26/06/2026

Clarice Lispector: Além do Estigma de Musa Intocável

 

by Deise Brandão

O "lado B" de Clarice Lispector afasta a imagem de fada mística, musa intocável ou criadora de frases motivacionais de internet. A realidade de sua vida pessoal e de sua prática literária foi marcada por dependência química, isolamento, pragmatismo financeiro e um temperamento extremamente difícil.

A Vida Pessoal: Dependência e Isolamento

Longe do misticismo, a rotina de Clarice nos seus últimos anos era fortemente ditada pelo uso pesado de ansiolíticos, calmantes e anfetaminas. Ela sofria de insônia crônica e alternava quimicamente entre estados de torpor e vigília para conseguir funcionar e escrever.

Clarice não era uma pessoa de convivência fácil. Relatos de amigos próximos, biógrafos como Benjamin Moser e jornalistas da época descrevem uma mulher frequentemente rígida, impaciente e de humor cortante. O isolamento em seu apartamento no Leme não era um retiro poético, mas uma reclusão autoprovocada por uma profunda paranoia e inadequação social.

O casamento fracassado com o diplomata Maury Gurgel Valente deixou cicatrizes. A vida no exterior como esposa de embaixador a sufocava. De volta ao Brasil, a realidade financeira era instável e o diagnóstico de esquizofrenia de seu filho mais velho, Pedro, gerava uma sobrecarga financeira e emocional devastadora, que ela enfrentava com crônica exaustão.

A Literatura: Sem Romantismo Existencial

 A literatura de Clarice não nascia apenas de "epifanias divinas". Ela escrevia por necessidade financeira estrita. Clarice manteve colunas sob pseudônimos em jornais (como Helen Palmer ou Ilka Soares) dando dicas de beleza, receitas e conselhos matrimoniais puramente para pagar as contas, algo que muitas vezes desprezava fazer.

Clarice não sentava em uma escrivaninha organizada esperando a inspiração. Ela escrevia de forma fragmentada, em pedaços de papel higiênico, maços de cigarro e cadernos velhos, muitas vezes com a máquina de escrever no colo enquanto cuidava dos filhos. O trabalho posterior de datilografia e organização desses fragmentos — feito muitas vezes por sua secretária, Olga Borelli — era exaustivo e puramente mecânico.

A literatura clariceana não busca o belo ou o reconfortante. O foco de obras como A Paixão Segundo G.H. é a desorganização humana, o nojo, a falência da linguagem e a crueza da existência. Ela expunha a hipocrisia da classe média, o tédio do casamento e o egoísmo de forma fria e sem nenhuma redenção moral ou espiritual.

O Jornalismo por Sobrevivência

Clarice não via as colunas de jornal como extensão de sua arte, mas como um trabalho puramente comercial. Sob os nomes de Helen Palmer e Ilka Soares, ou como ghostwriter para a modelo Tereza Rachel, ela escreveu colunas femininas dando conselhos de beleza, receitas e dicas de etiqueta. Era o oposto de sua literatura densa; ela fazia isso estritamente pelo salário.

Na década de 1960 e 1970, realizou uma famosa série de entrevistas com personalidades para a revista Manchete. Embora tenha conversado com grandes nomes, ela frequentemente usava um questionário fixo e repetitivo, demonstrando tédio pelo formato.

Quando o foco mudava e ela passava a ser a entrevistada, a relação se tornava tensa e imprevisível. Clarice detestava dar entrevistas. Ela frequentemente respondia a repórteres com monossílabos, silêncios prolongados ou frases cortantes como "não sei" e "isso não importa".

Meses antes de morrer, Clarice concedeu uma entrevista histórica ao jornalista Júlio Lerner. Na gravação, ela aparece visivelmente desconfortável, fumando compulsivamente, pedindo para o repórter não usar certas respostas e exigindo que o material só fosse ao ar após a sua morte. Ela declarou na entrevista: "Eu mudei muito... Eu morri muitas vezes".

A Manipulação da Própria Imagem

Apesar de clamar por privacidade, Clarice tinha plena consciência do mito que orbitava seu nome e sabia como manejá-lo. Ela era extremamente vaidosa e controladora com sua imagem pública. Exigia ver e aprovar as fotos que saíriam nos jornais, rejeitando ângulos que mostrassem as cicatrizes do incêndio de 1966 ou os sinais do envelhecimento.

Ao se recusar a explicar seus livros ou sua vida privada para os críticos literários nos jornais, ela aumentava a aura de "esfinge" que a imprensa criava ao seu redor. Ela reclamava do rótulo de hermética e misteriosa, mas suas atitudes esquivas com os jornalistas solidificavam exatamente esse estereótipo.

Clarice Lispector operava em um pragmatismo bruto que a ficção popular costuma apagar. Longe do mito da escritora intocável, sua trajetória na literatura, na vida pessoal e na imprensa foi ditada pelas urgências da sobrevivência material, pelo fardo da saúde mental e pela crueza das relações humanas. 

