19/09/2026

FLÁVIO DINO: A MEMÓRIA QUE PARTE DO JORNALISMO PARECE TER PERDIDO



by Deise Brandão

Você provavelmente conhece o Flávio Dino de hoje.

Ministro do Supremo Tribunal Federal, personagem central dos embates que sacodem a Corte, ex-ministro da Justiça e presença frequente nas análises de jornalistas que explicam suas decisões, defendem suas posições e o apresentam como contraponto aos demais protagonistas da crise institucional instalada no país.

Mas talvez esteja faltando um pedaço considerável dessa história.

O Flávio Dino que hoje julga investigações, participa de decisões envolvendo a Polícia Federal e interfere em questões relacionadas a autoridades com foro privilegiado é o mesmo Flávio Dino que, antes da toga, permaneceu muitos anos na política. Foi deputado federal, governou o Maranhão por dois mandatos, elegeu-se senador e ocupou o Ministério da Justiça no governo Lula.

Foi também durante essa trajetória que seu próprio nome apareceu em uma investigação originada nas delações da Odebrecht, enquanto sua administração estadual foi alcançada por sucessivas operações da Polícia Federal relacionadas a suspeitas de fraudes e desvios milionários na Saúde.

Isso não significa que Flávio Dino tenha sido condenado por corrupção. Não foi.

A investigação relacionada à Odebrecht foi arquivada por insuficiência de provas. Da mesma forma, não se pode atribuir automaticamente ao governador todos os crimes investigados dentro da estrutura administrativa do estado que governava.

Mas existe uma distância enorme entre reconhecer essas duas circunstâncias e simplesmente apagar os episódios da biografia de um homem que hoje ocupa uma das onze cadeiras do Supremo Tribunal Federal.

É justamente aí que esta história se torna relevante.

Não apenas por Flávio Dino, mas pelo jornalismo que hoje o cerca. Quem acompanha os acontecimentos atuais pode ter a impressão de que estamos diante apenas de um ministro do STF discutindo Polícia Federal, investigações, corrupção, competências e limites institucionais.

Só que existe uma história anterior à toga.

Essa história foi manchete, mobilizou Polícia Federal, Controladoria-Geral da União, Ministério Público e Poder Judiciário. Envolveu delação premiada, prisões, suspeitas de funcionários fantasmas, contratos com entidades do terceiro setor, apreensão de dinheiro em espécie, bloqueios milionários e integrantes da administração estadual investigados.

Curiosamente, quase nada disso acompanha Flávio Dino quando ele é apresentado ao público hoje.

Vale, portanto, voltar alguns anos. Não para condená-lo pelo que não foi provado, mas para fazer algo muito mais elementar: lembrar quem é o personagem inteiro antes de aceitar uma narrativa que começa somente no dia em que ele vestiu a toga.

A acusação feita por um executivo da Odebrecht

Em 2017, o nome de Flávio Dino apareceu nas delações da Odebrecht.

José de Carvalho Filho, ex-executivo da empreiteira, afirmou em colaboração premiada que teriam sido destinados R$ 400 mil à campanha de Dino ao governo do Maranhão em 2010, por meio de caixa dois.

Segundo o delator, a Odebrecht possuía interesse em um projeto legislativo que lhe proporcionaria segurança jurídica para investimentos internacionais. Na época, Dino exercia o mandato de deputado federal e havia atuado como relator da matéria na Comissão de Constituição e Justiça.

Dino negou a acusação. Sustentou que jamais recebeu recursos ilegais e afirmou que, embora tivesse sido relator, não apresentou parecer favorável ao projeto de interesse da empreiteira.

O ponto jurídico decisivo é que a investigação foi posteriormente arquivada pelo Superior Tribunal de Justiça por falta de elementos suficientes para seu prosseguimento.

Portanto, a história correta contém todas essas partes: Flávio Dino foi diretamente acusado por um delator da Odebrecht; a acusação foi investigada; Dino negou ter recebido o dinheiro; e a apuração foi arquivada por insuficiência de provas.

Não houve condenação.

Mas também não é verdade que o episódio nunca tenha existido.

Uma imprensa comprometida com os fatos não deveria escolher entre repetir a acusação como se fosse condenação ou apagar a acusação porque ela não terminou em condenação. Sua obrigação é contar o caso inteiro.

Operação Pegadores: R$ 18 milhões e a Saúde do Maranhão

O ano de 2017 trouxe problemas muito maiores para a administração estadual comandada por Flávio Dino.

Em novembro, a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram a Operação Pegadores, quinta fase da Operação Sermão aos Peixes.

A investigação apurava suspeitas de desvios de recursos federais destinados à Saúde por meio de fraudes na contratação e no pagamento de pessoal e de contratos firmados com entidades do terceiro setor responsáveis pela administração de unidades hospitalares do Maranhão.

A Justiça determinou o bloqueio ou sequestro de aproximadamente R$ 18 milhões.

Foram expedidos 17 mandados de prisão temporária. Entre os alvos estavam servidores e ex-servidores da Secretaria de Saúde, além de pessoas vinculadas às entidades investigadas.

Uma das presas foi Rosângela Curado, que havia ocupado o cargo de secretária-adjunta de Saúde em 2015, já durante o governo Flávio Dino.

As investigações mencionavam funcionários fantasmas, empresas de fachada, pagamentos irregulares e indicações de pessoas para receberem recursos sem a efetiva prestação dos serviços correspondentes. Segundo as autoridades responsáveis pela operação, parte das irregularidades teria continuado até 2017.

O próprio governo informou, na ocasião, que a Secretaria de Saúde estava à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.

Novamente, é necessário estabelecer o limite entre o que os fatos demonstram e aquilo que eles não permitem concluir.

A operação não comprova, por si só, que Flávio Dino tenha recebido dinheiro do esquema ou participado pessoalmente dos desvios.

O que ela comprova é suficientemente grave: uma investigação federal de grande porte sobre desvios de recursos públicos alcançou a estrutura da Saúde do Maranhão durante sua administração, resultou em prisões de pessoas ligadas à máquina estadual e levou ao bloqueio judicial de aproximadamente R$ 18 milhões.

Não é preciso inventar uma condenação pessoal de Dino para reconhecer a relevância desse episódio.

Operação Rêmora: contratos, direcionamento e dinheiro em espécie

A Operação Pegadores não surgiu isoladamente. Ela fazia parte de uma investigação muito mais ampla, a Operação Sermão aos Peixes.

Antes dela, houve a Operação Rêmora, também destinada a apurar irregularidades relacionadas à aplicação dos recursos da Saúde no Maranhão.

Relatórios divulgados à época apontavam suspeitas de direcionamento na seleção de organizações responsáveis pela terceirização de serviços de saúde. Segundo o material atribuído às investigações, determinadas entidades já saberiam antecipadamente quais lotes receberiam no procedimento realizado em 2015.

Durante a operação, foram apreendidos cerca de R$ 644 mil em espécie, além de documentos e veículos. Naquele momento, as investigações também trabalhavam com a estimativa de fraudes na casa dos R$ 18 milhões.

A Rêmora é importante porque alcançou contratos e procedimentos realizados dentro do sistema de Saúde administrado pelo governo Dino e ajudou a produzir os elementos que desembocariam nas fases seguintes da investigação.

Mais uma vez, o fato de uma operação atingir a administração estadual não equivale a uma condenação pessoal do governador.

Mas uma sequência de operações policiais, prisões, apreensões e suspeitas de desvios dentro de uma área essencial do governo não pode simplesmente desaparecer da memória jornalística quando o antigo governador passa a ocupar outro cargo.

Um esquema que teria atravessado a mudança de governo

Existe um aspecto cronológico especialmente relevante na Operação Sermão aos Peixes.

As investigações começaram alcançando irregularidades atribuídas à administração anterior, comandada por Roseana Sarney. Posteriormente, interceptações, documentos e relatórios passaram a indicar que determinadas práticas envolvendo entidades terceirizadas teriam continuado depois que Flávio Dino assumiu o governo, em janeiro de 2015.

