03/08/2026

Quando a notícia cria a notícia

 

by Deise Brandão

Há uma linha tênue entre informar um fenômeno e ampliá-lo. Nem sempre ela é perceptível ao leitor. Às vezes, nem ao próprio jornalista.

A imprensa tem como missão revelar fatos relevantes, antecipar tendências e apresentar novos comportamentos sociais. Mas existe um efeito colateral pouco discutido: ao colocar determinados temas sob os holofotes, a cobertura jornalística também pode contribuir para aumentar sua visibilidade, despertar curiosidade e, em alguns casos, impulsionar sua disseminação.

Não se trata de censurar pautas ou defender que certos assuntos sejam ignorados. O desafio está em distinguir aquilo que representa um fenômeno social consolidado daquilo que ainda é apenas um comportamento localizado, uma experiência isolada ou uma curiosidade estatística.

No ambiente digital, essa diferença se torna ainda mais delicada.

É comum encontrar manchetes que anunciam uma "nova febre", uma "tendência mundial" ou um comportamento que "está dominando as redes". Muitas vezes, porém, essas afirmações se apoiam em poucos indicadores: um vídeo com milhões de visualizações, um aplicativo que ganhou repercussão em determinado nicho ou um levantamento produzido pela própria empresa interessada.

A pergunta que raramente aparece na reportagem é: isso realmente representa um fenômeno social ou apenas um conteúdo que chamou atenção do algoritmo?

Popularidade não é sinônimo de relevância social. Da mesma forma, alcance digital não significa adoção em larga escala.

Outro aspecto merece reflexão. A curiosidade é um dos motores do jornalismo. É natural que o leitor queira conhecer aquilo que nunca viu. Entretanto, ao apresentar determinados comportamentos de forma repetitiva, a cobertura pode produzir um efeito inesperado: pessoas que jamais teriam contato com aquela prática passam a conhecê-la justamente por meio da notícia.

Em outras palavras, a reportagem deixa de ser apenas uma observadora da realidade para também participar de sua circulação.

Esse fenômeno não é novo. Ao longo da história, diferentes áreas da comunicação estudaram como determinados comportamentos ganharam projeção nacional depois de intensa exposição midiática. Em alguns casos, a cobertura prestou um serviço público. Em outros, transformou exceções em aparentes regras.

É justamente por isso que o contexto é indispensável.

Sempre que uma reportagem apresenta um comportamento como tendência, algumas perguntas deveriam acompanhar a narrativa:

  • Existem dados independentes que comprovem sua dimensão?
  • Há pesquisas revisadas que sustentem as conclusões apresentadas?
  • O comportamento é frequente ou apenas incomum?
  • Estamos diante de uma mudança social ou de uma curiosidade interessante?

Essas perguntas não enfraquecem a notícia. Ao contrário: fortalecem sua credibilidade.

O jornalismo não precisa abrir mão de pautas curiosas ou inovadoras. Mas também não pode permitir que o entusiasmo por uma boa história substitua a proporcionalidade dos fatos.

Em tempos em que a informação circula na velocidade de um clique, talvez o maior compromisso do jornalista não seja apenas contar o que é novo, mas ajudar o leitor a compreender o tamanho real daquilo que está sendo noticiado.

Porque informar é essencial. Mas existe um momento em que a notícia deixa de apenas retratar a realidade e passa, ela própria, a influenciar a realidade que pretende explicar.

Reconhecer essa fronteira é um exercício permanente de responsabilidade jornalística.

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