quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O cromossomo Y está desaparecendo?

 

                                                        Imagem gerada por IA - GPT

by Deise Brandão

O cromossomo Y, peça central na determinação do sexo biológico masculino em humanos, voltou ao centro de debates científicos — e também de manchetes exageradas. Estudos de genética evolutiva mostram que, ao longo de aproximadamente 300 milhões de anos, o Y perdeu cerca de 97% de seus genes ancestrais, tornando-se muito menor e geneticamente mais limitado do que já foi no passado.

Esse dado é real, comprovado e amplamente aceito pela ciência. O que divide especialistas é a interpretação sobre o futuro desse cromossomo.

Um cromossomo que encolheu — e sobreviveu

Comparações genômicas indicam que o cromossomo Y sofreu intensa degeneração ao longo da evolução, sobretudo por não recombinar amplamente como outros cromossomos. Isso o tornou mais vulnerável à perda de genes. Ainda assim, os genes que permaneceram estão majoritariamente ligados à fertilidade masculina e a funções celulares essenciais.

Além disso, a biologia já demonstrou que o cromossomo Y não é universalmente indispensável. Algumas espécies de mamíferos, como certos ratos-toupeira e ratos-espinhosos, perderam completamente o Y e desenvolveram mecanismos alternativos de determinação sexual.

A hipótese do desaparecimento

A possibilidade de que o cromossomo Y humano venha a desaparecer em um futuro distante é defendida por pesquisadores como a bióloga evolutiva Jenny Graves. Segundo essa linha de pensamento, se a taxa histórica de perda genética fosse mantida, o Y poderia deixar de existir em milhões de anos.

A própria Graves, no entanto, ressalta que isso não significaria o fim dos homens, mas sim uma eventual transição para outro sistema genético de diferenciação sexual — como já ocorreu em outras espécies.

A visão oposta: estabilidade, não colapso

Outros cientistas contestam essa projeção. Pesquisadores como Jennifer Hughes, ligada ao Massachusetts Institute of Technology, afirmam que o cromossomo Y humano não está em colapso.

Estudos genômicos mostram que os genes essenciais do Y vêm sendo preservados há pelo menos 25 milhões de anos, especialmente em primatas. O cromossomo teria desenvolvido mecanismos internos de autoproteção, como duplicações gênicas, que garantem sua funcionalidade ao longo do tempo.

Para esse grupo, o Y já teria passado por sua fase mais crítica e hoje estaria evolutivamente estabilizado.

Onde termina a ciência e começa o exagero

Apesar do debate legítimo, parte da repercussão pública extrapola os dados científicos. Não há evidência de que o cromossomo Y esteja prestes a desaparecer, tampouco de que exista qualquer ameaça iminente à masculinidade biológica humana.

Também não há comprovação de populações humanas com sistemas alternativos de determinação sexual ainda “ocultos” ao sequenciamento genômico. Essa ideia permanece no campo da especulação teórica, sem respaldo empírico.

Um debate aberto, sem alarmismo

O futuro do cromossomo Y segue em debate na comunidade científica. Ele pode estar caminhando, em escala evolutiva profunda, para uma transformação — ou pode simplesmente continuar existindo de forma discreta e funcional, como vem fazendo há milhões de anos.

Por ora, a única conclusão segura é esta:
não há colapso em curso, nem qualquer impacto prático para as gerações atuais. O que existe é um exemplo clássico de como a ciência trabalha com hipóteses, dados de longo prazo e incertezas — e de como isso pode ser distorcido quando vira manchete apressada.

