by Deise Brandão
Há dois “Pegasus” circulando pelo imaginário contemporâneo. Um deles habita a fronteira entre os projetos militares secretos, a ficção científica e as teorias sobre tecnologias desenvolvidas a partir dos estudos de Nikola Tesla.
O outro é absolutamente real: um software capaz de invadir silenciosamente um telefone celular, acompanhar seus movimentos e transformar a vida de uma pessoa em território aberto à espionagem.
À primeira vista, são histórias muito diferentes. Mas ambas nascem da mesma obsessão humana: vencer distâncias, atravessar barreiras e observar aquilo que deveria permanecer inacessível.
O Projeto Pegasus atribuído à tecnologia de Tesla
A narrativa do chamado Projeto Pegasus tornou-se conhecida principalmente pelas declarações do advogado norte-americano Andrew D. Basiago.
Segundo ele, entre o final da década de 1960 e o início dos anos 1970, órgãos do governo dos Estados Unidos teriam desenvolvido experiências secretas envolvendo teletransporte, deslocamento no tempo e visualização de acontecimentos passados ou futuros.
Basiago afirma que teria participado dessas experiências ainda criança e que parte da tecnologia empregada teria origem em trabalhos deixados por Nikola Tesla. Nas versões difundidas sobre o projeto, apareceria um equipamento chamado “cronovisor”: uma espécie de dispositivo capaz de acessar ou reconstruir imagens de outros momentos históricos. É aqui que se torna indispensável separar narrativa de comprovação.
Nikola Tesla realmente realizou pesquisas extraordinárias sobre eletricidade, transmissão de energia, radiofrequência e campos eletromagnéticos. Após sua morte, em janeiro de 1943, documentos que estavam em seu quarto de hotel foram recolhidos pelas autoridades norte-americanas e posteriormente examinados. Isso ajudou a alimentar inúmeras histórias sobre descobertas mantidas em segredo pelo Estado.
Entretanto, não existe comprovação documental pública e verificável de que Tesla tenha construído uma máquina do tempo, um sistema de teletransporte ou o equipamento descrito por Basiago. Também não existe confirmação oficial de que a DARPA tenha conduzido um programa de viagens temporais denominado Projeto Pegasus.
Há, inclusive, uma incompatibilidade cronológica importante: a DARPA foi criada em 1958, quinze anos depois da morte de Tesla. A ligação entre o inventor e o suposto projeto dependeria, portanto, do aproveitamento posterior de documentos ou tecnologias que ele teria deixado — e não de sua participação pessoal. O projeto permanece no terreno das alegações não comprovadas.
Mas a ideia sobrevive porque toca num ponto sensível: nós sabemos que Estados desenvolvem tecnologias secretas e somente revelam parte delas muitos anos depois. Isso não prova a existência do Projeto Pegasus, mas explica por que a narrativa continua despertando curiosidade
O outro Pegasus não é uma teoria
O Pegasus desenvolvido pela empresa israelense NSO Group pertence a uma realidade muito menos fantástica — e talvez mais perturbadora.
Trata-se de um software de espionagem criado para penetrar em aparelhos celulares. Em algumas modalidades de ataque, a vítima não precisa clicar em link algum. São as chamadas invasões zero-click: o telefone pode ser comprometido sem uma ação consciente de seu proprietário.
Depois de instalado, o programa pode, conforme a forma de ataque e o aparelho atingido:
- acessar mensagens, contatos, fotos e arquivos;
- acompanhar a localização da pessoa;
- obter registros de chamadas;
- coletar informações de aplicativos;
- acionar o microfone;
- utilizar a câmera;
- capturar dados antes ou depois de serem protegidos por criptografia.
A NSO Group sustenta que vende suas ferramentas exclusivamente a governos e que elas foram desenvolvidas para combater crimes graves e terrorismo.
Investigações internacionais, entretanto, encontraram vestígios do Pegasus em telefones pertencentes a jornalistas, advogados, ativistas, opositores políticos e defensores dos direitos humanos. As análises forenses foram realizadas por organizações como a Anistia Internacional e o Citizen Lab, da Universidade de Toronto.
