segunda-feira, 29 de junho de 2026

A Ditadura da Metade da Laranja

 

by Deise Brandão

É impressionante como, mesmo em pleno século XXI, a sociedade ainda insiste na falácia medieval de que uma mulher, por mais bem-sucedida, inteligente, autônoma ou realizada que seja, continua sendo uma obra inacabada. Segundo o senso comum — esse barulho de fundo ignorante —, o "sucesso" feminino só é oficializado quando ela tem um "macho" para chamar de seu. É como se a nossa vida fosse um contrato que só entra em vigor com uma assinatura masculina.

Para muitos, a mulher que caminha sozinha não está "em busca de si", está "sobrando". O sucesso profissional, a estabilidade financeira e a independência intelectual são frequentemente vistos como prêmios de consolação para quem não conseguiu fisgar um parceiro. É uma inversão perversa: o homem é visto como o "provedor" ou o "coroamento" da existência da mulher, como se fôssemos incapazes de ocupar o espaço do mundo por mérito próprio, sem precisar de um braço para nos conduzir.

O "Acessório" Obrigatório

A pressão é insidiosa. Em eventos, jantares ou mesmo em círculos sociais, a pergunta "está solteira?" não é uma curiosidade sobre o estado civil; é uma tentativa de localizar a falha no seu sistema. Se você não tem um parceiro para exibir, supõe-se que há algo de errado com você. A solteirice é lida como uma carência, nunca como uma escolha deliberada. É o velho mecanismo de controle que tenta nos convencer de que a solidão é um defeito de fabricação, e não um estado de soberania.

Por que o sucesso de uma mulher incomoda tanto quando ela não está "sob tutela"? Porque uma mulher que se basta é um perigo. Ela não precisa negociar sua liberdade para atender aos caprichos de um ego masculino. Ela não precisa validar suas conquistas através do olhar de um companheiro. A mulher de sucesso que escolhe o seu próprio caminho — com ou sem um parceiro, por desejo e nunca por obrigação — desmantela toda a estrutura que nos quer pequenas, dependentes e, acima de tudo, ansiosas por uma aprovação que nunca deveria ter sido necessária.

Vamos parar de medir o nosso valor pelo que nos falta aos olhos dos outros. O sucesso não é um "acessório" que vem na forma de um homem. Sucesso é ter as rédeas da própria vida, é construir a casa, a carreira e o pensamento sem pedir licença ou buscar um avalista.

Se o "macho" vier, que seja como companhia, como parceiro de jornada, alguém que soma, amigo, amante... Jamais 'marido' — nunca como um requisito de existência. Mas, se não vier, que o silêncio da nossa casa seja celebrado como a música da nossa própria independência.

O "macho" não define a mulher; o que define a mulher é o que ela faz com a liberdade que conquistou. E, convenhamos, essa é uma liberdade que, para muitos, é assustadora demais para entender.

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