Nos últimos anos, a palavra narcisismo passou a circular com força no debate público.
Ela aparece para explicar tudo: política, relações pessoais, redes sociais, conflitos sociais e até crises institucionais.
Mas há um problema sério nisso:o termo está sendo usado de forma imprecisa, abusiva e, muitas vezes, ideológica. Antes de diagnosticar uma “era narcísica”, é preciso entender do que estamos falando de verdade.
O QUE É NARCISISMO (SEGUNDO A PSICOLOGIA)
Na psicologia, o narcisismo não é sinônimo de egoísmo, vaidade ou amor-próprio.
O problema surge quando esse traço se torna rígido, inflado e defensivo, evoluindo para o Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN).
Esse transtorno se caracteriza por:necessidade constante de admiração,incapacidade de lidar com críticas,empatia reduzida ou instrumental,uso do outro como espelho ou objeto,reações agressivas à frustração.
O QUE NARCISISMO NÃO É
Narcisismo não é: discordar, se posicionar politicamente, ter autoestima, criticar instituições, buscar reconhecimento profissional, reagir a injustiças.
Chamar tudo isso de narcisismo é esvaziar o conceito e transformá-lo em rótulo moral.Quando o termo vira xingamento intelectual, ele deixa de explicar e passa apenas a desqualificar.
NARCISISMO NÃO EXPLICA A VIOLÊNCIA HISTÓRICA
A história humana não é marcada por surtos psicológicos coletivos, mas por: disputas de poder, dominação econômica, controle simbólico,violência institucional.
Guerras, perseguições religiosas, escravidão e repressões políticas não aconteceram porque as pessoas eram “doentes”, mas porque estruturas de poder permitiram e incentivaram esses atos.
Reduzir esses processos a “doenças típicas da época” é retirar a responsabilidade histórica de Estados, igrejas, elites e sistemas econômicos.
E A SAÚDE MENTAL HOJE?
O aumento de diagnósticos como: depressão, ansiedade, burnout, transtornos de atenção,não aponta para uma “era narcísica”. Aponta para: precarização do trabalho, insegurança permanente, hiperexposição, cobrança de performance constante, colapso de vínculos sociais e institucionais. Ou seja: não é excesso de amor-próprio. É falta de proteção psíquica e social.
QUANDO O TERMO VIRA FERRAMENTA DE PODER
Nesse caso, o narcisismo deixa de ser objeto de estudo e passa a ser instrumento de controle simbólico.
O VERDADEIRO PROBLEMA DO NOSSO TEMPO
Se há algo que marca nossa época, não é uma epidemia de narcisismo, mas: instituições que não se autoavaliam, concentração de poder, responsabilização seletiva e o uso de linguagem psicológica para esconder conflitos reais.O maior risco não é o espelho.É quem decide quem pode falar e quem deve ser rotulado.
Narcisismo é um conceito clínico sério. Usá-lo como slogan intelectual empobrece o debate e confunde a sociedade.O que precisamos hoje não é de diagnósticos morais travestidos de ciência,mas de responsabilidade, clareza conceitual e honestidade intelectual.
Quem nunca foi vítima de uma relação verdadeiramente narcísica não sabe, de fato, do que está falando. O narcisismo real não se revela em discursos grandiloquentes, mas na experiência concreta de quem foi silenciado, manipulado, esvaziado e usado como extensão do outro.
Fora dessa vivência, só há duas possibilidades: ignorância conceitual — ou o próprio narcisismo falando em causa própria.
O termo deslocado para um discurso genérico, histórico e moralista, onde tudo vira “doença da época”, não é análise. É confusão conceitual.
É um fenômeno psicológico específico, que se manifesta principalmente nas relações, produzindo vítimas reais, danos emocionais profundos e dinâmicas de poder silenciosas.
Quem nunca foi vítima de uma relação verdadeiramente narcísica não compreende o fenômeno em sua profundidade. E quando alguém fala sobre o tema sem rigor, ignorando a experiência das vítimas e distorcendo conceitos clínicos, resta uma hipótese incômoda: não se trata de análise — mas de projeção.
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