Fontes
Nature, DOI: 10.1038/538405a
Nature, DOI: 10.1038/nature10843

Apagar não é matar de imediato.



by Deise Brandão

Apagar é retirar o chão.
As pessoas não desaparecem primeiro dos mapas, mas dos registros.
Da linguagem.
Da memória coletiva.
O poder não começa com a violência explícita. Começa quando decide quem merece ser lembrado e quem pode ser silenciado. 
Quando a história passa a ser escrita sem nomes, sem rostos, sem contexto — apenas com versões oficiais, símbolos vazios e narrativas convenientes.
É assim que se apagam pessoas ainda vivas.
Não se trata apenas de censura direta. Muitas vezes o apagamento vem travestido de neutralidade, de burocracia, de “nota técnica”, de gesto simbólico que parece humano, mas não diz nada.
Quando o símbolo substitui a explicação, quando a imagem ocupa o lugar da história, a memória começa a ser dissolvida.
Queimam-se livros — ou os tornam irrelevantes.
Silenciam-se histórias — ou as classificam como exagero, ressentimento, loucura.
Destróem-se raízes — ou as rebatizam com outro nome, outra origem, outra narrativa.
Depois, reescrevem.
Inventam outra cultura.
Outra versão dos fatos.
Outra memória coletiva aceitável.
E, aos poucos, a sociedade deixa de reconhecer o que aconteceu — e até quem aconteceu.
Por isso, a frase de Milan Kundera permanece atual e incômoda:
a luta contra o poder não é apenas política, jurídica ou institucional.
É, antes de tudo, uma luta pela memória.
Lembrar é resistir.
Nomear é existir.
Registrar é impedir o desaparecimento.
O apagamento é sempre o primeiro passo.
Porque quem controla a memória, controla o futuro.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Não foi o Judiciário: o golpe foi DO Estado — e ele é estrutural

 Imagem: Correio Braziliense (reprodução online)


by Deise Brandão

O reaparecimento de uma antiga coluna do Wall Street Journal, publicada  em 10 agosto de 2025. e. agora reciclada nas redes como se fosse atual, escancara mais do que desinformação. Ela revela um desconforto difuso, uma sensação coletiva de que algo se rompeu na democracia brasileira — ainda que muitos insistam em apontar o dedo para um único ator.

Mas é preciso colocar a questão de ordem.

O Brasil não sofreu um golpe de Estado pelo Judiciário.
O Brasil sofre — há anos — um golpe estrutural praticado pelos três Poderes.

Executivo, Legislativo e Judiciário não são vítimas uns dos outros.
São engrenagens de um mesmo Estado, que opera acima do povo e longe do controle social efetivo.

A falácia do “culpado único”

Reduzir a crise institucional brasileira à figura de um ministro, de uma Corte ou de um ex-presidente é politicamente confortável, mas intelectualmente desonesto.

Alexandre de Moraes não age fora do sistema.
O STF não age isolado.
O Congresso não é refém.

O Congresso Nacional tem poder constitucional sobre o Supremo.
O Senado pode frear, investigar, responsabilizar.
Se não o faz, não é por impotência — é por escolha política.

Portanto, não existe “ditadura do Judiciário” sem conivência legislativa.
Não existe “excesso do STF” sem omissão deliberada do Congresso.
Não existe “autoritarismo” sem assinaturas cruzadas entre os Poderes.

Bolsonaro não é a exceção. É parte do arranjo.

Outro erro recorrente é tratar Jair Bolsonaro como ruptura do sistema, quando ele foi — do começo ao fim — produto e operador dele.

Bolsonaro:

  • Não enfrentou o Congresso

  • Não desmontou o Estado

  • Não rompeu com o centrão

  • Não devolveu poder ao povo

Ele negociou, cedeu, compôs — como todos os outros.

O conflito que se vendeu como “ideológico” foi, na prática, disputa de controle interno do Estado, não libertação popular.

Não é direita vs. esquerda. É povo vs. Estado.

Aqui está o ponto que ninguém quer tocar.

O Brasil se autodeclara:

  • uma democracia

  • um Estado de Direito

  • uma República com Poderes independentes

Mas funciona como um Estado fechado, autorreferente, corporativo, blindado contra o controle popular.

O conflito real não é entre esquerda e direita.
É entre o povo e o Estado.

Enquanto a sociedade discute nomes, siglas e narrativas morais, o Estado:

  • legisla em causa própria

  • julga em circuito fechado

  • executa sem transparência

  • se protege mutuamente quando erra

Socialismo institucional, capitalismo para poucos

O modelo brasileiro é paradoxal:

  • Socializa perdas

  • Privatiza ganhos

  • Centraliza poder

  • Dilui responsabilidades

Não é liberal.
Não é socialista.
É estatismo corporativo, sustentado por uma retórica democrática que já não se sustenta na prática.

