domingo, 25 de janeiro de 2026

Quando dizemos NÃO em silêncio

 

by Deise Brandão

Voltemos a 1973. Meio século pode parecer tempo suficiente para enterrar comportamentos arcaicos, mas a história de Lily Tomlin funciona como um banho de realidade: a carcaça do preconceito mudou, mas o esqueleto segue intacto.

No auge da carreira, Lily sentou-se no sofá de um dos programas mais vistos da televisão americana. Ao seu lado, o ator Chad Everett, exalando aquela autoconfiança tóxica que ainda hoje se encontra em qualquer esquina, disparou:
“Minha esposa é o animal mais bonito que eu possuo.”

A plateia riu. O apresentador gaguejou. Lily levantou-se e saiu.Sem escândalo. Sem discurso.Apenas a recusa física de permanecer onde a dignidade humana era tratada como patrimônio.

Quem acredita que isso ficou no passado está enganado.

Se em 1973 a palavra usada era “posse”, hoje a objetificação foi gourmetizada. Ela aparece nos algoritmos das redes sociais, no marketing que transforma corpos em vitrines e, de forma ainda mais perigosa, no ressurgimento de movimentos que tentam dar verniz intelectual à submissão feminina. O vocabulário mudou; a intenção de controle, não.

O preço de não sorrir

O custo de demonstrar desconforto continua alto. Sempre que uma mulher reage a um comentário machista, os rótulos surgem com rapidez cirúrgica: “louca”, “difícil”, “agressiva”. Lily foi criticada por não ter sido “educada”. Cinquenta anos depois, a exigência permanece a mesma: manter a harmonia social — mesmo quando o desrespeito é explícito. O sistema ainda odeia o “não”.

A invisibilidade como castigo

A trajetória de Lily Tomlin é, por isso mesmo, uma exceção incômoda. Viveu 42 anos ao lado de Jane Wagner antes de poder casar oficialmente, apenas em 2013. Aos 86 anos, segue brilhando em Grace and Frankie, desafiando o etarismo que tenta apagar mulheres assim que surgem as primeiras rugas.

Mas o sucesso dela não é regra. Para a maioria, o mercado de trabalho e a mídia continuam decretando uma “data de validade” feminina com uma crueldade que raramente se aplica aos homens.

A luta não é um quadro na parede — é o agora

Lily Tomlin não é apenas uma lembrança de uma era rebelde. Ela é a prova viva de que pouco mudou na essência das estruturas de poder. Direitos que pareciam consolidados seguem sob ameaça, e a liberdade de existir plenamente ainda exige uma coragem desproporcional.

O gesto de 1973 abriu caminho para que hoje nenhuma mulher precise sair sozinha do estúdio. O silêncio de Lily transformou-se em coro. Ainda assim, não há espaço para ilusão: a vigilância precisa ser constante.

Enquanto alguém tratar o outro como posse, a saída de Lily Tomlin continuará sendo um dos atos mais atuais — e necessários — do nosso tempo.

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