do desembargador Roberto Wider, ex-corregedor do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Não se pode, portanto, afirmar honestamente que Eliana Calmon nada fez.

Também é necessário reconhecer que ela não tinha poderes ilimitados. A corregedora podia investigar, propor a abertura de processos e recomendar punições, mas não decidia sozinha. Dependia do plenário do CNJ, enfrentava a resistência das associações de magistrados e ainda via procedimentos serem contestados no Supremo.

Além disso, naquela época, a punição administrativa máxima aplicável a magistrados era a aposentadoria compulsória com vencimentos proporcionais. Era a indecência legalmente instituída: descobria-se uma conduta incompatível com a magistratura, afastava-se o responsável e preservava-se sua remuneração.

A própria Eliana Calmon defendia punições mais severas. Nesse ponto, é preciso ser justo: ela não poderia aplicar uma pena que a legislação não autorizava.

O problema começa depois.

A imagem pública que permaneceu foi a da magistrada destemida, implacável e disposta a enfrentar qualquer integrante do sistema. Entretanto, quando se observa sua trajetória posterior, aparece uma personagem mais contraditória.

Em 2014, depois de deixar o STJ, Calmon ingressou na política, filiou-se ao PSB, candidatou-se ao Senado pela Bahia e, no segundo turno, apoiou Aécio Neves contra Dilma Rousseff. Não se elegeu e voltou à condição de comentarista privilegiada das crises nacionais.

Em 2017, afirmou que a Operação Lava Jato precisava alcançar o Poder Judiciário. Dizia estranhar que Executivo e Legislativo fossem atingidos enquanto juízes e tribunais permaneciam na sombra. Chegou a prever que a Lava Jato alcançaria a magistratura em um “segundo momento”.

Esse segundo momento nunca chegou como ela previa.

Na mesma entrevista, Calmon elogiou a indicação de Alexandre de Moraes ao Supremo. Disse conhecê-lo, chamou-o de jovem, talentoso e brilhante intelectualmente e afirmou ter gostado de sua escolha para a vaga de Teori Zavascki.

Hoje, é justamente Moraes quem ocupa o centro das críticas de Eliana Calmon.

Em 2019, ela apoiou a ideia de investigar os tribunais superiores, mas declarou que a CPI da Lava Toga dificilmente avançaria porque muitos senadores e deputados estariam “nas mãos do STF”, em razão dos processos que tramitavam contra eles. Mais uma vez, o diagnóstico era grave. Mais uma vez, nenhuma consequência concreta apareceu.

Nos últimos anos, Calmon voltou a criticar os poderes excessivos do Supremo, o inquérito das fake news, as decisões de Alexandre de Moraes e a desorganização institucional do país. Agora, diante das informações que relacionam Moraes a Daniel Vorcaro e ao Banco Master, inicialmente defendeu uma investigação séria.

Depois da sessão tumultuada do STF, porém, recuou para a perplexidade.

Disse estar “profundamente confusa”. Afirmou que uma investigação poderia “implodir a República”, atingir o Congresso e a Presidência e até prejudicar as eleições. Ao mesmo tempo, declarou que o Supremo perdeu a credibilidade, que as instituições estão esfaceladas e que os “bandidos de toga” agora estariam dentro da própria Corte.

É aqui que surge a verdadeira incongruência.

Se existem fatos suficientemente graves para implodir a República, a investigação não se torna menos necessária. Torna-se ainda mais urgente.

A possibilidade de alcançar ministros, parlamentares, integrantes do governo ou a Presidência não pode ser utilizada como argumento para temer a apuração. Preservar instituições não significa ocultar aquilo que pode comprometê-las. Uma instituição não é protegida quando seus integrantes são poupados; é protegida quando consegue investigar e responsabilizar os próprios membros.

Eliana Calmon passou anos dizendo que o Judiciário precisava ser investigado. Disse que a Lava Jato deveria chegar aos tribunais. Apoiou a Lava Toga. Denunciou o corporativismo. Defendeu punições mais duras. Alertou que pessoas desonestas encontravam na magistratura um ambiente protegido contra investigações.

Agora, quando uma apuração pode finalmente alcançar o coração do Supremo e espalhar-se pelas demais instituições, ela teme que a República não suporte a verdade.

