25/10/2026

Sob Fogo Cruzado: Quando a Farsa Vira Notícia e o Jornalismo Vira Cúmplice

 Foto criada por IA. No filme foi isso. Ele estava morto e foi colocado um JORNAL do     dia, nas mãos do morto. Por isso os óculos. 

by Deise Brandão

Se você quer entender como as narrativas são fabricadas para controlar o poder — e como a engrenagem da informação realmente funciona —, existe uma obra fundamental que precisa ser resgatada: Under Fire (Sob Fogo Cruzado, 1983).

Não se trata de mero registro histórico da Nicarágua nos anos 1970. Trata-se do momento em que a cortina da farsa cai.

A virada de chave para abandonar as redações de jornalismo começou justamente assistindo a esse filme, em 1987. A decisão definitiva veio logo no ano seguinte: fechar a porta do jornalismo tradicional para nunca mais voltar. A ruptura com o meio foi tão drástica quanto necessária — a ponto de não restar um único amigo jornalista pelo caminho.

O motivo? O filme expõe sem pudor a ilusão da "neutralidade" e escancara do que a imprensa é capaz quando o objetivo é simplesmente vencer.

A Sinopse e o Spoiler da Farsa

O filme se passa em 1979, durante os últimos dias da ditadura sanguinária de Anastasio Somoza na Nicarágua. O protagonista é Russell Price (Nick Nolte), um fotojornalista norte-americano viciado na adrenalina das guerras, mas que ostenta a vaidade da "neutralidade profissional": ele garante que não toma lados, apenas "tira fotos".

A virada e o ponto central do filme acontecem quando os rebeldes sandinistas precisam provar ao mundo que seu líder, o Comandante Rafael, continua vivo — condição essencial para manter a revolução acesa e cortar o apoio financeiro dos EUA ao ditador. Price consegue acesso ao esconderijo dos rebeldes para registrar a imagem que mudaria o rumo do conflito.

O SPOILER DA FARSA:

Ao chegar ao local, o fotógrafo descobre a verdade: Rafael já estava morto, assassinado dias antes. Para não deixar o movimento ruir, os rebeldes propõem ao jornalista o maior pecado da profissão: fabricar uma mentira.

Price aceita. Ele pega o cadáver de Rafael, coloca óculos escuros no morto, ajusta um jornal do dia ao lado do corpo para simular a data e clica a foto. A imagem forjada roda o mundo. A imprensa internacional compra a fraude como verdade absoluta sem checar nada. A narrativa vence, a ajuda militar cessa e o ditador cai.

Para Vencer, Vale Tudo: O Modus Operandi da Imprensa

Essa cena de Under Fire não é ficção isolada; é a síntese do ecossistema da notícia. A história e a prática provam que a imprensa sempre foi cúmplice das grandes mentiras construídas para moldar a opinião pública:

  • A Manipulação Direta: A busca pela verdade crua é secundária. O que importa é o controle da narrativa. Se for preciso maquiar a realidade — ou um defunto — para sustentar a versão que interessa ao sistema, isso será feito.

  • A Adesão da Maioria: A grande massa que ocupa as redações repete a pauta do dia, engole os relatórios oficiais e replica discursos sem questionar. A cumplicidade nasce tanto do interesse quanto da covardia em não confrontar a linha editorial.

  • O Expurgo da Minoria: Aqueles poucos que recusam a farsa, que apontam a manipulação e insistem na independência real, são prontamente isolados, rotulados e cancelados. A exclusão de quem pensa fora do rebanho é o método clássico de autopreservação do sistema.

A Ilusão do Ciclo: De Somoza a Ortega

A tragédia do poder fica ainda mais evidente ao olhar o que veio depois na própria Nicarágua. A queda de Somoza em 1979 não trouxe uma libertação permanente:

  • O Caminho Incerto: Após a revolução, a Nicarágua viveu anos de guerra civil e, entre 1990 e 2006, teve governos de oposição eleitos.

  • O Retorno e a Nova Ditadura: Daniel Ortega — o mesmo líder sandinista do período pós-Somoza — articulou pactos políticos nos bastidores, alterou as regras eleitorais para voltar ao poder em 2007 e de lá nunca mais saiu.

