quinta-feira, 27 de novembro de 2025

O grande emburrecimento moderno — e por que o problema não é o celular, é a mente preguiçosa

Nos últimos anos inventaram uma expressão bonitinha para explicar o derretimento coletivo da inteligência: brain rot.“Deterioração cerebral”, dizem. Como se fosse apenas culpa do TikTok, das telas, das notificações.
Não é.
O problema é muito maior: vivemos na era do emburrecimento generalizado, um processo tão silencioso e tão profundo que as pessoas acham normal não saber nada — e pior, nem querer saber.


by Deise Brandão

1. A era dos cérebros domesticados
As redes sociais não só entregam dopamina; elas entregam substitutos de pensamento.
Gente que nunca leu um livro inteiro repete frases prontas como se fossem convicção.
Gente que não sabe formular uma pergunta acha que está cheio de respostas.

O cérebro vicia nisso:
– estímulo rápido
– emoção barata
– indignação instantânea
– opinião mastigada

E quando chega a hora de pensar de verdade?
Vem o vazio.
A mente pede arrego.
Perdeu força muscular.

Sim: pensar dá trabalho.
E quem evita esforço vira presa fácil de qualquer narrativa pronta.

2. Sinais de que o emburrecimento já se instalou
Não precisa ser médico para enxergar:
– incapacidade de manter atenção por 30 segundos
– intolerância ao silêncio
– necessidade de ruído o dia todo
– irritação com tédio
– preguiça mental para textos de mais de três linhas
– comparações com vidas que nem existem
– confusão entre opinião e fato
– ausência total de senso crítico

E o pior: gente que se acha muito “esclarecida”, mas não consegue responder sequer por que acredita no que acredita.
Isso não é só perda cognitiva.
É perda de autonomia.

3. A grande troca: pensamento por consumo
Enquanto o cérebro se acomoda no piloto automático, as Big Tech agradecem.
Quanto mais vazio por dentro, mais fácil de preencher por fora.
E aí o sujeito acha normal:
– passar 6 horas por dia rolando tela
– sentir ansiedade quando o celular fica longe
– só conseguir dormir com vídeo tocando
– abrir mão da própria vida para acompanhar a dos outros
– terceirizar o raciocínio para influenciadores
– tomar decisões baseadas em viral
Chamam isso de modernidade.
Eu chamo de entrega voluntária da inteligência.

4. O que ninguém diz: a burrice dá status
Hoje, quem pensa incomoda.
Quem questiona é inconveniente.
Quem aprofunda é “chato”.
O mundo virou um enorme baile da superficialidade, onde a regra é:
não saber é aceitável — mas saber demais é ofensivo.
Daí o sucesso das manchetes rasas, das discussões idiotas, do ódio fabricado, das discussões sem fundamento.
O brain rot é só o sintoma clínico.
O diagnóstico social é outro:
inversão completa de valores.

5. Como escapar enquanto ainda há tempo
Fuja do fluxo.
Desobedeça a lógica da pressa.
Volte a exigir da sua própria cabeça.
– Leia coisas difíceis.
– Pergunte coisas incômodas.
– Pare de aceitar respostas prontas.
– Saia da infantilização digital.
– Substitua estímulo por profundidade.
– Use silêncio como ferramenta, não como ameaça.
E, principalmente:
Pense por conta própria.
É isso que ninguém faz.
É isso que te salva da massa.

Conclusão
O maior risco do nosso tempo não é perder a memória.
É perder a capacidade de raciocinar — e achar isso normal.
A burrice coletiva não se instala de repente.
Ela vem devagar, um vídeo de 7 segundos por vez.
E só escapa quem tem a coragem — e a disciplina — de manter o cérebro desperto num mundo que prefere todo mundo dormindo.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Decisão da Superior Tribunal de Justiça reafirma foro do domicílio da criança em ações de guarda

 


by Deise Brandão

A 2ª Seção do STJ, em decisão unânime sob relatoria da Nancy Andrighi, firmou importante entendimento: em ações de guarda e medidas correlatas que envolvem crianças ou adolescentes, deve prevalecer a competência do foro onde a criança reside e mantém vínculos afetivos, sobretudo em contextos que envolvem indícios de violência doméstica. 

Principais fundamentos

1. Princípio do “juízo imediato” (art. 147 do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA)

O STJ reafirmou que o artigo 147, incisos I e II, do ECA estabelece que a competência territorial para julgar medidas relativas à criança ou adolescente será determinada pelo domicílio dos pais ou responsável ou, na falta, pelo lugar onde ela se encontre. 

Importante: o Tribunal entendeu que essa regra possui natureza de competência absoluta, o que significa que não pode ser relativizada pelas normas gerais do CPC ou pela perpetuação da competência. 

