16/05/2012

Hoje o sol não brilha no lugar onde me encontro. Gosto do acochego da casa, do cobertor. Da chuva e do friozinho. Sinto saudade da lareira, do cheiro da lenha, do barulhinho do fogo. Artigo trocado por ventiladores. O contraste entre as montanhas imponentes que troquei pela sedução das ondas do oceano. Sinto-me bem embora falte algo para que me sinta completa. Alguma parte da historia geral que nao deveria ser como foi. Nao quis eu ir adiante ou mudar o quadro. Raros sao os momentos em que a sensação de impotência se aplaca. Este é um deles. A espera se faz presente. E a necessidade vital de paciência se impõe. by Deise


Manuel Bandeira


Vou-me Embora pra Pasárgada
                                                 Manuel Bandeira



Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.


Texto extraído do livro "Bandeira a Vida Inteira", Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90

Manuel Bandeira: sua vida e sua obra estão em "
Biografias". 

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