Talvez seja exatamente essa a pergunta que Eliana Calmon deva responder: para que serviram tantos anos denunciando os “bandidos de toga” se, no momento em que a investigação pode efetivamente alcançá-los, o tamanho do escândalo passa a ser motivo para hesitação?

Não se trata de apagar sua trajetória nem de negar a coragem que demonstrou quando enfrentou o corporativismo judicial. Trata-se de separar a mulher real da imagem pública construída ao redor dela.

Eliana Calmon sempre foi muito mais contundente no diagnóstico do que efetiva na transformação do sistema. Parte disso decorreu dos limites do cargo, da legislação e da resistência institucional. Outra parte, porém, pertence às escolhas, aos recuos e aos silêncios da própria magistrada.

Ela identificou a doença antes de muitos. Falou sobre ela com clareza e coragem. Mas a história não pode se contentar eternamente com diagnósticos.

Chega um momento em que é preciso tratar o paciente — ainda que a verdade faça a República tremer.

O SILÊNCIO COMPROMETEDOR DE RICARDO LEWANDOWSKI

 

by Deise Brandão

Durante anos, Ricardo Lewandowski ocupou alguns dos cargos mais importantes da República. Foi ministro e presidente do Supremo Tribunal Federal, comandou o julgamento do impeachment de Dilma Rousseff e, depois de se aposentar antecipadamente da Corte, tornou-se ministro da Justiça do governo Lula.

Em janeiro de 2026, deixou o ministério alegando razões pessoais e familiares. Saiu discretamente e recolheu-se. O problema é que os fatos não se recolheram com ele.

Entre a aposentadoria do STF e a entrada no governo LULA, Lewandowski atuou como advogado do Banco Master. Posteriormente, o escritório de seu filho, Enrique Lewandowski, também manteve contrato com o banco de Daniel Vorcaro.

Agora, mensagens obtidas pela Polícia Federal e divulgadas pela imprensa indicam que Vorcaro pediu ao então diretor jurídico do Master que entregasse “algum caso ou parecer” ao filho de Lewandowski para justificar o contrato existente.

A frase é devastadora porque inverte a lógica normal de uma contratação profissional. Primeiro existiria o contrato; depois seria necessário encontrar algum trabalho capaz de justificá-lo.

Na época dessas mensagens, Ricardo Lewandowski não era apenas um ministro aposentado. Era o ministro da Justiça e Segurança Pública, autoridade máxima da estrutura política sob a qual atua a Polícia Federal.

Não se pode atribuir automaticamente ao pai um contrato firmado pelo escritório do filho. Também não se pode condenar ninguém com base apenas em mensagens de terceiros. Mas é indispensável esclarecer quando começou a relação do escritório com o banco, quais serviços foram efetivamente prestados, quanto foi pago, quais pareceres foram produzidos e por que Vorcaro falava em conseguir algum trabalho para “justificar” a contratação.

O escritório de Enrique afirma que prestava consultoria nas áreas fiscal e tributária. É uma resposta formal. Não é, porém, uma explicação suficiente para a conversa atribuída ao banqueiro.

E Ricardo Lewandowski permanece em silêncio.

O mesmo homem que passou décadas falando sobre Constituição, democracia, legalidade e instituições parece não encontrar palavras quando a questão alcança sua própria relação profissional e familiar com o Banco Master.

Lewandowski deixou o Supremo, passou pelo escritório que atendia Vorcaro, assumiu o Ministério da Justiça, saiu do governo e desapareceu do debate público justamente quando começaram a surgir as perguntas mais incômodas.

Seu paradeiro é conhecido. O que ainda não apareceu foi a explicação.

Em determinadas circunstâncias, o silêncio pode ser prudência. Quando envolve um ex-presidente do STF, um ex-ministro da Justiça, contratos familiares e um banqueiro investigado, porém, o silêncio deixa de ser simples reserva pessoal.

Torna-se um fato político.

21/09/2026

DOIS IRMÃOS: QUANDO NÃO FOI MAIS POSSÍVEL ABAFAR

by Deise Brandão

Dois Irmãos vive uma das mais graves crises institucionais e morais de sua história recente. Institucional porque um caso envolvendo possíveis crimes sexuais contra meninas dentro de uma escola municipal atravessa diferentes órgãos públicos e levanta dúvidas sobre quem sabia, desde quando sabia e o que fez depois de saber. Moral porque a estrutura encarregada de proteger crianças e adolescentes permaneceu em silêncio enquanto o professor investigado continuava vinculado à rede municipal e ocupando a presidência do Conselho Municipal de Educação.

