quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Apagar não é matar de imediato.



by Deise Brandão

Apagar é retirar o chão.
As pessoas não desaparecem primeiro dos mapas, mas dos registros.
Da linguagem.
Da memória coletiva.
O poder não começa com a violência explícita. Começa quando decide quem merece ser lembrado e quem pode ser silenciado. 
Quando a história passa a ser escrita sem nomes, sem rostos, sem contexto — apenas com versões oficiais, símbolos vazios e narrativas convenientes.
É assim que se apagam pessoas ainda vivas.
Não se trata apenas de censura direta. Muitas vezes o apagamento vem travestido de neutralidade, de burocracia, de “nota técnica”, de gesto simbólico que parece humano, mas não diz nada.
Quando o símbolo substitui a explicação, quando a imagem ocupa o lugar da história, a memória começa a ser dissolvida.
Queimam-se livros — ou os tornam irrelevantes.
Silenciam-se histórias — ou as classificam como exagero, ressentimento, loucura.
Destróem-se raízes — ou as rebatizam com outro nome, outra origem, outra narrativa.
Depois, reescrevem.
Inventam outra cultura.
Outra versão dos fatos.
Outra memória coletiva aceitável.
E, aos poucos, a sociedade deixa de reconhecer o que aconteceu — e até quem aconteceu.
Por isso, a frase de Milan Kundera permanece atual e incômoda:
a luta contra o poder não é apenas política, jurídica ou institucional.
É, antes de tudo, uma luta pela memória.
Lembrar é resistir.
Nomear é existir.
Registrar é impedir o desaparecimento.
O apagamento é sempre o primeiro passo.
Porque quem controla a memória, controla o futuro.

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