21/09/2026

SÓCRATES NUNCA DISSE ISSO — MAS VALE A PENA DISCUTIR


by Deise Brandão

A internet tem uma facilidade extraordinária para convocar filósofos mortos como avalistas das opiniões do presente. Basta escrever uma frase solene, acrescentar a imagem de um homem barbudo e assinar “Sócrates”. Pronto: uma publicação contemporânea passa a circular como sabedoria milenar.

É o que acontece com a lista intitulada “Quando começa a queda de uma sociedade”.

Não existe indicação confiável de que Sócrates tenha pronunciado essas palavras. Ele não deixou livros, cartas ou qualquer obra escrita. Seu pensamento chegou até nós principalmente pelos diálogos de Platão e pelos relatos de Xenofonte — e essa lista não aparece nas fontes antigas conhecidas.

Além disso, sua linguagem denuncia uma composição moderna. Expressões como “os agressores são mais protegidos do que as vítimas” e “a loucura é celebrada como normal” pertencem claramente ao vocabulário dos debates atuais, não à Atenas do século V antes de Cristo.

A falsa autoria, entretanto, não impede a discussão. Pelo contrário: talvez revele alguma coisa sobre a nossa própria época. Por que uma reflexão só parece merecer atenção quando colocamos o nome de um filósofo famoso embaixo dela? A ideia vale menos quando não possui uma celebridade histórica para legitimá-la?

Algumas das afirmações contidas na imagem descrevem inversões morais verdadeiramente perigosas.

Uma sociedade começa a apodrecer quando o volume da voz substitui a consistência do argumento; quando os mais barulhentos ocupam todo o espaço e os ponderados se calam, cansados de disputar com a brutalidade. Não significa que quem fala pouco seja necessariamente sábio, mas que gritar nunca transformou ignorância em conhecimento.

Também há decadência quando pessoas sem honra recebem mais respeito do que aquelas que agem honestamente. Isso acontece quando prestígio, dinheiro, poder e influência passam a valer mais do que caráter. O desonesto deixa de ser rejeitado e passa a ser admirado por sua “esperteza”. A vítima é interrogada, exposta e desacreditada, enquanto o agressor encontra proteção, justificativas e cumplicidade.

A máxima sobre aqueles que pregam uma moral que não possuem talvez seja a mais atual de todas. Nunca faltaram fiscais da vida alheia, defensores públicos da família, da honestidade e dos bons costumes que, no espaço privado, fazem exatamente aquilo que condenam nos outros. A moral, para eles, não funciona como princípio, mas como arma: serve para vigiar adversários e nunca para limitar a própria conduta.

Também é verdadeira a crítica a uma sociedade na qual a aparência vale mais do que o caráter. Vivemos cercados pela fabricação de imagens. Pessoas, empresas, autoridades e instituições administram reputações como produtos. Não importa tanto o que fazem, mas a versão do que fizeram que conseguem vender. A indignação pode ser ensaiada, o arrependimento pode ser calculado e até um pedido de desculpas pode servir menos para reparar a vítima do que para preservar a imagem de quem causou o dano.

Mas nem todas as frases da lista devem ser aceitas sem questionamento.

Dizer que “os preguiçosos têm mais do que os trabalhadores” reduz desigualdades sociais complexas a um julgamento moral bastante conveniente. Há pessoas que trabalham exaustivamente e continuam pobres; outras acumulam fortunas por herança, exploração ou privilégio. O patrimônio de alguém não demonstra esforço nem virtude. Muitas vezes, demonstra apenas o lugar em que nasceu e as oportunidades que recebeu.

A afirmação de que “a loucura é celebrada como normal” também exige cuidado. Empregar “loucura” como sinônimo de degradação moral mistura sofrimento psíquico com falta de caráter. Pessoas com transtornos mentais não são responsáveis pela corrupção, pela violência nem pela desonestidade social. A crueldade organizada costuma ser praticada por gente perfeitamente consciente do que está fazendo.

Portanto, essa lista não deve ser repetida como uma revelação de Sócrates nem recebida como verdade absoluta. Deve ser lida criticamente — o que, curiosamente, seria uma atitude muito mais socrática.

Sócrates não distribuía máximas prontas para serem compartilhadas. Ele perguntava, confrontava contradições e obrigava seus interlocutores a examinar aquilo que julgavam saber.

Talvez a pergunta correta não seja apenas quando começa a queda de uma sociedade.

Talvez seja esta: Quem se beneficia quando a mentira ganha aparência de verdade, o agressor recebe proteção, a hipocrisia vira respeitabilidade e todos passam a considerar isso normal?

A frase não é de Sócrates. A pergunta, porém é minha. 

QUANDO O PEDIDO DE DESCULPAS SERVE PARA TENTAR SALVAR A PRÓPRIA IMAGEM

 

by Deise Brandão

Agora, Cármen Lúcia diz estar constrangida, envergonhada e pede desculpas ao povo brasileiro pela crise do Supremo.

Mas pede desculpas exatamente pelo quê?

A fala é cuidadosamente genérica. Há constrangimento, há vergonha, há lamento — mas não há confissão objetiva, reconhecimento de responsabilidade nem indicação dos atos pelos quais estaria pedindo perdão.

É uma desculpa sem objeto e, principalmente, sem consequências.

Cármen Lúcia não chegou ontem ao STF. Ela não assistiu de longe à deterioração da Corte. Ocupou sua Presidência, participou de decisões fundamentais e teve poder real nos momentos mais graves da história política recente.

Na madrugada de 5 de abril de 2018, por exemplo, coube a ela o voto decisivo no julgamento do habeas corpus de Lula. Com o placar empatado em 5 a 5, preferiu acompanhar a onda punitivista da Lava Jato e formar a maioria de 6 a 5 contra o pedido.

Foi naquele contexto que afirmou, “O princípio da não culpabilidade não pode levar à impunidade.”

A presunção de inocência, garantia constitucional, foi apresentada como se pudesse favorecer a impunidade. Dias depois, Lula foi preso.

Agora, quando a imagem do Supremo está profundamente desgastada, Cármen Lúcia assume o papel de consciência moral da instituição. Diz sentir vergonha. Lamenta. Pede desculpas ao povo. Admite que poderia ter agido mais.

Poderia mesmo. Inclusive quando presidia a Corte e tinha nas mãos autoridade, voto e responsabilidade.

O pedido de desculpas seria relevante se viesse acompanhado de respostas: quais decisões considera erradas? Quais abusos reconhece? De quais omissões se arrepende? A quem suas escolhas prejudicaram? O que pretende fazer concretamente para reparar os danos?

Sem isso, resta uma cerimônia de autopreservação.

É muito conveniente demonstrar sensibilidade quando o desastre já está exposto e quando assumir o papel de arrependida ajuda a salvar a própria imagem. Difícil era proteger a Constituição no auge da pressão política, quando isso exigia coragem e poderia contrariar os interesses dominantes.

Seu pedido de desculpas, portanto, não me comove.

Não se pede perdão ao “povo brasileiro” como abstração enquanto se escondem os fatos, os responsáveis e as vítimas atrás de palavras emocionadas. Quem realmente se arrepende nomeia o que fez, assume as consequências e procura reparar o dano.

O restante é oportunismo.

Cármen Lúcia não pode se apresentar como observadora indignada de uma história que também ajudou a construir.

Desculpas vagas não apagam votos concretos.

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