A indignação da população não se dirige apenas ao professor investigado. Ela alcança a escola, a Secretaria de Educação, a Prefeitura e todos os órgãos que tinham o dever de proteger as estudantes. As pessoas querem saber como uma situação dessa gravidade pôde permanecer longe do conhecimento da comunidade enquanto o professor continuava ligado à rede municipal e ocupando a presidência do órgão responsável por discutir e fiscalizar a educação da cidade.

Não foi uma denúncia surgida ontem. Não foi um caso que apareceu repentinamente em setembro. A Polícia Civil confirma que a investigação começou em julho, depois que a mãe de uma aluna procurou a delegacia e relatou episódios de natureza sexual praticados por um professor dentro de uma escola municipal. Quando o investigado foi preso, outras possíveis vítimas já haviam sido identificadas. Hoje são dez meninas ouvidas, com idades entre 13 e 14 anos. Há relatos de condutas que teriam ocorrido durante mais de dez anos e até a informação sobre uma possível vítima de 2002.

Portanto, as autoridades sabiam.

Sabia a Polícia Civil, que investigava desde julho. Sabia a Prefeitura, porque o próprio prefeito admitiu que a Administração tomou conhecimento do relato, acolheu a família, orientou a procura dos órgãos de proteção e abriu uma apuração administrativa antes da prisão preventiva. Sabia a Secretaria Municipal de Educação, porque o caso envolvia um professor da rede e fatos ocorridos dentro de uma escola municipal.

E o Ministério Público? E o Juízo? Estamos falando da mesma cidade, do mesmo Executivo, do mesmo sistema de Justiça e do mesmo promotor que há anos atua nos assuntos locais. Estamos falando de uma estrutura na qual Polícia Civil, Conselho Tutelar, Secretaria de Educação, Prefeitura, Ministério Público e Poder Judiciário não são ilhas incomunicáveis. Principalmente quando a denúncia envolve possível violência sexual contra meninas de 13 anos dentro de uma escola pública.

A prisão preventiva foi decretada pela Justiça em 8 de setembro e executada no dia seguinte. Isso significa que, antes da prisão, o caso já havia ultrapassado as paredes da delegacia e chegado formalmente ao Poder Judiciário. A investigação não apareceu no sistema somente quando o inquérito concluído foi remetido à Justiça, em 18 de setembro. A ordem de prisão já existia dez dias antes.

A pergunta, portanto, não é se as instituições sabiam. A pergunta é: desde quando cada uma sabia e o que fez enquanto sabia?

Onde estão os ofícios encaminhados ao Conselho Tutelar? Em que data o Ministério Público foi comunicado? Quando a Prefeitura recebeu o primeiro relato? Qual é o número da sindicância? Em que data ela foi instaurada? Quem decidiu manter o professor em suas funções? Quem permitiu que ele continuasse ocupando a presidência do Conselho Municipal de Educação? Que medidas foram tomadas para impedir seu contato com outras estudantes? Quantas meninas continuaram expostas enquanto as autoridades tratavam o caso silenciosamente?

O professor não ocupava apenas uma sala de aula. Ele presidia o Conselho Municipal de Educação, órgão integrado à estrutura educacional do Município. Mesmo preso desde 9 de setembro, seu afastamento da presidência somente foi anunciado na semana seguinte. A secretária municipal de Educação pediu exoneração em 17 de setembro, quando o caso já havia rompido o silêncio institucional e provocado indignação pública.

É difícil olhar para essa sequência e enxergar simples desorganização.

Durante aproximadamente dois meses, o caso permaneceu longe do conhecimento da comunidade. Não houve transparência sobre o risco existente dentro da escola. Não foram divulgadas as datas das comunicações entre os órgãos. Não se informou quando o professor foi efetivamente retirado do contato com as alunas. Não apareceu portaria de sindicância, protocolo encaminhado ao Ministério Público, comunicação ao Conselho Tutelar ou explicação sobre a permanência do investigado em cargo de tamanha influência.

Quando a prisão tornou impossível esconder a gravidade da situação, começaram as providências visíveis: nota oficial, pronunciamento do prefeito, afastamento do Conselho, exoneração da secretária e promessas de apuração.

