25/10/2026

Sob Fogo Cruzado: Quando a Farsa Vira Notícia e o Jornalismo Vira Cúmplice

 Foto criada por IA. No filme foi isso. Ele estava morto e foi colocado um JORNAL do     dia, nas mãos do morto. Por isso os óculos. 

by Deise Brandão

Se você quer entender como as narrativas são fabricadas para controlar o poder — e como a engrenagem da informação realmente funciona —, existe uma obra fundamental que precisa ser resgatada: Under Fire (Sob Fogo Cruzado, 1983).

Não se trata de mero registro histórico da Nicarágua nos anos 1970. Trata-se do momento em que a cortina da farsa cai.

A virada de chave para abandonar as redações de jornalismo começou justamente assistindo a esse filme, em 1987. A decisão definitiva veio logo no ano seguinte: fechar a porta do jornalismo tradicional para nunca mais voltar. A ruptura com o meio foi tão drástica quanto necessária — a ponto de não restar um único amigo jornalista pelo caminho.

O motivo? O filme expõe sem pudor a ilusão da "neutralidade" e escancara do que a imprensa é capaz quando o objetivo é simplesmente vencer.

A Sinopse e o Spoiler da Farsa

O filme se passa em 1979, durante os últimos dias da ditadura sanguinária de Anastasio Somoza na Nicarágua. O protagonista é Russell Price (Nick Nolte), um fotojornalista norte-americano viciado na adrenalina das guerras, mas que ostenta a vaidade da "neutralidade profissional": ele garante que não toma lados, apenas "tira fotos".

A virada e o ponto central do filme acontecem quando os rebeldes sandinistas precisam provar ao mundo que seu líder, o Comandante Rafael, continua vivo — condição essencial para manter a revolução acesa e cortar o apoio financeiro dos EUA ao ditador. Price consegue acesso ao esconderijo dos rebeldes para registrar a imagem que mudaria o rumo do conflito.

O SPOILER DA FARSA:

Ao chegar ao local, o fotógrafo descobre a verdade: Rafael já estava morto, assassinado dias antes. Para não deixar o movimento ruir, os rebeldes propõem ao jornalista o maior pecado da profissão: fabricar uma mentira.

Price aceita. Ele pega o cadáver de Rafael, coloca óculos escuros no morto, ajusta um jornal do dia ao lado do corpo para simular a data e clica a foto. A imagem forjada roda o mundo. A imprensa internacional compra a fraude como verdade absoluta sem checar nada. A narrativa vence, a ajuda militar cessa e o ditador cai.

Para Vencer, Vale Tudo: O Modus Operandi da Imprensa

Essa cena de Under Fire não é ficção isolada; é a síntese do ecossistema da notícia. A história e a prática provam que a imprensa sempre foi cúmplice das grandes mentiras construídas para moldar a opinião pública:

  • A Manipulação Direta: A busca pela verdade crua é secundária. O que importa é o controle da narrativa. Se for preciso maquiar a realidade — ou um defunto — para sustentar a versão que interessa ao sistema, isso será feito.

  • A Adesão da Maioria: A grande massa que ocupa as redações repete a pauta do dia, engole os relatórios oficiais e replica discursos sem questionar. A cumplicidade nasce tanto do interesse quanto da covardia em não confrontar a linha editorial.

  • O Expurgo da Minoria: Aqueles poucos que recusam a farsa, que apontam a manipulação e insistem na independência real, são prontamente isolados, rotulados e cancelados. A exclusão de quem pensa fora do rebanho é o método clássico de autopreservação do sistema.

A Ilusão do Ciclo: De Somoza a Ortega

A tragédia do poder fica ainda mais evidente ao olhar o que veio depois na própria Nicarágua. A queda de Somoza em 1979 não trouxe uma libertação permanente:

  • O Caminho Incerto: Após a revolução, a Nicarágua viveu anos de guerra civil e, entre 1990 e 2006, teve governos de oposição eleitos.

  • O Retorno e a Nova Ditadura: Daniel Ortega — o mesmo líder sandinista do período pós-Somoza — articulou pactos políticos nos bastidores, alterou as regras eleitorais para voltar ao poder em 2007 e de lá nunca mais saiu.

Hoje, o antigo libertador transformou-se no exato espelho do ditador que ajudou a derrubar: persegue opositores, fecha veículos de imprensa, expulsa religiosos e isola o país diplomaticamente (culminando até na recente expulsão mútua de embaixadores entre Brasil e Nicarágua). As narrativas mudam de mãos, mas a engrenagem do autoritarismo permanece a mesma.

Do Passado ao Presente: Por Que Ver Este Filme Hoje?

Os métodos de 1983 apenas se aperfeiçoaram. As câmeras analógicas deram lugar ao ambiente digital, mas a lógica da manipulação é idêntica: constroem-se "verdades" sob medida para atender a interesses de ocasião.

Recusar esse teatro não foi uma desistência, mas um ato de preservação e dignidade.