Uma das apurações tratava da indicação de pessoas para contratação por entidade encarregada da administração de unidades de saúde, sem processo seletivo regular e, em alguns casos, sem a correspondente prestação de serviços.

Isso impede duas simplificações opostas.

A primeira seria afirmar que toda a Operação Sermão aos Peixes tratava de “corrupção de Flávio Dino”. Essa afirmação seria incorreta, porque a investigação alcançou períodos, contratos e agentes anteriores à sua administração.

A segunda simplificação, igualmente inadequada, consiste em afirmar que toda a investigação dizia respeito exclusivamente ao governo anterior. Algumas de suas fases alcançaram fatos ocorridos depois de janeiro de 2015 e pessoas que exerceram funções durante a administração de Dino.

O esquema investigado não respeitou a fronteira conveniente da mudança de governo. Segundo as apurações, determinadas práticas teriam atravessado a transição.

Esse ponto é essencial porque permite compreender como a responsabilidade política costuma ser tratada seletivamente. Quando uma investigação alcança o adversário, a responsabilidade é ampliada até o limite máximo. Quando atinge um aliado, surge imediatamente a necessidade de compartimentar datas, governos, contratos e agentes.

O jornalismo não deveria operar segundo essa conveniência.

Mariano de Castro Silva e a carta atribuída a ele

Um dos capítulos mais delicados da Operação Pegadores envolve o médico Mariano de Castro Silva.

Investigado por suposta participação no esquema da Saúde, Mariano foi preso durante a operação. Em 2018, depois de deixar a prisão, foi encontrado morto em seu apartamento, em Teresina.

Após sua morte, veio a público uma carta atribuída a ele contendo acusações contra integrantes do governo maranhense e referências ao próprio Flávio Dino. O conteúdo provocou a apresentação de pedido de investigação à Procuradoria-Geral da República.

Aqui, a cautela deve ser redobrada.

A cobertura da época tratava o documento como uma “suposta carta”. Sua atribuição a Mariano e o conteúdo nela registrado não constituem, isoladamente, prova judicial da participação de Flávio Dino em qualquer crime.

Ainda assim, o episódio existiu. A carta circulou, continha acusações, mencionava integrantes do governo e motivou pedido formal de investigação.

Contar isso não significa endossar seu conteúdo. Significa apenas recusar o apagamento de um episódio que integrou uma das maiores crises enfrentadas pela administração estadual naquele período.

O investigado que voltou ao governo

Outro fato que merece ser lembrado envolve Marcus Eduardo Alves Batista.

Ex-gestor do Instituto Cidadania e Natureza, entidade que atuava na área da Saúde, Marcus Eduardo foi alvo da Operação Pegadores e ficou temporariamente preso em novembro de 2017.

Posteriormente, segundo reportagem publicada em 2019, ele foi nomeado para o cargo comissionado de assessor especial III do Instituto de Previdência dos Servidores do Maranhão, o Iprev-MA.

A nomeação não comprova que Flávio Dino tenha participado dos crimes investigados nem torna culpado alguém que não tenha sido definitivamente condenado.

Mas ela produz uma pergunta política legítima: por que uma pessoa que havia sido presa em uma operação sobre desvios de recursos da Saúde voltou a ocupar cargo comissionado na estrutura estadual?

A resposta pode até existir. O que não deveria existir é o silêncio.

Os respiradores do Consórcio Nordeste e o limite da responsabilidade

Outro episódio frequentemente incluído em listas de escândalos relacionados aos governadores do Nordeste é a compra dos respiradores durante a pandemia.

O Consórcio Nordeste pagou antecipadamente aproximadamente R$ 48,7 milhões pela aquisição de 300 respiradores que nunca foram entregues. O contrato foi firmado quando Rui Costa, então governador da Bahia, presidia o consórcio.

Flávio Dino governava o Maranhão, que integrava o Consórcio Nordeste. Essa participação, contudo, não basta para transformá-lo automaticamente em investigado ou responsável pessoal pelo prejuízo.

Nas investigações tornadas públicas, o personagem político central do caso foi Rui Costa. Posteriormente, o Tribunal de Contas da União afastou sua responsabilidade na esfera examinada, enquanto prosseguiram medidas relacionadas à empresa fornecedora.

Já como ministro do STF, Dino recebeu o inquérito e decidiu remetê-lo ao Superior Tribunal de Justiça, considerando que os fatos atribuídos a Rui Costa teriam ocorrido quando ele exercia o cargo de governador.

Esse episódio pode suscitar discussões sobre competência, responsabilidade administrativa e decisões institucionais. O que não se pode fazer, sem prova adicional, é apresentá-lo como “corrupção de Flávio Dino”.

Incluí-lo nesta retrospectiva serve justamente para demonstrar que memória não deve ser confundida com acusação irresponsável. É possível registrar os fatos, indicar a posição institucional de cada personagem e preservar os limites impostos pelas provas disponíveis.

Da política para o Supremo

Foi com toda essa trajetória pública já conhecida que Flávio Dino chegou ao Supremo Tribunal Federal.

Em novembro de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou seu então ministro da Justiça para ocupar a vaga deixada por Rosa Weber. A Constituição exige dos ministros do STF notável saber jurídico e reputação ilibada.

Dino foi sabatinado pelo Senado e teve sua indicação aprovada por 47 votos favoráveis, 31 contrários e duas abstenções. Em 22 de fevereiro de 2024, tomou posse como ministro.

Não há ilegalidade nisso. O presidente exerceu sua competência constitucional, e o Senado aprovou a indicação.

Mas a aprovação não possui o poder de reescrever os capítulos anteriores de uma biografia pública.

O homem que governou um estado cuja estrutura administrativa foi alcançada por operações da Polícia Federal passou a integrar o Tribunal responsável por decidir questões envolvendo a própria Polícia Federal, investigações criminais, autoridades com foro privilegiado e os limites da atuação dos órgãos de persecução.

Não há crime nessa trajetória. Há, no entanto, uma ironia histórica difícil de ignorar.

O ministro no centro da crise atual

Em setembro de 2026, Flávio Dino passou a ocupar posição de destaque em uma das crises mais delicadas enfrentadas recentemente pelo Supremo.

O caso Banco Master chegou à Corte cercado por suspeitas envolvendo autoridades, divergências entre ministros e questionamentos sobre a atuação da Polícia Federal. A controvérsia ultrapassou os limites de um processo isolado e tornou-se uma crise institucional com potencial para repercutir inclusive no cenário eleitoral. A própria cobertura nacional reconheceu que o caso alcançou o STF e passou a envolver diretamente seus integrantes. (Folha de S.Paulo)

Dino participou das discussões internas e das decisões relacionadas ao encaminhamento da crise. Passou, portanto, a atuar diretamente em controvérsias envolvendo investigações, a cúpula policial, as competências dos ministros e procedimentos capazes de alcançar integrantes da própria Corte.

O ponto central não é presumir que suas decisões atuais sejam consequência automática dos episódios ocorridos no Maranhão. Essa ligação não pode ser feita sem prova.

O ponto é outro: o antigo governador, cuja administração foi atravessada por operações federais sobre corrupção na Saúde, tornou-se ministro do Supremo e hoje participa das decisões que envolvem a Polícia Federal, investigações sensíveis e os limites de atuação dos próprios membros do Tribunal.

Esse contexto deveria interessar ao jornalismo.

Mas, para parte dele, aparentemente não interessa.

O jornalismo que começa a biografia depois da toga

Há jornalistas empenhados em explicar cada crítica dirigida a Flávio Dino, contextualizar suas decisões e defender a legitimidade institucional de sua atuação.

Não há problema algum nisso. Contextualizar é exatamente o que se espera de quem exerce jornalismo.

O problema começa quando essa contextualização possui uma estranha data de nascimento e a biografia do personagem parece começar somente depois de sua chegada ao Supremo.

