Você provavelmente conhece o Flávio Dino de hoje.
Ministro do Supremo Tribunal Federal, personagem central dos embates que sacodem a Corte, ex-ministro da Justiça e presença frequente nas análises de jornalistas que explicam suas decisões, defendem suas posições e o apresentam como contraponto aos demais protagonistas da crise institucional instalada no país.
Mas talvez esteja faltando um pedaço considerável dessa história.
O Flávio Dino que hoje julga investigações, participa de decisões envolvendo a Polícia Federal e interfere em questões relacionadas a autoridades com foro privilegiado é o mesmo Flávio Dino que, antes da toga, permaneceu muitos anos na política. Foi deputado federal, governou o Maranhão por dois mandatos, elegeu-se senador e ocupou o Ministério da Justiça no governo Lula.
Foi também durante essa trajetória que seu próprio nome apareceu em uma investigação originada nas delações da Odebrecht, enquanto sua administração estadual foi alcançada por sucessivas operações da Polícia Federal relacionadas a suspeitas de fraudes e desvios milionários na Saúde.
Isso não significa que Flávio Dino tenha sido condenado por corrupção. Não foi.
A investigação relacionada à Odebrecht foi arquivada por insuficiência de provas. Da mesma forma, não se pode atribuir automaticamente ao governador todos os crimes investigados dentro da estrutura administrativa do estado que governava.
Mas existe uma distância enorme entre reconhecer essas duas circunstâncias e simplesmente apagar os episódios da biografia de um homem que hoje ocupa uma das onze cadeiras do Supremo Tribunal Federal.
É justamente aí que esta história se torna relevante.
Não apenas por Flávio Dino, mas pelo jornalismo que hoje o cerca. Quem acompanha os acontecimentos atuais pode ter a impressão de que estamos diante apenas de um ministro do STF discutindo Polícia Federal, investigações, corrupção, competências e limites institucionais.
Só que existe uma história anterior à toga.
Essa história foi manchete, mobilizou Polícia Federal, Controladoria-Geral da União, Ministério Público e Poder Judiciário. Envolveu delação premiada, prisões, suspeitas de funcionários fantasmas, contratos com entidades do terceiro setor, apreensão de dinheiro em espécie, bloqueios milionários e integrantes da administração estadual investigados.
Curiosamente, quase nada disso acompanha Flávio Dino quando ele é apresentado ao público hoje.
Vale, portanto, voltar alguns anos. Não para condená-lo pelo que não foi provado, mas para fazer algo muito mais elementar: lembrar quem é o personagem inteiro antes de aceitar uma narrativa que começa somente no dia em que ele vestiu a toga.
A acusação feita por um executivo da Odebrecht
Em 2017, o nome de Flávio Dino apareceu nas delações da Odebrecht.
José de Carvalho Filho, ex-executivo da empreiteira, afirmou em colaboração premiada que teriam sido destinados R$ 400 mil à campanha de Dino ao governo do Maranhão em 2010, por meio de caixa dois.
Segundo o delator, a Odebrecht possuía interesse em um projeto legislativo que lhe proporcionaria segurança jurídica para investimentos internacionais. Na época, Dino exercia o mandato de deputado federal e havia atuado como relator da matéria na Comissão de Constituição e Justiça.
Dino negou a acusação. Sustentou que jamais recebeu recursos ilegais e afirmou que, embora tivesse sido relator, não apresentou parecer favorável ao projeto de interesse da empreiteira.
O ponto jurídico decisivo é que a investigação foi posteriormente arquivada pelo Superior Tribunal de Justiça por falta de elementos suficientes para seu prosseguimento.
Portanto, a história correta contém todas essas partes: Flávio Dino foi diretamente acusado por um delator da Odebrecht; a acusação foi investigada; Dino negou ter recebido o dinheiro; e a apuração foi arquivada por insuficiência de provas.
Não houve condenação.
Mas também não é verdade que o episódio nunca tenha existido.