O recado fica registrado: assistam a Under Fire. Olhem para a tela e vejam sem filtros o que são capazes de fazer para vencer. Só assim é possível entender por que a busca pela verdade de fato exige, antes de tudo, coragem para não se curvar à versão oficial.

*Vídeo Completo Dublado (OK.ru): Existe uma cópia completa com a dublagem clássica disponível diretamente na plataforma OK.ru sob o título em português: Assistir "Sob Fogo Cerrado / Sob Fogo Cruzado" (1983) Dublado no OK.ru


A Máscara que Caiu: A Carta no El País e a Cumplicidade da Diplomacia com as Tiranias Amigas

 


by Deise Brandão

Há uma máxima que costuma atravessar os corredores do poder: a melhor forma de medir a coerência de um líder político não é ouvindo o que ele diz quando está na oposição, mas observando quem ele protege quando ocupa a cadeira do executivo.

O debate sobre a política externa do governo de Luiz Inácio Lula da Silva ganhou contornos dramáticos após a publicação de uma carta aberta pelo jornal espanhol El País. Escrita pelo renomado autor nicaraguense e ex-vice-presidente da Nicarágua, Sergio Ramírez — figura histórica da própria Revolução Sandinista e hoje despojado de sua nacionalidade pelo regime autocrático —, o texto escancarou o abismo entre a retórica de defesa da democracia e a prática da diplomacia brasileira frente a regimes autoritários de esquerda.

"Não Negue à Nicarágua o Direito de Escolher": A Cobrança Moral de Sergio Ramírez

Sergio Ramírez não é um adversário de direita ou um operador político tradicional; é um dos intelectuais mais respeitados da América Latina e ex-companheiro de chapa de Daniel Ortega nos anos 1980. Perseguido e banido de sua pátria pelo atual regime, Ramírez dirigiu-se diretamente ao presidente do Brasil no artigo veiculado pelo El País:

"Não negue à Nicarágua, senhor Presidente, o direito de escolher livremente — o mesmo direito que pode fazê-lo presidente do Brasil pela quarta vez."

A denúncia de Ramírez veio na esteira de anúncios do regime Ortega-Murillo que visavam sufocar de vez os processos eleitorais plurais no país, consolidando o controle estatal sobre qualquer tentativa de oposição. A carta expôs a dolorosa contradição de um governo brasileiro que se projeta internacionalmente como fiador do processo democrático e das urnas em seu próprio território, mas adota posturas de apaziguamento, abstenção e abrandamento de resoluções de condenação em órgãos como a Organização dos Estados Americanos (OEA).

O Mecanismo do Duplo Padrão: Quando o Autoritarismo Ganha Passaporte Ideológico

A crítica contida na carta ressoa de forma contundente em setores da sociedade civil e da imprensa que há anos apontam a assimetria na condução da política externa do Partido dos Trabalhadores (PT). Trata-se do clássico "duplo padrão" (double standard):

  • Condenação Seletiva: Golpes de Estado, violações institucionais e abusos cometidos por governos alinhados à direita recebem repúdio imediato, firme e vocal.

  • Panos Quentes na Vizinhança Ideológica: Diante de violações sistemáticas cometidas por ditaduras de esquerda na América Latina — como o fechamento de jornais, a prisão de pré-candidatos presidenciais, a cassação de direitos políticos e a perseguição religiosa na Nicarágua ou as fraudes e repressão na Venezuela —, o discurso oficial recorre a eufemismos como "pragmatismo", "não ingerência" ou "autodeterminação dos povos".

Essa atuação não é neutra. Ao atuar para diluir sanções ou abrandar notas oficiais em fóruns multilaterais, o Brasil acabou servindo, na prática, como uma blindagem diplomática que deu tempo e oxigênio para que regimes autoritários se consolidassem.

De Libertadores a Ditadores: A Cegueira da Velha Guarda

O caso da Nicarágua é a demonstração mais acabada dessa cegueira ideológica. O mesmo Daniel Ortega que nos anos 1970 combateu a ditadura familiar dos Somoza tornou-se, quatro décadas depois, um ditador sanguinário que governa ao lado de sua esposa, estatizou o Judiciário, expulsou a Igreja Católica e baniu centenas de organizações da sociedade civil.

Manter a complacência com figuras como Ortega sob o pretexto de laços históricos da década de 1980 ignora que o tirano de hoje destruiu todos os ideais da revolução do passado. Como apontou Ramírez, a ditadura não perde seu caráter opressor apenas porque usa símbolos de esquerda ou adota um discurso anti-imperialista.

A Coerência que Falta

A carta publicada no El País entrou para a história recente como um divisor de águas no debate sobre o papel do Brasil no cenário internacional. Ela não deixou margem para ambiguidades: a democracia não pode ser tratada como um valor relativo ou conveniente.

Quando a diplomacia de um país hesita em nomear e condenar com a mesma dureza os abusos cometidos por seus aliados políticos, ela deixa de ser um agente de mediação e passa a figurar como cúmplice da opressão. A história cobra um preço alto de quem escolhe olhar para o outro lado enquanto a liberdade de todo um povo é varrida do mapa.

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