31/10/2026

Boicote pacífico: o consumidor tem o direito de escolher onde gastar

 


by Deise Brandão

Deixar de comprar de uma empresa e explicar publicamente essa decisão É forma legítima de manifestação. O artigo 198 do Código Penal pune a coação mediante violência ou grave ameaça.

O consumidor escolhe produtos pelo preço, pela qualidade, pelo atendimento e também pelos valores que uma empresa representa. Questões ambientais, condições de trabalho, posicionamentos públicos e divergências políticas podem influenciar essa escolha. Em regra, decidir não comprar e defender pacificamente essa posição integra o exercício das liberdades de escolha e de expressão. A Constituição protege a manifestação do pensamento, e o Código de Defesa do Consumidor assegura expressamente a liberdade de escolha em seu artigo 6º, inciso II. 

É nesse contexto que deve ser compreendida a diferença entre boicote pacífico e boicotagem violenta.

O artigo 198 do Código Penal trata do atentado contra a liberdade de contrato de trabalho e da boicotagem violenta. Ele pune quem utiliza violência ou grave ameaça para obrigar alguém a celebrar contrato de trabalho ou a deixar de fornecer ou adquirir determinadas matérias-primas e produtos industriais ou agrícolas. A pena prevista é de detenção de um mês a um ano e multa, além da pena correspondente à violência praticada. 

Portanto, esse dispositivo não criminaliza a simples decisão de deixar de comprar. Tampouco transforma, por si só, uma campanha pacífica de consumidores em crime. A violência ou a grave ameaça são elementos necessários ao enquadramento no artigo 198. 

Uma pessoa anunciar “não compro mais dessa marca porque discordo de sua atuação” é uma situação diferente de ameaçar agredir um fornecedor caso ele continue entregando mercadorias à empresa. Na primeira hipótese, há uma decisão de consumo acompanhada de manifestação de opinião. Na segunda, há imposição pela ameaça, que pode preencher os elementos do crime.

A distinção também evita um equívoco: o artigo 198 não cria um direito irrestrito ao boicote nem resume todos os seus limites jurídicos. A ausência de violência ou grave ameaça afasta esse enquadramento específico, mas outras condutas continuam sujeitas à lei. Uma campanha pode gerar responsabilidade se envolver, por exemplo, acusações falsas, ataques à honra ou práticas anticoncorrenciais entre empresas. A liberdade de expressão convive com a proteção da honra e da imagem e com a responsabilização por abusos. 

Isso preserva o espaço da crítica e da escolha consciente. Discordar de uma empresa não obriga o consumidor a continuar financiando suas atividades. Quem discorda do boicote também pode responder, apresentar argumentos e incentivar compras naquela empresa.

A mesma liberdade alcança as doações voluntárias. Uma empresa, campanha ou ação social pode pedir apoio, mas não exigir que alguém a financie. A relevância de uma causa não transforma a contribuição voluntária em obrigação.

Nas relações de emprego, também é necessário distinguir as situações. Ser petista, bolsonarista ou ter qualquer outra preferência política não cria estabilidade automática. Demitir um funcionário, por si só, não é crime.

O empresário pode realizar uma dispensa sem justa causa, respeitando as garantias legais aplicáveis e pagando as verbas devidas.

Quem deseja apoiar os atingidos por um boicote pode comprar seus produtos, divulgar seus serviços, abrir oportunidades e contribuir com os próprios recursos. O consumidor pode escolher onde comprar, a quem doar e por que fazê-lo — e pode expressar pacificamente essas escolhas.

29/10/2026

ESCALA 5x2: O “MAS” QUE O TRABALHADOR PRECISA CONHECER


by Deise Brandão

A mudança prevê mais descanso, mas não garante duas folgas juntas em todas as semanas

Quem ouviu “fim da escala 6x1” pode ter entendido: cinco dias trabalhando, dois descansando, toda semana. A Emenda Constitucional nº 141/2026, porém, contém uma ressalva importante.

Excepcionalmente, acordo ou convenção coletiva poderá permitir que as duas folgas semanais sejam calculadas pela média dentro do mês. Nesse regime, pelo menos uma folga precisa ocorrer dentro de cada semana de trabalho.