2. Prevalência do melhor interesse da criança

A relatora destacou que, em cenário de disputa de guarda – especialmente quando há alegação de violência doméstica – a proximidade do juízo da criança torna-se requisito relevante para garantir uma prestação jurisdicional célere, eficaz, e capaz de acomodar medidas de proteção. 

Isso significa que o foro que melhor atenda à convivência da criança, à efetividade de acompanhamento das demandas e à integridade do seu ambiente de vida será o competente, mesmo que já haja outro juízo “prevento” ou com litígio inicial.

3. Supremacia da norma especial sobre a norma geral

No voto da ministra Nancy Andrighi, ressaltou-se que, havendo conflito entre regra geral de competência (Código de Processo Civil) e norma especial de competência do ECA, esta última deve prevalecer. Ou seja: a regra de competência do artigo 147 do ECA sobrepõe-se às demais normas processuais relativas ao foro.

4. Alteração de competência e afastamento da “perpetuatio jurisdictionis”

Outro ponto relevante da decisão: o STJ reconheceu que a regra da perpetuação da competência (ou “prevenção” pela primeira distribuição ou primeiro despacho) pode ceder lugar quando o foro mais próximo da criança for outro. Isso viabiliza a transferência de processos para o juízo que melhor atenda aos vínculos da criança. 

Impactos práticos da decisão

  • Juízos de Família e da Infância e Juventude devem verificar logo de início se estão de fato na comarca onde a criança reside e mantém vínculos afetivos.

  • Em casos de violência doméstica, a proximidade material do juízo (com criança, escola, rede de proteção) assume peso decisivo.

  • As partes devem estar atentas à competência territorial, porque o foro errado pode resultar em nulidade ou em deslocamento do processo para outra comarca.

  • A atuação dos juízos deve privilegiar a cúpula da proteção com rapidez, considerando que o menor está em processo de desenvolvimento.

A recente decisão da 2ª Seção do STJ reafirma que, no litígio envolvendo guarda de crianças ou adolescentes, o foro competente não é simplesmente aquele onde o autor ajuizou ou onde primeiro se distribuiu a ação, mas sim aquele que mais atende ao melhor interesse da criança, com base no artigo 147 do ECA.

Esse paradigma reforça a prioridade absoluta da proteção da criança e o dever do Poder Judiciário de garantir acesso imediato e adequado à tutela jurisdicional.
O entendimento foi acompanhado de forma unânime.

Processo CC 214.860

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Os Pais da Ginecologia e o Lado Sombrio da Ciência: Quanto Há de Verdade na Acusação de Assassinatos?


by Deise Brandão

De tempos em tempos, a internet ressuscita histórias da medicina que parecem saídas de um filme de terror. A mais recente envolve dois nomes reverenciados na Obstetrícia: William Hunter e William Smellie, frequentemente chamados de “pais da Ginecologia moderna”.
A alegação?Que eles teriam encomendado o assassinato de dezenas de mulheres grávidas no século XVIII para produzir seus atlas anatômicos.

A história é chocante — mas o que há de fato por trás dela?
O que é comprovado historicamente:

1. Hunter e Smellie foram gigantes da Obstetrícia
Ambos revolucionaram o estudo da gestação e do parto.
Hunter publicou, em 1774, o famoso Anatomia Uteri Humani Gravidi, considerado até hoje uma obra-prima de precisão anatômica.

2. Eles tiveram acesso anormalmente abundante a corpos de gestantes
No século XVIII, corpos de mulheres grávidas eram extremamente raros nas mesas de dissecação.A maioria dos anatomistas passava a vida inteira sem ver um único útero grávido.
Hunter e Smellie, porém, dissecavam dezenas — pelo menos 30 a 35 corpos em diferentes estágios da gravidez. Isso é um fato histórico e está documentado.

O que é suspeita forte (mas não prova)
Em 2006, o historiador Don Shelton publicou uma investigação detalhada no Journal of the Royal Society of Medicine, um dos periódicos médicos mais respeitados do mundo.
Ele analisou:
datas das dissecações,
grau de preservação dos corpos,
registros de mortes da época,
logística para obtenção de cadáveres,
práticas conhecidas de ladrões de corpos (“resurrectionists”).
E encontrou inconsistências preocupantes.

Por que os corpos levantam suspeitas?
Muitas das mulheres pareciam saudáveis e próximas do parto.
As condições dos cadáveres indicavam pouca decomposição — improvável se fossem mortes naturais adquiridas dias depois.
O número de cadáveres excede em muito o que seria possível conseguir de forma “normal”.
Shelton propôs então a hipótese: esses corpos podem ter sido obtidos por meio de assassinatos cometidos para abastecer a anatomia.
Não seria a primeira vez.
Casos como o de Burke e Hare (Escócia, 1828), que realmente mataram pessoas para vender aos anatomistas, são historicamente documentados.