Hoje, o antigo libertador transformou-se no exato espelho do ditador que ajudou a derrubar: persegue opositores, fecha veículos de imprensa, expulsa religiosos e isola o país diplomaticamente (culminando até na recente expulsão mútua de embaixadores entre Brasil e Nicarágua). As narrativas mudam de mãos, mas a engrenagem do autoritarismo permanece a mesma.

Do Passado ao Presente: Por Que Ver Este Filme Hoje?

Os métodos de 1983 apenas se aperfeiçoaram. As câmeras analógicas deram lugar ao ambiente digital, mas a lógica da manipulação é idêntica: constroem-se "verdades" sob medida para atender a interesses de ocasião.

Recusar esse teatro não foi uma desistência, mas um ato de preservação e dignidade.

O recado fica registrado: assistam a Under Fire. Olhem para a tela e vejam sem filtros o que são capazes de fazer para vencer. Só assim é possível entender por que a busca pela verdade de fato exige, antes de tudo, coragem para não se curvar à versão oficial.

*Vídeo Completo Dublado (OK.ru): Existe uma cópia completa com a dublagem clássica disponível diretamente na plataforma OK.ru sob o título em português: Assistir "Sob Fogo Cerrado / Sob Fogo Cruzado" (1983) Dublado no OK.ru


A Máscara que Caiu: A Carta no El País e a Cumplicidade da Diplomacia com as Tiranias Amigas

 


by Deise Brandão

Há uma máxima que costuma atravessar os corredores do poder: a melhor forma de medir a coerência de um líder político não é ouvindo o que ele diz quando está na oposição, mas observando quem ele protege quando ocupa a cadeira do executivo.

O debate sobre a política externa do governo de Luiz Inácio Lula da Silva ganhou contornos dramáticos após a publicação de uma carta aberta pelo jornal espanhol El País. Escrita pelo renomado autor nicaraguense e ex-vice-presidente da Nicarágua, Sergio Ramírez — figura histórica da própria Revolução Sandinista e hoje despojado de sua nacionalidade pelo regime autocrático —, o texto escancarou o abismo entre a retórica de defesa da democracia e a prática da diplomacia brasileira frente a regimes autoritários de esquerda.

"Não Negue à Nicarágua o Direito de Escolher": A Cobrança Moral de Sergio Ramírez

Sergio Ramírez não é um adversário de direita ou um operador político tradicional; é um dos intelectuais mais respeitados da América Latina e ex-companheiro de chapa de Daniel Ortega nos anos 1980. Perseguido e banido de sua pátria pelo atual regime, Ramírez dirigiu-se diretamente ao presidente do Brasil no artigo veiculado pelo El País:

"Não negue à Nicarágua, senhor Presidente, o direito de escolher livremente — o mesmo direito que pode fazê-lo presidente do Brasil pela quarta vez."

A denúncia de Ramírez veio na esteira de anúncios do regime Ortega-Murillo que visavam sufocar de vez os processos eleitorais plurais no país, consolidando o controle estatal sobre qualquer tentativa de oposição. A carta expôs a dolorosa contradição de um governo brasileiro que se projeta internacionalmente como fiador do processo democrático e das urnas em seu próprio território, mas adota posturas de apaziguamento, abstenção e abrandamento de resoluções de condenação em órgãos como a Organização dos Estados Americanos (OEA).

O Mecanismo do Duplo Padrão: Quando o Autoritarismo Ganha Passaporte Ideológico

A crítica contida na carta ressoa de forma contundente em setores da sociedade civil e da imprensa que há anos apontam a assimetria na condução da política externa do Partido dos Trabalhadores (PT). Trata-se do clássico "duplo padrão" (double standard):

  • Condenação Seletiva: Golpes de Estado, violações institucionais e abusos cometidos por governos alinhados à direita recebem repúdio imediato, firme e vocal.

