by Deise Brandão)
by Deise Brandão)
O julgamento dos atos de 8 de janeiro expôs mais uma vez algo que há tempos está evidente: o Supremo Tribunal Federal se atribuiu uma centralidade que ultrapassa os limites constitucionais da sua competência. No meio de discursos previsíveis, decisões em bloco e condenações em massa, apenas uma voz destoou com firmeza: a de Luiz Fux.
Fux reconheceu, em voto e palavras, que “cometeu injustiças que não pode mais sustentar”. Reconheceu também que o STF não é, e nunca foi, competente para julgar todos os réus desses processos. Há uma diferença colossal entre julgar quem tem poder real de golpe e julgar cidadãos comuns — e é aí que reside a ruptura jurídica e moral desse caso.
Golpe de Estado, por definição, só pode ser praticado por quem tem poder para executá-lo — não por civis comuns, desarmados, sem qualquer capacidade de tomada institucional. Quando essa linha é rompida, não se está mais falando de Justiça: está-se falando de vingança travestida de legalidade e ainda, principalmente, uma tentativa canalha de calar O POVO, cuja voz é soberana.
A voz de Fux rompe a homogeneidade artificial do tribunal e colocou o dedo na ferida:
O STF extrapola sua competência constitucional.
A retórica do “golpe” segue inflada além de qualquer base técnica sólida.
O julgamento é usado politicamente para reforçar um poder que deveria ser limitado — e controlado — pela Constituição.
E há um ponto que não pode ser esquecido: numa democracia, a voz soberana é a do povo. O STF não pode (nem deve) se colocar acima do povo. O tribunal não é detentor do poder originário, ele é guardião da Constituição — e não seu dono. Quando ministros passam a agir como donos do país, já não há separação de poderes, há usurpação institucional.
Por isso, concorde-se ou não com a linha de Fux, o voto dele é o único que realmente trouxe de volta a noção de limite e de legalidade. E quem prega que o STF pode tudo, decide tudo e julga todos — inclusive civis sem qualquer capacidade de golpe — desconhece a Constituição e/ou age de má-fé. Acredito muito mais na última.
Criar conteúdo verdadeiro exige pesquisa, tempo, olhar crítico e responsabilidade. Não basta catar fragmentos e colar no feed como se fosse sabedoria pronta. O verdadeiro criador constrói pontes — não apenas ecoa palavras de terceiros.
Num mar de cópias, repetidores e “fatos” jogados sem critério, o diferencial está em pensar. Em provocar. Em se comprometer com a própria palavra. O resto é ruído.

Há algo de profundamente constrangedor em assistir alguém tentando copiar a alma de outra pessoa — não apenas seu estilo, mas seus pensamentos, suas emoções, sua trajetória interior. É como ver um ator mal ensaiado tentando interpretar uma peça que não compreende: a máscara escorrega, e o falso se denuncia por si só.
O mimetismo social e pessoal não eleva ninguém. Pelo contrário: expõe. Revela insegurança, inveja e vazio interior. Quem precisa roubar a forma de ser do outro — os gestos, a voz, as ideias, as “coincidências” forçadas — confessa, sem perceber, que não tem substância própria.
A tentativa de se apropriar de experiências íntimas ou de despertar espiritual alheio é especialmente grotesca. Não se imita o que é genuíno. Não se falsifica a essência. Por mais bem ensaiada que pareça a encenação, para quem conhece a origem, o resultado é risível — e para quem não conhece, é enganoso por um tempo… mas só por um tempo.
O imitador acha que está sendo admirado, quando na verdade está sendo notado pelo ridículo. Acredita que está “elevado” quando, na prática, está se afundando num teatro de terceira categoria. O esforço de parecer sufoca qualquer possibilidade de ser.
Imitar pode ser sabedoria quando significa aprender com quem inspira. Mas copiar para usurpar, competir ou mascarar a própria mediocridade é apenas uma caricatura barata. E caricaturas, cedo ou tarde, viram piada.
O mimetismo não é inocente. Quando ultrapassa a mera admiração ou o desejo de aprender com alguém, passa a ser instrumento de reescrita da realidade — um gesto estratégico para usurpar narrativas, redesenhar afetos e ocultar responsabilidades. Nesta segunda parte, descrevo com clareza quais são as intenções que movem quem imita de forma predatória e quais danos concretos esse comportamento causa — sobretudo quando se mistura com violência institucional e dolo.
