terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Nise da Silveira: quando cuidar era insubordinação


Foto criada por IA - Gemini

by Deise Brandão

Enquanto a psiquiatria celebrava eletrochoque, lobotomia e camisa de força como avanços modernos, uma mulher caminhava devagar pelos corredores de um hospital no Rio de Janeiro. Não carregava agulhas, nem contenções. Levava cadernos, tintas e uma teimosia feroz: enxergar pessoas onde o sistema via apenas diagnósticos.

O nome era Nise da Silveira — alagoana, única mulher de sua turma de Medicina, e a médica que escolheu o território mais temido da psiquiatria: a loucura.

Lá dentro, recusou o protocolo. Chamou de tortura o que outros chamavam de ciência. Negou eletrochoques, insulinoterapia, lobotomia, camisa de força. Pagou o preço. Foi ridicularizada, tratada como ingênua, acusada de “não entender psiquiatria”.

Nise respondeu criando o impensável: oficinas de pintura, modelagem, música, jardins, e até cães que circulavam entre pessoas consideradas “irrecuperáveis”. Não viu “delírios sem sentido”. Viu linguagem. Criou o Museu de Imagens do Inconsciente para guardar aquilo que a medicina se recusava a ouvir.

Enquanto hospitais defendiam violência travestida de técnica, Nise aproximava Jung do Brasil, discutia símbolos, sonhos, mitos, e propunha algo subversivo: tratar com afeto. Sua Terapêutica Ocupacional se tornou laboratório vivo de um outro modo de cuidar — o que mais tarde inspiraria a luta antimanicomial.

Hoje, prêmios, centros culturais e documentários levam seu nome. Mas a revolução real está escondida naquilo que ninguém vê: gente que deixou de ser amarrada para poder criar, famílias reencontradas, profissionais que passaram a olhar diferente.

Nise não “doceficou” a psiquiatria. Ela quebrou o concreto e plantou jardim no porão.
Humanizar tratamento mental não é romantizar dor — é recusar barbárie como protocolo.

O Falso Juiz

 


by Deise Brandão

O Falso Juiz, documentário do jornalista português Sérgio Tavares, promete retratar o ministro Alexandre de Moraes como um “psicopata” e um “falso juiz”. Porém, o filme não entrega um perfil psicológico do ministro. O título é mais um alerta político do que uma tese comprovada.

A obra acumula dezenas de acontecimentos da política recente — soltura de Lula, governo Bolsonaro, pandemia, eleições, 8 de janeiro de 2023 — com Moraes sempre presente, mas não exatamente como figura central capaz de explicar tudo. As conexões entre os fatos são sugeridas, não explicadas.

Essa escolha enfraquece a clareza do documentário: há excesso de informação e pouca estrutura. O espectador sai com indignação e urgência, mas não com um argumento organizado. O filme funciona mais como provocação do que como investigação.

Mesmo com essa fragilidade, o documentário é relevante. O acúmulo de casos mostra um Brasil difícil de compreender, com abusos simultâneos e contradições que escapam de qualquer narrativa única. A obra atinge seu objetivo maior: mostrar ao mundo que há algo muito errado acontecendo no país, ainda que sem explicar totalmente o quê.

O ponto mais forte do filme surge quando Tavares dá voz aos presos do 8 de janeiro. Sem defendê-los, o documentário os humaniza, mostrando histórias que foram ocultadas pela narrativa dominante — pessoas transformadas em rótulos (“terroristas”, “golpistas”) voltam a ter rosto, nome e contexto.

No fim, o filme não comprova que exista um “psicopata” comandando o Judiciário, mas expõe um cenário político urgente e nebuloso. Em vez de respostas, exige reação. E talvez, diante da complexidade atual, isso seja o mais importante.

🕒 145 min — Classificação livre — Disponível no YouTube

John Lennon: o lado B do “paz e amor”

 



by Deise Brandão


Por décadas, John Lennon foi vendido como porta-voz do amor universal.
Um guru pop da paz, pregando que o mundo era lindo, desde que o ego ficasse desarmado e todos cantassem “Imagine”.
Mas bastou sair da música para entrar na vida real: Lennon não era exatamente um símbolo de paz. Pelo contrário.

Se o slogan era “Love is all you need”, faltou combinar com a família, com o filho, com as mulheres e com ele mesmo. Infância torta, obsessões e um “diário” perturbador

Lennon cresceu colecionando abandonos: pai ausente, mãe instável, culpa, revolta e um ego gigante.