Isso significa que poderá haver uma semana com seis dias trabalhados e apenas um de descanso. A outra folga terá de ser compensada, respeitando a média mensal e os limites de jornada.

O que a mudança não garante automaticamente

ExpectativaO que está previsto
Duas folgas em toda semanaPode haver compensação excepcional dentro do mês, por negociação coletiva.
Duas folgas seguidasO texto não estabelece essa exigência geral.
Sábado e domingo livresDomingo é preferencial. O fim de semana inteiro não está garantido.
O patrão decide sozinhoNão. A compensação excepcional exige acordo ou convenção coletiva.
O sindicato pode retirar a segunda folgaNão. A média mensal de descanso precisa ser preservada.

Por que isso importa?

Descansar toda semana em dias previsíveis é diferente de receber uma folga compensatória em outro momento. A distribuição interfere no cuidado com os filhos, nos estudos e na possibilidade de organizar compromissos familiares.

Para saber como ficará sua rotina, o trabalhador precisará conhecer o acordo aplicável à sua categoria.

A redução das horas também será gradual

O limite passa primeiro a 42 horas semanais e, depois, a 40. Durante a transição, negociação coletiva pode autorizar dias mais longos para distribuir as 42 horas. Em cinco dias iguais, seriam 8 horas e 24 minutos diários, sem contar intervalos.

A mudança determina preservação salarial.

A conquista existe. A promessa precisa vir completa.

Não é correto dizer que nada mudou. Também não é correto vender uma rotina idêntica de cinco dias trabalhados e dois dias livres para todos.

A pergunta que cada trabalhador deve fazer ao sindicato é simples: quais serão meus dias de descanso, quando haverá compensação e onde isso estará escrito?

Zucco anuncia fusão de secretarias; não há anúncio de fim do apoio à agricultura familiar


by Deise Brandão

O governador eleito do Rio Grande do Sul, Luciano Zucco (PL), anunciou a incorporação da Secretaria do Desenvolvimento Rural à Secretaria da Agricultura. A informação não equivale ao encerramento das políticas de apoio aos pequenos agricultores, como pode sugerir uma postagem que apresenta a mudança como “descaso com 294 mil famílias”.

A reorganização prevê uma pasta conjunta de Agricultura e Desenvolvimento Rural, comandada por Paulo Herrmann, ex-presidente da John Deere no Brasil. Portanto, o anúncio é de mudança na estrutura administrativa: o Desenvolvimento Rural deixará de ter uma secretaria independente e suas atribuições serão incorporadas à Agricultura.

Não foi identificado, nas fontes consultadas, anúncio de cancelamento geral dos programas ou de interrupção do atendimento à agricultura familiar. Afirmar que centenas de milhares de famílias ficarão desassistidas antecipa uma consequência que não foi demonstrada.

Em entrevista à Rádio Caxias, em 28 de outubro, Herrmann afirmou que não recebeu orientação para promover cortes orçamentários nos programas existentes. Também declarou que pretende avaliar as particularidades das pequenas propriedades. A manifestação sinaliza continuidade, embora os detalhes da estrutura e do orçamento ainda precisem ser apresentados.

Fetag cobra manutenção de secretaria própria

A preocupação das entidades representativas existe. Em nota publicada em 27 de outubro, a Fetag-RS manifestou-se contra a fusão e defendeu uma secretaria própria, com orçamento, equipe técnica e capacidade de executar políticas específicas para a agricultura e a pecuária familiar.

A federação pediu reunião com Zucco e a equipe de transição, além de garantias de continuidade dos programas, preservação da capacidade técnica e participação dos agricultores nas decisões.

Essa posição expressa uma preocupação com a perda de autonomia e de prioridade institucional. Não comprova, entretanto, que os serviços serão encerrados.

Número de agricultores não representa benefícios cancelados

A referência a aproximadamente 294 mil famílias descreve a dimensão da agricultura familiar no Estado. Não corresponde a uma relação de famílias que perderam atendimento ou recursos em consequência da reorganização anunciada.

A fiscalização deve acompanhar o orçamento, a composição das equipes, a continuidade dos programas e o atendimento nas comunidades rurais.


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