Uma imprensa comprometida com os fatos não deveria escolher entre repetir a acusação como se fosse condenação ou apagar a acusação porque ela não terminou em condenação. Sua obrigação é contar o caso inteiro.
Operação Pegadores: R$ 18 milhões e a Saúde do Maranhão
O ano de 2017 trouxe problemas muito maiores para a administração estadual comandada por Flávio Dino.
Em novembro, a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram a Operação Pegadores, quinta fase da Operação Sermão aos Peixes.
A investigação apurava suspeitas de desvios de recursos federais destinados à Saúde por meio de fraudes na contratação e no pagamento de pessoal e de contratos firmados com entidades do terceiro setor responsáveis pela administração de unidades hospitalares do Maranhão.
A Justiça determinou o bloqueio ou sequestro de aproximadamente R$ 18 milhões.
Foram expedidos 17 mandados de prisão temporária. Entre os alvos estavam servidores e ex-servidores da Secretaria de Saúde, além de pessoas vinculadas às entidades investigadas.
Uma das presas foi Rosângela Curado, que havia ocupado o cargo de secretária-adjunta de Saúde em 2015, já durante o governo Flávio Dino.
As investigações mencionavam funcionários fantasmas, empresas de fachada, pagamentos irregulares e indicações de pessoas para receberem recursos sem a efetiva prestação dos serviços correspondentes. Segundo as autoridades responsáveis pela operação, parte das irregularidades teria continuado até 2017.
O próprio governo informou, na ocasião, que a Secretaria de Saúde estava à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
Novamente, é necessário estabelecer o limite entre o que os fatos demonstram e aquilo que eles não permitem concluir.
A operação não comprova, por si só, que Flávio Dino tenha recebido dinheiro do esquema ou participado pessoalmente dos desvios.
O que ela comprova é suficientemente grave: uma investigação federal de grande porte sobre desvios de recursos públicos alcançou a estrutura da Saúde do Maranhão durante sua administração, resultou em prisões de pessoas ligadas à máquina estadual e levou ao bloqueio judicial de aproximadamente R$ 18 milhões.
Não é preciso inventar uma condenação pessoal de Dino para reconhecer a relevância desse episódio.
Operação Rêmora: contratos, direcionamento e dinheiro em espécie
A Operação Pegadores não surgiu isoladamente. Ela fazia parte de uma investigação muito mais ampla, a Operação Sermão aos Peixes.
Antes dela, houve a Operação Rêmora, também destinada a apurar irregularidades relacionadas à aplicação dos recursos da Saúde no Maranhão.
Relatórios divulgados à época apontavam suspeitas de direcionamento na seleção de organizações responsáveis pela terceirização de serviços de saúde. Segundo o material atribuído às investigações, determinadas entidades já saberiam antecipadamente quais lotes receberiam no procedimento realizado em 2015.
Durante a operação, foram apreendidos cerca de R$ 644 mil em espécie, além de documentos e veículos. Naquele momento, as investigações também trabalhavam com a estimativa de fraudes na casa dos R$ 18 milhões.
A Rêmora é importante porque alcançou contratos e procedimentos realizados dentro do sistema de Saúde administrado pelo governo Dino e ajudou a produzir os elementos que desembocariam nas fases seguintes da investigação.
Mais uma vez, o fato de uma operação atingir a administração estadual não equivale a uma condenação pessoal do governador.
Mas uma sequência de operações policiais, prisões, apreensões e suspeitas de desvios dentro de uma área essencial do governo não pode simplesmente desaparecer da memória jornalística quando o antigo governador passa a ocupar outro cargo.
Um esquema que teria atravessado a mudança de governo
Existe um aspecto cronológico especialmente relevante na Operação Sermão aos Peixes.
As investigações começaram alcançando irregularidades atribuídas à administração anterior, comandada por Roseana Sarney. Posteriormente, interceptações, documentos e relatórios passaram a indicar que determinadas práticas envolvendo entidades terceirizadas teriam continuado depois que Flávio Dino assumiu o governo, em janeiro de 2015.
