Embora a mitomania seja muitas vezes um mecanismo de defesa ou de afirmação, ela tem consequências duradouras, especialmente para quem a pratica. A relação com a verdade se perde, e a própria identidade da pessoa se torna distorcida. Mesmo que a mentira seja pequena no início, ela cresce e se propaga, criando uma teia de distorções que, com o tempo, acaba contaminando não apenas o indivíduo, mas também sua rede de relacionamentos.
by Deise Brandão
A mitomania é um transtorno psicológico caracterizado pela tendência compulsiva de criar e acreditar em mentiras, muitas vezes sem qualquer necessidade de ganho imediato, mas como uma forma de se construir uma identidade alternativa. Embora a mentira seja uma característica humana comum, para os mitômanos, a mentira se torna uma forma de vida, que molda suas interações sociais, suas histórias e até a percepção que têm de si mesmos.
A Construção de Uma Realidade Paralela
Para o mitômano, contar mentiras não é apenas uma forma de manipulação — é uma necessidade emocional. A mentira se torna uma ferramenta para se destacar, para criar um papel que, em muitos casos, não existe fora da sua mente. Historicamente, pessoas com mitomania se envolvem em relatos grandiosos sobre suas vidas, afirmando que tiveram experiências extraordinárias, como viagens, amizades com figuras ilustres ou eventos que nunca aconteceram.
No entanto, essas histórias muitas vezes carecem de provas e falham diante da realidade tangível. Pode ser algo simples, como uma viagem internacional, ou complexo, como uma carreira repleta de feitos extraordinários. A chave está em como o mitômano se sente impelido a compartilhar essas histórias, não por um simples desejo de ser notado, mas porque ele acredita, genuinamente, no que está dizendo. Para ele, as mentiras se tornam sua realidade, sendo que qualquer dúvida ou questionamento é visto como um ataque pessoal à sua identidade.
O Impacto Social da Mitomania
As mentiras de um mitômano podem afetar significativamente as pessoas ao seu redor, seja por distorcer a verdade, seja por criar falsas expectativas. Em muitos casos, a pessoa que pratica a mitomania usa essas narrativas para ganhar credibilidade, status ou até vantagens financeiras. O impacto social é significativo, pois as histórias fabricadas, ao serem acreditadas por outros, alimentam uma rede de falsidade que pode resultar em relações e decisões baseadas em informações distorcidas.
Quando o mitômano é desmascarado, o efeito pode ser devastador. A confiança que os outros colocaram nele se dissolve, e o que era visto como uma verdade difícil de contestar vira um castelo de cartas.
Mitomania e Ganho Pessoal: O Estelionato Moral
O que diferencia a mitomania de uma simples mentira é o dano social que ela causa. Mentir ocasionalmente para melhorar uma situação não é raro, mas quando as mentiras se tornam uma constante na vida do indivíduo, e começam a afetar de maneira deliberada a confiança alheia, isso pode ser considerado uma forma de estelionato moral. O mitômano usa suas mentiras para engrandecer a própria imagem, criando uma figura de prestígio ou autoridade que, na verdade, não existe.
Em muitos casos, esse comportamento se reflete em ações como:
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Promoção de eventos e prêmios que não possuem critérios claros e são utilizados apenas para angariar dinheiro ou reconhecimento pessoal.
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Mentiras sobre vivências ou experiências profissionais que servem para validar o nome do indivíduo em um mercado competitivo, mas que, ao serem investigadas, não têm suporte real.
Reconhecendo a Mitomania: O Ciclo da Farsa
O ciclo da mitomania é difícil de romper. Quando confrontado, o mitômano pode negar as evidências, rejeitar qualquer forma de questionamento ou até reagir de maneira agressiva. Isso ocorre porque, para ele, suas mentiras são uma extensão de sua identidade. Questionar suas histórias é questionar a sua própria existência.
No entanto, os mitômanos falham por um simples motivo: mentiras não podem ser sustentadas para sempre. Eventualmente, a falta de provas, a inconsistência nas histórias e a falta de registros tangíveis desmascaram a farsa. E, em vez de fortalecer a figura do indivíduo, as mentiras revelam a fragilidade de sua construção.