13/09/2026

O livro de Enoque afirma: nenhuma autoridade — humana ou celestial — possui poder suficiente para apagar aquilo que fez.

by Deise Brandão

O Livro de Enoque é uma antiga obra religiosa judaica atribuída simbolicamente a Enoque, personagem bíblico mencionado no Gênesis como o homem que “andou com Deus” e desapareceu porque Deus o tomou para si.

Não integra a Bíblia judaica nem a maioria das Bíblias cristãs, mas é considerado canônico pela Igreja Ortodoxa Etíope. A versão mais conhecida, chamada 1 Enoque, foi composta por diferentes autores, provavelmente entre os séculos III a.C. e I d.C.

A queda dos anjos

A parte mais conhecida conta a história dos Vigilantes, anjos enviados para observar a humanidade.  Eles abandonam sua função, descem à Terra e relacionam-se com mulheres humanas. Dessa união nascem os Nefilins, gigantes violentos que espalham destruição, injustiça e derramamento de sangue.

Os Vigilantes também ensinam conhecimentos proibidos aos seres humanos, como:

  • fabricação de armas;
  • práticas de guerra;
  • feitiçaria e encantamentos;
  • astrologia;
  • interpretação dos astros;
  • uso de metais e adornos;
  • conhecimentos sobre plantas e substâncias.

Azazel aparece como um dos principais responsáveis pela corrupção humana, enquanto Semjaza lidera o pacto dos anjos rebeldes. Diante da violência, Deus determina que os Vigilantes sejam aprisionados e que os gigantes sejam destruídos. O Dilúvio surge como forma de purificar a Terra.

A missão de Enoque

Enoque atua como intermediário entre Deus e os anjos caídos.

Os Vigilantes pedem que ele apresente uma súplica por perdão. Enoque leva o pedido, mas recebe a resposta de que não haverá perdão: os anjos, sendo seres espirituais, não deveriam ter abandonado sua condição para unir-se às mulheres.

Em seguida, Enoque é conduzido por diferentes regiões do universo. Ele contempla lugares de punição, depósitos dos ventos, movimentos dos astros, moradas dos mortos e o trono divino.

Suas viagens revelam uma concepção do universo governado por uma ordem estabelecida por Deus.

O julgamento

O livro anuncia um grande julgamento no qual:

  • os anjos rebeldes serão punidos;
  • os governantes injustos perderão seu poder;
  • os opressores responderão por seus atos;
  • os mortos serão julgados;
  • os justos receberão proteção e vida;
  • a criação será purificada.

Uma figura chamada Filho do Homem, Eleito ou Justo aparece como agente do julgamento divino. Essa linguagem posteriormente se tornou importante para o cristianismo.

As principais partes

O Livro de Enoque é uma coleção formada por cinco grandes seções:

  1. Livro dos Vigilantes — narra a queda dos anjos, o nascimento dos gigantes e as viagens de Enoque.
  2. Livro das Parábolas — apresenta visões sobre o Filho do Homem, o julgamento e o destino dos poderosos.
  3. Livro Astronômico — descreve calendários, movimentos do Sol e da Lua e a organização do universo.
  4. Livro dos Sonhos — relata a história humana e de Israel por meio de sonhos e animais simbólicos.
  5. Epístola de Enoque — reúne advertências, profecias e ensinamentos sobre justiça, opressão e recompensa.

Relação com a Bíblia

O Livro de Enoque desenvolve a breve passagem de Gênesis 6 sobre os “filhos de Deus”, as mulheres humanas e os gigantes.

A Carta de Judas, no Novo Testamento, reproduz diretamente uma profecia atribuída a Enoque. Existem também semelhanças entre suas imagens e textos como Daniel, os Evangelhos e o Apocalipse.

Fragmentos de Enoque foram encontrados entre os Manuscritos do Mar Morto, demonstrando que a obra circulava entre comunidades judaicas antes e durante o surgimento do cristianismo.

Ideia central

A mensagem essencial do Livro de Enoque é que o mal não permanecerá impune.

Anjos, reis, ricos, governantes e seres humanos estão submetidos à mesma justiça. O conhecimento, quando separado da responsabilidade, pode transformar-se em instrumento de corrupção e violência.

O livro também afirma que os poderosos podem esconder seus atos dos homens, mas não conseguem escondê-los de Deus.

Em síntese, o Livro de Enoque é uma grande narrativa sobre anjos caídos, conhecimentos proibidos, corrupção do poder, julgamento e restauração da justiça.

me fale sobre cada uma delas. Livro dos Vigilantes — narra a queda dos anjos, o nascimento dos gigantes e as viagens de Enoque.

  1. Livro das Parábolas — apresenta visões sobre o Filho do Homem, o julgamento e o destino dos poderosos.
  2. Livro Astronômico — descreve calendários, movimentos do Sol e da Lua e a organização do universo.
  3. Livro dos Sonhos — relata a história humana e de Israel por meio de sonhos e animais simbólicos.
  4. Epístola de Enoque — reúne advertências, profecias e ensinamentos sobre justiça, opressão e recompensa.

O chamado Primeiro Livro de Enoque — ou 1 Enoque — não foi escrito como uma obra única. Ele reúne cinco conjuntos de textos, produzidos em épocas diferentes e posteriormente atribuídos a Enoque.