  • Onde foi parar a delação da Odebrecht — inclusive seu posterior arquivamento?
  • Onde foram parar as operações Sermão aos Peixes, Rêmora e Pegadores?
  • Onde estão os servidores e ex-servidores investigados, os funcionários fantasmas, as empresas de fachada, o dinheiro apreendido e os milhões de reais bloqueados judicialmente?
  • Onde está o registro de que as práticas investigadas teriam continuado depois da mudança de governo ocorrida em 2015?
  • Onde está Mariano de Castro Silva?
  • Onde está a carta atribuída a ele e o pedido de investigação produzido a partir dela?
  • Onde está o investigado que, depois de ser preso temporariamente pela Polícia Federal, voltou a ocupar cargo comissionado no governo?

Essas perguntas não têm a finalidade de declarar Flávio Dino culpado por crimes que não foram provados contra ele.

Pelo contrário: o arquivamento da investigação originada na delação da Odebrecht deve necessariamente integrar qualquer narrativa séria. O compromisso precisa ser com os fatos completos.

O mesmo critério, entretanto, deve funcionar nas duas direções.

Não se pode considerar indispensável recordar acusações, amizades, declarações e processos de décadas atrás quando o personagem analisado está de um lado da disputa e, subitamente, considerar tudo isso irrelevante quando o beneficiado pelo esquecimento está do outro.

Também não é jornalisticamente razoável vasculhar minuciosamente o passado de quem critica um ministro e, simultaneamente, tratar o passado do próprio ministro como território interditado.

O que está em discussão não é apenas Flávio Dino

No fim, esta matéria talvez diga menos sobre Flávio Dino do que parece.

Dino não escondeu que foi governador. Não apagou pessoalmente as operações policiais dos arquivos públicos. Tampouco precisa responder hoje por aquilo que não resultou em responsabilidade pessoal comprovada.

Os fatos estão disponíveis.

A questão é por que eles desaparecem justamente quando parte do jornalismo decide explicar ao público quem é Flávio Dino no embate atual.

Não se trata de exigir que jornalistas condenem Dino.

Trata-se de exigir algo muito mais simples de quem se apresenta como jornalista: memória.

A mesma memória utilizada para recuperar frases antigas, amizades, viagens, processos, investigações e episódios remotos quando o personagem examinado se encontra do outro lado da trincheira política.

Flávio Dino chegou ao Supremo depois de tudo isso. Foi indicado pelo presidente da República, submetido ao Senado e aprovado para uma cadeira cujo ocupante deve preencher o requisito constitucional da reputação ilibada.

Essa é a institucionalidade que o colocou onde está e não existe razão para falseá-la.

Mas a aprovação pelo Senado também não tem o poder mágico de transformar investigações em não acontecimentos, operações policiais em invenções ou crises administrativas em páginas em branco.

O governador que viu sua administração ser alcançada por operações da Polícia Federal é hoje ministro de um Tribunal que decide questões envolvendo a Polícia Federal.

O político cujo nome esteve sob investigação — posteriormente arquivada — hoje participa de julgamentos relacionados a investigações.

O homem que esteve de um lado dessa engrenagem institucional está agora sentado no outro.

Não há crime nessa mudança de posição. Há uma história.

Por isso, quando jornalistas defenderem Flávio Dino no embate atual, ninguém precisa aceitar automaticamente a versão oposta nem transformar o ministro em culpado de coisa alguma.

Basta fazer aquilo que deveria ser a obrigação primeira de quem conta uma história: não esquecer metade dela.

Flávio Dino não nasceu ministro do Supremo. 

Uma toga pode mudar o lugar que um homem ocupa no Estado. Pode ampliar seu poder, alterar suas responsabilidades e colocá-lo em posição de julgar instituições e agentes que antes investigavam a administração por ele comandada.

O que a toga não pode fazer é apagar o caminho percorrido até ali. Porque história não começa no capítulo que melhor convém a quem resolveu contá-la.

E memória seletiva não é jornalismo. É narrativa.

13/09/2026

PHROGGING: QUANDO UM ESTRANHO PASSA A MORAR SECRETAMENTE DENTRO DA SUA CASA



    by Deise Brandao

Imagine ouvir ruídos durante a madrugada, perceber que alimentos estão desaparecendo ou encontrar objetos em lugares nos quais você tem certeza de não os ter deixado.

 A primeira reação seria procurar uma explicação simples: a casa estalando, um animal no telhado, distração, cansaço ou falha de memória.

Mas existe uma possibilidade muito mais perturbadora: alguém pode estar vivendo secretamente dentro da residência. Essa prática recebeu o nome de phrogging.

    O QUE É PHROGGING?


Phrogging é o termo utilizado para descrever a situação em que uma pessoa entra em uma residência e passa a utilizar clandestinamente alguma parte do imóvel — sótão, porão, garagem, depósito, espaço entre paredes ou compartimento sob o piso — sem que os moradores saibam.

A palavra é pronunciada aproximadamente como frogging e deriva de frog, “sapo” em inglês. A explicação mais difundida é que esses invasores “saltariam” de uma casa para outra, permanecendo em cada lugar durante determinado período.

Não se trata, necessariamente, de alguém que invade uma casa vazia e toma posse do imóvel.

No phrogging, a característica mais assustadora é outra: o invasor permanece escondido enquanto os verdadeiros moradores continuam vivendo normalmente na residência.

    Ele pode sair do esconderijo quando todos dormem ou quando a família deixa a casa. Nesse período, utiliza o banheiro, come, toma água, carrega aparelhos, mexe em objetos e observa a rotina dos moradores.  Depois, retorna ao esconderijo.

    LENDA URBANA OU FATO REAL?

Durante muito tempo, histórias sobre “alguém vivendo no sótão” foram tratadas como lendas urbanas, roteiros de filmes de terror ou narrativas criadas para assustar crianças.

Algumas histórias realmente são inventadas ou exageradas. Além disso, não existem estatísticas públicas consolidadas que permitam afirmar que phrogging seja um fenômeno frequente.

Isso, porém, não significa que todos os episódios sejam imaginários. Casos documentados demonstram que pessoas já permaneceram durante dias, meses e até anos em compartimentos de imóveis ocupados.

O phrogging ganhou maior projeção depois de reportagens, documentários e programas de crimes reais. A série norte-americana Phrogging: Hider in My House, por exemplo, reuniu depoimentos de pessoas que afirmaram ter descoberto desconhecidos escondidos em suas casas.

É importante, contudo, manter a precisão: phrogging é uma expressão popular e midiática, não uma categoria científica ou um tipo penal específico.

    O HOMEM QUE MORAVA SOB UMA CASA NO OREGON

Um dos casos mais impressionantes foi descoberto em setembro de 2025, no estado do Oregon, nos Estados Unidos. Um vizinho percebeu um homem desconhecido entrando em um espaço existente sob um condomínio. Também havia luz saindo daquela área. 

Quando os policiais chegaram, encontraram a porta de acesso danificada e trancada. Um fio de extensão atravessava uma abertura e levava eletricidade para o esconderijo. No interior do espaço havia cama, iluminação, televisores, carregadores, equipamentos eletrônicos e outros objetos que indicavam permanência prolongada.

O homem não estava apenas se escondendo ocasionalmente. Ele havia transformado o compartimento sob o imóvel em uma pequena residência clandestina, utilizando inclusive a energia elétrica do local.

Em maio de 2026, foi condenado a três anos de prisão por invasão residencial. O caso foi noticiado pela ABC News e por outros veículos norte-americanos.  A família que vivia sobre aquele espaço desconhecia a existência do “morador”.

    O CASO DO HAVAÍ


Outro episódio conhecido ocorreu em Honolulu. Ao retornar de uma viagem, uma família encontrou um desconhecido dentro de casa. O homem havia utilizado objetos da residência, mexido nos pertences dos moradores e deixado anotações perturbadoras.

O invasor, identificado como Ezequiel Zayas, foi posteriormente condenado por crimes relacionados à invasão e por matar um companheiro de cela enquanto estava preso. Em 2023, recebeu uma pena total de 40 anos, conforme comunicado oficial do governo do Havaí.

O caso demonstra por que uma suspeita dessa natureza não deve ser investigada diretamente pelo morador. Não é possível saber se a pessoa escondida está desarmada, sob efeito de drogas, em crise mental ou disposta a praticar violência.

