quinta-feira, 12 de junho de 2025

Consulta medica sem escuta é diagnóstico falho




by Deise Brandão

Na teoria, o Sistema Único de Saúde (SUS) é um dos maiores e mais abrangentes sistemas de saúde pública do mundo. Na prática, porém, o que chega até o cidadão muitas vezes se distancia do ideal. Não apenas por falta de estrutura ou profissionais — que, sim, enfrentam sobrecarga e condições difíceis — mas, sobretudo, por um esvaziamento do que deveria estar no centro do cuidado: o vínculo humano.

É comum escutar relatos de pessoas que procuraram atendimento por sintomas como tontura, pressão alta ou insônia, e saíram com um punhado de requisições de exames, receitas prontas e nenhuma explicação. Não houve consulta: houve despacho. E isso não é cuidado.

Uma senhora com histórico de pânico pode ser encaminhada a uma tomografia do crânio sem qualquer preparação, sequer uma conversa sobre os porquês, os riscos, os efeitos adversos ou o que se espera investigar. Um homem em crise emocional pode ser medicado sem escuta. Uma jovem com dores persistentes pode ser rotulada como “ansiosa” sem ser examinada. Isso acontece diariamente, em postos de saúde e emergências de todo o país.

A chamada medicina da família deveria representar o oposto disso. Criada com o intuito de garantir atenção primária integral, ela propõe o acompanhamento contínuo e personalizado de cada indivíduo e núcleo familiar. Mas quando o modelo se reduz à burocracia, perde-se a essência: a confiança. E onde não há confiança, não há prevenção, nem cuidado, nem adesão a tratamentos. Há medo, desamparo e afastamento.

Não se trata de atacar médicos — muitos dos quais são guerreiros em meio ao caos, tentando fazer o melhor com o pouco que têm. Mas é necessário reconhecer que o sistema, tal como está, adoece também a relação médico-paciente. Quando o paciente vira número, e o médico vira carimbo, ambos perdem.

Em tempos de prontuários digitais e inteligência artificial, paradoxalmente o que falta é tempo para olhar nos olhos, ouvir uma queixa até o fim, construir uma hipótese com base na história de vida — e não apenas nos marcadores biológicos.

Saúde pública de verdade exige mais do que remédio gratuito e exames agendados.
Exige a coragem de reumanizar o cuidado. De lembrar que nenhum exame de imagem enxerga o que uma boa escuta é capaz de revelar.

Não é mais possível a saúde pública limitar-se a fornecer paliativos mínimos para as consequências, negando-se a combater a causa. Recursos existem — sejam em verbas, impostos — que viram prédios, planilhas, números, estatísticas... e poucos profissionais de fato capacitados para o atendimento na saúde pública, ainda que sejam excelentes em suas áreas.

Saúde pública não é sinônimo de "despachante".

Enquanto isso não for prioridade, seguiremos vivendo uma medicina cada vez mais tecnológica, automática, mecânica, “matemática” — e cada vez menos terapêutica.

12 de Junho: Sobre o Amor que não vira data




by Deise Bandão

Nunca fui boa em comemorar o Dia dos Namorados. Talvez por distração. Talvez por desencaixe. Ou quem sabe por não ter aprendido a esperar flores numa quarta-feira qualquer só porque o calendário mandou.

Já fui casada, ja namorei longo, ja vivi junto, já fiquei por ficar,  já amei outras tantas, e ainda assim não guardo na memória um 12 de junho sequer que tenha ficado marcado como celebração. Nenhum jantar especial, nenhuma foto em moldura, nenhuma lembrança com laço vermelho. Mas isso não quer dizer ausência de amor — quer dizer outra forma de senti-lo.

Tem gente que ama no silêncio do café coado, no cuidado com o cobertor puxado de madrugada, no “me avisa quando chegar”. Tem amor que não precisa de reservas no restaurante, nem de surpresa com balões. Amor que mora na cumplicidade de uma conversa boba, no apoio que ninguém vê, na escolha de ficar mesmo quando tudo pede pra ir.

Hoje, 12 de junho, celebro todos os afetos que nunca foram postados, todos os companheirismos que não deram certo nem no inicio ou meio e que se encaminhou para o fim. Celebro os aprendizados, as pausas, os términos que me ensinaram sobre recomeços — inclusive comigo mesma.

Celebro, enfim, a maturidade de entender que o amor mais importante talvez não seja o que a gente encontra, mas o que a gente cultiva dentro, com o tempo e com verdade. 

Se você tem alguém, que seja leve.
Se está só, que seja inteiro.
E se não tiver motivos pra comemorar hoje — tá tudo bem também. 

Nem todo amor precisa virar data, notícia,  selfie ou  like. Mas todos precisam ser sentidos e vivenciados. 

quarta-feira, 11 de junho de 2025

O bobo da corte: o único homem que podia rir do rei — e sobreviver

             

by Deise Brandão

Em uma época em que uma simples palavra errada podia custar a cabeça… existia um homem que zombava do rei, debochava dos nobres e ainda era bem pago por isso.

Ele se vestia com roupas coloridas, usava um chapéu com guizos e fazia todos rirem… Mas o que poucos sabem é que, por trás do riso, o bobo da corte era uma figura política, estratégica — e muitas vezes temida.

Na Idade Média, o bobo da corte não era apenas um palhaço. Era uma das poucas pessoas com liberdade para falar o que quisesse dentro de um castelo.

Seu papel ia muito além da diversão: ele fazia críticas sociais mascaradas de piada, expunha a hipocrisia da nobreza e até aconselhava reis em decisões importantes — tudo isso usando o riso como escudo.

Mas cuidado: se a piada fosse longe demais… o final podia ser trágico.

Muitos bobos desapareceram sem deixar rastro ao atravessar a tênue linha entre a ousadia e a insolência.

Vivendo entre o luxo e o perigo, esses homens (e às vezes mulheres) tinham acesso aos banquetes, aos salões reais e às conversas mais secretas. Era comum que fossem treinados em música, teatro, poesia e até acrobacias — verdadeiros artistas da sobrevivência.

Um dos mais famosos foi Triboulet, o bobo que serviu dois reis franceses. Dizem que ele era tão inteligente quanto insolente. Quando irritou Francisco I, o rei decidiu executá-lo. Mas, em um gesto de “bondade”, permitiu que Triboulet escolhesse a forma como morreria. A resposta foi brilhante: "Quero morrer de velhice."

O rei não apenas riu — como o perdoou.

Hoje, o bobo da corte virou símbolo de irreverência, coragem e crítica social.
Naquela época, ele era o espelho que mostrava aos poderosos aquilo que ninguém mais ousava dizer. E fazia isso… sorrindo.

Em Alta

Sincericídio de Luiz Inácio. Ou da cópia dele.

Sim, no dia 24 de março de 2026, durante a cerimônia de sanção do "PL Antifacção" (projeto de lei que endurece regras para facções...

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