Em áudios gravados em 1979, o mito do pacifismo confessou fantasias sexuais com a própria mãe quando tinha 14 anos, e disse acreditar que ela “talvez tivesse permitido”.
Ninguém nunca viu John pedir desculpas por isso — muito menos por coisa pior.
O pacifista que batia em casa

Cynthia Powell, sua primeira esposa, não conheceu o Lennon da utopia hippie. Conheceu o Lennon real: agressivo, infiel e cruel.
Sua biografia descreve violência, humilhações e traições.

E o filho Julian, ainda criança, apanhava, era ridicularizado pelo próprio pai e ignorado em quase tudo que dizia respeito à sua vida.
Uma governanta da família relatou, em carta, episódios de agressões que fariam o “ícone da paz” perder qualquer fã sensato.
Lennon pregava amor no microfone e praticava o oposto dentro de casa.

Julian resumiu a contradição melhor do que qualquer crítico: “Meu pai defendia a paz e o amor no mundo. Mas não conseguia demonstrar um pouco de paz e amor pela própria família.”
O mito, a amante e a narrativa conveniente.

Cynthia era esposa no papel — Lennon a tratava como “namoradinha descartável”.
Quando a traição com Yoko Ono não dava mais para esconder, ele simplesmente ficou bêbado… e contou tudo. Como um adolescente orgulhoso de uma aventura proibida.

Yoko, depois, quis reescrever a história — como se Cynthia tivesse atrapalhado o amor épico dos ídolos.Ironia: até Yoko foi traída. Lennon manteve um relacionamento paralelo com sua própria assistente, May Pang, durante 18 meses. E Yoko ainda achou “não prejudicial”.

O homem que cantou sobre amor livre não falava sobre liberdade. Falava sobre posse.
A paz morre quando vira marketing.

John Lennon se tornou ícone por aquilo que dizia, não por aquilo que vivia.
Assim como muita gente hoje faz discurso “de bem”, enquanto destrói quem está perto.

O que morreu não foi a paz.
O que morreu foi a ilusão vendida como paz.
A violência sempre esteve lá. Só não aparecia na capa do disco.
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Fontes:

Vice (Vice News / Vice Magazine)

Matérias que abordam os áudios gravados por Lennon, suas confissões e o relacionamento com Cynthia e Julian.
Trechos citados sobre:

  • gravações de 1979 (fantasia com a mãe);

  • relacionamento extraconjugal com May Pang;

  • postura de Yoko Ono ao comentar o caso.

The Times (Reino Unido)
Publicação da carta de Dorothy Jarlett, governanta da família Lennon, revelada apenas em 2015.
Fonte da informação sobre:

  • agressões a Julian;

  • bullying com aparência e comportamentos do filho;

  • infidelidade e drogas dentro de casa.

Biografia de Cynthia Powell Lennon – “John” (2005)
Livro de memórias da primeira esposa.
Fontes das informações sobre:

  • violência doméstica;

  • descrições do comportamento de Lennon;

  • abandono afetivo com Julian.

Biografia: “John Lennon: A Life” – Philip Norman (2008/2009)
Livro investigativo com entrevistas, documentos privados e relatos de pessoas próximas.
Confirma abusos, padrões de comportamento e o vínculo problemático com a fama.

Obras complementares frequentemente usadas em matérias sobre o tema

  • Bob Spitz – “The Beatles: A Biography” (2007)
    Confirma o comportamento agressivo e autodestrutivo.

  • Steve Turner – “Beatles 1966: O Ano Revolucionário” (2016/2018)
    Contextualiza a transformação da imagem pública de Lennon em “ativista”.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Felicidade é responsabilidade minha

    Imagem criada pelo Gemini, para o texto.


by Deise Brandão

Em meu entendimento,  viver não é uma linha reta nem uma lista de metas cumpridas.

Às vezes a gente acorda inteira, às vezes passa o dia quebrada. E não tem problema.
Tem dias que a cabeça pesa, que o corpo desiste, que o coração cala — e nada disso significa fracasso.

Nem toda batalha foi feita pra vencer. Algumas servem só pra mostrar que não vale a pena morrer tentando. Não sou obrigação de ninguém, nem escudo de ninguém, nem energia de reserva pra quem só me procura quando falta luz.

.Não sou máquina. Não sou muro. Não sou filtro de rede social.A vida real não tem música de fundo, não tem dancinha, não tem edição que apaga o cansaço. Dentro de casa, cada um tem os seus vazios, as suas dores escondidas e aquele pensamento que a gente finge não ter. Cansei dessa força que esperam da gente o tempo todo, como se ser forte fosse profissão, e sentir fosse defeito

Mesmo assim, eu sigo. Não pra impressionar, não pra agradar, não pra provar nada.
Sigo porque preciso, porque quero, porque cresci, porque desde o início tenho o entendimento que  a minha felicidade não cabe na mão de ninguém. Ela é responsabilidade minha. 