    O “AMANTE DO SÓTÃO”

Décadas antes de existir a palavra phrogging, um dos casos mais estranhos da história criminal norte-americana já apresentava características semelhantes.

Na década de 1910, Walburga “Dolly” Oesterreich iniciou um relacionamento com Otto Sanhuber, um jovem que trabalhava para seu marido. Para manter o caso em segredo, Otto passou a viver no sótão da residência do casal.

Ele permanecia escondido enquanto o marido de Dolly estava em casa. Quando ficava sozinho com ela, descia do esconderijo, fazia tarefas domésticas, alimentava-se e circulava pela casa.

A situação teria durado anos e continuado mesmo depois de uma mudança de residência. O caso somente veio à tona após a morte do marido de Dolly, em 1922. A história ficou conhecida como o caso do “amante do sótão” e foi reconstituída por publicações como a LAist.

Esse episódio difere do phrogging praticado por um estranho, porque Dolly sabia da presença do homem. Para o marido, entretanto, existia secretamente outra pessoa vivendo dentro de sua própria casa.

    POR QUE ALGUÉM FARIA ISSO?

Não existe uma única motivação.

Alguns invasores procuram abrigo temporário. Outros entram para furtar e percebem que podem permanecer escondidos. Há casos envolvendo perseguição, obsessão, voyeurismo, transtornos mentais, consumo de drogas ou conhecimento prévio da rotina dos moradores.

Também existem situações em que empregados, antigos moradores, vizinhos, conhecidos ou prestadores de serviço descobrem acessos pouco utilizados e passam a entrar no imóvel.

Em residências grandes, prédios antigos e propriedades com várias construções, uma presença clandestina pode ser mais difícil de perceber. Isso não significa que todo ruído ou objeto desaparecido indique uma invasão. Existem muitas explicações comuns para esses fatos.

 O alerta deve surgir quando diferentes sinais aparecem repetidamente e não encontram explicação razoável.

    POSSÍVEIS SINAIS

    Entre os sinais mencionados em casos documentados estão:
  • alimentos, bebidas, roupas ou pequenos objetos desaparecendo;
  • portas, janelas e armários encontrados abertos;
  • objetos mudando de lugar;
  • ruídos de passos, respiração, tosse ou movimentação;
  • luzes acesas sem explicação;
  • aumento incomum no consumo de água ou energia elétrica;
  • odores estranhos vindos de sótãos, porões ou depósitos;
  • marcas de entrada em locais pouco utilizados;
  • móveis ou caixas deslocados;
  • pegadas, bitucas de cigarro, embalagens ou restos de comida;
  • animais domésticos olhando, latindo ou reagindo repetidamente para o mesmo ponto;
  • câmeras, alarmes ou roteadores desligados;
  • portas que estavam trancadas aparecendo destrancadas;
  • sensação de que alguém conhecia previamente os horários da família.

    Um sinal isolado geralmente não prova nada. A combinação de ocorrências, contudo, pode justificar uma verificação profissional.

    NÃO VÁ PROCURAR SOZINHO

Se houver indícios concretos de que alguém está escondido na residência, a orientação mais segura é não confrontar nem tentar capturar o possível invasor.

Saia do imóvel discretamente, leve crianças e pessoas vulneráveis, procure um local seguro e acione a polícia.

Também não é recomendável anunciar em voz alta que a pessoa foi descoberta. Um invasor acuado pode reagir de maneira imprevisível.

Depois da intervenção policial, devem ser preservados eventuais vestígios: fechaduras danificadas, pegadas, alimentos, embalagens, fios, impressões, gravações e imagens de câmeras.

    E NO BRASIL?

A legislação brasileira não utiliza a palavra phrogging. Os fatos seriam enquadrados conforme a conduta efetivamente praticada.

O artigo 150 do Código Penal pune quem entra ou permanece, de maneira clandestina, astuciosa ou contra a vontade de quem tem direito, em casa alheia ou em suas dependências.

Além da violação de domicílio, o episódio pode envolver outros crimes, dependendo do caso, como:furto; dano;  ameaça; perseguição; invasão de dispositivo eletrônico; registro não autorizado da intimidade; crimes sexuais; lesão corporal; roubo ou extorsão.

O enquadramento dependerá das provas e do comportamento do invasor. O texto oficial do artigo 150 pode ser consultado no Código Penal publicado pelo Planalto.

COMO REDUZIR O RISCO

    Algumas providências simples podem dificultar acessos clandestinos:
  • verificar sótãos, porões, depósitos, garagens e espaços sob o piso;
  • manter trancadas entradas externas pouco utilizadas;
  • trocar fechaduras ao mudar de residência ou perder uma chave;
  • conferir janelas e acessos após serviços de manutenção;
  • não esconder chaves em locais previsíveis;
  • instalar iluminação externa com sensor de movimento;
  • utilizar câmeras nas áreas de entrada, respeitando a privacidade dos moradores;
  • observar alterações inexplicáveis no consumo de água e energia;
  • manter um inventário básico de chaves e controles;
  • não divulgar publicamente períodos de viagem;
  • pedir que alguém de confiança observe o imóvel durante ausências prolongadas.
  • Em casas antigas, também é prudente conhecer a estrutura da construção. Algumas possuem alçapões, corredores técnicos, dependências desativadas e acessos que os atuais moradores desconhecem.

    O MEDO DE NÃO ESTAR SOZINHO

O phrogging provoca um tipo particular de medo porque destrói a ideia da casa como lugar de proteção.

Não é apenas uma invasão patrimonial.
É a possibilidade de uma pessoa desconhecida observar hábitos, escutar conversas, tocar objetos pessoais e circular pelo espaço mais íntimo de uma família sem ser percebida.

Talvez por isso essas histórias nos perturbem tanto.O verdadeiro terror não está em imaginar que alguma coisa entrou em nossa casa. Está em descobrir que ela talvez nunca tenha ido embora.

E você?  Se alimentos começassem a desaparecer e ruídos surgissem durante a madrugada, qual seria sua primeira explicação?

O livro de Enoque afirma: nenhuma autoridade — humana ou celestial — possui poder suficiente para apagar aquilo que fez.

by Deise Brandão

O Livro de Enoque é uma antiga obra religiosa judaica atribuída simbolicamente a Enoque, personagem bíblico mencionado no Gênesis como o homem que “andou com Deus” e desapareceu porque Deus o tomou para si.

Não integra a Bíblia judaica nem a maioria das Bíblias cristãs, mas é considerado canônico pela Igreja Ortodoxa Etíope. A versão mais conhecida, chamada 1 Enoque, foi composta por diferentes autores, provavelmente entre os séculos III a.C. e I d.C.

A queda dos anjos

A parte mais conhecida conta a história dos Vigilantes, anjos enviados para observar a humanidade.  Eles abandonam sua função, descem à Terra e relacionam-se com mulheres humanas. Dessa união nascem os Nefilins, gigantes violentos que espalham destruição, injustiça e derramamento de sangue.

Os Vigilantes também ensinam conhecimentos proibidos aos seres humanos, como:

  • fabricação de armas;
  • práticas de guerra;
  • feitiçaria e encantamentos;
  • astrologia;
  • interpretação dos astros;
  • uso de metais e adornos;
  • conhecimentos sobre plantas e substâncias.

Azazel aparece como um dos principais responsáveis pela corrupção humana, enquanto Semjaza lidera o pacto dos anjos rebeldes. Diante da violência, Deus determina que os Vigilantes sejam aprisionados e que os gigantes sejam destruídos. O Dilúvio surge como forma de purificar a Terra.

A missão de Enoque

Enoque atua como intermediário entre Deus e os anjos caídos.

Os Vigilantes pedem que ele apresente uma súplica por perdão. Enoque leva o pedido, mas recebe a resposta de que não haverá perdão: os anjos, sendo seres espirituais, não deveriam ter abandonado sua condição para unir-se às mulheres.

Em seguida, Enoque é conduzido por diferentes regiões do universo. Ele contempla lugares de punição, depósitos dos ventos, movimentos dos astros, moradas dos mortos e o trono divino.