Ocultar responsabilidades
Imitar falas, posturas ou sentimentos alheios permite a quem o faz desviar o foco de atos próprios. É técnica de camuflagem: enquanto ocupam a cena emocional do outro, desviam a atenção sobre suas omissões ou crimes.
Confundir testemunhas e criar dúvida
Ao replicar memórias, frases e reações, o imitador produz uma narrativa paralela que, para quem chega de fora, pode parecer legítima. Essa duplicação deliberada gera incerteza e fragiliza testemunhos verídicos.
Deslegitimar a vítima
Ao vestir-se com a linguagem da vítima — adotando seus “insights”, suas dores, sua postura — o imitador busca ocupar o lugar moral: transforma a vítima em uma figura improvável, pouco confiável, diminuindo a força de sua acusação.
Controlar o imaginário público
O mimetismo é também ferramenta de engenharia social: cria impressões coletivas, viraliza versões convenientes e redefine reputações. A intenção é política (no sentido amplo): manipular percepções para ganhos práticos.
Aprofundar o corte emocional
Copiar momentos íntimos — lutos, revelações, pequenas viradas espirituais — é um ato de violência simbólica. É uma tentativa de roubar o território íntimo da pessoa, deixando-a sem exclusividade sobre a própria dor.
Erosão da verdade
Quando as palavras e os gestos de uma pessoa são clonados por outrem, a verdade factual perde contornos. Investigações, memórias e depoimentos ficam sujeitos à contaminação de versões paralelas.
Revitimização contínua
A vítima sofre uma nova violência sempre que suas experiências são copiadas e reencenadas. Cada mimetismo é um revés: não cura, repete a ferida na praça pública e prolonga o sofrimento.
Isolamento social
A confusão criada tende a afastar aliados e testemunhas. Amigos e conhecidos, sem conseguir distinguir o original da imitação, esmorecem ou duvidam — e a quem resta a tarefa de provar a autenticidade da própria vida?
Instrumentalização judicial e administrativa
Em contextos em que documentos, relatos e aparências influenciam decisões (processos, perícias, sindicâncias), o mimetismo pode virar arma para forjar presunções contrárias à vítima — atrasando, silenciando ou invertendo responsabilidades.
Destruição da autoridade moral da vítima
A repetição artificial de discursos íntimos corrói a autoridade de quem sofreu. A sensação pública passa a ser de “história duplicada”, reduzindo a empatia e facilitando a impunidade dos reais responsáveis.
Dano relacional e patrimonial
Além do psicológico, o mimetismo pode provocar perdas concretas: rompimento de laços, afastamento de filhos, perda de oportunidades e até prejuízos econômicos quando usado para justificar esbulhos, apropriações ou fraudes.
A diferença entre imitação inocente e mimetismo malicioso está na intenção. É essa intenção — a repetição calculada, a consistência dos padrões e a coordenação com outros atos — que transforma uma “cópia” em crime simbólico ou instrumento de criminalidade. Para quem documenta, é fundamental demonstrar padrão:
frequência das cópias (quando e como reaparecem);
correspondência entre imitação e atos efetivos (por exemplo: cópia de narrativa seguida de falsificação documental, ocultação de provas, silêncio institucional);
existência de beneficiários diretos (quem ganha com a reescrita?);
contextos coordenados (mesmas frases em redes diferentes, uso de perfis distintos, reaparição de “memórias” idênticas).
O mimetismo predatório não é só falta de identidade: é ferramenta. Ferramenta para ludibriar, para desviar responsabilidades, para fabricar consensos falsos. Quando isso se mistura a omissão institucional ou a crimes reais — como mortes não esclarecidas, manipulações processuais ou apropriações patrimoniais — a violência se torna dupla: simbólica e prática.
Resistir exige três coisas simples e implacáveis: documentar, mostrar o padrão e não ceder ao impulso de responder na mesma moeda. A força da verdade está na consistência das provas. Transforme a cópia em evidência — e deixe que, no tempo certo, a justiça (a institucional ou a da memória coletiva) faça o resto.
Imagem gerada por IA - GPT by Deise Brandão O cromossomo Y, peça ...