  • Panos Quentes na Vizinhança Ideológica: Diante de violações sistemáticas cometidas por ditaduras de esquerda na América Latina — como o fechamento de jornais, a prisão de pré-candidatos presidenciais, a cassação de direitos políticos e a perseguição religiosa na Nicarágua ou as fraudes e repressão na Venezuela —, o discurso oficial recorre a eufemismos como "pragmatismo", "não ingerência" ou "autodeterminação dos povos".

Essa atuação não é neutra. Ao atuar para diluir sanções ou abrandar notas oficiais em fóruns multilaterais, o Brasil acabou servindo, na prática, como uma blindagem diplomática que deu tempo e oxigênio para que regimes autoritários se consolidassem.

De Libertadores a Ditadores: A Cegueira da Velha Guarda

O caso da Nicarágua é a demonstração mais acabada dessa cegueira ideológica. O mesmo Daniel Ortega que nos anos 1970 combateu a ditadura familiar dos Somoza tornou-se, quatro décadas depois, um ditador sanguinário que governa ao lado de sua esposa, estatizou o Judiciário, expulsou a Igreja Católica e baniu centenas de organizações da sociedade civil.

Manter a complacência com figuras como Ortega sob o pretexto de laços históricos da década de 1980 ignora que o tirano de hoje destruiu todos os ideais da revolução do passado. Como apontou Ramírez, a ditadura não perde seu caráter opressor apenas porque usa símbolos de esquerda ou adota um discurso anti-imperialista.

A Coerência que Falta

A carta publicada no El País entrou para a história recente como um divisor de águas no debate sobre o papel do Brasil no cenário internacional. Ela não deixou margem para ambiguidades: a democracia não pode ser tratada como um valor relativo ou conveniente.

Quando a diplomacia de um país hesita em nomear e condenar com a mesma dureza os abusos cometidos por seus aliados políticos, ela deixa de ser um agente de mediação e passa a figurar como cúmplice da opressão. A história cobra um preço alto de quem escolhe olhar para o outro lado enquanto a liberdade de todo um povo é varrida do mapa.

17/10/2026

Lula chama de “pilantra”; Roberta reage e cobra explicações sobre Lulinha

Na reta final da campanha, acusações envolvendo acesso a ministros exigem respostas verificáveis. Insultos não esclarecem os fatos.

by Deise Brandão


A empresária Roberta Luchsinger, investigada pela Polícia Federal por suspeita de tráfico de influência, afirma que Lula sabia de reuniões de seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, com ministros. Em entrevista à CNN Brasil neste sábado (17), ela rebate os ataques do presidente e contesta a tentativa de afastá-lo dessas relações.

Roberta cita encontros com Camilo Santana e afirma que Lulinha frequentava reuniões com integrantes do governo. Também anuncia que pretende negociar uma delação premiada. A intenção declarada ainda não representa um acordo firmado nem comprovação das acusações. As defesas de Roberta e Lulinha negam irregularidades.

O ponto exige esclarecimento: quais encontros ocorreram, com quem, para tratar de quê e com quais resultados? Reuniões não comprovam crime. Mas, diante de suspeitas de tráfico de influência, cabe apurar se relações pessoais serviram para abrir portas e favorecer interesses privados.

Lula já chamou Roberta de “pilantra” e a comparou a Daniel Vorcaro. A empresária, antiga apoiadora do petista, reage dizendo que não aceitará assumir sozinha as responsabilidades pelo que está sendo investigado.

Em resposta à CNN, a comunicação do presidente nega interlocução com Roberta, conhecimento das supostas tratativas e contratos federais com ela. Também classifica a divulgação às vésperas do segundo turno como tentativa de interferência eleitoral. Camilo Santana, por sua vez, nega ter tratado de negócios ou assuntos de governo com a empresária.

A proximidade da eleição exige rigor na apresentação das denúncias. Também exige transparência de quem ocupa o poder. Invocar o calendário eleitoral não resolve as perguntas levantadas; apresentar acusações não dispensa provas.

Roberta precisa sustentar o que afirma. Os citados precisam responder aos fatos concretos. E o eleitor tem direito a esclarecimentos antes de votar — sem que a campanha transforme investigação em condenação ou sirva de desculpa para evitar explicações.