Suas viagens revelam uma concepção do universo governado por uma ordem estabelecida por Deus.

O julgamento

O livro anuncia um grande julgamento no qual:

  • os anjos rebeldes serão punidos;
  • os governantes injustos perderão seu poder;
  • os opressores responderão por seus atos;
  • os mortos serão julgados;
  • os justos receberão proteção e vida;
  • a criação será purificada.

Uma figura chamada Filho do Homem, Eleito ou Justo aparece como agente do julgamento divino. Essa linguagem posteriormente se tornou importante para o cristianismo.

As principais partes

O Livro de Enoque é uma coleção formada por cinco grandes seções:

  1. Livro dos Vigilantes — narra a queda dos anjos, o nascimento dos gigantes e as viagens de Enoque.
  2. Livro das Parábolas — apresenta visões sobre o Filho do Homem, o julgamento e o destino dos poderosos.
  3. Livro Astronômico — descreve calendários, movimentos do Sol e da Lua e a organização do universo.
  4. Livro dos Sonhos — relata a história humana e de Israel por meio de sonhos e animais simbólicos.
  5. Epístola de Enoque — reúne advertências, profecias e ensinamentos sobre justiça, opressão e recompensa.

Relação com a Bíblia

O Livro de Enoque desenvolve a breve passagem de Gênesis 6 sobre os “filhos de Deus”, as mulheres humanas e os gigantes.

A Carta de Judas, no Novo Testamento, reproduz diretamente uma profecia atribuída a Enoque. Existem também semelhanças entre suas imagens e textos como Daniel, os Evangelhos e o Apocalipse.

Fragmentos de Enoque foram encontrados entre os Manuscritos do Mar Morto, demonstrando que a obra circulava entre comunidades judaicas antes e durante o surgimento do cristianismo.

Ideia central

A mensagem essencial do Livro de Enoque é que o mal não permanecerá impune.

Anjos, reis, ricos, governantes e seres humanos estão submetidos à mesma justiça. O conhecimento, quando separado da responsabilidade, pode transformar-se em instrumento de corrupção e violência.

O livro também afirma que os poderosos podem esconder seus atos dos homens, mas não conseguem escondê-los de Deus.

Em síntese, o Livro de Enoque é uma grande narrativa sobre anjos caídos, conhecimentos proibidos, corrupção do poder, julgamento e restauração da justiça.

me fale sobre cada uma delas. Livro dos Vigilantes — narra a queda dos anjos, o nascimento dos gigantes e as viagens de Enoque.

  1. Livro das Parábolas — apresenta visões sobre o Filho do Homem, o julgamento e o destino dos poderosos.
  2. Livro Astronômico — descreve calendários, movimentos do Sol e da Lua e a organização do universo.
  3. Livro dos Sonhos — relata a história humana e de Israel por meio de sonhos e animais simbólicos.
  4. Epístola de Enoque — reúne advertências, profecias e ensinamentos sobre justiça, opressão e recompensa.

O chamado Primeiro Livro de Enoque — ou 1 Enoque — não foi escrito como uma obra única. Ele reúne cinco conjuntos de textos, produzidos em épocas diferentes e posteriormente atribuídos a Enoque.

Cada parte aborda uma dimensão distinta: a origem do mal, o julgamento, a ordem cósmica, a história humana e o destino dos justos.

1. Livro dos Vigilantes

Corresponde aproximadamente aos capítulos 1 a 36 e é a parte mais conhecida.

Os Vigilantes seriam anjos encarregados de observar a humanidade. Liderados por Semjaza, duzentos deles fazem um juramento no monte Hermom: todos desceriam à Terra, tomariam mulheres humanas e assumiriam coletivamente as consequências.

Dessas relações nascem os gigantes, geralmente associados aos Nefilins de Gênesis. Eles consomem os recursos da humanidade e depois passam a atacar seres humanos, animais e uns aos outros.

Além de ultrapassar a fronteira entre o mundo espiritual e o humano, os Vigilantes transmitem conhecimentos proibidos.

Azazel ensina a fabricação de espadas, facas, escudos, armaduras e instrumentos de guerra. Também ensina o uso de metais, joias, cosméticos e adornos. Outros anjos revelam encantamentos, astrologia, observação das estrelas, sinais da Terra e movimentos celestes.

O problema não é simplesmente o conhecimento. É sua transmissão sem responsabilidade, produzindo violência, desigualdade e corrupção.

A Terra, coberta de sangue, pede justiça.

Deus então envia os arcanjos. Rafael recebe a missão de prender Azazel; Gabriel deve promover a destruição dos gigantes; Miguel aprisiona Semjaza e os demais Vigilantes. O Dilúvio é anunciado como purificação do mundo.

Os gigantes morrem, mas seus espíritos permanecem sobre a Terra. O livro relaciona esses espíritos à origem dos espíritos malignos que atormentam os seres humanos.

Enoque atua como escriba e intermediário. Os anjos caídos pedem que ele apresente uma súplica por perdão. Deus, porém, rejeita o pedido: os anjos deveriam interceder pelos homens, não pedir que um homem intercedesse por eles.

Depois disso, Enoque realiza viagens cósmicas. Ele contempla:

  • lugares de punição;
  • prisões destinadas aos anjos;
  • regiões reservadas aos mortos;
  • montanhas sagradas;
  • depósitos dos ventos;
  • movimentos dos astros;
  • a árvore da vida;
  • o lugar do trono divino.

A mensagem principal é que nem mesmo os seres celestes estão acima da lei divina.

2. Livro das Parábolas

Também chamado de Livro das Similitudes, corresponde aproximadamente aos capítulos 37 a 71. É dividido em três grandes parábolas ou visões.

Essa seção trata principalmente do julgamento final, da queda dos governantes injustos e da manifestação de uma figura chamada:

  • Filho do Homem;
  • Eleito;
  • Justo;
  • Ungido.

O Filho do Homem aparece como alguém escolhido antes da criação, oculto junto de Deus e reservado para o momento do julgamento.

Sua missão é revelar o que estava escondido, julgar reis e poderosos, derrubar os opressores e defender os justos.

Os governantes descobrem que riqueza, influência e autoridade não conseguem protegê-los. Aqueles que perseguiram os fracos e dominaram a Terra são colocados diante da justiça divina.  Essa inversão é central:

  • os humilhados são reconhecidos;
  • os perseguidos recebem proteção;
  • os poderosos perdem seus privilégios;
  • os atos secretos são revelados;
  • a autoridade humana é submetida à justiça superior.

O texto também apresenta anjos, regiões celestes, fenômenos naturais e visões sobre o destino final dos seres humanos.

No encerramento, Enoque é levado ao céu e recebe uma posição extremamente elevada. Algumas passagens parecem aproximá-lo da própria figura do Filho do Homem, embora a interpretação seja discutida entre os estudiosos.

Essa parte é especialmente importante para compreender o ambiente religioso no qual surgiram expressões posteriormente encontradas no cristianismo.

Nos Evangelhos, Jesus utiliza repetidamente a designação “Filho do Homem”. Isso não significa que os Evangelhos simplesmente copiaram Enoque, mas demonstra que essa linguagem já circulava no pensamento judaico da época.

A mensagem principal é que o poder terreno é provisório e será julgado pela forma como tratou os vulneráveis.

3. Livro Astronômico

Corresponde aproximadamente aos capítulos 72 a 82. Também é conhecido como Livro dos Luminares Celestes.

Nessa seção, o anjo Uriel mostra a Enoque o funcionamento do Sol, da Lua, das estrelas, dos ventos e das estações. O universo é apresentado como uma grande estrutura organizada por leis e calendários.

O Sol nasce e se põe por diferentes “portas” celestes ao longo do ano. A Lua possui fases próprias, modifica sua iluminação e percorre trajetórias determinadas. Estrelas e ventos também obedecem a uma ordem previamente estabelecida.

O livro defende um calendário solar de 364 dias, dividido de maneira regular:

  • quatro estações;
  • doze meses;
  • quatro períodos de 91 dias;
  • semanas completas.