É o problema da verdade: pode ser atrasada, cercada, controlada e escondida durante algum tempo, mas, quando surgem dez vítimas, quarenta pessoas ouvidas e uma prisão preventiva, já não cabe dentro dos gabinetes.

A população compreendeu isso. Por esse motivo foi para as ruas exigir justiça, transparência e segurança. Os pais não protestaram apenas contra um professor. Protestaram contra um sistema que sabia muito mais do que contou e que somente começou a se explicar quando o silêncio se tornou insustentável.

A reação popular também revelou outro mecanismo conhecido em Dois Irmãos: quando a crise explode, o poder procura alguém para entregar à opinião pública. A secretária que durante décadas serviu ao Município e ocupava a pasta desde 2018 pediu exoneração e, de uma hora para outra, tornou-se indesejável. Foi atacada por adversários, desafetos, companheiros de partido e também por pessoas que passaram anos beneficiadas pela mesma estrutura política.

Cada um tratou de garantir o seu lugar.

Quem permaneceu no poder afastou de si a responsabilidade. Quem durante anos orbitou a Administração começou a agir como se nunca tivesse participado dela. Quem elogiava passou a evitar contato. A secretária deixou de ser útil e passou a representar risco político. Transformou-se na pessoa que ninguém quer por perto, como se sua saída fosse capaz de apagar a responsabilidade coletiva de toda uma rede institucional.

Mas uma secretária não administra sozinha. Um professor não permanece durante décadas dentro da rede pública sem chefias, direções, colegas, conselhos, avaliações e supervisão. Uma denúncia contra um servidor municipal não atravessa Polícia Civil, Prefeitura, Secretaria de Educação, Conselho Tutelar, Ministério Público e Judiciário sem deixar registros.

Não basta sacrificar uma pessoa e preservar todo o restante da estrutura.

Se houve omissão, a responsabilidade precisa alcançar quem recebeu o primeiro relato; quem deixou de comunicar; quem foi comunicado e não agiu; quem decidiu não afastar; quem preservou o cargo; quem controlou a informação; quem esperou a prisão para se manifestar; e quem agora tenta apresentar a exoneração da secretária como solução para uma falha que envolve várias instituições. 

A responsabilidade também alcança a sociedade.

Durante anos, Dois Irmãos foi construída politicamente pelo voto, pelo silêncio e pela conveniência de seus próprios habitantes. Os grupos que permanecem no poder não chegaram lá sozinhos. Foram eleitos, reeleitos, protegidos e tratados como proprietários naturais da cidade. Muita gente percebe irregularidades, mas permanece calada por medo de perder emprego, contrato, amizade, convite, cliente, acesso à Prefeitura ou aceitação social.

Outros se calam por medo de serem “cancelados”.

O resultado é uma cidade na qual todos comentam reservadamente, mas poucos falam quando ainda seria possível impedir o dano. Depois que o escândalo explode, aparecem a indignação, as notas públicas, os afastamentos, os rompimentos políticos e as tentativas de reescrever a própria participação.

O silêncio social não é neutro. Ele protege quem já está protegido e deixa as vítimas sozinhas.

Isso não significa antecipar a condenação criminal do professor, cuja defesa nega integralmente as acusações. A culpa penal será decidida no processo. Mas a obrigação de proteger crianças e adolescentes nasce com a suspeita, não com a sentença definitiva. A Administração não precisava esperar uma condenação para afastar preventivamente um servidor do contato com possíveis vítimas. A rede de proteção não precisava aguardar dez meninas para compreender a gravidade da primeira denúncia.

A investigação criminal responderá pelo que o professor teria feito. Outra apuração, igualmente necessária, precisa responder pelo que as instituições fizeram — ou deixaram de fazer — depois que souberam.

Dois Irmãos não precisa apenas descobrir se houve crimes sexuais dentro de uma escola. Precisa descobrir quem tentou manter o caso sob controle, quem permitiu que o silêncio se prolongasse e por que as providências públicas somente apareceram quando já não era mais possível esconder o que estava acontecendo.

A exoneração de uma secretária não encerra essa história. A prisão de um professor também não absolve o sistema. Se todos sabiam, todos devem explicar o que fizeram enquanto sabiam.

Ao final, resta uma cidade de faz de conta, preocupada sobretudo em preservar a imagem de um “doce de cidade”: bonita, organizada e aparentemente segura.