12/10/2026

Brasil registra milhões de empresas fechadas: abrir um CNPJ não basta para manter um negócio


by Deise Brandão 

Em 2024, foram mais de 2,4 milhões de encerramentos. Nos primeiros oito meses de 2025, outros 1,9 milhão. Dados oficiais mostram a dimensão dos fechamentos, mesmo com saldo positivo de novas empresas.

O Brasil registra um volume expressivo de encerramentos empresariais. Segundo o Mapa de Empresas do governo federal, 2.153.840 empresas foram fechadas em 2023, aumento de 25,7% em relação a 2022. Em 2024, o número chegou a 2.436.190. São milhões de registros encerrados em apenas dois anos.

Os boletins consultados apresentam o seguinte quadro:

PeríodoEmpresas fechadas
2022Cerca de 1,71 milhão
20232.153.840
20242.436.190
Janeiro a abril de 2025973.330
Maio a agosto de 2025942.049

Fontes: boletins do Mapa de Empresas de 2023, 2024 e dos dois primeiros quadrimestres de 2025. Os números correspondem às informações publicadas em cada edição e podem sofrer revisões posteriores.

Somados os dois primeiros quadrimestres de 2025, são 1.915.379 encerramentos entre janeiro e agosto — média calculada de aproximadamente 7,9 mil por dia. Esse número é parcial e não deve ser apresentado como o total anual de 2025.

Os pequenos empreendedores têm forte presença nesse movimento. Dos 942.049 encerramentos registrados entre maio e agosto de 2025, 677.921 eram de microempreendedores individuais, os MEIs: aproximadamente 72% do total.

Nesse mesmo quadrimestre, o comércio de roupas e acessórios registrou 48.117 fechamentos. Cabeleireiros, manicures e pedicures somaram 32.569; obras de alvenaria, 22.543; e lanchonetes, casas de chá e de sucos, 20.998. São atividades presentes no cotidiano dos bairros e das cidades.

As aberturas superam os fechamentos, mas isso não elimina a necessidade de investigar por que tantos negócios encerram suas atividades. Em 2024, foram abertas 4.254.903 empresas, com saldo positivo de 1.818.713. Entre maio e agosto de 2025, houve 1.668.753 aberturas e saldo positivo de 726.704 registros.

É necessário distinguir encerramento cadastral de falência: uma baixa de CNPJ não comprova, sozinha, insolvência, demissões ou a causa do fechamento. O próprio Mapa de Empresas registra que mudanças administrativas já facilitaram a baixa formal de negócios que haviam parado de funcionar anteriormente.

Ainda assim, o volume exige atenção. Quais dificuldades levam ao encerramento? Quanto pesam crédito, custos, impostos, demanda e falta de planejamento? Os totais cadastrais não respondem a essas perguntas.

Uma política de empreendedorismo precisa olhar também para a permanência dos negócios. Facilitar a abertura é uma etapa. Entender os fechamentos e criar condições para que empresas viáveis continuem funcionando é outra, igualmente necessária.

Vamos cuidar da nossa vidibnha? Parar de se meter nas 'casas alheias' me parece uma 51. Não estamos em condiçoes, físicas, mentais e  menos ainda, detentores de algum STATUS. 

MPF cobra a Shell pela enchente. Mas quem cobra a prevenção que falhou?

by Deise Brandão

O Ministério Público Federal pede R$ 541 milhões à Shell Brasil pelos danos da enchente de 2024 no Rio Grande do Sul. A tese é que a contribuição histórica da petroleira para as emissões de gases de efeito estufa ajuda a explicar o agravamento do desastre. O valor é pedido em uma ação, ainda não uma condenação.

Não tenho ações da Shell, não tenho interesse em defendê-la e nem abasteço nos seus postos. Minha pergunta é outra: onde estava a cobrança para que a proteção contra enchentes funcionasse antes de tudo ficar debaixo d’água?

A discussão sobre o aquecimento global não pode deixar em segundo plano comportas danificadas, bombas inoperantes e diques rebaixados. Essas falhas são apontadas pelo próprio Ministério Público gaúcho na ação contra o Município de Porto Alegre, ajuizada em março de 2025. O MPRS sustenta que as enchentes de 2023 já deveriam ter alertado a administração para o risco.