Cada parte aborda uma dimensão distinta: a origem do mal, o julgamento, a ordem cósmica, a história humana e o destino dos justos.

1. Livro dos Vigilantes

Corresponde aproximadamente aos capítulos 1 a 36 e é a parte mais conhecida.

Os Vigilantes seriam anjos encarregados de observar a humanidade. Liderados por Semjaza, duzentos deles fazem um juramento no monte Hermom: todos desceriam à Terra, tomariam mulheres humanas e assumiriam coletivamente as consequências.

Dessas relações nascem os gigantes, geralmente associados aos Nefilins de Gênesis. Eles consomem os recursos da humanidade e depois passam a atacar seres humanos, animais e uns aos outros.

Além de ultrapassar a fronteira entre o mundo espiritual e o humano, os Vigilantes transmitem conhecimentos proibidos.

Azazel ensina a fabricação de espadas, facas, escudos, armaduras e instrumentos de guerra. Também ensina o uso de metais, joias, cosméticos e adornos. Outros anjos revelam encantamentos, astrologia, observação das estrelas, sinais da Terra e movimentos celestes.

O problema não é simplesmente o conhecimento. É sua transmissão sem responsabilidade, produzindo violência, desigualdade e corrupção.

A Terra, coberta de sangue, pede justiça.

Deus então envia os arcanjos. Rafael recebe a missão de prender Azazel; Gabriel deve promover a destruição dos gigantes; Miguel aprisiona Semjaza e os demais Vigilantes. O Dilúvio é anunciado como purificação do mundo.

Os gigantes morrem, mas seus espíritos permanecem sobre a Terra. O livro relaciona esses espíritos à origem dos espíritos malignos que atormentam os seres humanos.

Enoque atua como escriba e intermediário. Os anjos caídos pedem que ele apresente uma súplica por perdão. Deus, porém, rejeita o pedido: os anjos deveriam interceder pelos homens, não pedir que um homem intercedesse por eles.

Depois disso, Enoque realiza viagens cósmicas. Ele contempla:

  • lugares de punição;
  • prisões destinadas aos anjos;
  • regiões reservadas aos mortos;
  • montanhas sagradas;
  • depósitos dos ventos;
  • movimentos dos astros;
  • a árvore da vida;
  • o lugar do trono divino.

A mensagem principal é que nem mesmo os seres celestes estão acima da lei divina.

2. Livro das Parábolas

Também chamado de Livro das Similitudes, corresponde aproximadamente aos capítulos 37 a 71. É dividido em três grandes parábolas ou visões.

Essa seção trata principalmente do julgamento final, da queda dos governantes injustos e da manifestação de uma figura chamada:

  • Filho do Homem;
  • Eleito;
  • Justo;
  • Ungido.

O Filho do Homem aparece como alguém escolhido antes da criação, oculto junto de Deus e reservado para o momento do julgamento.

Sua missão é revelar o que estava escondido, julgar reis e poderosos, derrubar os opressores e defender os justos.

Os governantes descobrem que riqueza, influência e autoridade não conseguem protegê-los. Aqueles que perseguiram os fracos e dominaram a Terra são colocados diante da justiça divina.  Essa inversão é central:

  • os humilhados são reconhecidos;
  • os perseguidos recebem proteção;
  • os poderosos perdem seus privilégios;
  • os atos secretos são revelados;
  • a autoridade humana é submetida à justiça superior.

O texto também apresenta anjos, regiões celestes, fenômenos naturais e visões sobre o destino final dos seres humanos.

No encerramento, Enoque é levado ao céu e recebe uma posição extremamente elevada. Algumas passagens parecem aproximá-lo da própria figura do Filho do Homem, embora a interpretação seja discutida entre os estudiosos.

Essa parte é especialmente importante para compreender o ambiente religioso no qual surgiram expressões posteriormente encontradas no cristianismo.

Nos Evangelhos, Jesus utiliza repetidamente a designação “Filho do Homem”. Isso não significa que os Evangelhos simplesmente copiaram Enoque, mas demonstra que essa linguagem já circulava no pensamento judaico da época.

A mensagem principal é que o poder terreno é provisório e será julgado pela forma como tratou os vulneráveis.

3. Livro Astronômico

Corresponde aproximadamente aos capítulos 72 a 82. Também é conhecido como Livro dos Luminares Celestes.

Nessa seção, o anjo Uriel mostra a Enoque o funcionamento do Sol, da Lua, das estrelas, dos ventos e das estações. O universo é apresentado como uma grande estrutura organizada por leis e calendários.

O Sol nasce e se põe por diferentes “portas” celestes ao longo do ano. A Lua possui fases próprias, modifica sua iluminação e percorre trajetórias determinadas. Estrelas e ventos também obedecem a uma ordem previamente estabelecida.

O livro defende um calendário solar de 364 dias, dividido de maneira regular:

  • quatro estações;
  • doze meses;
  • quatro períodos de 91 dias;
  • semanas completas.

Esse sistema entrava em conflito com outros calendários utilizados por comunidades judaicas. A definição do calendário não era apenas um problema científico. Determinava as datas das festas, dos jejuns e das cerimônias religiosas.

Se o calendário estivesse errado, o culto também aconteceria no momento errado.

O texto associa a desordem moral à desordem cósmica. Os astros obedecem às funções que receberam; os seres humanos e os anjos caídos é que ultrapassam seus limites.