Questão de ordem

O reaproveitamento oportunista de uma coluna antiga do Wall Street Journal não deveria servir para demonizar este ou aquele ministro, nem para reabilitar personagens políticos fracassados.

Deveria servir para algo muito mais incômodo:

Para o povo entender que não há salvadores.
Que não há heróis institucionais.
Que não há “lado certo” dentro do Estado.

Há apenas um dado incontornável:

Quando os três Poderes falham juntos, não é crise — é método.

E enquanto a sociedade não compreender que o jogo é povo vs. Estado, continuará presa à alternância de nomes, não à transformação do sistema.

domingo, 4 de janeiro de 2026

1984 não foi profecia. Foi aviso. Manual.

 

by Deise Brandão

O que eu vejo quando olho para 1948

O que eu vejo ali é registro.

Quando Orwell escreve 1984, em 1948, o mundo já tinha atravessado o ponto de retorno. A revolução do proletariado, como promessa histórica, não caiu apenas por repressão — caiu porque se mostrou inútil para quem queria poder durável. Revolução é barulho, é risco, é instabilidade. Sistema é silêncio. E silêncio governa melhor.

O que Orwell faz não é imaginar um futuro distante. Ele organiza, em forma de narrativa, aquilo que já estava funcionando: a substituição da força bruta pelo controle psicológico, da censura explícita pela edição da linguagem, da violência direta pela culpa internalizada. O poder não precisava mais de tanques. Precisava de adesão.

Por isso, quando chamam 1984 de profecia, eu vejo desatenção — ou comodismo. Profecia isenta quem lê. Aviso responsabiliza. 1984 é aviso.

E isso vale também para Os Simpsons. Não há previsão ali. Há leitura de padrão. Quem entende o funcionamento da mídia, do comportamento de massa e da repetição cultural não adivinha o futuro — apenas reconhece a trajetória antes que ela fique óbvia.

1948, para mim, é o ano-chave porque ali se consolida a virada:
a revolução fracassa como evento histórico, e o controle vence como método global. Não se trata mais de comunismo ou capitalismo. Trata-se de gestão do humano — de linguagem, de memória, de medo, de narrativa.

Nada disso aconteceu “de repente”.
Nada disso foi obra do acaso.
E nada disso precisa ser romantizado.

Quando olho para trás, não vejo profecias se cumprindo.
Vejo avisos ignorados — e um sistema que aprendeu a funcionar exatamente como foi descrito.

Essa é a leitura que eu faço.
E não consigo mais fingir que é ficção.

1984, Os Simpsons e o erro coletivo de chamar aviso de profecia

Existe um equívoco recorrente — e perigosamente confortável — em tratar certas obras como profecias. É o caso de 1984 e, em outro registro cultural, de Os Simpsons.

Não são previsões.
Não são “adivinhações geniais”.
São avisos baseados em leitura profunda da realidade do próprio tempo.

E isso muda tudo.

1948: quando o mundo já estava decidido

1984 foi concluído em 1948, não por acaso. Orwell não escreve sobre um futuro distante. Ele codifica o presente — e o projeta alguns passos à frente para torná-lo visível.

Naquele ano, o mundo já havia entendido algo fundamental:
a revolução do proletariado falhou como ruptura histórica.

A tomada do poder pelas massas mostrou-se instável, violenta e imprevisível. O modelo precisava mudar.
E mudou.

Do levante ao sistema

Até meados do século XX, o poder era disputado:

  • por armas,

  • por ruas,

  • por discursos inflamados.

Depois da Segunda Guerra, o eixo se desloca:

  • o poder passa a ser administrado,

  • o controle passa a ser psicológico,

  • a obediência passa a ser internalizada.

É exatamente isso que 1984 descreve.

Não como ficção futurista, mas como manual técnico do funcionamento do totalitarismo moderno:

  • controle da linguagem,

  • reescrita permanente da história,

  • vigilância normalizada,

  • medo difuso,

  • inimigo sempre mutável,

  • culpa coletiva,

  • supressão do indivíduo em nome de um “bem maior”.