Portanto, existe cobrança judicial contra a prefeitura. Mas ela acontece depois da tragédia. E antes? Quais fiscalizações foram realizadas? Quais medidas o Ministério Público exigiu? Quem recebeu os alertas, quais prazos foram impostos e quem acompanhou seu cumprimento?

Há ainda uma explicação a cobrar: em julho de 2025, o MPRS informou a promoção de arquivamento de um inquérito sobre possíveis falhas no sistema de proteção, enquanto manteve a ação que pede indenização ao Município. São procedimentos distintos, mas a população merece entender claramente o que foi apurado e por que aquele inquérito teve esse encaminhamento.

Na ação contra a Shell, também é necessário explicar como se chega aos R$ 541 milhões e quais critérios definem as empresas que devem responder. Se o fundamento é a contribuição para as emissões, qual é o critério para alcançar outros grandes emissores?

Buscar reparação é necessário. 

Mas indenização não devolve vidas, não impede a perda de uma casa e não substitui prevenção. O Ministério Público precisa apresentar também o histórico da sua atuação antes do desastre. A população tem direito de saber o que foi feito para protegê-la enquanto ainda havia tempo.

11/10/2026

SARNA HUMANA EM MINAS: SURTOS ATINGEM ESCOLAS E SUSPENDEM AULAS

by Deise Brandão

Minas Gerais registra surtos de sarna humana, também chamada de escabiose, com ocorrências em escolas e preocupação entre famílias. Em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a prefeitura informa 276 notificações, conforme atualização publicada em 9 de outubro. O número corresponde a casos notificados, não necessariamente a diagnósticos confirmados. 

O avanço da doença levou à suspensão das aulas nas 25 escolas municipais nos dias 8 e 9 de outubro, afetando cerca de 8 mil estudantes. Com o recesso já previsto no calendário, a expectativa é de retorno em 19 de outubro. 

No Sul de Minas, o problema também mobiliza as autoridades. Segundo levantamento publicado pelo Diário do Comércio em 7 de outubro, Alfenas soma 322 ocorrências; Andradas registra 39 casos suspeitos; e Campos Gerais contabiliza 14 notificações entre estudantes e servidores. 

A escabiose é causada por um ácaro e provoca coceira e lesões na pele. A transmissão ocorre principalmente pelo contato direto e prolongado com uma pessoa infectada, podendo também acontecer pelo compartilhamento de roupas, toalhas e lençóis. A doença não está relacionada à falta de higiene pessoal e não se transmite por tosse ou espirro, esclarece a Prefeitura de Lagoa Santa. 

A orientação é procurar atendimento diante de sintomas e seguir o tratamento indicado. Familiares e contatos próximos devem ser tratados simultaneamente quando houver recomendação da equipe de saúde. Também é necessário cuidar das roupas e objetos pessoais para evitar novas transmissões. Não há indicação de medicação preventiva indiscriminada para toda a população. 

09/10/2026

Terremoto no Pana,á Pânico no Pacífico: Forte terremoto de 7,7 de magnitude assusta o Panamá


by Deise Brandão

Nesta sexta-feira, 9 de outubro de 2026, um forte terremoto de magnitude 7,7 atingiu o sul do Panamá. O abalo sísmico ocorreu às 12h56 (horário local) a uma profundidade muito rasa de apenas 10 quilômetros, o que intensificou o impacto dos tremores sentidos na superfície e gerou pânico generalizado no país. O epicentro foi localizado próximo à comunidade de La Pitaloza, na província de Los Santos.

O sismo causou evacuações em massa na Cidade do Panamá, o fechamento temporário do aeroporto internacional e danos estruturais significativos, como o colapso parcial de edifícios e hotéis em cidades como Penonomé e Santiago. Apesar da magnitude severa, não há registros de mortos ou feridos graves até o momento.