Uma das apurações tratava da indicação de pessoas para contratação por entidade encarregada da administração de unidades de saúde, sem processo seletivo regular e, em alguns casos, sem a correspondente prestação de serviços.
Isso impede duas simplificações opostas.
A primeira seria afirmar que toda a Operação Sermão aos Peixes tratava de “corrupção de Flávio Dino”. Essa afirmação seria incorreta, porque a investigação alcançou períodos, contratos e agentes anteriores à sua administração.
A segunda simplificação, igualmente inadequada, consiste em afirmar que toda a investigação dizia respeito exclusivamente ao governo anterior. Algumas de suas fases alcançaram fatos ocorridos depois de janeiro de 2015 e pessoas que exerceram funções durante a administração de Dino.
O esquema investigado não respeitou a fronteira conveniente da mudança de governo. Segundo as apurações, determinadas práticas teriam atravessado a transição.
Esse ponto é essencial porque permite compreender como a responsabilidade política costuma ser tratada seletivamente. Quando uma investigação alcança o adversário, a responsabilidade é ampliada até o limite máximo. Quando atinge um aliado, surge imediatamente a necessidade de compartimentar datas, governos, contratos e agentes.
O jornalismo não deveria operar segundo essa conveniência.
Mariano de Castro Silva e a carta atribuída a ele
Um dos capítulos mais delicados da Operação Pegadores envolve o médico Mariano de Castro Silva.
Investigado por suposta participação no esquema da Saúde, Mariano foi preso durante a operação. Em 2018, depois de deixar a prisão, foi encontrado morto em seu apartamento, em Teresina.
Após sua morte, veio a público uma carta atribuída a ele contendo acusações contra integrantes do governo maranhense e referências ao próprio Flávio Dino. O conteúdo provocou a apresentação de pedido de investigação à Procuradoria-Geral da República.
Aqui, a cautela deve ser redobrada.
A cobertura da época tratava o documento como uma “suposta carta”. Sua atribuição a Mariano e o conteúdo nela registrado não constituem, isoladamente, prova judicial da participação de Flávio Dino em qualquer crime.
Ainda assim, o episódio existiu. A carta circulou, continha acusações, mencionava integrantes do governo e motivou pedido formal de investigação.
Contar isso não significa endossar seu conteúdo. Significa apenas recusar o apagamento de um episódio que integrou uma das maiores crises enfrentadas pela administração estadual naquele período.
O investigado que voltou ao governo
Outro fato que merece ser lembrado envolve Marcus Eduardo Alves Batista.
Ex-gestor do Instituto Cidadania e Natureza, entidade que atuava na área da Saúde, Marcus Eduardo foi alvo da Operação Pegadores e ficou temporariamente preso em novembro de 2017.
Posteriormente, segundo reportagem publicada em 2019, ele foi nomeado para o cargo comissionado de assessor especial III do Instituto de Previdência dos Servidores do Maranhão, o Iprev-MA.
A nomeação não comprova que Flávio Dino tenha participado dos crimes investigados nem torna culpado alguém que não tenha sido definitivamente condenado.
Mas ela produz uma pergunta política legítima: por que uma pessoa que havia sido presa em uma operação sobre desvios de recursos da Saúde voltou a ocupar cargo comissionado na estrutura estadual?
A resposta pode até existir. O que não deveria existir é o silêncio.
Os respiradores do Consórcio Nordeste e o limite da responsabilidade
Outro episódio frequentemente incluído em listas de escândalos relacionados aos governadores do Nordeste é a compra dos respiradores durante a pandemia.
O Consórcio Nordeste pagou antecipadamente aproximadamente R$ 48,7 milhões pela aquisição de 300 respiradores que nunca foram entregues. O contrato foi firmado quando Rui Costa, então governador da Bahia, presidia o consórcio.
Flávio Dino governava o Maranhão, que integrava o Consórcio Nordeste. Essa participação, contudo, não basta para transformá-lo automaticamente em investigado ou responsável pessoal pelo prejuízo.