O céu torna-se, portanto, exemplo de fidelidade.

O Livro Astronômico não deve ser lido como um tratado científico moderno. Ele combina observação dos ciclos naturais, religião, simbolismo e uma antiga representação do universo.

Sua mensagem principal é que a criação não é caótica: existe uma ordem superior que deveria também orientar a conduta humana.

4. Livro dos Sonhos

Corresponde aproximadamente aos capítulos 83 a 90 e contém duas grandes visões.

O sonho do Dilúvio

Na primeira visão, Enoque contempla a Terra sendo destruída pelas águas. 

Ele vê o céu desabar, a terra afundar e todas as coisas desaparecerem. Assustado, pede a Deus que preserve uma parte da humanidade. O sonho antecipa o Dilúvio que ocorreria na geração de Noé, bisneto de Enoque.

O Apocalipse dos Animais

A segunda visão apresenta a história da humanidade e de Israel por meio de animais simbólicos. As pessoas não aparecem com nomes. São representadas como bois, ovelhas, lobos, cães, aves e outras criaturas. De maneira geral:

  • Adão aparece como um touro branco;
  • Eva, como uma novilha;
  • Caim e Abel são representados por animais;
  • os patriarcas aparecem como bois;
  • Israel é representado pelas ovelhas;
  • povos inimigos aparecem como animais predadores;
  • líderes e protetores podem surgir como carneiros;
  • os anjos aparecem como seres humanos.

A visão percorre a história desde Adão até acontecimentos próximos ao período em que o texto foi composto. Ela inclui:

  • a queda dos Vigilantes;
  • o Dilúvio;
  • os patriarcas;
  • a escravidão no Egito;
  • o êxodo;
  • a entrega da Lei;
  • a ocupação da terra;
  • reis e profetas;
  • a destruição de Jerusalém;
  • o exílio;
  • a opressão estrangeira;
  • a revolta contra os dominadores;
  • o julgamento final.

Um dos pontos mais fortes é a imagem dos setenta pastores encarregados de cuidar das ovelhas. Esses pastores abusam da autoridade e permitem que o rebanho seja destruído além do limite autorizado. Eles acabam julgados pelo modo como exerceram a função recebida.

A metáfora é política e religiosa: quem recebe o dever de proteger pode transformar-se em perseguidor.

Ao final, os inimigos são derrotados, os opressores julgados e uma nova casa é construída. Surge também um grande touro branco, associado por diferentes interpretações a uma figura messiânica ou a uma humanidade renovada.

A mensagem principal é que a história pode parecer dominada pela violência, mas os pastores, governantes e impérios prestarão contas.

5. Epístola de Enoque

Corresponde aproximadamente aos capítulos 91 a 108.

É a parte mais diretamente moral e profética da obra. Enoque dirige ensinamentos aos filhos e às gerações futuras. O texto opõe continuamente dois grupos:

  • os justos, que sofrem e permanecem fiéis;
  • os pecadores e poderosos, que acumulam riqueza por meio da exploração.

A Epístola denuncia pessoas que:

  • enriquecem injustamente;
  • constroem propriedades com o sofrimento alheio;
  • alteram a verdade;
  • perseguem os justos;
  • confiam na riqueza;
  • utilizam o poder para oprimir;
  • acreditam que seus atos permanecerão ocultos.

Enoque adverte que o aparente sucesso dos injustos é temporário.

Os justos podem morrer sem receber reparação durante a vida, mas seus atos não serão esquecidos. Existe um registro celestial no qual as ações humanas permanecem guardadas.

O Apocalipse das Semanas

Uma parte importante da Epístola divide a história em dez “semanas” simbólicas. Não são semanas literais, mas grandes períodos da história humana. Ao longo delas aparecem:

  • o nascimento da justiça;
  • a expansão da corrupção;
  • o Dilúvio;
  • a escolha de um povo;
  • a entrega da Lei;
  • a construção do templo;
  • a apostasia;
  • o surgimento de uma geração justa;
  • o julgamento;
  • a renovação da criação.

Na última etapa, o mal é eliminado e começa um período sem fim marcado pela justiça. A história, portanto, não é apresentada como uma sucessão aleatória de acontecimentos. Ela possui direção e chegará a um julgamento.

Os “ais” contra os poderosos

A Epístola contém várias advertências iniciadas por expressões equivalentes a “ai de vós”.  Elas são dirigidas aos que:

  • constroem riqueza por meios injustos;
  • perseguem os inocentes;
  • falsificam palavras;
  • recompensam o mal;
  • confiam no ouro;
  • exercem violência;
  • negam a existência do julgamento.

Essa forma de denúncia se aproxima dos profetas bíblicos e também dos “ais” pronunciados por Jesus nos Evangelhos. A mensagem principal é que a impunidade humana não equivale à absolvição divina.

O que une as cinco partes?

Embora tenham temas e estilos diferentes, as cinco seções compartilham a mesma estrutura moral:

  1. Existe uma ordem estabelecida por Deus.
  2. Anjos e seres humanos podem violar essa ordem.
  3. O conhecimento pode ser usado para corromper e dominar.
  4. Os poderosos acreditam que permanecerão impunes.
  5. Os atos ocultos são registrados.
  6. O julgamento alcançará tanto a Terra quanto o mundo espiritual.
  7. Os justos serão restaurados.