Um resumo detalhado do impacto e das características técnicas do evento:

AspectoDetalhes do Evento
Magnitude 7,7 Mw (revisada pelo USGS após estimativa inicial de 8,0)
Profundidade Entre 4 km e 10 km (considerado muito raso)
Epicentro Região sul do país • Próximo a La Pitaloza / Tonosí
Alerta de Tsunami Emitido para vários países da costa do Pacífico, mas retirado posteriormente
Canal do Panamá Operando normalmente após protocolos de segurança
Danos Principais Queda de torres e marquises • Desabamentos parciais de hotéis • Incêndio portuário em Colón

Contexto Geológico

O Panamá está localizado na borda do chamado Círculo de Fogo do Pacífico. Essa imensa área em formato de ferradura concentra cerca de 90% dos terremotos do planeta devido ao constante atrito, colisão e movimentação de grandes placas tectônicas na crosta terrestre.

Quando a tensão acumulada nessas falhas geológicas é liberada abruptamente, surgem ondas sísmicas devastadoras como as observadas hoje. Mais de uma dezena de réplicas (tremores secundários), incluindo uma de magnitude 6,0, continuaram a assustar a população local nas horas seguintes. pes de resgate continuam inspecionando as áreas afetadas, novas atualizações sobre a infraestrutura e possíveis impactos na região podem surgir a qualquer momento. 

26/09/2026

O FATO X INVENÇÃO X ABSURDO


by Deise Brandão

Projeto arquivado em 2008 é ressuscitado como “ameaça atual” em 2026 — e ainda atribui ao Estado um poder que ele nunca teve

Está circulando nas redes sociais a afirmação de que a bancada evangélica estaria articulando o desarquivamento de um projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A narrativa foi associada à atual disputa eleitoral e até à candidatura de Flávio Bolsonaro.

O projeto existiu. A ameaça atual, até o momento, não.

O PL nº 2.623/2007 foi apresentado em 12 de dezembro de 2007 pelo então deputado Professor Victório Galli, eleito pelo PMDB de Mato Grosso. A proposta pretendia alterar a Lei nº 6.802/1980, substituindo a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.

Em 9 de julho de 2008, o parecer pela rejeição foi aprovado por unanimidade na Comissão de Educação e Cultura da Câmara. Como não houve recurso, o projeto foi arquivado definitivamente em 22 de agosto de 2008.

Portanto, não se trata de projeto atual, não está em votação, não foi apresentado por Flávio Bolsonaro e não existe ato oficial demonstrando que a atual bancada evangélica esteja promovendo seu desarquivamento.

O que existe é um projeto rejeitado e arquivado há mais de 18 anos, recuperado das gavetas da Câmara para produzir medo e desgaste político em 2026.

A GloboNews, cuja manifestação ajudou a alimentar a repercussão, posteriormente fez uma retratação. Isso, porém, costuma alcançar muito menos pessoas do que a informação alarmista original.

UM DEPUTADO PODE PROPOR ATÉ A REVOGAÇÃO DA LEI DA GRAVIDADE

Um deputado pode apresentar projeto sobre praticamente qualquer assunto. Poderia, se quisesse, propor até a revogação da Lei da Gravidade.

A existência de um projeto não significa que ele seja juridicamente possível, politicamente viável, aprovado pelo Congresso ou transformado em lei. Muito menos significa que seus efeitos ultrapassem os limites da autoridade do Estado.

No caso de Nossa Senhora Aparecida, há uma confusão conveniente entre duas coisas completamente diferentes: o reconhecimento civil estabelecido por uma lei brasileira e o título religioso concedido pela Igreja Católica.

A Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980, declarou feriado nacional o dia 12 de outubro para culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida, mencionando-a como Padroeira do Brasil.

Mas não foi o Congresso Nacional que lhe concedeu esse título.

Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi proclamada Padroeira principal do Brasil pelo Papa Pio XI em 1930, a pedido dos bispos e do povo católico brasileiro. A proclamação solene ocorreu em 31 de maio de 1931, no Rio de Janeiro.

A lei brasileira surgiu cinquenta anos depois. Ela reconheceu civilmente uma condição religiosa que já existia havia décadas.

O Congresso pode alterar a lei civil, mudar a redação da norma ou discutir a existência do feriado. O que não pode é revogar uma proclamação pontifícia, destituir uma padroeira da Igreja ou apagar a devoção de milhões de brasileiros.

