domingo, 4 de dezembro de 2011

The lonely change

Por Marcos Bayer

Alguns estudos falam que temos 850 milhões de pessoas desempregadas pelo mundo. Sabendo que somos sete bilhões de habitantes, excluindo as crianças que não trabalham e os aposentados, é provável que a relação seja de um desempregado para cada quatro empregados. Então, um quinto da humanidade estaria sem emprego formal. Várias são as explicações presumidas. Da robotização nos processos industriais ao uso intensivo da Internet nas diversas relações laborais que aumenta a rapidez da troca de informações até a demissão de trabalhadores que se tornam obsoletos pela incorporação tecnológica.
É uma mudança silenciosa. Na medida em que as oportunidades ficam escassas, os que trabalham sabem que perderão conquistas universais, não importa a região do mundo onde vivem. Concomitantemente, ocorre o alargamento dos anos de trabalho para obtenção de aposentadoria. A Europa nos mostra diariamente a situação.

Porém, a questão transcende ao aspecto trabalho, renda, consumo e produção - que é o princípio básico da proposição econômica de Keynes.

A sociedade informatizada que oferece a possibilidade de emissão de passagens aéreas à compra de livros, sem intermediários, cria seu novo homem.

Destruiu o pequeno jornaleiro que gritava: Extra, extra: Novas vagas na indústria – e criou uma rede interminável de blogs e congêneres na rede mundial dos computadores.

Mas, ainda não é este o ponto principal. O que não nos damos conta é do mundo silencioso que estamos construindo. Um mundo sem fala, sem tato e sem reunião.

A sociedade atual é totalmente dependente desta nova tecnologia. Do controle dos estoques ao acompanhamento processual judicial.

Relações amorosas antes permeadas por carícias físicas, pelo som da voz, por expressões faciais, sorrisos e gargalhadas, choros ou lágrimas, são substituídas por ícones gráficos das redes sociais que traduzem o sentimento humano numa nova e simbolizada linguagem. Um sânscrito glacial e sem alma.

Este novo mundo, sem humanidade e sem contato físico, esteriliza as pessoas e as faz mais solitárias do que nunca. A riqueza de uma conversa, de um olhar ou de um sorriso, foi substituída, inexoravelmente, por uma lista de “favoritos”, presumo que sempre no canto superior direito da tela do computador, onde a condição humana é relegada à frieza de todas as ausências. Estamos interagindo com a solidão. A nova “amiga” do mundo digital.
Faceless.
 
 
 

Acho um saco ter que viver assim.. Ninguém vive da forma que eu vivo e pode se dar este luxo. E olha que já estou muito, mas muito melhor. Mas creio que nunca mais saberei o que é dormir uma noite inteira sem me acordar com o mínimo de barulho. Vivo como escoteiro: SEMPRE ALERTA. As vezes eu me canso. Saio fora. Descanso. Para em seguida, levantar e começar tudo novamente. by Deise




Poema Enjoadinho

Vinícius de Moraes






Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!


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