Nas investigações tornadas públicas, o personagem político central do caso foi Rui Costa. Posteriormente, o Tribunal de Contas da União afastou sua responsabilidade na esfera examinada, enquanto prosseguiram medidas relacionadas à empresa fornecedora.
Já como ministro do STF, Dino recebeu o inquérito e decidiu remetê-lo ao Superior Tribunal de Justiça, considerando que os fatos atribuídos a Rui Costa teriam ocorrido quando ele exercia o cargo de governador.
Esse episódio pode suscitar discussões sobre competência, responsabilidade administrativa e decisões institucionais. O que não se pode fazer, sem prova adicional, é apresentá-lo como “corrupção de Flávio Dino”.
Incluí-lo nesta retrospectiva serve justamente para demonstrar que memória não deve ser confundida com acusação irresponsável. É possível registrar os fatos, indicar a posição institucional de cada personagem e preservar os limites impostos pelas provas disponíveis.
Da política para o Supremo
Foi com toda essa trajetória pública já conhecida que Flávio Dino chegou ao Supremo Tribunal Federal.
Em novembro de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou seu então ministro da Justiça para ocupar a vaga deixada por Rosa Weber. A Constituição exige dos ministros do STF notável saber jurídico e reputação ilibada.
Dino foi sabatinado pelo Senado e teve sua indicação aprovada por 47 votos favoráveis, 31 contrários e duas abstenções. Em 22 de fevereiro de 2024, tomou posse como ministro.
Não há ilegalidade nisso. O presidente exerceu sua competência constitucional, e o Senado aprovou a indicação.
Mas a aprovação não possui o poder de reescrever os capítulos anteriores de uma biografia pública.
O homem que governou um estado cuja estrutura administrativa foi alcançada por operações da Polícia Federal passou a integrar o Tribunal responsável por decidir questões envolvendo a própria Polícia Federal, investigações criminais, autoridades com foro privilegiado e os limites da atuação dos órgãos de persecução.
Não há crime nessa trajetória. Há, no entanto, uma ironia histórica difícil de ignorar.
O ministro no centro da crise atual
Em setembro de 2026, Flávio Dino passou a ocupar posição de destaque em uma das crises mais delicadas enfrentadas recentemente pelo Supremo.
O caso Banco Master chegou à Corte cercado por suspeitas envolvendo autoridades, divergências entre ministros e questionamentos sobre a atuação da Polícia Federal. A controvérsia ultrapassou os limites de um processo isolado e tornou-se uma crise institucional com potencial para repercutir inclusive no cenário eleitoral. A própria cobertura nacional reconheceu que o caso alcançou o STF e passou a envolver diretamente seus integrantes. (Folha de S.Paulo)
Dino participou das discussões internas e das decisões relacionadas ao encaminhamento da crise. Passou, portanto, a atuar diretamente em controvérsias envolvendo investigações, a cúpula policial, as competências dos ministros e procedimentos capazes de alcançar integrantes da própria Corte.
O ponto central não é presumir que suas decisões atuais sejam consequência automática dos episódios ocorridos no Maranhão. Essa ligação não pode ser feita sem prova.
O ponto é outro: o antigo governador, cuja administração foi atravessada por operações federais sobre corrupção na Saúde, tornou-se ministro do Supremo e hoje participa das decisões que envolvem a Polícia Federal, investigações sensíveis e os limites de atuação dos próprios membros do Tribunal.
Esse contexto deveria interessar ao jornalismo.
Mas, para parte dele, aparentemente não interessa.
O jornalismo que começa a biografia depois da toga
Há jornalistas empenhados em explicar cada crítica dirigida a Flávio Dino, contextualizar suas decisões e defender a legitimidade institucional de sua atuação.
Não há problema algum nisso. Contextualizar é exatamente o que se espera de quem exerce jornalismo.
O problema começa quando essa contextualização possui uma estranha data de nascimento e a biografia do personagem parece começar somente depois de sua chegada ao Supremo.