Essa competência não pertence a deputado, senador, presidente da República ou ministro do Supremo. Pertence à autoridade eclesiástica competente — a Santa Sé.

E nem uma decisão política da Igreja teria o poder de arrancar a fé do coração do povo.

NÃO SE REVOGA A FÉ POR VOTAÇÃO

Aparecida não se tornou Padroeira do Brasil porque um parlamentar escreveu isso numa lei em 1980. A lei reconheceu uma devoção nascida no povo, consolidada durante séculos e formalizada pela Igreja.

Nenhum projeto de lei faz alguém acreditar. Nenhum projeto de lei impede alguém de acreditar.

O Estado pode modificar seus próprios atos, mas não possui autoridade para reescrever a fé católica. Não pode determinar quem será venerado pelos fiéis, como não pode votar a existência de Deus, revogar um sacramento ou destituir a Mãe de Jesus daquilo que ela representa para seus devotos.

Por isso, mesmo o antigo projeto de Victório Galli, se tivesse sido aprovado, alteraria apenas a redação da legislação brasileira. Nossa Senhora Aparecida continuaria sendo reconhecida pela Igreja como Padroeira do Brasil e continuaria ocupando o mesmo lugar na fé dos católicos.

A proposta poderia produzir uma agressão simbólica, um conflito político e uma mudança no reconhecimento estatal. Não produziria o efeito religioso que seus defensores ou críticos lhe atribuem.

QUEM TEM FÉ NÃO PRECISA INVENTAR AMEAÇAS

É justamente por se tratar de um tema sagrado para milhões de brasileiros que a informação deveria ser tratada com responsabilidade.

Quem recupera um projeto de 2007, esconde seu arquivamento em 2008 e o apresenta como articulação atual não está defendendo Nossa Senhora. Está utilizando a fé dos católicos como ferramenta eleitoral.

O truque é conhecido: parte-se de um fato verdadeiro — a existência do PL —, elimina-se a data, omite-se sua rejeição, inventa-se uma movimentação contemporânea e acrescenta-se o nome do adversário político que se pretende atingir.

O autor do projeto trabalhou, anos depois, durante alguns meses como assessor especial no governo Jair Bolsonaro. Esse vínculo posterior pode ser informado, mas não transforma uma proposta individual apresentada por um deputado do PMDB em 2007 num projeto atual de Flávio Bolsonaro, de Jair Bolsonaro ou de toda a bancada evangélica.

Fé não precisa de mentira para ser defendida.

Quem acredita que Nossa Senhora Aparecida é Padroeira do Brasil não deveria temer uma proposição parlamentar arquivada. E quem diz respeitar a religião não deveria falsificar datas e fatos para provocar pânico entre os fiéis.

Há algo profundamente contraditório em usar Nossa Senhora como instrumento de desinformação eleitoral e, ao mesmo tempo, apresentar-se como defensor da fé.

Talvez estejam tão acostumados a pensar que enganam o povo que começaram a acreditar que também podem enganar Deus.

O FATO X INVENÇÃO X ABSURDO

O fato é que o PL nº 2.623/2007 existiu. O fato é que pretendia mudar a forma como Nossa Senhora Aparecida era mencionada na legislação.O fato é que foi rejeitado por unanimidade e arquivado definitivamente em 2008.

A invenção é apresentá-lo como projeto atual.
A invenção é afirmar, sem ato oficial que o comprove, que a atual bancada evangélica está articulando seu desarquivamento.  A invenção é atribuí-lo a Flávio Bolsonaro, que não era parlamentar federal quando a proposta foi apresentada.

E o absurdo maior é imaginar que o Congresso Nacional teria poder para destituir uma padroeira proclamada pela Igreja e consagrada há gerações pela fé popular.

Deputados podem apresentar projetos. Podem alterar leis humanas. Podem até escrever absurdos em papel timbrado.

O que não podem é legislar sobre o coração dos fiéis.

Nossa Senhora Aparecida não depende de Brasília para continuar sendo a Padroeira do Brasil.