O que NÃO é verdade (mas viralizou na internet)
Não existe prova de que Hunter e Smellie mataram alguém.
Não há cartas, confissões, testemunhos ou registros oficiais.
Não há prova de que eles “mandaram matar” 35 mulheres.
O que existe é a suspeita de que eles compraram corpos obtidos por meios violentos, algo que — infelizmente — era parte do submundo anatômico da época.
Chamar os dois de “assassinos em série” é anacrônico.
A categoria “serial killer” nasceu apenas no século XX.
Aplicar isso retroativamente distorce o contexto.

O paradoxo que incomoda até hoje
Os atlas produzidos por Hunter e Smellie: salvaram vidas,ensinaram gerações de médicos,foram fundamentais para o avanço da Obstetrícia.
Mas o material que permitiu esses avanços — os corpos de dezenas de gestantes — pode ter vindo de uma origem violenta e criminosa.
É a face sombria da história da medicina:o progresso muitas vezes foi construído sobre práticas antiéticas que só mais tarde seriam reconhecidas como crime.
Conclusão: verdade, suspeita e mito

A história não é limpa nem simples.
O que sabemos hoje é:
Fato: eles dissecavam um número impossível de gestantes.
Fato: a origem desses corpos é extremamente suspeita.
Fato: há indícios de envolvimento indireto com assassinatos.
Não é fato: que eles mesmos mataram ou comandaram execuções.
Não é fato: que são “assassinos em série” nos termos modernos.

A internet transforma suspeitas históricas em manchetes absolutas.
A verdade é mais complexa — e, justamente por isso, mais perturbadora.

domingo, 23 de novembro de 2025

O Lado Esquecido da História da Central Telefônica da Av. São Miguel

by Deise Brandão

Com o anúncio do leilão do antigo prédio da CRT na Avenida São Miguel, em Dois Irmãos, vale lembrar um capítulo da nossa história que quase ninguém mais menciona — mas que faz toda a diferença.

No início dos anos 1990, quando ter uma linha telefônica era um luxo e a instalação podia levar anos, os moradores da cidade foram chamados a contribuir financeiramente para acelerar a conclusão da central telefônica local.

Era assim: quem quisesse ter acesso mais rápido à linha podia pagar um valor na Prefeitura, como uma espécie de contribuição de melhoria. Muita gente colaborou. Eu fui uma dessas pessoas.

Essas contribuições ajudaram a viabilizar a obra que agora, três décadas depois, está sendo leiloada pelo Município — sem qualquer referência ao esforço coletivo da época, sem memória, sem registro simbólico, sem reconhecimento.

Não se trata de reivindicar dinheiro de volta — embora isso fosse o correto e o justo. O ponto aqui é lembrar que, quando essa central telefônica foi viabilizada, foi a própria comunidade que ajudou a pagar a conta. E mais: quem hoje administra a Prefeitura estava lá na época, ocupando exatamente as mesmas cadeiras. As funções mudaram entre prefeito e vice, mas os nomes são os mesmos.

Lembro bem da situação: quando disseram que as linhas haviam “acabado” justo na minha vez, a discussão não foi pequena. Fui falar diretamente com o Renato — que era vice ou Prefeito naquela época — e não aceitei a resposta pronta.

No fim, resolvi o problema onde realmente podia ser resolvido: direto na superintendência da CRT em Novo Hamburgo, com quem de fato mandava. Curiosamente, era o mesmo dirigente que, pouco tempo antes, tinha me concedido uma entrevista exclusiva — algo que ele se negava a fazer para quase todo mundo. Eu aceitei fazer a matéria, mesmo não cobrindo Novo Hamburgo no jornal.

Hoje eu entendo os bastidores desse privilégio , porque conheci a pessoa que cobria NH na época e… bem, me arrependo profundamente daquela proximidade. Mas isso é outra história. O que importa é que consegui minha linha telefônica, assim como vou retomar o queé meu e a Prefeitura esta bem enfiada na fraude... Também outra história, em breve pública, como todas as demais.

O fato é: a central telefônica existiu porque a população pagou.
Resgatar um fato histórico: a telefonia só chegou aqui porque a comunidade inteira colocou a mão no bolso quando o Estado não conseguia dar conta.

É bom lembrar isso agora, justamente quando o imóvel vai mudar de mãos.
Memória também é patrimônio.

