by Deise Brandão
O que eu vejo quando olho para 1948
O que eu vejo ali é registro.
Quando Orwell escreve 1984, em 1948, o mundo já tinha atravessado o ponto de retorno. A revolução do proletariado, como promessa histórica, não caiu apenas por repressão — caiu porque se mostrou inútil para quem queria poder durável. Revolução é barulho, é risco, é instabilidade. Sistema é silêncio. E silêncio governa melhor.
O que Orwell faz não é imaginar um futuro distante. Ele organiza, em forma de narrativa, aquilo que já estava funcionando: a substituição da força bruta pelo controle psicológico, da censura explícita pela edição da linguagem, da violência direta pela culpa internalizada. O poder não precisava mais de tanques. Precisava de adesão.
Por isso, quando chamam 1984 de profecia, eu vejo desatenção — ou comodismo. Profecia isenta quem lê. Aviso responsabiliza. 1984 é aviso.
E isso vale também para Os Simpsons. Não há previsão ali. Há leitura de padrão. Quem entende o funcionamento da mídia, do comportamento de massa e da repetição cultural não adivinha o futuro — apenas reconhece a trajetória antes que ela fique óbvia.
1984, Os Simpsons e o erro coletivo de chamar aviso de profecia
Existe um equívoco recorrente — e perigosamente confortável — em tratar certas obras como profecias. É o caso de 1984 e, em outro registro cultural, de Os Simpsons.
E isso muda tudo.
1948: quando o mundo já estava decidido
1984 foi concluído em 1948, não por acaso. Orwell não escreve sobre um futuro distante. Ele codifica o presente — e o projeta alguns passos à frente para torná-lo visível.
Do levante ao sistema
Até meados do século XX, o poder era disputado:
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por armas,
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por ruas,
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por discursos inflamados.
Depois da Segunda Guerra, o eixo se desloca:
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o poder passa a ser administrado,
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o controle passa a ser psicológico,
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a obediência passa a ser internalizada.
É exatamente isso que 1984 descreve.
Não como ficção futurista, mas como manual técnico do funcionamento do totalitarismo moderno:
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controle da linguagem,
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reescrita permanente da história,
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vigilância normalizada,
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medo difuso,
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inimigo sempre mutável,
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culpa coletiva,
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supressão do indivíduo em nome de um “bem maior”.
Orwell não estava “prevendo”. Estava registrando.
George Orwell:
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participou de conflitos reais,
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conhecia propaganda por dentro,
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viveu regimes autoritários,
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rompeu com o romantismo político,
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escrevia já doente, consciente da morte.
1984 não nasce de imaginação futurista, mas de observação brutal do que já estava em curso.
Os Simpsons seguem a mesma lógica — em outro tom
O seriado opera com:
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leitura aguda de tendências sociais,
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exagero satírico,
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análise de comportamento coletivo,
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compreensão dos rumos do poder, da mídia e da tecnologia.
O que parece previsão é, na verdade, diagnóstico antecipado.
Assim como 1984.
O erro não está nas obras. Está no público.
Chamar isso de profecia é confortável porque:
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transfere a responsabilidade,
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cria misticismo,
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impede reflexão crítica.
1984 não “aconteceu”. Ele continua acontecendo.
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narrativas oficiais mutáveis,
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censura travestida de proteção,
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vigilância aceita como conveniência,
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linguagem moldada,
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memória coletiva editada,
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indivíduos pressionados a se auto-vigiar.
Chega de romancear
E 1948 é um marco porque ali ficou claro que:
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a revolução aberta fracassou,
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o controle silencioso venceu,
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o poder deixou de gritar e passou a organizar.
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