A mesma encenação aparece na suposta rede de apoio às mulheres vítimas de violência. No papel, existem serviços, protocolos e proteção. Na prática, não existe rede alguma. O papel aceita qualquer coisa. O Conselho Tutelar segue a mesma cartilha. 

Cidade segura não é aquela que esconde seus problemas. É aquela que protege as vítimas antes que o escândalo se torne público. Enquanto Dois Irmãos preferir preservar a fachada, continuará sendo um doce de cidade por fora — e uma cidade de faz de conta por dentro.

Em uma cidade onde todos são parentes, amigos ou aliados de todos, os vínculos pessoais frequentemente falam mais alto do que o dever público. São amigos no silêncio, na negligência, no abuso e no descaso.

Funciona enquanto a vítima permanece sozinha, a família sente medo e a sociedade se cala para não ser cancelada.

Até a casa cair.


O PROBLEMA DE ALEXANDRE DE MORAES NÃO É O PORTUGUÊS. SÃO OS FATOS QUE ELE NÃO CONSEGUE EXPLICAR

 

by Deise Brandão

Circula uma crítica à manifestação apresentada por Alexandre de Moraes no caso Banco Master. O texto menciona dezenas de erros de pontuação, ortografia, concordância e regência nas 44 páginas encaminhadas ao Supremo.

Pode até haver um massacre à língua portuguesa. Mas esse é o menor dos problemas.

Alexandre de Moraes não precisa ser investigado por “assassinar infinitivos”. Precisa explicar sua participação na análise de um contrato milionário firmado pelo escritório de sua esposa com Daniel Vorcaro; os encontros privados com o banqueiro; as viagens em aeronaves ligadas a ele; as mensagens que a Polícia Federal atribuiu ao ministro; e a tentativa de transformar uma apuração sobre esses fatos numa disputa pessoal contra o ministro André Mendonça.

Reduzir o caso à gramática é oferecer a Moraes uma rota de fuga. O escândalo não está nas vírgulas. Está nos documentos.

O QUE É VERDADE E O QUE FOI EXAGERADO

A afirmação de que Moraes permaneceu 192 dias em silêncio depois da revelação das mensagens é falsa.

Em 6 de março de 2026, a Secretaria de Comunicação do STF divulgou, a pedido do gabinete do ministro, uma nota negando que as comunicações encontradas no telefone de Daniel Vorcaro tivessem sido dirigidas a ele. Moraes classificou a acusação como uma “ilação mentirosa” destinada a atacar o Supremo. GZH

Isso precisa ser dito porque uma matéria que pretende exigir explicações de uma autoridade não pode começar inventando o silêncio que ela não manteve.

Mas a existência daquela nota está longe de encerrar o caso. Ao contrário: o relatório posterior da Polícia Federal atribuiu a Moraes a condição de interlocutor de Vorcaro, apresentou uma cronologia de contatos e identificou elementos que contradizem a negativa inicial.

Portanto, a pergunta não é por que Moraes ficou calado.

A pergunta é: por que sua primeira versão não parece compatível com as evidências reunidas posteriormente pela Polícia Federal?

O CONTRATO DE R$ 131 MILHÕES EXISTE

Em janeiro de 2024, o Banco Master firmou contrato com o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

O acordo previa 36 pagamentos mensais de R$ 3 milhões líquidos — R$ 108 milhões — aos quais seriam acrescidos os tributos. Daí o valor global aproximado de R$ 131 milhões.

Não se tratava, portanto, de uma estimativa inventada pela oposição nem de um número produzido nas redes sociais. O contrato existe.

O objeto era amplo. Incluía consultoria estratégica e atuação sobre temas relacionados ao Banco Central, ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica e à Polícia Federal. Até a interrupção dos pagamentos, documentos fiscais indicam que o escritório recebeu aproximadamente R$ 80,2 milhões. A banca contesta a forma pela qual os dados tributários foram divulgados, mas afirma que os serviços foram efetivamente prestados. UOL

A advocacia é uma atividade privada, e a esposa de um ministro não perde o direito de trabalhar. Essa constatação elementar, entretanto, não elimina a obrigação de transparência diante de um contrato dessa magnitude celebrado com um banqueiro que mantinha relações com autoridades, procurava influência nos tribunais e acabou preso numa investigação sobre fraudes bilionárias.

R$ 3 milhões líquidos por mês não são honorários que possam ser escondidos atrás da expressão “atividade profissional regular” e esquecidos.