Esse sistema entrava em conflito com outros calendários utilizados por comunidades judaicas. A definição do calendário não era apenas um problema científico. Determinava as datas das festas, dos jejuns e das cerimônias religiosas.

Se o calendário estivesse errado, o culto também aconteceria no momento errado.

O texto associa a desordem moral à desordem cósmica. Os astros obedecem às funções que receberam; os seres humanos e os anjos caídos é que ultrapassam seus limites.

O céu torna-se, portanto, exemplo de fidelidade.

O Livro Astronômico não deve ser lido como um tratado científico moderno. Ele combina observação dos ciclos naturais, religião, simbolismo e uma antiga representação do universo.

Sua mensagem principal é que a criação não é caótica: existe uma ordem superior que deveria também orientar a conduta humana.

4. Livro dos Sonhos

Corresponde aproximadamente aos capítulos 83 a 90 e contém duas grandes visões.

O sonho do Dilúvio

Na primeira visão, Enoque contempla a Terra sendo destruída pelas águas. 

Ele vê o céu desabar, a terra afundar e todas as coisas desaparecerem. Assustado, pede a Deus que preserve uma parte da humanidade. O sonho antecipa o Dilúvio que ocorreria na geração de Noé, bisneto de Enoque.

O Apocalipse dos Animais

A segunda visão apresenta a história da humanidade e de Israel por meio de animais simbólicos. As pessoas não aparecem com nomes. São representadas como bois, ovelhas, lobos, cães, aves e outras criaturas. De maneira geral:

  • Adão aparece como um touro branco;
  • Eva, como uma novilha;
  • Caim e Abel são representados por animais;
  • os patriarcas aparecem como bois;
  • Israel é representado pelas ovelhas;
  • povos inimigos aparecem como animais predadores;
  • líderes e protetores podem surgir como carneiros;
  • os anjos aparecem como seres humanos.

A visão percorre a história desde Adão até acontecimentos próximos ao período em que o texto foi composto. Ela inclui:

  • a queda dos Vigilantes;
  • o Dilúvio;
  • os patriarcas;
  • a escravidão no Egito;
  • o êxodo;
  • a entrega da Lei;
  • a ocupação da terra;
  • reis e profetas;
  • a destruição de Jerusalém;
  • o exílio;
  • a opressão estrangeira;
  • a revolta contra os dominadores;
  • o julgamento final.

Um dos pontos mais fortes é a imagem dos setenta pastores encarregados de cuidar das ovelhas. Esses pastores abusam da autoridade e permitem que o rebanho seja destruído além do limite autorizado. Eles acabam julgados pelo modo como exerceram a função recebida.

A metáfora é política e religiosa: quem recebe o dever de proteger pode transformar-se em perseguidor.

Ao final, os inimigos são derrotados, os opressores julgados e uma nova casa é construída. Surge também um grande touro branco, associado por diferentes interpretações a uma figura messiânica ou a uma humanidade renovada.

A mensagem principal é que a história pode parecer dominada pela violência, mas os pastores, governantes e impérios prestarão contas.

5. Epístola de Enoque

Corresponde aproximadamente aos capítulos 91 a 108.

É a parte mais diretamente moral e profética da obra. Enoque dirige ensinamentos aos filhos e às gerações futuras. O texto opõe continuamente dois grupos:

  • os justos, que sofrem e permanecem fiéis;
  • os pecadores e poderosos, que acumulam riqueza por meio da exploração.

A Epístola denuncia pessoas que:

  • enriquecem injustamente;
  • constroem propriedades com o sofrimento alheio;
  • alteram a verdade;
  • perseguem os justos;
  • confiam na riqueza;
  • utilizam o poder para oprimir;
  • acreditam que seus atos permanecerão ocultos.

Enoque adverte que o aparente sucesso dos injustos é temporário.

Os justos podem morrer sem receber reparação durante a vida, mas seus atos não serão esquecidos. Existe um registro celestial no qual as ações humanas permanecem guardadas.

O Apocalipse das Semanas

Uma parte importante da Epístola divide a história em dez “semanas” simbólicas. Não são semanas literais, mas grandes períodos da história humana. Ao longo delas aparecem:

  • o nascimento da justiça;
  • a expansão da corrupção;
  • o Dilúvio;
  • a escolha de um povo;
  • a entrega da Lei;
  • a construção do templo;
  • a apostasia;
  • o surgimento de uma geração justa;
  • o julgamento;
  • a renovação da criação.

Na última etapa, o mal é eliminado e começa um período sem fim marcado pela justiça. A história, portanto, não é apresentada como uma sucessão aleatória de acontecimentos. Ela possui direção e chegará a um julgamento.

Os “ais” contra os poderosos

A Epístola contém várias advertências iniciadas por expressões equivalentes a “ai de vós”.  Elas são dirigidas aos que:

  • constroem riqueza por meios injustos;
  • perseguem os inocentes;
  • falsificam palavras;
  • recompensam o mal;
  • confiam no ouro;
  • exercem violência;
  • negam a existência do julgamento.

Essa forma de denúncia se aproxima dos profetas bíblicos e também dos “ais” pronunciados por Jesus nos Evangelhos. A mensagem principal é que a impunidade humana não equivale à absolvição divina.

O que une as cinco partes?

Embora tenham temas e estilos diferentes, as cinco seções compartilham a mesma estrutura moral:

  1. Existe uma ordem estabelecida por Deus.
  2. Anjos e seres humanos podem violar essa ordem.
  3. O conhecimento pode ser usado para corromper e dominar.
  4. Os poderosos acreditam que permanecerão impunes.
  5. Os atos ocultos são registrados.
  6. O julgamento alcançará tanto a Terra quanto o mundo espiritual.
  7. Os justos serão restaurados.

  • O Livro dos Vigilantes explica a origem da corrupção. 
  • O Livro das Parábolas apresenta aquele que executará o julgamento.
  • O Livro Astronômico demonstra a ordem da criação.
  • O Livro dos Sonhos interpreta a história humana.

A Epístola ensina como viver enquanto a justiça ainda não chegou.

No conjunto, o Livro de Enoque afirma que nenhuma autoridade — humana ou celestial — possui poder suficiente para apagar aquilo que fez.

PROGRAMAÇÃO MONARCA: O CONTROLE MENTAL NÃO FICOU NO PASSADO


by Deise Brandão

Não é preciso amarrar uma pessoa a uma cadeira, administrar LSD ou instalar eletrodos em sua cabeça para influenciar sua percepção da realidade. Hoje, cada indivíduo carrega voluntariamente um aparelho equipado com câmera, microfone, localização, arquivos pessoais e o registro de grande parte de suas relações.

Esse aparelho sabe onde a pessoa esteve, com quem conversou, o que pesquisou, quanto tempo permaneceu diante de determinada imagem, quais palavras despertaram sua curiosidade e quais assuntos provocaram medo, desejo ou indignação.

As antigas experiências de controle mental procuravam descobrir como quebrar a resistência de um indivíduo. As tecnologias atuais aprenderam algo mais eficiente: não precisam necessariamente quebrá-lo. Podem observá-lo, conhecê-lo, cercá-lo de estímulos e conduzir seu comportamento sem que ele perceba claramente a interferência.

A manipulação não terminou com o encerramento do MK-Ultra. Ela deixou o laboratório, entrou no mercado e passou a funcionar em escala industrial.

A pessoa conectada também é uma pessoa observada

Cada pesquisa, curtida, compra, mensagem, deslocamento ou pausa diante de uma publicação produz informação. Isoladamente, um dado pode parecer insignificante. Reunidos, milhares de dados revelam padrões. Eles podem indicar:

  • preferências políticas;
  • crenças religiosas;
  • orientação sexual;
  • condição econômica;
  • estado emocional;
  • problemas de saúde;
  • conflitos familiares;
  • hábitos de consumo;
  • localização habitual;
  • vulnerabilidades;
  • pessoas com quem o indivíduo mantém contato;
  • conteúdos capazes de provocar uma reação.