E isso, curiosamente, é o que acaba me salvando.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

A Revolução Silenciosa de Wilma Mankiller, a Mulher Que Não Esperou a Vez

 


by Deise Brandão

Algumas histórias começam com um convite.
A de Wilma Mankiller começou justamente com a ausência dele.

Quando entrou numa grande reunião intertribal, ela carregava o peso de uma novidade incômoda: era a primeira mulher na história moderna a assumir o comando da Nação Cherokee. O suficiente para que muitos decidissem não apenas desconsiderá-la, mas deixá-la de fora de forma planejada — como quem tenta esconder a mudança por trás de uma porta fechada.
A sala estava preparada para isso.
Cadeiras perfeitamente distribuídas.
Discursos alinhados.
Olhares ensaiados para atravessar o corpo de uma mulher como se fosse ar.
E então — ali, num canto — uma cadeira sem dono.
Não oferecida.
Não aguardada.
Apenas largada contra a parede, como se dissesse: você não cabe aqui.
Wilma puxou a cadeira.
O som arranhou o chão, a formalidade, a tradição e o ego de muita gente.
E se sentou.
Esse gesto simples bastou para anunciar:
não haverá retrocesso.

Uma infância interrompida — e a semente da insubmissão
Wilma nasceu em 1945, em Tahlequah, Oklahoma — o coração físico e espiritual dos Cherokee.
Cresceu entre histórias, responsabilidades comunitárias e um senso profundo de pertencimento. Até que o governo decidiu “modernizar” sua família.
O nome oficial era política de realocação indígena.
O efeito real era bem mais cruel: arrancar povos inteiros de sua terra, espalhando-os em cidades onde a tradição não passava de um eco distante.
Para muitos, foi um projeto federal.
Para Wilma, foi desenraizamento.
E quem perde a terra cedo aprende a nunca mais abrir mão dela.

Quando a liderança veio acompanhada de ameaça
Décadas depois, já de volta ao território Cherokee, Wilma decidiu disputar o cargo de vice-chefe. O que recebeu em troca não foi debate político — foi guerra psicológica.
Pneus rasgados.
Telefonemas agressivos.
Cartazes queimados.
Acusações de que uma mulher eleita seria “motivo de chacota” entre as tribos.

Ainda assim, venceu.
Quando o então Chefe Principal foi chamado para um cargo no governo dos EUA, Wilma assumiu sua posição — e pela primeira vez, uma mulher passou a comandar uma das maiores nações indígenas do país.
O título era novo.
A resistência, velha conhecida.
Mas ela não se dobrava.
E não se desculpava por existir.

O que uma comunidade pode fazer quando alguém acredita nela
A obra mais simbólica de Wilma não nasceu de discursos — nasceu de pá, enxada, e trabalho coletivo.
Bell, uma pequena comunidade Cherokee, estava esquecida, sem água encanada e sem perspectivas. O governo federal ignorava. O município não tinha recursos.
Wilma convocou os próprios moradores.
Eles cavaram, carregaram, construíram e instalaram quilômetros de tubulação.
Resgataram prédios comunitários.
Recriaram espaço comum.
Reacenderam a confiança de que o futuro não chega pronto: ele é construído.
A revolução de Wilma não foi ideológica.
Foi prática.
Foi cotidiana.
Foi coletiva.
E foi vitoriosa.

A década em que um povo voltou a se enxergar
Sob sua liderança a população registrada quase triplicou. programas educacionais floresceram, nasceram centros infantis, clínicas e projetos de soberania, empregos tribais se multiplicaram e a Nação Cherokee recuperou o que mais lhe tinham tirado: voz.
Em 1991, 83% dos votos garantiram sua reeleição — um recado claro de que a resistência inicial havia se transformado em respeito sólido.
Em 1998, recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade — mas, para ela, a verdadeira medalha eram as torneiras funcionando em Bell.

O gesto que continua ensinando
Wilma morreu em 2010, aos 64 anos, depois de anos enfrentando problemas de saúde com a mesma serenidade obstinada que levou para a política.Mas seu legado segue pulsando, especialmente naquele primeiro gesto:
Ela não pediu permissão.
Ela puxou a cadeira.
E sentou bem no centro da sala que tentaram negar a ela.
Há lideranças que gritam.
Há lideranças que negociam.
E há líderes como Wilma Mankiller — que transformam a estrutura simplesmente por se recusarem a desaparecer.

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