É necessário demonstrar quais serviços foram prestados, por quem, em quais processos, mediante quais pareceres e com quais resultados.

MORAES PARTICIPOU DA ANÁLISE DA MINUTA

O envolvimento de Alexandre de Moraes não se limita ao fato de ser marido da titular do escritório.

Os metadados extraídos do telefone de Vorcaro indicam que a versão final da minuta foi editada, em 15 de janeiro de 2024, por um perfil do Microsoft Office identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. O arquivo teria sido alterado às 23h04, aproximadamente uma hora e quarenta minutos depois de Vorcaro devolver o documento com observações.

O escritório de Viviane confirmou que Moraes foi consultado. Segundo a banca, o setor de compliance pediu que ele verificasse a existência de eventuais impedimentos legais, pois o contrato não previa atuação perante o STF e o ministro nunca julgara causa envolvendo o Banco Master.

A explicação confirma o fato central: Alexandre de Moraes participou da análise do contrato milionário firmado entre o escritório da própria esposa e Daniel Vorcaro.

Pode-se discutir a extensão das alterações feitas no arquivo. Não se pode mais sustentar que ele fosse completamente alheio ao negócio.

E surge uma questão desconfortável: desde quando o marido de uma sócia-diretora — justamente ministro do Supremo — funciona como consultor informal de compliance do escritório num contrato de R$ 131 milhões?

Se sua participação era perfeitamente regular, por que não foi revelada desde o início? Por que precisou ser descoberta por meio dos metadados de um documento apreendido no telefone do banqueiro?

OS ENCONTROS NÃO FORAM CASUAIS NEM ISOLADOS

A Polícia Federal identificou mensagens e registros que sugerem pelo menos seis encontros entre Moraes e Vorcaro a partir de 2023.

A cronologia inclui almoço em Campos do Jordão, jantar articulado pelo ex-ministro Fábio Faria, referências à chegada de Moraes a encontros com Vorcaro e mensagens nas quais o banqueiro informava terceiros de que estava com o ministro.

Em março de 2025, Vorcaro escreveu ao então diretor de Fiscalização do Banco Central que Moraes “vai chamar o Paulo para dar um aperto”. A frase é de Vorcaro e não prova que o ministro tenha efetivamente pressionado alguém. Mas exige esclarecimento.

Por que um banqueiro que pagava milhões ao escritório da esposa de um ministro acreditava poder anunciar que esse ministro daria um “aperto” numa autoridade?

Era bravata de Vorcaro? Ostentação de prestígio? Ou ele possuía razões para acreditar que poderia contar com a intervenção?

Não cabe escolher a resposta mais confortável. Cabe investigar.

A própria Folha advertiu que nem todos os encontros mencionados nas mensagens puderam ser confirmados de forma independente. Ainda assim, os documentos revelam uma relação muito mais próxima do que um contato institucional esporádico. 

AS AERONAVES E A NEGAÇÃO DESMENTIDA PELO VÍDEO

Em abril de 2026, o gabinete de Moraes afirmou que ele jamais havia viajado em avião de Daniel Vorcaro.

Em setembro, apareceu um vídeo mostrando Moraes e Viviane desembarcando, em agosto de 2025, de uma aeronave ligada ao banqueiro.

Diante da imagem, o escritório apresentou uma nova explicação: teria contratado serviços regulares de táxi aéreo da Prime Aviation, empresa associada a Vorcaro; o ministro apenas acompanhou a esposa em algumas viagens; e o banqueiro nunca esteve a bordo com eles. UOL

Pode ser verdade que os voos tenham sido pagos regularmente. A banca pode apresentar notas fiscais, contratos, datas, valores e comprovantes de pagamento.

O que já não se sustenta é a negativa absoluta de que Moraes tenha viajado em aeronave ligada a Vorcaro. A imagem existe.

Quando a primeira versão é desmentida por um vídeo, não basta substituí-la por outra nota. É preciso exibir os documentos capazes de comprovar a nova narrativa.

O SEGUNDO CONTRATO E A PROPOSTA ENVOLVENDO AERONAVES

A Polícia Federal também encontrou minutas de um segundo acordo, no valor de R$ 50 milhões.