Portanto, diferentemente do projeto temporal associado a Tesla, a existência do spyware Pegasus não depende da palavra de uma testemunha ou de documentos supostamente secretos. Seu funcionamento deixou rastros técnicos, foi objeto de perícias independentes e chegou aos tribunais.
O que um Pegasus tem a ver com o outro?
A ligação direta entre eles não está demonstrada. Não há evidência de que o spyware da NSO Group tenha sido derivado das pesquisas de Tesla ou do suposto programa descrito por Basiago. A relação é outra.
Nos dois casos, Pegasus representa a tecnologia que pretende atravessar uma fronteira considerada inviolável. No primeiro, a fronteira seria o tempo. No segundo, é a intimidade.
O Projeto Pegasus atribuído a Tesla permitiria observar acontecimentos aos quais uma pessoa comum jamais teria acesso. O Pegasus da NSO permite que alguém acompanhe conversas, movimentos e relações sem estar fisicamente presente.
Um promete enxergar o passado ou o futuro. O outro invade o presente.
Um teria transformado a história em imagem acessível. O outro transforma a vida privada em informação disponível. Ambos representam, no imaginário ou na realidade, o mesmo privilégio extremo: ver sem ser visto.
O Estado e a tecnologia que ninguém pode fiscalizar
Existe ainda um paralelo político mais importante. As duas histórias colocam tecnologias excepcionais nas mãos do Estado ou de empresas que atuam para governos. Em ambos os casos, a sociedade fica diante do mesmo problema: como fiscalizar um instrumento cuja própria existência pode ser negada?
O segredo pode ser necessário em determinadas investigações. Mas também pode funcionar como abrigo para abusos. Quando o cidadão desconhece a tecnologia empregada, não sabe que foi atingido e não consegue identificar quem a acionou, desaparecem as condições mínimas de defesa.
Não há contraditório possível contra uma vigilância invisível. Não há liberdade real quando alguém pode entrar em nossa vida sem deixar aviso, ordem judicial conhecida ou oportunidade de reação.
O Pegasus real demonstrou que a espionagem moderna já não exige agentes seguindo pessoas pelas ruas, escutas instaladas em paredes ou invasões físicas. Cada cidadão carrega voluntariamente consigo um aparelho equipado com câmera, microfone, localização e memória de suas relações.
O antigo grampo precisava ser colocado dentro da casa. Agora, nós mesmos levamos o instrumento para todos os lugares.A verdadeira viagem no tempo
O aspecto mais inquietante do spyware talvez seja justamente sua capacidade de reconstruir a trajetória de uma pessoa. Mensagens antigas, fotografias, deslocamentos, contatos, pesquisas e documentos permitem refazer sua vida. Não se viaja literalmente ao passado, mas ele pode ser reconstituído com extraordinária precisão.
Também se torna possível antecipar comportamentos: saber com quem a pessoa conversa, onde costuma estar, o que procura, quais são suas fragilidades e o que provavelmente fará depois. Nesse sentido, o Pegasus contemporâneo dispensa máquinas do tempo. Ele arquiva o passado, acompanha o presente e ajuda o observador a prever o futuro.
O cavalo alado mudou de forma
Na mitologia grega, Pégaso era o cavalo alado capaz de alcançar lugares inacessíveis aos homens comuns. O nome não poderia ser mais apropriado.
Se o projeto relacionado a Tesla pretendia atravessar as barreiras do espaço e do tempo, o software israelense atravessa senhas, aparelhos e direitos fundamentais.O primeiro permanece como uma narrativa fascinante, mas sem comprovação pública. O segundo já está entre nós.
Talvez a pergunta mais importante não seja se algum governo conseguiu viajar no tempo. A pergunta é o que governos, empresas e grupos de poder conseguem fazer, agora, enquanto olhamos para outro lado.
A mais perigosa das tecnologias não é necessariamente aquela que transporta alguém para o futuro. É aquela que entra silenciosamente no nosso presente — e nos retira o direito de saber quem está olhando.

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