  • O Livro dos Vigilantes explica a origem da corrupção. 
  • O Livro das Parábolas apresenta aquele que executará o julgamento.
  • O Livro Astronômico demonstra a ordem da criação.
  • O Livro dos Sonhos interpreta a história humana.

A Epístola ensina como viver enquanto a justiça ainda não chegou.

No conjunto, o Livro de Enoque afirma que nenhuma autoridade — humana ou celestial — possui poder suficiente para apagar aquilo que fez.

PROGRAMAÇÃO MONARCA: O CONTROLE MENTAL NÃO FICOU NO PASSADO


by Deise Brandão

Não é preciso amarrar uma pessoa a uma cadeira, administrar LSD ou instalar eletrodos em sua cabeça para influenciar sua percepção da realidade. Hoje, cada indivíduo carrega voluntariamente um aparelho equipado com câmera, microfone, localização, arquivos pessoais e o registro de grande parte de suas relações.

Esse aparelho sabe onde a pessoa esteve, com quem conversou, o que pesquisou, quanto tempo permaneceu diante de determinada imagem, quais palavras despertaram sua curiosidade e quais assuntos provocaram medo, desejo ou indignação.

As antigas experiências de controle mental procuravam descobrir como quebrar a resistência de um indivíduo. As tecnologias atuais aprenderam algo mais eficiente: não precisam necessariamente quebrá-lo. Podem observá-lo, conhecê-lo, cercá-lo de estímulos e conduzir seu comportamento sem que ele perceba claramente a interferência.

A manipulação não terminou com o encerramento do MK-Ultra. Ela deixou o laboratório, entrou no mercado e passou a funcionar em escala industrial.

A pessoa conectada também é uma pessoa observada

Cada pesquisa, curtida, compra, mensagem, deslocamento ou pausa diante de uma publicação produz informação. Isoladamente, um dado pode parecer insignificante. Reunidos, milhares de dados revelam padrões. Eles podem indicar:

  • preferências políticas;
  • crenças religiosas;
  • orientação sexual;
  • condição econômica;
  • estado emocional;
  • problemas de saúde;
  • conflitos familiares;
  • hábitos de consumo;
  • localização habitual;
  • vulnerabilidades;
  • pessoas com quem o indivíduo mantém contato;
  • conteúdos capazes de provocar uma reação.

A tecnologia não precisa “ler pensamentos” diretamente quando consegue inferi-los por meio do comportamento. Quanto mais uma pessoa utiliza plataformas digitais, mais detalhado se torna seu retrato. Esse conhecimento não serve apenas para descobrir o que alguém fez. Ele permite estimar o que essa pessoa poderá fazer depois.

A manipulação personalizada

A propaganda tradicional mostrava a mesma mensagem a milhões de pessoas. A propaganda digital pode mostrar mensagens diferentes a cada grupo — e até a cada indivíduo — conforme suas características, medos e desejos.

Uma pessoa preocupada com violência recebe uma mensagem baseada em ameaça. Outra, insatisfeita economicamente, recebe uma promessa de prosperidade.Uma terceira, ressentida com determinada instituição, passa a receber conteúdos que reforçam sua revolta. Cada uma acredita estar apenas observando espontaneamente o mundo. Na realidade, pode estar vendo uma seleção calculada para produzir determinada resposta.

O escândalo da Cambridge Analytica revelou como informações obtidas de milhões de usuários do Facebook foram utilizadas na criação de perfis e em estratégias de direcionamento político. A Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos responsabilizou envolvidos pela coleta enganosa de dados pessoais, conforme registro da própria FTC.

O caso não demonstrou a existência de uma máquina capaz de controlar completamente a vontade humana. Mostrou algo mais concreto: dados pessoais podem ser empregados para identificar grupos vulneráveis a mensagens específicas e tentar alterar seu comportamento político. Não se controla necessariamente aquilo que uma pessoa pensará. Controla-se parte do ambiente no qual ela formará seu pensamento.

O algoritmo escolhe o mundo que cada pessoa verá

As plataformas não mostram tudo o que foi publicado. Elas selecionam. O algoritmo decide quais conteúdos aparecerão primeiro, quais desaparecerão rapidamente e quais serão repetidos até parecerem onipresentes.

Quanto mais um conteúdo provoca reação, maior pode ser sua circulação. Medo, raiva, choque e indignação mantêm pessoas diante da tela, aumentam comentários e prolongam o tempo de permanência. A plataforma aprende com cada resposta.

Se a pessoa se irrita, recebe mais daquilo que a irrita. Se desconfia de determinado grupo, encontra conteúdos que parecem confirmar sua desconfiança. Se acredita estar sendo perseguida, pode ser cercada por publicações que transformam qualquer acontecimento em nova confirmação.

Forma-se uma realidade personalizada.  

Duas pessoas que vivem na mesma cidade, caminham pelas mesmas ruas e utilizam a mesma rede social podem habitar mundos informativos completamente diferentes. A manipulação contemporânea não precisa ordenar: “Acredite nisso”. Basta esconder parte da realidade, repetir outra parte e permitir que o indivíduo chegue sozinho à conclusão desejada.

A repetição transforma versões em realidade

Uma afirmação repetida milhares de vezes não se torna verdadeira. Mas pode adquirir aparência de verdade.