O que a torna monumental não é uma suposta iluminação divina, mas justamente sua capacidade de produzir uma das obras mais radicais da língua portuguesa enquanto lidava com o caos, a dependência química e a necessidade ordinária de pagar as contas. Clarice não era uma esfinge mística; era uma mulher cindida entre a miséria do cotidiano e a busca implacável pela palavra exata.

*Impressões minhas após ler A Via Crucis do Corpo (1974).

Cuba: Entre a Foice e o Mercado

Por Deise Brandão

O anúncio de um novo pacote de 175 medidas econômicas em Cuba não é apenas um ajuste fiscal; é um aceno pragmático a uma realidade que, historicamente, o regime insistiu em ignorar. Para quem observa a ilha sob a ótica da geopolítica e da estrutura institucional, o que se vê não é o fim do socialismo, mas uma tentativa desesperada — e talvez tardia — de sobrevivência do sistema através da abertura ao mercado.

O Pragmatismo Forçado pela Crise

O governo de Miguel Díaz-Canel descreve as mudanças como um "aperfeiçoamento" do socialismo. No entanto, ao analisar a permissão para a venda de ativos estatais a investidores estrangeiros e a autorização para que empresas privadas contratem mais de 100 funcionários, percebemos que a "linha vermelha" ideológica foi, no mínimo, deslocada.

Estamos diante de uma contradição inerente: como manter a centralidade do planejamento estatal enquanto se permite que o capital privado — o antípoda desse planejamento — ganhe fôlego em setores estratégicos como agricultura e sistema bancário? A resposta, ao que parece, está escrita nos manuais de sobrevivência de Pequim e Hanói, não em Havana.

Perestroika ou Deng Xiaoping?

O grande debate que paira sobre a Assembleia Nacional cubana é: qual caminho o país seguirá?

De um lado, o fantasma da Perestroika de Gorbachev assombra os que temem que qualquer abertura econômica seja o estopim de uma desintegração política. Se o controle estatal se afrouxa, a demanda por liberdade individual, segurança jurídica e, consequentemente, pluralismo político tende a subir como uma maré.

De outro, o modelo chinês de Deng Xiaoping oferece uma rota que o governo cubano parece almejar: a "economia de mercado socialista". A premissa é simples, embora de execução complexa: permitir que a iniciativa privada gere a riqueza necessária para sustentar a máquina pública, enquanto o Partido Comunista mantém o monopólio da governança.

O Que as Medidas Realmente Significam?

Para o cidadão cubano, a teoria importa menos do que a prática. As reformas são, acima de tudo, um reconhecimento de que o modelo anterior, travado por uma burocracia estatal asfixiante e sanções severas, exauriu sua capacidade de prover o básico.

As mudanças — descentralização, atração de capital externo e expansão do setor privado — são ferramentas. Se elas servirão para modernizar uma estrutura obsoleta ou se serão a porta de entrada para uma mudança de regime, é algo que o tempo dirá. No momento, o que vemos é um governo que tenta conciliar a manutenção do poder político com a injeção necessária de oxigênio capitalista.

Afirmar que estas reformas marcam o "começo do fim" é precipitado. O Estado cubano demonstrou resiliência e habilidade em manter o controle político em situações de escassez extrema. Entretanto, ao abrir as portas para o investimento estrangeiro e dar corpo ao setor privado, Cuba inicia um processo de irreversibilidade econômica.

A história mostra que, uma vez que a economia ganha autonomia, o Estado dificilmente consegue retroceder sem causar colapsos sociais. Cuba está, hoje, no meio de uma travessia perigosa: tenta navegar em águas capitalistas sem perder o leme socialista. O problema, como nos ensina a boa política, é que o mercado tem uma lógica própria, e ela raramente pede permissão aos burocratas para moldar a realidade.

24/06/2026

Terremoto na Venezuela: quando a natureza lembra que nenhuma crise é absoluta



by Deise Brandão

Enquanto o mundo acompanha guerras, disputas políticas e crises econômicas, a Venezuela voltou a enfrentar um inimigo que não escolhe governo, ideologia ou fronteiras: a força da natureza.

Nesta quarta-feira (24), dois fortes terremotos atingiram o país em um intervalo inferior a um minuto. Os abalos, registrados entre magnitudes 7,2 e 7,5 pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), provocaram o desabamento de edifícios, danos significativos em Caracas e em outras cidades, interrupções na infraestrutura e uma enorme mobilização das equipes de resgate. As autoridades ainda trabalham para dimensionar o número de vítimas e a extensão real dos prejuízos.

O episódio também serve para lembrar que a Venezuela está localizada em uma região de intensa atividade sísmica, consequência do encontro entre as placas do Caribe e da América do Sul. Embora terremotos façam parte da história do país, eventos dessa magnitude são raros e potencialmente devastadores.

Mais do que números, imagens ou estatísticas, tragédias como esta expõem a vulnerabilidade humana. Em poucos segundos, famílias perdem suas casas, hospitais passam a operar no limite, serviços públicos entram em colapso e milhares de pessoas passam a depender exclusivamente da solidariedade.

