Há uma máxima que costuma atravessar os corredores do poder: a melhor forma de medir a coerência de um líder político não é ouvindo o que ele diz quando está na oposição, mas observando quem ele protege quando ocupa a cadeira do executivo.
O debate sobre a política externa do governo de Luiz Inácio Lula da Silva ganhou contornos dramáticos após a publicação de uma carta aberta pelo jornal espanhol El País. Escrita pelo renomado autor nicaraguense e ex-vice-presidente da Nicarágua, Sergio Ramírez — figura histórica da própria Revolução Sandinista e hoje despojado de sua nacionalidade pelo regime autocrático —, o texto escancarou o abismo entre a retórica de defesa da democracia e a prática da diplomacia brasileira frente a regimes autoritários de esquerda.
"Não Negue à Nicarágua o Direito de Escolher": A Cobrança Moral de Sergio Ramírez
Sergio Ramírez não é um adversário de direita ou um operador político tradicional; é um dos intelectuais mais respeitados da América Latina e ex-companheiro de chapa de Daniel Ortega nos anos 1980. Perseguido e banido de sua pátria pelo atual regime, Ramírez dirigiu-se diretamente ao presidente do Brasil no artigo veiculado pelo
"Não negue à Nicarágua, senhor Presidente, o direito de escolher livremente — o mesmo direito que pode fazê-lo presidente do Brasil pela quarta vez."
A denúncia de Ramírez veio na esteira de anúncios do regime Ortega-Murillo que visavam sufocar de vez os processos eleitorais plurais no país, consolidando o controle estatal sobre qualquer tentativa de oposição. A carta expôs a dolorosa contradição de um governo brasileiro que se projeta internacionalmente como fiador do processo democrático e das urnas em seu próprio território, mas adota posturas de apaziguamento, abstenção e abrandamento de resoluções de condenação em órgãos como a Organização dos Estados Americanos (OEA).
O Mecanismo do Duplo Padrão: Quando o Autoritarismo Ganha Passaporte Ideológico
A crítica contida na carta ressoa de forma contundente em setores da sociedade civil e da imprensa que há anos apontam a assimetria na condução da política externa do Partido dos Trabalhadores (PT). Trata-se do clássico "duplo padrão" (double standard):
Condenação Seletiva: Golpes de Estado, violações institucionais e abusos cometidos por governos alinhados à direita recebem repúdio imediato, firme e vocal.
Panos Quentes na Vizinhança Ideológica: Diante de violações sistemáticas cometidas por ditaduras de esquerda na América Latina — como o fechamento de jornais, a prisão de pré-candidatos presidenciais, a cassação de direitos políticos e a perseguição religiosa na Nicarágua ou as fraudes e repressão na Venezuela —, o discurso oficial recorre a eufemismos como "pragmatismo", "não ingerência" ou "autodeterminação dos povos".
Essa atuação não é neutra. Ao atuar para diluir sanções ou abrandar notas oficiais em fóruns multilaterais, o Brasil acabou servindo, na prática, como uma blindagem diplomática que deu tempo e oxigênio para que regimes autoritários se consolidassem.
De Libertadores a Ditadores: A Cegueira da Velha Guarda
O caso da Nicarágua é a demonstração mais acabada dessa cegueira ideológica. O mesmo Daniel Ortega que nos anos 1970 combateu a ditadura familiar dos Somoza tornou-se, quatro décadas depois, um ditador sanguinário que governa ao lado de sua esposa, estatizou o Judiciário, expulsou a Igreja Católica e baniu centenas de organizações da sociedade civil.
Manter a complacência com figuras como Ortega sob o pretexto de laços históricos da década de 1980 ignora que o tirano de hoje destruiu todos os ideais da revolução do passado. Como apontou Ramírez, a ditadura não perde seu caráter opressor apenas porque usa símbolos de esquerda ou adota um discurso anti-imperialista.
A Coerência que Falta
A carta publicada no El País entrou para a história recente como um divisor de águas no debate sobre o papel do Brasil no cenário internacional. Ela não deixou margem para ambiguidades: a democracia não pode ser tratada como um valor relativo ou conveniente.
Quando a diplomacia de um país hesita em nomear e condenar com a mesma dureza os abusos cometidos por seus aliados políticos, ela deixa de ser um agente de mediação e passa a figurar como cúmplice da opressão. A história cobra um preço alto de quem escolhe olhar para o outro lado enquanto a liberdade de todo um povo é varrida do mapa.

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