Quando a mesma versão aparece em vídeos, comentários, manchetes, postagens e mensagens encaminhadas por pessoas diferentes, desaparece a percepção de que tudo pode ter partido de uma única origem. Surge a impressão de consenso.

É assim que campanhas coordenadas podem fabricar popularidade, destruir reputações, desviar debates e transformar suspeitas em condenações públicas. Perfis falsos reproduzem mensagens. Robôs ampliam assuntos. Recortes eliminam contextos. Imagens reais são combinadas com informações falsas. Publicações emocionais circulam mais rapidamente do que correções posteriores.

A mentira não precisa convencer todos.Precisa apenas produzir dúvida suficiente para impedir que a verdade seja reconhecida.

O controle também pode ser invisível

O spyware Pegasus demonstrou que um telefone pode ser transformado em instrumento de vigilância sem que seu proprietário perceba.

Dependendo da vulnerabilidade explorada, a invasão pode ocorrer sem que a vítima clique em um link. Depois de comprometido, o aparelho pode expor mensagens, fotografias, contatos, localização e outras informações.

Investigações forenses encontraram vestígios do programa em aparelhos de jornalistas, ativistas, advogados, opositores políticos e defensores dos direitos humanos. A metodologia utilizada para localizar esses rastros foi publicada pela Anistia Internacional.

A espionagem produz uma vantagem imensa.

Quem conhece antecipadamente as decisões, provas, contatos, medos e estratégias de outra pessoa pode agir antes dela, preparar respostas, destruir sua credibilidade ou impedir que encontre apoio.

Isso não é leitura sobrenatural da mente. É domínio por meio da informação.

A vítima continua acreditando que decide livremente, mas o outro lado conhece seus passos antes mesmo de serem executados.

A inteligência artificial amplia o poder de influência

A inteligência artificial permite analisar volumes de informações que nenhum grupo humano conseguiria examinar manualmente.  Ela pode identificar padrões de comportamento, classificar emoções, produzir mensagens personalizadas, imitar vozes, fabricar imagens e criar vídeos de acontecimentos que nunca ocorreram.

Uma campanha de manipulação já não precisa escrever individualmente para milhares de pessoas. Sistemas automatizados podem adaptar linguagem, tom e argumento ao perfil de cada destinatário. Também podem simular apoio popular, produzir comentários, ocupar espaços de debate e fazer uma narrativa parecer espontânea.

O problema não está na inteligência artificial por si mesma. Está na combinação entre inteligência artificial, concentração de dados, ausência de transparência e interesses políticos, econômicos ou institucionais. Quanto mais uma organização conhece uma pessoa, mais precisamente consegue construir a mensagem destinada a atingi-la.

A próxima fronteira são os dados mentais

A neurotecnologia já permite captar determinados sinais produzidos pelo cérebro e utilizá-los para finalidades médicas, científicas ou de interação com máquinas. Esses avanços podem devolver movimentos, comunicação e autonomia a pessoas com deficiências. Mas também abrem uma questão inquietante: quem será proprietário dos dados extraídos da atividade cerebral?

Em 2025, a UNESCO avançou na elaboração de uma recomendação internacional sobre ética da neurotecnologia, ressaltando a sensibilidade dos dados neurais e também daqueles que permitem inferir estados mentais. A preocupação deixou de pertencer à ficção científica e entrou na agenda oficial de proteção dos direitos humanos, conforme documentação da UNESCO.

Localização, mensagens e preferências já são exploradas. Agora começa a discussão sobre privacidade mental. O que durante décadas foi imaginado como uma máquina secreta de controle da mente começa a reaparecer como um conjunto de produtos, pesquisas, bancos de dados e dispositivos legalmente comercializados.

Antes dos algoritmos, existiu o MK-Ultra

A preocupação contemporânea não nasceu do nada. Em 1953, durante a Guerra Fria, a CIA iniciou o MK-Ultra, programa destinado a investigar modificação do comportamento, interrogatório, drogas, hipnose e estados alterados de consciência.

Foram pesquisados LSD, privação sensorial, isolamento, interrupção do sono, eletrochoques e outras formas de interferência psicológica.  Universidades, hospitais, clínicas, prisões, fundações e laboratórios participaram de diferentes projetos. Algumas instituições e pesquisadores sequer conheciam a verdadeira origem do financiamento.

Pessoas foram expostas a substâncias sem consentimento. Pacientes vulneráveis foram utilizados como cobaias. O objetivo era descobrir como reduzir resistências, provocar confusão, produzir amnésia e aumentar a possibilidade de influência sobre o comportamento humano.

O MK-Ultra não é teoria conspiratória. Sua existência foi examinada oficialmente pelo Senado norte-americano em 1977. O registro da audiência permanece disponível no Comitê de Inteligência do Senado dos Estados Unidos.

Os documentos foram destruídos

Em janeiro de 1973, grande parte dos registros do MK-Ultra foi destruída por determinação de Sidney Gottlieb, responsável pelo programa, com a concordância do então diretor da CIA, Richard Helms.

A destruição foi posteriormente reconhecida nos próprios documentos da agência. O memorando correspondente está disponível na sala de leitura da CIA.  Milhares de documentos financeiros armazenados separadamente sobreviveram e foram encontrados anos depois. Eles revelaram projetos que não haviam aparecido integralmente nas primeiras investigações.