A tecnologia não precisa “ler pensamentos” diretamente quando consegue inferi-los por meio do comportamento. Quanto mais uma pessoa utiliza plataformas digitais, mais detalhado se torna seu retrato. Esse conhecimento não serve apenas para descobrir o que alguém fez. Ele permite estimar o que essa pessoa poderá fazer depois.

A manipulação personalizada

A propaganda tradicional mostrava a mesma mensagem a milhões de pessoas. A propaganda digital pode mostrar mensagens diferentes a cada grupo — e até a cada indivíduo — conforme suas características, medos e desejos.

Uma pessoa preocupada com violência recebe uma mensagem baseada em ameaça. Outra, insatisfeita economicamente, recebe uma promessa de prosperidade.Uma terceira, ressentida com determinada instituição, passa a receber conteúdos que reforçam sua revolta. Cada uma acredita estar apenas observando espontaneamente o mundo. Na realidade, pode estar vendo uma seleção calculada para produzir determinada resposta.

O escândalo da Cambridge Analytica revelou como informações obtidas de milhões de usuários do Facebook foram utilizadas na criação de perfis e em estratégias de direcionamento político. A Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos responsabilizou envolvidos pela coleta enganosa de dados pessoais, conforme registro da própria FTC.

O caso não demonstrou a existência de uma máquina capaz de controlar completamente a vontade humana. Mostrou algo mais concreto: dados pessoais podem ser empregados para identificar grupos vulneráveis a mensagens específicas e tentar alterar seu comportamento político. Não se controla necessariamente aquilo que uma pessoa pensará. Controla-se parte do ambiente no qual ela formará seu pensamento.

O algoritmo escolhe o mundo que cada pessoa verá

As plataformas não mostram tudo o que foi publicado. Elas selecionam. O algoritmo decide quais conteúdos aparecerão primeiro, quais desaparecerão rapidamente e quais serão repetidos até parecerem onipresentes.

Quanto mais um conteúdo provoca reação, maior pode ser sua circulação. Medo, raiva, choque e indignação mantêm pessoas diante da tela, aumentam comentários e prolongam o tempo de permanência. A plataforma aprende com cada resposta.

Se a pessoa se irrita, recebe mais daquilo que a irrita. Se desconfia de determinado grupo, encontra conteúdos que parecem confirmar sua desconfiança. Se acredita estar sendo perseguida, pode ser cercada por publicações que transformam qualquer acontecimento em nova confirmação.

Forma-se uma realidade personalizada.  

Duas pessoas que vivem na mesma cidade, caminham pelas mesmas ruas e utilizam a mesma rede social podem habitar mundos informativos completamente diferentes. A manipulação contemporânea não precisa ordenar: “Acredite nisso”. Basta esconder parte da realidade, repetir outra parte e permitir que o indivíduo chegue sozinho à conclusão desejada.

A repetição transforma versões em realidade

Uma afirmação repetida milhares de vezes não se torna verdadeira. Mas pode adquirir aparência de verdade.

Quando a mesma versão aparece em vídeos, comentários, manchetes, postagens e mensagens encaminhadas por pessoas diferentes, desaparece a percepção de que tudo pode ter partido de uma única origem. Surge a impressão de consenso.

É assim que campanhas coordenadas podem fabricar popularidade, destruir reputações, desviar debates e transformar suspeitas em condenações públicas. Perfis falsos reproduzem mensagens. Robôs ampliam assuntos. Recortes eliminam contextos. Imagens reais são combinadas com informações falsas. Publicações emocionais circulam mais rapidamente do que correções posteriores.

A mentira não precisa convencer todos.Precisa apenas produzir dúvida suficiente para impedir que a verdade seja reconhecida.

O controle também pode ser invisível

O spyware Pegasus demonstrou que um telefone pode ser transformado em instrumento de vigilância sem que seu proprietário perceba.

Dependendo da vulnerabilidade explorada, a invasão pode ocorrer sem que a vítima clique em um link. Depois de comprometido, o aparelho pode expor mensagens, fotografias, contatos, localização e outras informações.

Investigações forenses encontraram vestígios do programa em aparelhos de jornalistas, ativistas, advogados, opositores políticos e defensores dos direitos humanos. A metodologia utilizada para localizar esses rastros foi publicada pela Anistia Internacional.

A espionagem produz uma vantagem imensa.

Quem conhece antecipadamente as decisões, provas, contatos, medos e estratégias de outra pessoa pode agir antes dela, preparar respostas, destruir sua credibilidade ou impedir que encontre apoio.

Isso não é leitura sobrenatural da mente. É domínio por meio da informação.

A vítima continua acreditando que decide livremente, mas o outro lado conhece seus passos antes mesmo de serem executados.

A inteligência artificial amplia o poder de influência

A inteligência artificial permite analisar volumes de informações que nenhum grupo humano conseguiria examinar manualmente.  Ela pode identificar padrões de comportamento, classificar emoções, produzir mensagens personalizadas, imitar vozes, fabricar imagens e criar vídeos de acontecimentos que nunca ocorreram.

Uma campanha de manipulação já não precisa escrever individualmente para milhares de pessoas. Sistemas automatizados podem adaptar linguagem, tom e argumento ao perfil de cada destinatário. Também podem simular apoio popular, produzir comentários, ocupar espaços de debate e fazer uma narrativa parecer espontânea.

O problema não está na inteligência artificial por si mesma. Está na combinação entre inteligência artificial, concentração de dados, ausência de transparência e interesses políticos, econômicos ou institucionais. Quanto mais uma organização conhece uma pessoa, mais precisamente consegue construir a mensagem destinada a atingi-la.

A próxima fronteira são os dados mentais

A neurotecnologia já permite captar determinados sinais produzidos pelo cérebro e utilizá-los para finalidades médicas, científicas ou de interação com máquinas. Esses avanços podem devolver movimentos, comunicação e autonomia a pessoas com deficiências. Mas também abrem uma questão inquietante: quem será proprietário dos dados extraídos da atividade cerebral?

Em 2025, a UNESCO avançou na elaboração de uma recomendação internacional sobre ética da neurotecnologia, ressaltando a sensibilidade dos dados neurais e também daqueles que permitem inferir estados mentais. A preocupação deixou de pertencer à ficção científica e entrou na agenda oficial de proteção dos direitos humanos, conforme documentação da UNESCO.

Localização, mensagens e preferências já são exploradas. Agora começa a discussão sobre privacidade mental. O que durante décadas foi imaginado como uma máquina secreta de controle da mente começa a reaparecer como um conjunto de produtos, pesquisas, bancos de dados e dispositivos legalmente comercializados.

Antes dos algoritmos, existiu o MK-Ultra

A preocupação contemporânea não nasceu do nada. Em 1953, durante a Guerra Fria, a CIA iniciou o MK-Ultra, programa destinado a investigar modificação do comportamento, interrogatório, drogas, hipnose e estados alterados de consciência.

Foram pesquisados LSD, privação sensorial, isolamento, interrupção do sono, eletrochoques e outras formas de interferência psicológica.  Universidades, hospitais, clínicas, prisões, fundações e laboratórios participaram de diferentes projetos. Algumas instituições e pesquisadores sequer conheciam a verdadeira origem do financiamento.

Pessoas foram expostas a substâncias sem consentimento. Pacientes vulneráveis foram utilizados como cobaias. O objetivo era descobrir como reduzir resistências, provocar confusão, produzir amnésia e aumentar a possibilidade de influência sobre o comportamento humano.

O MK-Ultra não é teoria conspiratória. Sua existência foi examinada oficialmente pelo Senado norte-americano em 1977. O registro da audiência permanece disponível no Comitê de Inteligência do Senado dos Estados Unidos.

Os documentos foram destruídos

Em janeiro de 1973, grande parte dos registros do MK-Ultra foi destruída por determinação de Sidney Gottlieb, responsável pelo programa, com a concordância do então diretor da CIA, Richard Helms.

A destruição foi posteriormente reconhecida nos próprios documentos da agência. O memorando correspondente está disponível na sala de leitura da CIA.  Milhares de documentos financeiros armazenados separadamente sobreviveram e foram encontrados anos depois. Eles revelaram projetos que não haviam aparecido integralmente nas primeiras investigações.