Nada disso depende de bandeira ideológica específica.
Depende de estrutura.

Orwell não estava “prevendo”. Estava registrando.

George Orwell:

  • participou de conflitos reais,

  • conhecia propaganda por dentro,

  • viveu regimes autoritários,

  • rompeu com o romantismo político,

  • escrevia já doente, consciente da morte.

1984 não nasce de imaginação futurista, mas de observação brutal do que já estava em curso.

A inversão do ano no título não é jogo literário.
É assinatura histórica.

Os Simpsons seguem a mesma lógica — em outro tom

Quando Os Simpsons “acertam” acontecimentos, o público chama de profecia.
Não é.

O seriado opera com:

  • leitura aguda de tendências sociais,

  • exagero satírico,

  • análise de comportamento coletivo,

  • compreensão dos rumos do poder, da mídia e da tecnologia.

O que parece previsão é, na verdade, diagnóstico antecipado.

Assim como 1984.

O erro não está nas obras. Está no público.

Chamar isso de profecia é confortável porque:

  • transfere a responsabilidade,

  • cria misticismo,

  • impede reflexão crítica.

Mas o papel dessas obras é outro:
avisar enquanto ainda é possível perceber o mecanismo funcionando.

O problema é que avisos exigem consciência.
Profecias exigem apenas espanto.

1984 não “aconteceu”. Ele continua acontecendo.

Não vivemos sob um único regime totalitário clássico.
Vivemos sob fragmentos normalizados de controle:

  • narrativas oficiais mutáveis,

  • censura travestida de proteção,

  • vigilância aceita como conveniência,

  • linguagem moldada,

  • memória coletiva editada,

  • indivíduos pressionados a se auto-vigiar.

Isso não é coincidência.
É método.

Chega de romancear

1984 e Os Simpsons não são bolas de cristal.
São espelhos adiantados.

Quem chama de profecia perdeu o ponto central:
o sistema não caiu do céu — ele foi construído, testado e aplicado.

E 1948 é um marco porque ali ficou claro que:

  • a revolução aberta fracassou,

  • o controle silencioso venceu,

  • o poder deixou de gritar e passou a organizar.

Não é literatura fantástica.
É história mal digerida.

Aqui não tem profecia.
Tem leitura de mundo — e aviso ignorado.
_____________________________
Documentario sobre 1984, George Orwel. Vale muito assistir. 


Erin Brockovich: Uma mulher de talento.

by Deise Brandão

O nome dela é Erin Brockovich.

E tudo começou com uma pergunta simples — e perigosa: por quê?

Em 1993, Erin era mãe solo de três filhos, duas vezes divorciada, sem dinheiro e sem prestígio. Trabalhava arquivando papéis em um pequeno escritório de advocacia. Um lugar onde ninguém espera que você pense. Muito menos que questione. Mas ela questionou.

Ao organizar documentos de um caso imobiliário, percebeu algo fora do lugar: exames médicos misturados a registros de terras. Laudos, resultados de sangue, diagnósticos. Por que uma empresa de energia precisava disso? Ela não fingiu que não viu.

Foi até Hinkley, uma cidade pequena, quente, silenciosa — e doente. Conversando dentro das casas, ouvindo histórias na mesa da cozinha, percebeu o padrão: sangramentos, dores constantes, problemas respiratórios, câncer demais para um lugar tão pequeno.

A empresa garantia que a água era segura. Que continha apenas cromo “inofensivo”. Erin foi atrás dos fatos. Descobriu que havia dois tipos — e que o usado ali era o cromo-6, altamente tóxico e cancerígeno.

Durante anos, resíduos foram despejados no solo. A água foi envenenada. E as pessoas, adoeceram em silêncio.

Erin reuniu provas, convenceu seu chefe e bateu de frente com uma gigante bilionária. Não era mais um processo. Era um levante.Foram 634 moradores.

Em 1996, a empresa pagou 333 milhões de dólares — o maior acordo judicial direto da época. Mas o valor real não foi o dinheiro.

Foi provar que uma mulher fazendo a pergunta certa pode desmontar um sistema inteiro.

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