A destruição dos arquivos impediu a reconstrução completa do programa.  Isso não prova automaticamente todas as histórias surgidas posteriormente. Mas demonstra que o próprio Estado eliminou parte das provas que permitiriam estabelecer com exatidão até onde suas experiências chegaram. O segredo alimentou a suspeita.  A destruição dos documentos garantiu que ela jamais desaparecesse completamente.

E a chamada Programação Monarca?

A expressão “Programação Monarca” tornou-se conhecida por meio de livros, depoimentos, terapeutas e publicações dedicadas a operações clandestinas. Segundo essa narrativa, o Monarca seria uma continuação secreta do MK-Ultra.

O método utilizaria traumas extremos para provocar dissociação psicológica. A identidade da vítima seria fragmentada em diferentes estados, condicionados para responder a palavras, imagens, sons ou outros gatilhos.  Algumas versões afirmam que essas pessoas seriam utilizadas em espionagem, exploração sexual, assassinatos, operações militares e na indústria do entretenimento.

Também são mencionados níveis denominados Alpha, Beta, Delta e Theta, além de símbolos como borboletas, olhos, espelhos, gaiolas, labirintos e referências a filmes infantis. O problema é a ausência de comprovação equivalente.

O MK-Ultra possui documentos oficiais, registros financeiros, audiências parlamentares, identificação de responsáveis e reconhecimento institucional. Até hoje, não apareceu um conjunto semelhante de provas que demonstre a existência de um programa governamental organizado com o nome “Monarca”, os níveis descritos na internet e todas as funções atribuídas a ele.

Isso não autoriza declarar que toda pessoa que relata abuso esteja mentindo. Significa que testemunho, interpretação simbólica e documento oficial são categorias diferentes de evidência.

Mengele e uma ligação que não foi comprovada

Josef Mengele aparece frequentemente nas narrativas sobre a Programação Monarca como o suposto “Dr. Green”, responsável por desenvolver o controle mental baseado em trauma. Mengele realmente realizou experiências criminosas e frequentemente mortais em prisioneiros de Auschwitz, principalmente crianças e gêmeos.

Também é verdade que os Estados Unidos recrutaram cientistas alemães por meio da Operação Paperclip. Mas não há comprovação de que Mengele tenha sido levado aos Estados Unidos pela Paperclip, trabalhado para a CIA ou criado o Projeto Monarca.

Após a guerra, ele fugiu para a América do Sul, viveu na Argentina, no Paraguai e no Brasil e morreu em Bertioga, em 1979. Sua trajetória está registrada pelo Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos. Vinculá-lo diretamente ao Monarca sem apresentar documentos não fortalece a investigação. Mistura um criminoso real com um programa ainda não comprovado.

Trauma e dissociação são fenômenos reais

A inexistência de provas suficientes sobre o Monarca não elimina os efeitos reais do trauma. Tortura, abuso, isolamento, terror, privação de sono e violência continuada podem produzir danos profundos à memória, à percepção, à identidade e à capacidade de reagir.

A dissociação é reconhecida pela psiquiatria.

Em situações extremas, a pessoa pode experimentar rupturas na integração das lembranças, emoções, percepções e consciência do próprio corpo. O Transtorno Dissociativo de Identidade, entretanto, não é sinônimo de transtorno bipolar, como afirmava o texto anteriormente divulgado.

Também não existe demonstração científica de que seja possível fabricar, com precisão absoluta, uma pessoa inteiramente controlável, programada para cumprir qualquer ordem e apagar seletivamente tudo o que fez.

A mente humana pode ser ferida, coagida, condicionada e manipulada. Isso já é suficientemente grave.

Dos gatilhos secretos aos gatilhos calculados

A Programação Monarca descreve palavras, sons e imagens capazes de acionar comportamentos previamente instalados. Hoje, as plataformas digitais trabalham com outro tipo de gatilho.

Elas descobrem quais estímulos mantêm cada pessoa conectada, quais provocam reação imediata e quais aumentam a probabilidade de compartilhamento, compra, voto ou permanência diante da tela.

O gatilho não precisa ter sido instalado por meio de tortura. Ele pode ser descoberto pela observação de milhares de escolhas anteriores. O sistema apresenta um estímulo. Mede a reação. Altera a mensagem. Repete aquilo que funcionou. Esse ciclo ocorre continuamente e em escala mundial.

A antiga pesquisa procurava um método universal para controlar a mente. A tecnologia atual trabalha de forma individual: descobre o que funciona com cada pessoa.

A manipulação não exige domínio absoluto

Talvez a expressão “controle mental” produza uma imagem errada. Para exercer poder, ninguém precisa controlar todos os pensamentos de uma pessoa. Pode ser suficiente:

  • provocar medo no momento adequado;
  • desacreditar uma testemunha;
  • isolar alguém de suas fontes de apoio;
  • repetir uma acusação;
  • ocultar informações essenciais;
  • escolher o que será mostrado;
  • criar uma falsa sensação de consenso;
  • induzir exaustão;
  • manter a pessoa permanentemente reagindo;
  • conhecer antecipadamente seus movimentos;
  • fazê-la duvidar da própria percepção.

A manipulação eficiente não transforma necessariamente alguém em robô. Ela reduz alternativas, confunde referências e empurra decisões dentro de um ambiente previamente organizado. A pessoa escolhe.  Mas escolhe entre opções que outra estrutura selecionou.