A proposta previa que R$ 40 milhões fossem pagos por meio de cotas de um jatinho e de um helicóptero, além de R$ 10 milhões destinados às despesas dos voos. O escritório afirma que a proposta não foi aceita e que o segundo contrato jamais foi assinado.

Essa negativa também deve ser registrada. Mas o simples fato de uma negociação com esse formato ter chegado ao ponto de produzir minutas demonstra o grau de proximidade comercial entre Vorcaro e a banca da esposa do ministro.

Não estamos falando de uma passagem aérea ocasional comprada no mercado. Estamos falando de uma proposta que associava dezenas de milhões de reais, serviços jurídicos e participação em aeronaves.

AS MENSAGENS ANTES DA PRISÃO

O ponto mais grave está nas comunicações recuperadas pela Polícia Federal.

Dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou ao interlocutor identificado pela PF como Alexandre de Moraes:

“Acha que segunda já tenho que estar fora?”

No dia da prisão, escreveu:

“Conseguiu ter notícia ou bloquear?”

Também perguntou se seria possível “reverter” o avanço da investigação e mencionou nominalmente autoridades, entre elas o diretor-geral da Polícia Federal e o presidente do Banco Central.

Segundo os investigadores, o conteúdo sugere que Moraes poderia ter repassado informações sensíveis sobre a Operação Compliance Zero, inclusive datas e horários de diligências. Essa é uma conclusão policial, ainda não uma condenação judicial.

As respostas do interlocutor não foram integralmente recuperadas porque a comunicação utilizava imagens de visualização única. Permaneceram no aparelho os textos preparados e enviados por Vorcaro.

Esse detalhe impede que se trate o conteúdo como prova definitiva de toda a conversa. Não impede a investigação.

Moraes nega ter recebido as mensagens e chama o relatório de “farsa”. A PF, depois de analisar novos elementos, manteve a identificação do ministro como interlocutor.

É justamente para resolver contradições desse tamanho que existem inquéritos.

Não cabe ao próprio suspeito declarar a investigação inválida e considerar o problema encerrado.

EM VEZ DE RESPONDER AOS FATOS, MORAES ATACOU O PROCEDIMENTO

Quando o material chegou ao Supremo, Moraes concentrou sua reação na nulidade da apuração conduzida sob a relatoria de André Mendonça.

A Procuradoria-Geral da República também sustentou que Mendonça não poderia determinar diligências envolvendo um ministro do STF sem a observância da competência do Plenário. Existe, portanto, uma controvérsia processual real, e não se pode fingir que ela foi inventada por Moraes.

Mas nulidade processual não transforma fatos em ficção.

Ainda que o Supremo conclua que Mendonça adotou um procedimento inadequado, permanecerão existentes:

  • o contrato de aproximadamente R$ 131 milhões;
  • os cerca de R$ 80,2 milhões apontados como pagos;
  • a participação de Moraes na análise da minuta;
  • os encontros mencionados nas mensagens;
  • o vídeo da viagem em aeronave ligada a Vorcaro;
  • a negociação não concretizada de um segundo contrato;
  • e as comunicações que a Polícia Federal atribuiu ao ministro.

Anular um procedimento não apaga documentos. Apenas obriga que sejam examinados pela autoridade competente.

A SESSÃO DOS “IRMÃOS EM TOGA”

Em 15 de setembro, o STF reuniu-se para discutir o destino da apuração. O resultado foi um espetáculo de corporativismo, hostilidade e confusão.

Moraes acusou André Mendonça de agir por motivação política. Mendonça respondeu que a afirmação era mentira. Gilmar Mendes atacou Mendonça e defendeu a reunião dos casos. Flávio Dino confrontou Edson Fachin e pediu vista, suspendendo a discussão por até 90 dias.

O placar parcial ficou em 4 a 3 contra a unificação das apurações envolvendo Moraes e Mendonça. Antes que o mérito fosse resolvido, o caso entrou na geladeira processual. 

O país assistiu a ministros discutindo quem poderia investigar quem, enquanto os fatos principais permaneciam sem resposta.

Esse é o defeito estrutural do Supremo: seus integrantes são julgadores, administradores da própria Corte e, quando necessário, protetores ou investigadores uns dos outros. O sistema foi construído de modo que a toga examine a própria toga.

AGORA, MORAES É RELATOR DE UM CASO QUE ENVOLVE A PRÓPRIA ESPOSA

O absurdo ganhou um novo capítulo.

