by Deise Brandão
Vivemos tempos em que tudo pode — ou, ao menos, é isso que se quer fazer crer. A antiga estrutura social, com seus limites claros, hierarquias visíveis e deveres bem delineados, foi substituída por uma nova ordem: a da performance, da autoexploração, da incessante positividade. Muitos a celebram como emancipação. Outros, porém, percebem nela a sutil metamorfose da opressão.
É curioso observar como o discurso da liberdade plena tem se tornado um imperativo sufocante. Já não há espaço para o descanso verdadeiro, para o silêncio interior, para o simples direito de dizer "não". Quem recusa é visto como antiquado, preguiçoso, ou — pior — como fracassado. Nesse novo modelo, não basta viver: é preciso superar-se continuamente, reinventar-se a cada dia, ser um “empreendedor de si”.
Essa lógica tem nome, e já foi descrita com precisão filosófica por Byung-Chul Han. O autor coreano-alemão, com o rigor que lhe é característico, identificou essa transição da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho. Não se trata de mera evolução ou progresso, mas de uma mutação nos mecanismos de poder e controle: antes, éramos sujeitos da obediência. Hoje, somos algozes de nós mesmos.
O sujeito do desempenho não é livre. Ele se torna cúmplice de sua própria dominação, internalizando as exigências do sistema sob a aparência de autonomia. Trabalha mais, se cobra mais, vive exausto, mas sem saber a quem responsabilizar — afinal, agora ele é seu próprio patrão, seu próprio carrasco.
Confundir essa nova estrutura com libertação é não compreender seus efeitos psíquicos devastadores: depressão, ansiedade, síndrome de burnout. A positividade constante se transforma em violência — uma violência que não vem de fora, mas se instala dentro de nós.
Há quem celebre essa nova ordem, vendo nela o triunfo do “projeto”, da “motivação”, do “progresso”. Mas talvez seja necessário parar — apenas parar — e escutar o cansaço. Não como sinal de fraqueza, mas como indício de que algo está profundamente errado.
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