Por Deise Brandão
Quem acompanha os bastidores da política com o olhar atento de quem não se deixa levar por discursos prontos sabe que a memória é o primeiro cadáver a tombar no altar das conveniências eleitorais. No Rio Grande do Sul, o cenário político frequentemente nos oferece espetáculos de contorcionismo ideológico que desafiam a lógica do eleitor, mas revelam a essência do pragmatismo pelo poder.
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa dinâmica ocorreu no desfecho da eleição para o governo do Estado em 2022. Para entender o tamanho da ironia, precisamos retroceder um pouco no tempo.
Anos antes, a esquerda gaúcha, liderada pelo PT, empunhava bandeiras pesadas contra a gestão de Eduardo Leite. Cobrava-se vigorosamente a fiscalização da saúde pública, trazendo à tona episódios desgastantes como o escândalo dos exames de pré-câncer por amostragem em Pelotas, herdado do período em que o tucano foi prefeito. Criticava-se, com igual veemência, a condução econômica do Estado e a adesão ao Regime de Recuperação Fiscal, apontada pela oposição como o sufocamento definitivo das finanças gaúchas.
As urnas de 2022, contudo, desenharam um roteiro digno de cinema. Após um primeiro turno decidido por uma nesga de pouco mais de 2,4 mil votos — que tirou Edegar Pretto (PT) do páreo e empurrou Eduardo Leite para a etapa final contra Onyx Lorenzoni (PL) —, o cenário mudou drasticamente.
Em questão de dias, os mesmos palanques que despejavam críticas contundentes à gestão de Leite viram-se na obrigação de recalcular a rota. Sob a justificativa do "voto útil" e da necessidade de barrar o avanço do bolsonarismo no Rio Grande do Sul, o PT gaúcho anunciou um inédito, embora desconfortável, apoio crítico à reeleição do tucano.
A nível nacional, a costura já havia sido pavimentada: Geraldo Alckmin, outrora símbolo do PSDB histórico, migrava para o PSB para compor como vice na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva. No plano estadual, embora Leite corresse com Gabriel Souza (MDB) como seu vice oficial, foi o eleitorado de esquerda, outrora crítico ferrenho, que garantiu o combustível necessário para mantê-lo no Palácio Piratini.
O resultado dessa grande salada política está aí para quem quiser ver.
Para uma parcela expressiva do eleitorado, o abraço pragmático entre velhos rivais deixou um gosto amargo. As promessas de campanha e as coalizões de ocasião frequentemente cobram seu preço na governabilidade, e as críticas do passado sobre o colapso dos serviços públicos e o endividamento do Estado continuam ecoando nas conversas de balcão e no bolso do cidadão gaúcho.
A política, afinal, tem dessas coisas: une os distantes, silencia os críticos e prova que, no tabuleiro do poder, o inimigo de ontem pode ser o oxigênio de amanhã. Resta saber até quando o eleitor aceitará o papel de mero espectador dessas conveniências.
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