domingo, 5 de julho de 2026

O papel aceita tudo. A imprensa compra e vende o tudo.

by Deise Brandão

     O papel aceita tudo, inclusive a pompa das coletivas de imprensa. Nesta semana, as forças de segurança do Rio Grande do Sul se reuniram na Cidade da Polícia para apresentar, com toda a formalidade de praxe, os resultados da Operação Mulher Segura. No release oficial distribuído à imprensa, os números parecem vistosos: 894 policiais mobilizados, 148 prisões em flagrante e 2.675 Medidas Protetivas de Urgência (MPUs) fiscalizadas ao longo de um mês em todo o estado.

     Para o cidadão comum, pode parecer um estrondo. Mas para quem tem olho clínico de jornalista raiz e se recusa a apenas copiar e colar relatórios oficiais, a conta simplesmente não fecha. Quando saímos da bolha da propaganda institucional e cruzamos a realidade com o tamanho do nosso estado, o que era para ser uma celebração se transforma no retrato escancarado de um Estado que está enxugando gelo.

         A contradição é matemática e dolorosa:

  • A Realidade das Mortes: Enquanto a publicidade foca em 148 prisões pontuais, o Rio Grande do Sul já atingiu a trágica marca de 40 feminicídios consumados neste ano. Esse número assustador representa exatamente a metade de todas as mortes de mulheres registradas ao longo de todo o ano anterior. O ritmo da violência acelerou, e nenhuma operação de trinta dias conseguiu conter essa sangria.

  • O Abismo dos Números: Celebrar a fiscalização de 2.675 medidas protetivas em âmbito estadual chega a ser tímido. Segundo dados do Tribunal de Justiça do RS (TJRS), correm hoje no estado mais de 100 mil ações ativas por violência doméstica. Só no ano passado, foram solicitadas 69 mil novas medidas protetivas pelas mulheres gaúchas. O que o Estado fiscalizou em um mês de esforço concentrado é um pingo d'água no oceano de processos que tramitam no Judiciário.

  • O Cerco Tecnológico: A própria Secretaria de Segurança Pública (SSP-RS) escancara a gravidade do cenário ao confirmar que precisou colocar 1,2 mil agressores sob monitoramento de tornozeleira eletrônica. O número quadruplicou em relação ao ano passado, provando que o policiamento tradicional e as ordens judiciais no papel já não dão conta de conter quem quer matar.

      Operações de impacto são válidas, geram imagens bonitas para os telejornais e alimentam as estatísticas do governo, mas não resolvem o deficit diário de estrutura que as mulheres enfrentam nas pontas — especialmente nas pequenas cidades do interior, onde a viatura não chega a tempo e o efetivo é escasso.

     A verdade nua e crua por trás dos releases é que o aparato de repressão corre atrás do prejuízo. Celebrar números absolutos sem contextualizar com a epidemia real é uma tentativa cinzenta de mascarar a insuficiência do sistema.

       O jornalismo de verdade não aplaude o palco; ele expõe o tamanho do abismo.

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