Observação necessária

Curiosamente, o Google Maps,  aparece classificando esse endereço como “Bairro Floresta”, o que é completamente equivocado. Esse prédio sempre foi Centro, tanto no sentido urbanístico quanto histórico.
A Av. São Miguel jamais pertenceu ao Floresta em nenhum mapa oficial, planta urbana, documento imobiliário ou zoneamento da cidade. O erro vem de cadastros antigos e mal atualizados, que o Google replicou sem análise.

Mas para fins de leilão — e para fins de memória da cidade — é Centro. Sempre foi.
Qualquer outra classificação é erro de sistema, não de realidade.

sábado, 22 de novembro de 2025

Quatro Presidentes presos: o sintoma de um ESTADO apodrecido

 

by Deise Brandão

Desde a redemocratização, em 1989, quatro presidentes da República já foram presos: Fernando Collor, Luiz Inácio Lula da Silva, Michel Temer e, agora, Jair Bolsonaro.
O que deveria ser uma excepcionalidade histórica virou rotina institucional, revelando uma doença profunda: corrupção endêmica, sistêmica e epidêmica.

Não há nada a comemorar.
Há, no máximo, o reconhecimento tardio de que o país falhou repetidas vezes em impedir que seus líderes tratassem o Estado como propriedade particular.

Collor: o primeiro sintoma
Fernando Collor inaugurou o triste ciclo.
Foi afastado em 1992 e, anos depois, tornou-se réu e condenado por corrupção.
Sua queda, à época, parecia um alívio — como se o sistema estivesse se purificando.
Hoje sabemos: era só o começo.

Lula: a era das ilusões
Luiz Inácio Lula da Silva, símbolo de esperança para milhões, acabou preso em 2018 após desdobramentos da Lava Jato. 
A prisão, anulada posteriormente por questões processuais, não apagou o cenário que se revelou ao país: contratos superfaturados, empreiteiras, partidos e estatais operando em engrenagens de corrupção crônica.
Aos que ainda esperam alguma redenção institucional, bastou observar os últimos anos para entender que o problema nunca foi uma pessoa — mas um sistema inteiro moldado para se proteger.

Temer: a normalização do absurdo
Michel Temer foi preso duas vezes em 2019, envolvido em esquemas de corrupção que atravessaram décadas na política paulista. Sua prisão escancarou algo gravíssimo: até os bastidores “silenciosos” do poder estavam contaminados.
A sensação pública já não era choque.
Era cansaço.

Bolsonaro: a continuação previsível
Em 2025, Jair Bolsonaro se torna o quarto ex-presidente preso desde 1989.
Não é exceção, não é surpresa, não é choque.
É somente mais um capítulo do mesmo roteiro vergonhoso.
O que sobra é a constatação:
a maior parte dos presidentes eleitos após a redemocratização terminou o ciclo sob suspeita, acusação ou prisão.
Isso não é acaso.
Isso é diagnóstico.

Um país que não aprende
O Brasil tem duas doenças simultâneas: uma elite política que age como casta hereditária, intocável, blindada e repetidamente criminosa e um povo que, enganado ou cansado, acaba aceitando o teatro da “salvação” a cada quatro anos.

Quando quatro ex-presidentes terminam algemados, investigados ou condenados, não estamos diante de “casos isolados”. Estamos diante de um Estado falido moralmente.
Não há herói. 
Não há santo. 
Não há renascimento político possível.

Lula e Bolsonaro sintetizam a polarização mais destrutiva da história recente: um país mantido refém de dois polos que se alimentam um do outro, se retroalimentam do caos e transformam o debate público em trincheira.

A prisão de Bolsonaro revela o óbvio: não existe lado “do bem”.
Existe um sistema inteiro podre, que usa seus líderes como peças descartáveis.
 
Veredito histórico
Enquanto o povo paga a conta, Brasília segue mudando as figuras, mas nunca o jogo.
Quatro presidentes presos não são sinal de justiça funcionando.
São sinal de justiça tardia, impunidade prolongada e sistema contaminado de alto a baixo.

O Brasil não precisa de salvadores.
Precisa de ruptura institucional, transparência real e fim do pacto silencioso que normalizou a corrupção como paisagem administrativa.Até lá, o ciclo continuará:prisões, escândalos, impunidade, histeria coletiva — e a eterna sensação de que o país vive num loop viciado.

A celebração do caos: quando a anomalia vira rotina
A reação pública à prisão de Bolsonaro — comemorações, fogos, memes — não é sinal de maturidade democrática.É sinal de anestesia coletiva.Quando o país comemora a queda de mais um ex-presidente, não percebe que está celebrando sua própria tragédia:Enquanto a corrupção segue, o povo aprende a rir de sua própria ruína. E isso é, em si, um colapso moral.

Em Alta

O cromossomo Y está desaparecendo?

                                                                         Imagem gerada por IA - GPT by Deise Brandão O cromossomo Y, peça ...

Mais Lidas