Alexandre de Moraes foi sorteado relator de uma ação que busca acesso aos registros de entrada de sua própria esposa e de Daniel Vorcaro no Senado. O pedido pretende saber se eles estiveram em gabinetes de senadores entre 2019 e 2026.

O sorteio pode ter sido automático. A distribuição impessoal não elimina o conflito posterior.

Moraes não pode decidir sobre a divulgação de registros relacionados à própria esposa e ao banqueiro que contratou o escritório dela. O afastamento deveria ser imediato, espontâneo e indiscutível. 

Se permanecer no caso, o escândalo deixará de ser apenas o conteúdo dos documentos. Passará a ser também a recusa em reconhecer o impedimento mais evidente.

NÃO É SOBRE A ESPOSA TRABALHAR

Sempre que surge um caso dessa natureza, aparece o argumento infantil de que as esposas dos ministros têm direito a exercer suas profissões.

Naturalmente têm.

O problema não é Viviane Barci ser advogada. O problema é o escritório comandado por ela receber dezenas de milhões de reais de um banqueiro com trânsito entre autoridades; seu marido participar da análise do contrato; surgirem registros de encontros privados; o casal viajar em aeronaves ligadas ao cliente; e o banqueiro procurar o ministro quando a Polícia Federal se aproximava.

Transformar essa sequência numa discussão sobre o direito feminino ao trabalho é utilizar uma causa legítima para impedir perguntas legítimas.

Viviane tem o direito de advogar. A sociedade tem o direito de saber exatamente quais serviços justificaram honorários dessa dimensão e se as relações do escritório interferiram — ou pareceram interferir — no exercício da função pública de seu marido.

O PROBLEMA NÃO SÃO AS VÍRGULAS

Alexandre de Moraes pode ter escrito uma petição ruim. Pode ter assassinado infinitivos, atropelado concordâncias e produzido parágrafos incompreensíveis.

Nada disso se compara ao que precisa ser esclarecido.O centro do caso não é a incapacidade de escrever.

 É a dificuldade de prestar contas.

Moraes construiu sua imagem como autoridade implacável: determina buscas, prisões, bloqueios, quebras de sigilo e remoção de conteúdos; exige explicações; fixa prazos; pune resistências; e raramente demonstra tolerância diante daqueles que considera suspeitos de obstruir investigações.

Agora que os questionamentos chegaram à sua porta, porém, a prioridade passou a ser discutir a nulidade da apuração, a competência do relator, as intenções políticas de André Mendonça e a preservação do próprio Supremo.

O rigor aplicado aos outros foi substituído pela procura de uma saída processual.

DEMOCRACIA TAMBÉM SIGNIFICA INVESTIGAR MINISTROS

Investigar Alexandre de Moraes não significa condená-lo antecipadamente. Significa reconhecer que nenhum ministro pode ser proprietário da verdade sobre a própria conduta.

A investigação deve ser conduzida por autoridade competente, com contraditório, acesso integral aos elementos e respeito às garantias que Moraes costuma invocar quando lhe convém — e restringir quando julga os demais.

Se os serviços foram prestados, que sejam apresentados. Se os voos foram pagos, que sejam exibidos os comprovantes. Se os encontros eram institucionais ou sociais, que sejam informados com datas e participantes. Se as mensagens não foram destinadas a Moraes, que uma perícia independente demonstre quem era o verdadeiro interlocutor. Se os metadados não revelam sua participação material no contrato, que especialistas expliquem tecnicamente por que seu perfil aparece como responsável pelas últimas alterações.

O que não é aceitável é que o Supremo transforme a necessidade de esclarecimento numa guerra entre ministros e permita que um pedido de vista enterre o assunto até que a opinião pública se canse.

Alexandre de Moraes não está acima da Constituição porque afirma defendê-la. Não está dispensado de transparência porque enfrentou Bolsonaro. Não se torna imune à investigação porque recebeu ameaças. E não pode, muito menos deve, utilizar a importância institucional do STF como esconderijo pessoal. O problema não é a pontuação de sua defesa.

É o ponto de interrogação gigantesco colocado sobre sua conduta.

E ele não desaparecerá com uma nota, uma nulidade ou mais um pedido de vista.

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by Deise Brandão Projeto arquivado em 2008 é ressuscitado como “ameaça atual” em 2026 — e ainda atribui ao Estado um poder que ele nunca te...

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