Independentemente de posições políticas sobre o governo venezuelano, há um princípio que deveria ser universal: diante de um desastre natural, a prioridade é salvar vidas. A ajuda humanitária, a cooperação internacional e o apoio às equipes de resgate precisam estar acima de qualquer divergência ideológica.
Neste momento, a maior necessidade da Venezuela não é o debate político.

É socorrer quem ficou sob os escombros, atender os feridos e oferecer esperança a quem perdeu tudo. ___Quando a terra treme, todos somos apenas seres humanos.

21/06/2026

O art. 1.513 do Código Civil diante da intromissão estatal na família

by Deise Brandão

Em Santa Catarina, um magistrado determinou a imposição de multa que ultrapassa R$ 900 mil a um casal que se recusou a vacinar seus três filhos. Fundamentada na obrigatoriedade da vacinação infantil prevista na legislação brasileira, a decisão reacendeu um debate que transcende a questão sanitária e alcança temas centrais do Estado Democrático de Direito: os limites da intervenção estatal na vida privada, a autonomia familiar, a autoridade dos pais na criação dos filhos e o alcance do poder do Estado sobre decisões íntimas da família. 

A ação foi movida pelo MP-SC em 2024 após a Secretaria Municipal de Saúde e o Conselho Tutelar constatarem que as cadernetas das três crianças não possuíam registro de nenhuma vacina. Os pais alegaram ter interrompido a imunização depois que o filho mais velho sofreu uma grave reação quando bebê. No entanto, uma perícia médica concluiu que o episódio foi um Evento Hipotônico-Hiporresponsivo (EHH), condição rara e temporária que não contraindica a continuidade da vacinação, destacando que não havia justificativa médica para suspender as doses.

Na sentença, o juiz Eduardo Felipe Nardelli reforçou que a vacinação infantil é obrigatória no Brasil e que o direito à saúde e à vida das crianças prevalece sobre convicções pessoais dos responsáveis. A decisão foi mantida pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Além da cobrança da multa acumulada, o MP-SC pediu a aplicação de penalidades adicionais e medidas de bloqueio de bens caso o casal não efetue o pagamento. Por precaução, a Justiça também determinou que o filho mais velho receba uma versão alternativa da vacina pentavalente ao atualizar seu esquema vacinal.

O lado B:  art. 1.513 do Código Civil 

O art. 1.513 do Código Civil é categórico e não deixa margem para relativizações:

“É defeso a qualquer pessoa, de direito público ou privado, interferir na comunhão de vida instituída pela família.”

A lei não é tímida. Ela barra expressamente o Estado (pessoa de direito público). O problema é que, na prática forense, a soberania do lar só existe até que o Estado decida o contrário.

Quando o Ministério Público invade a intimidade familiar para atropelar escolhas parentais, e o Judiciário chancela esse abuso, o art. 1.513 é rebaixado de garantia fundamental a um mero enfeite legislativo.

A autonomia familiar vem sendo asfixiada por uma interpretação distorcida de quatro pilares:

Art. 227 da Constituição Federal (Proteção Integral): O que deveria ser uma rede de apoio estatal virou um cheque em branco para o ativismo judicial, anulando o pátrio poder sob o pretexto de "salvar" a criança dos próprios pais.

Art. 196 da Constituição Federal (Direito à Saúde): A saúde virou o cavalo de Troia do autoritarismo estatal, sendo usada para justificar a invasão do lar e a imposição de decisões médicas privadas.

Art. 14, §1º, do ECA (Vacinação Obrigatória): Uma norma de eficácia contida é tratada como mandamento absoluto, atropelando o direito de escolha e a própria hierarquia do art. 1.513 do Código Civil.

Jurisprudência do STF sobre Vacinação: Sob o manto da "defesa coletiva",Suprema Corte chancelou o esvaziamento da lei, transformando a discordância parental legítima em caso de intervenção estatal coercitiva.Na prática, tem servido para fortalecer a atuação estatal, ainda que isso esvazie a proteção legal expressa da comunhão familiar.

A realidade é brutal

A questão central é simples: se o art. 1.513 afirma que é defeso ao poder público interferir na comunhão de vida da família, mas qualquer justificativa estatal pode afastá-lo, então qual é seu valor real?

Se o art. 1.513 proíbe a interferência pública, mas qualquer pretexto burocrático serve para afastá-lo, o artigo perdeu sua função jurídica.

Ou ele é uma garantia jurídica da autonomia familiar, ou virou enfeite normativo.E, se virou enfeite, o problema não é apenas da família atingida. É de todo cidadão que ainda acredita que a lei escrita possui algum valor diante da vontade interpretativa do Estado

Ou a lei é um limite real contra o arbítrio estatal, ou é apenas retórica para inglês ver. Se a vontade interpretativa do juiz vale mais do que o texto expresso da lei, não é apenas a autonomia familiar que está sob ataque — é o próprio Estado de Direito que faliu.

Em Alta

Anatomia de uma Versão: Como a sociedade é manipulada sem perceber

by Deise Brandão Existe uma diferença brutal entre informação e reprodução de roteiro . No jornalismo investigativo e na perícia forense, a...

Mais Lidas