A Programação Monarca pode não ter sido comprovada. O sistema de influência atual foi

É correto dizer que não existem provas públicas suficientes para apresentar toda a Programação Monarca como fato histórico estabelecido. Mas seria igualmente errado concluir que a manipulação da mente pertence ao passado. O MK-Ultra demonstrou que governos pesquisaram secretamente formas de interferir no comportamento humano. 

A Cambridge Analytica demonstrou o valor político dos perfis psicológicos e dos dados pessoais. O Pegasus demonstrou que aparelhos podem ser invadidos e transformados em instrumentos clandestinos de vigilância. Os algoritmos demonstram diariamente que a realidade apresentada a cada pessoa pode ser selecionada, ordenada e repetida.

A inteligência artificial permite que essa influência seja produzida em escala, velocidade e grau de personalização jamais alcançados. A neurotecnologia já obrigou organismos internacionais a discutir a proteção da privacidade mental.

Não estamos falando apenas de uma borboleta usada como símbolo, de celebridades supostamente programadas ou de instalações subterrâneas cuja existência não foi demonstrada. Estamos falando de tecnologias reais, empresas reais, contratos reais, bancos de dados reais e governos reais.

Por fim, A imagem antiga do controle mental mostrava uma vítima imobilizada em um laboratório secreto.A imagem contemporânea é muito mais comum.É uma pessoa sozinha diante de uma tela, acreditando que escolheu livremente tudo o que está vendo.O controle absoluto da mente talvez continue pertencendo à ficção.

A vigilância, a manipulação emocional, a seleção da realidade e a indução de comportamentos não.

Elas acontecem no presente.Não precisam de um único Projeto Monarca, instalado numa base subterrânea e comandado por uma organização invisível. O sistema está fragmentado entre governos, empresas de tecnologia, agências de inteligência, anunciantes, campanhas políticas, plataformas e comerciantes de dados.

Cada um recolhe uma parte. Cada um aprende alguma coisa. E a pessoa, reunida digitalmente do outro lado da tela, torna-se mais conhecida pelo sistema do que imagina. No MK-Ultra, a vítima não sabia que havia recebido a droga.

Hoje, muitas vezes, ela não sabe por que recebeu aquela notícia, aquele anúncio, aquela recomendação ou aquela versão do mundo. Mudaram os instrumentos. Permaneceu o princípio: conhecer a vulnerabilidade humana para interferir em seu comportamento sem revelar quem está conduzindo a experiência.

PEGASUS: QUANDO O PODER QUER VER SEM SER VISTO



by Deise Brandão

Há dois “Pegasus” circulando pelo imaginário contemporâneo. Um deles habita a fronteira entre os projetos militares secretos, a ficção científica e as teorias sobre tecnologias desenvolvidas a partir dos estudos de Nikola Tesla.

O outro é absolutamente real: um software capaz de invadir silenciosamente um telefone celular, acompanhar seus movimentos e transformar a vida de uma pessoa em território aberto à espionagem.

À primeira vista, são histórias muito diferentes. Mas ambas nascem da mesma obsessão humana: vencer distâncias, atravessar barreiras e observar aquilo que deveria permanecer inacessível.
 
O Projeto Pegasus atribuído à tecnologia de Tesla

A narrativa do chamado Projeto Pegasus tornou-se conhecida principalmente pelas declarações do advogado norte-americano Andrew D. Basiago.

Segundo ele, entre o final da década de 1960 e o início dos anos 1970, órgãos do governo dos Estados Unidos teriam desenvolvido experiências secretas envolvendo teletransporte, deslocamento no tempo e visualização de acontecimentos passados ou futuros.

Basiago afirma que teria participado dessas experiências ainda criança e que parte da tecnologia empregada teria origem em trabalhos deixados por Nikola Tesla. Nas versões difundidas sobre o projeto, apareceria um equipamento chamado “cronovisor”: uma espécie de dispositivo capaz de acessar ou reconstruir imagens de outros momentos históricos. É aqui que se torna indispensável separar narrativa de comprovação.

Nikola Tesla realmente realizou pesquisas extraordinárias sobre eletricidade, transmissão de energia, radiofrequência e campos eletromagnéticos. Após sua morte, em janeiro de 1943, documentos que estavam em seu quarto de hotel foram recolhidos pelas autoridades norte-americanas e posteriormente examinados. Isso ajudou a alimentar inúmeras histórias sobre descobertas mantidas em segredo pelo Estado.

Entretanto, não existe comprovação documental pública e verificável de que Tesla tenha construído uma máquina do tempo, um sistema de teletransporte ou o equipamento descrito por Basiago. Também não existe confirmação oficial de que a DARPA tenha conduzido um programa de viagens temporais denominado Projeto Pegasus.

Há, inclusive, uma incompatibilidade cronológica importante: a DARPA foi criada em 1958, quinze anos depois da morte de Tesla. A ligação entre o inventor e o suposto projeto dependeria, portanto, do aproveitamento posterior de documentos ou tecnologias que ele teria deixado — e não de sua participação pessoal. O projeto permanece no terreno das alegações não comprovadas.