- Onde foi parar a delação da Odebrecht — inclusive seu posterior arquivamento?
- Onde foram parar as operações Sermão aos Peixes, Rêmora e Pegadores?
- Onde estão os servidores e ex-servidores investigados, os funcionários fantasmas, as empresas de fachada, o dinheiro apreendido e os milhões de reais bloqueados judicialmente?
- Onde está o registro de que as práticas investigadas teriam continuado depois da mudança de governo ocorrida em 2015?
- Onde está Mariano de Castro Silva?
- Onde está a carta atribuída a ele e o pedido de investigação produzido a partir dela?
- Onde está o investigado que, depois de ser preso temporariamente pela Polícia Federal, voltou a ocupar cargo comissionado no governo?
Essas perguntas não têm a finalidade de declarar Flávio Dino culpado por crimes que não foram provados contra ele.
Pelo contrário: o arquivamento da investigação originada na delação da Odebrecht deve necessariamente integrar qualquer narrativa séria. O compromisso precisa ser com os fatos completos.
O mesmo critério, entretanto, deve funcionar nas duas direções.
Não se pode considerar indispensável recordar acusações, amizades, declarações e processos de décadas atrás quando o personagem analisado está de um lado da disputa e, subitamente, considerar tudo isso irrelevante quando o beneficiado pelo esquecimento está do outro.
Também não é jornalisticamente razoável vasculhar minuciosamente o passado de quem critica um ministro e, simultaneamente, tratar o passado do próprio ministro como território interditado.
O que está em discussão não é apenas Flávio Dino
No fim, esta matéria talvez diga menos sobre Flávio Dino do que parece.
Dino não escondeu que foi governador. Não apagou pessoalmente as operações policiais dos arquivos públicos. Tampouco precisa responder hoje por aquilo que não resultou em responsabilidade pessoal comprovada.
Os fatos estão disponíveis.
A questão é por que eles desaparecem justamente quando parte do jornalismo decide explicar ao público quem é Flávio Dino no embate atual.
Não se trata de exigir que jornalistas condenem Dino.
Trata-se de exigir algo muito mais simples de quem se apresenta como jornalista: memória.
A mesma memória utilizada para recuperar frases antigas, amizades, viagens, processos, investigações e episódios remotos quando o personagem examinado se encontra do outro lado da trincheira política.
Flávio Dino chegou ao Supremo depois de tudo isso. Foi indicado pelo presidente da República, submetido ao Senado e aprovado para uma cadeira cujo ocupante deve preencher o requisito constitucional da reputação ilibada.
Essa é a institucionalidade que o colocou onde está e não existe razão para falseá-la.
Mas a aprovação pelo Senado também não tem o poder mágico de transformar investigações em não acontecimentos, operações policiais em invenções ou crises administrativas em páginas em branco.
O governador que viu sua administração ser alcançada por operações da Polícia Federal é hoje ministro de um Tribunal que decide questões envolvendo a Polícia Federal.
O político cujo nome esteve sob investigação — posteriormente arquivada — hoje participa de julgamentos relacionados a investigações.
O homem que esteve de um lado dessa engrenagem institucional está agora sentado no outro.
Não há crime nessa mudança de posição. Há uma história.
Por isso, quando jornalistas defenderem Flávio Dino no embate atual, ninguém precisa aceitar automaticamente a versão oposta nem transformar o ministro em culpado de coisa alguma.
Basta fazer aquilo que deveria ser a obrigação primeira de quem conta uma história: não esquecer metade dela.
Flávio Dino não nasceu ministro do Supremo.
Uma toga pode mudar o lugar que um homem ocupa no Estado. Pode ampliar seu poder, alterar suas responsabilidades e colocá-lo em posição de julgar instituições e agentes que antes investigavam a administração por ele comandada.
O que a toga não pode fazer é apagar o caminho percorrido até ali. Porque história não começa no capítulo que melhor convém a quem resolveu contá-la.
E memória seletiva não é jornalismo. É narrativa.

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