A destruição dos arquivos impediu a reconstrução completa do programa.  Isso não prova automaticamente todas as histórias surgidas posteriormente. Mas demonstra que o próprio Estado eliminou parte das provas que permitiriam estabelecer com exatidão até onde suas experiências chegaram. O segredo alimentou a suspeita.  A destruição dos documentos garantiu que ela jamais desaparecesse completamente.

E a chamada Programação Monarca?

A expressão “Programação Monarca” tornou-se conhecida por meio de livros, depoimentos, terapeutas e publicações dedicadas a operações clandestinas. Segundo essa narrativa, o Monarca seria uma continuação secreta do MK-Ultra.

O método utilizaria traumas extremos para provocar dissociação psicológica. A identidade da vítima seria fragmentada em diferentes estados, condicionados para responder a palavras, imagens, sons ou outros gatilhos.  Algumas versões afirmam que essas pessoas seriam utilizadas em espionagem, exploração sexual, assassinatos, operações militares e na indústria do entretenimento.

Também são mencionados níveis denominados Alpha, Beta, Delta e Theta, além de símbolos como borboletas, olhos, espelhos, gaiolas, labirintos e referências a filmes infantis. O problema é a ausência de comprovação equivalente.

O MK-Ultra possui documentos oficiais, registros financeiros, audiências parlamentares, identificação de responsáveis e reconhecimento institucional. Até hoje, não apareceu um conjunto semelhante de provas que demonstre a existência de um programa governamental organizado com o nome “Monarca”, os níveis descritos na internet e todas as funções atribuídas a ele.

Isso não autoriza declarar que toda pessoa que relata abuso esteja mentindo. Significa que testemunho, interpretação simbólica e documento oficial são categorias diferentes de evidência.

Mengele e uma ligação que não foi comprovada

Josef Mengele aparece frequentemente nas narrativas sobre a Programação Monarca como o suposto “Dr. Green”, responsável por desenvolver o controle mental baseado em trauma. Mengele realmente realizou experiências criminosas e frequentemente mortais em prisioneiros de Auschwitz, principalmente crianças e gêmeos.

Também é verdade que os Estados Unidos recrutaram cientistas alemães por meio da Operação Paperclip. Mas não há comprovação de que Mengele tenha sido levado aos Estados Unidos pela Paperclip, trabalhado para a CIA ou criado o Projeto Monarca.

Após a guerra, ele fugiu para a América do Sul, viveu na Argentina, no Paraguai e no Brasil e morreu em Bertioga, em 1979. Sua trajetória está registrada pelo Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos. Vinculá-lo diretamente ao Monarca sem apresentar documentos não fortalece a investigação. Mistura um criminoso real com um programa ainda não comprovado.

Trauma e dissociação são fenômenos reais

A inexistência de provas suficientes sobre o Monarca não elimina os efeitos reais do trauma. Tortura, abuso, isolamento, terror, privação de sono e violência continuada podem produzir danos profundos à memória, à percepção, à identidade e à capacidade de reagir.

A dissociação é reconhecida pela psiquiatria.

Em situações extremas, a pessoa pode experimentar rupturas na integração das lembranças, emoções, percepções e consciência do próprio corpo. O Transtorno Dissociativo de Identidade, entretanto, não é sinônimo de transtorno bipolar, como afirmava o texto anteriormente divulgado.

Também não existe demonstração científica de que seja possível fabricar, com precisão absoluta, uma pessoa inteiramente controlável, programada para cumprir qualquer ordem e apagar seletivamente tudo o que fez.

A mente humana pode ser ferida, coagida, condicionada e manipulada. Isso já é suficientemente grave.

Dos gatilhos secretos aos gatilhos calculados

A Programação Monarca descreve palavras, sons e imagens capazes de acionar comportamentos previamente instalados. Hoje, as plataformas digitais trabalham com outro tipo de gatilho.

Elas descobrem quais estímulos mantêm cada pessoa conectada, quais provocam reação imediata e quais aumentam a probabilidade de compartilhamento, compra, voto ou permanência diante da tela.

O gatilho não precisa ter sido instalado por meio de tortura. Ele pode ser descoberto pela observação de milhares de escolhas anteriores. O sistema apresenta um estímulo. Mede a reação. Altera a mensagem. Repete aquilo que funcionou. Esse ciclo ocorre continuamente e em escala mundial.

A antiga pesquisa procurava um método universal para controlar a mente. A tecnologia atual trabalha de forma individual: descobre o que funciona com cada pessoa.

A manipulação não exige domínio absoluto

Talvez a expressão “controle mental” produza uma imagem errada. Para exercer poder, ninguém precisa controlar todos os pensamentos de uma pessoa. Pode ser suficiente:

  • provocar medo no momento adequado;
  • desacreditar uma testemunha;
  • isolar alguém de suas fontes de apoio;
  • repetir uma acusação;
  • ocultar informações essenciais;
  • escolher o que será mostrado;
  • criar uma falsa sensação de consenso;
  • induzir exaustão;
  • manter a pessoa permanentemente reagindo;
  • conhecer antecipadamente seus movimentos;
  • fazê-la duvidar da própria percepção.

A manipulação eficiente não transforma necessariamente alguém em robô. Ela reduz alternativas, confunde referências e empurra decisões dentro de um ambiente previamente organizado. A pessoa escolhe.  Mas escolhe entre opções que outra estrutura selecionou.

A Programação Monarca pode não ter sido comprovada. O sistema de influência atual foi

É correto dizer que não existem provas públicas suficientes para apresentar toda a Programação Monarca como fato histórico estabelecido. Mas seria igualmente errado concluir que a manipulação da mente pertence ao passado. O MK-Ultra demonstrou que governos pesquisaram secretamente formas de interferir no comportamento humano. 

A Cambridge Analytica demonstrou o valor político dos perfis psicológicos e dos dados pessoais. O Pegasus demonstrou que aparelhos podem ser invadidos e transformados em instrumentos clandestinos de vigilância. Os algoritmos demonstram diariamente que a realidade apresentada a cada pessoa pode ser selecionada, ordenada e repetida.

A inteligência artificial permite que essa influência seja produzida em escala, velocidade e grau de personalização jamais alcançados. A neurotecnologia já obrigou organismos internacionais a discutir a proteção da privacidade mental.

Não estamos falando apenas de uma borboleta usada como símbolo, de celebridades supostamente programadas ou de instalações subterrâneas cuja existência não foi demonstrada. Estamos falando de tecnologias reais, empresas reais, contratos reais, bancos de dados reais e governos reais.

Por fim, A imagem antiga do controle mental mostrava uma vítima imobilizada em um laboratório secreto.A imagem contemporânea é muito mais comum.É uma pessoa sozinha diante de uma tela, acreditando que escolheu livremente tudo o que está vendo.O controle absoluto da mente talvez continue pertencendo à ficção.

A vigilância, a manipulação emocional, a seleção da realidade e a indução de comportamentos não.

Elas acontecem no presente.Não precisam de um único Projeto Monarca, instalado numa base subterrânea e comandado por uma organização invisível. O sistema está fragmentado entre governos, empresas de tecnologia, agências de inteligência, anunciantes, campanhas políticas, plataformas e comerciantes de dados.

Cada um recolhe uma parte. Cada um aprende alguma coisa. E a pessoa, reunida digitalmente do outro lado da tela, torna-se mais conhecida pelo sistema do que imagina. No MK-Ultra, a vítima não sabia que havia recebido a droga.

Hoje, muitas vezes, ela não sabe por que recebeu aquela notícia, aquele anúncio, aquela recomendação ou aquela versão do mundo. Mudaram os instrumentos. Permaneceu o princípio: conhecer a vulnerabilidade humana para interferir em seu comportamento sem revelar quem está conduzindo a experiência.

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by Deise Brandão Projeto arquivado em 2008 é ressuscitado como “ameaça atual” em 2026 — e ainda atribui ao Estado um poder que ele nunca te...

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