Mas a ideia sobrevive porque toca num ponto sensível: nós sabemos que Estados desenvolvem tecnologias secretas e somente revelam parte delas muitos anos depois. Isso não prova a existência do Projeto Pegasus, mas explica por que a narrativa continua despertando curiosidade

O outro Pegasus não é uma teoria

O Pegasus desenvolvido pela empresa israelense NSO Group pertence a uma realidade muito menos fantástica — e talvez mais perturbadora.

Trata-se de um software de espionagem criado para penetrar em aparelhos celulares. Em algumas modalidades de ataque, a vítima não precisa clicar em link algum. São as chamadas invasões zero-click: o telefone pode ser comprometido sem uma ação consciente de seu proprietário.

Depois de instalado, o programa pode, conforme a forma de ataque e o aparelho atingido:
  • acessar mensagens, contatos, fotos e arquivos; 
  • acompanhar a localização da pessoa;
  • obter registros de chamadas;
  • coletar informações de aplicativos;
  • acionar o microfone;
  • utilizar a câmera;
  • capturar dados antes ou depois de serem protegidos por criptografia.

A NSO Group sustenta que vende suas ferramentas exclusivamente a governos e que elas foram desenvolvidas para combater crimes graves e terrorismo.

Investigações internacionais, entretanto, encontraram vestígios do Pegasus em telefones pertencentes a jornalistas, advogados, ativistas, opositores políticos e defensores dos direitos humanos. As análises forenses foram realizadas por organizações como a Anistia Internacional e o Citizen Lab, da Universidade de Toronto.

Portanto, diferentemente do projeto temporal associado a Tesla, a existência do spyware Pegasus não depende da palavra de uma testemunha ou de documentos supostamente secretos. Seu funcionamento deixou rastros técnicos, foi objeto de perícias independentes e chegou aos tribunais.
 
O que um Pegasus tem a ver com o outro?

A ligação direta entre eles não está demonstrada. Não há evidência de que o spyware da NSO Group tenha sido derivado das pesquisas de Tesla ou do suposto programa descrito por Basiago. A relação é outra.

Nos dois casos, Pegasus representa a tecnologia que pretende atravessar uma fronteira considerada inviolável.  No primeiro, a fronteira seria o tempo. No segundo, é a intimidade.

O Projeto Pegasus atribuído a Tesla permitiria observar acontecimentos aos quais uma pessoa comum jamais teria acesso. O Pegasus da NSO permite que alguém acompanhe conversas, movimentos e relações sem estar fisicamente presente.

Um promete enxergar o passado ou o futuro. O outro invade o presente.
Um teria transformado a história em imagem acessível. O outro transforma a vida privada em informação disponível. Ambos representam, no imaginário ou na realidade, o mesmo privilégio extremo: ver sem ser visto.
 
O Estado e a tecnologia que ninguém pode fiscalizar

Existe ainda um paralelo político mais importante. As duas histórias colocam tecnologias excepcionais nas mãos do Estado ou de empresas que atuam para governos. Em ambos os casos, a sociedade fica diante do mesmo problema: como fiscalizar um instrumento cuja própria existência pode ser negada?

O segredo pode ser necessário em determinadas investigações. Mas também pode funcionar como abrigo para abusos. Quando o cidadão desconhece a tecnologia empregada, não sabe que foi atingido e não consegue identificar quem a acionou, desaparecem as condições mínimas de defesa.

Não há contraditório possível contra uma vigilância invisível. Não há liberdade real quando alguém pode entrar em nossa vida sem deixar aviso, ordem judicial conhecida ou oportunidade de reação.

O Pegasus real demonstrou que a espionagem moderna já não exige agentes seguindo pessoas pelas ruas, escutas instaladas em paredes ou invasões físicas. Cada cidadão carrega voluntariamente consigo um aparelho equipado com câmera, microfone, localização e memória de suas relações.

O antigo grampo precisava ser colocado dentro da casa. Agora, nós mesmos levamos o instrumento para todos os lugares.A verdadeira viagem no tempo

O aspecto mais inquietante do spyware talvez seja justamente sua capacidade de reconstruir a trajetória de uma pessoa. Mensagens antigas, fotografias, deslocamentos, contatos, pesquisas e documentos permitem refazer sua vida. Não se viaja literalmente ao passado, mas ele pode ser reconstituído com extraordinária precisão.

Também se torna possível antecipar comportamentos: saber com quem a pessoa conversa, onde costuma estar, o que procura, quais são suas fragilidades e o que provavelmente fará depois. Nesse sentido, o Pegasus contemporâneo dispensa máquinas do tempo. Ele arquiva o passado, acompanha o presente e ajuda o observador a prever o futuro.
O cavalo alado mudou de forma

Na mitologia grega, Pégaso era o cavalo alado capaz de alcançar lugares inacessíveis aos homens comuns. O nome não poderia ser mais apropriado.

Se o projeto relacionado a Tesla pretendia atravessar as barreiras do espaço e do tempo, o software israelense atravessa senhas, aparelhos e direitos fundamentais.O primeiro permanece como uma narrativa fascinante, mas sem comprovação pública. O segundo já está entre nós.

Talvez a pergunta mais importante não seja se algum governo conseguiu viajar no tempo. A pergunta é o que governos, empresas e grupos de poder conseguem fazer, agora, enquanto olhamos para outro lado.

A mais perigosa das tecnologias não é necessariamente aquela que transporta alguém para o futuro. É aquela que entra silenciosamente no nosso presente — e nos retira o direito de saber quem está olhando.

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