segunda-feira, 29 de junho de 2026

O Protocolo como Escudo da Indiferença

 

by Deise Brandão

O apito intermitente — o famoso "bi-bi-bi" que ouvimos de veículos de serviço ao engatar a marcha à ré — possui uma finalidade técnica clara: a segurança do trabalho em ambientes de risco, como grandes pátios de manobras ou canteiros de obras. No entanto, quando esse dispositivo é transposto para cidades pequenas ou áreas rurais, sua aplicação revela uma falha ética e administrativa profunda: a imposição de um protocolo cego que ignora a realidade local.

A Servidão ao Protocolo

Não se trata aqui de responsabilizar o operador individual. Ele é um funcionário do Estado, submetido a normas rígidas e procedimentos padronizados que, muitas vezes, não permitem qualquer flexibilidade técnica. O sistema é desenhado para o "pior cenário" (a metrópole perigosa) e é aplicado de forma universal. Ao ser impedido de exercer o seu discernimento — ou pior, sob a ameaça de sanções por desativar um item de segurança — o operador torna-se o braço executor de uma poluição sonora que ele mesmo percebe ser desnecessária. A responsabilidade recai, portanto, sobre a gestão pública, que prefere a inércia da norma ao esforço de implementar um uso inteligente dos equipamentos.

A Ambulância e a Espetacularização da Urgência

Da mesma forma, o uso indiscriminado de sirenes em ambulâncias de municípios pacatos exemplifica o desvio de finalidade. A sirene foi desenhada para abrir caminho em meio ao tráfego caótico das metrópoles. Quando mantida ligada inutilmente em ruas vazias de uma cidade de 6 mil habitantes, ela deixa de ser uma ferramenta de emergência e passa a ser uma espetacularização da urgência. Novamente, não é o operador que busca o "show"; é uma cultura organizacional que, por falta de treinamento ou de diretrizes claras de bom senso, condiciona o servidor a operar como se estivesse sempre em zona de guerra, ignorando a tranquilidade da comunidade que deveria servir.

O Estado como Agente do Caos

É irônico e grave que o Estado, o ente responsável por garantir o direito ao sossego, seja o maior promotor do ruído. Se a prefeitura exige do cidadão o cumprimento de leis de postura e silêncio, por que é incapaz de educar seus próprios agentes para o uso proporcional de equipamentos?

Ao tratar a pequena cidade como se fosse um canteiro de obras infinito, o Estado revela sua falha ética: a incapacidade de gerir com empatia. A autonomia para avaliar o ambiente deveria ser um atributo essencial do operador. Impedir esse discernimento é retirar do servidor a sua humanidade e transformar o serviço público em uma máquina de incomodar.

Precisamos de gestores que compreendam que a eficiência não está na repetição mecânica de normas de segurança, mas na aplicação inteligente delas. O silêncio é um direito fundamental. Não precisamos de mais avisos sonoros em ruas onde não há perigo; precisamos de autoridades que reconheçam que, entre um protocolo técnico e o sossego de uma comunidade, deve haver o bom senso — uma escolha que deveria ser permitida a todo trabalhador.

O silêncio é um direito. Promove-lo é dever. 

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