QUANDO A MEDICINA TEM ALMA




by Deise Brandão

O médico que aparece ao centro desta fotografia é o Dr. Carlos Thompson Flores, endocrinologista de Alegrete. Pensem em um homem bom. Uma pessoa iluminada, dona de um coração que parece não caber dentro do próprio peito e de um amor pela medicina como poucas vezes testemunhei.

Conheci o Dr. Carlos em 1998, quando atravessei um dos maiores medos da minha vida. Minha filha tinha apenas 15 anos quando realizou um exame da tireoide na PUC. O diagnóstico foi de carcinoma papilífero, com encaminhamento urgente para cirurgia e retirada da tireoide.

Perdi o chão.

Naquela época, eu morava em Santa Maria do Herval e já enfrentava problemas graves na cidade em razão do embuste. Uma amiga contou que, em Alegrete, havia um endocrinologista maravilhoso. Consegui emprego no Diário de Alegrete, mudei-me para lá e, assim que cheguei, fui procurar o Dr. Carlos no local onde atendia pelo SUS.

E logo no primeiro encontro ele me ensinou uma lição que nunca esqueci.

Apavorada e sem saber sequer se o caso deveria ser acompanhado por um endocrinologista ou por um oncologista, eu disse que, se fosse ele o médico responsável, levaria minha filha ao seu consultório particular. Ele fechou a expressão imediatamente e respondeu:

— Não há necessidade. Lá eu dou o mesmo atendimento que dou aqui.

Senti como se tivesse levado um tapa — não de humilhação, mas de humanidade. Eu acabava de conhecer um médico para quem o paciente continuava sendo paciente, independentemente de pagar uma consulta ou ser atendido pelo SUS.

Ele examinou minha filha com atenção, solicitou todos os exames necessários, conversou conosco e me acalmou. Foram realizadas três punções, todas pelo Dr. Erasmo, outro médico muito querido que, mais tarde, seria prefeito de Alegrete.

Ao final da investigação, descobriu-se que minha filha não tinha carcinoma. O diagnóstico correto era tireoidite de Hashimoto, causadora de hipotireoidismo. O diagnóstico inicial mostrou-se equivocado, e o encaminhamento urgente para a retirada da tireoide, precipitado. Uma adolescente esteve muito perto de passar por uma cirurgia irreversível da qual não precisava.

Desde então, minha filha faz reposição hormonal e mantém acompanhamento constante.  A convivência exigiu muita paciência e amor, especial, naqueles dias femininos do mês. Pode-se ter um Tsunami a qualquer momento. Aprendemos a disciplinar estes momentos e hoje com efetivos limites para a falta ou desalinhamento do T4, TSH,T3.

Pois. Voltando á 1998 e Dr. Carlos.
O medo e a tensão daquele período também atingiram minha saúde. Aos 35 anos, desenvolvi uma crise hipertensiva gravíssima: minha pressão chegou a 23 por 16. Fiquei internada durante uma semana. Meus filhos, ainda menores, também ficaram comigo no quarto naquela noite,  porque eu insistia em levá-los para casa e retornar depois — algo que, naquele estado, evidentemente não era possível.

Durante aquela semana, o Dr. Carlos cuidou de mim com uma atenção e um carinho que jamais esqueci. Acompanhou-me, tranquilizou-me e esteve presente quando eu me encontrava assustada, fragilizada e longe de casa. Por todo aquele cuidado, cobrou-me uma única consulta.

Poucas pessoas caminharam verdadeiramente comigo ao longo da vida. O Dr. Carlos Thompson Flores é uma delas.

Tenho por ele um carinho imenso e uma gratidão que não cabe dentro de mim. Não apenas porque ajudou a impedir uma cirurgia desnecessária em minha filha, mas porque me mostrou, num momento de absoluto desespero, o que significa exercer a medicina com conhecimento, responsabilidade, igualdade e amor.

Existem pessoas que passam por nossa história. Outras permanecem nela para sempre. 
Nas minhas lembranças, o lugar do Dr. Carlos é lugar de Rei.

UM JÚRI SEIS ANOS DEPOIS; UM RELEASE NO DIA SEGUINTE

by Deise Brandão


Em apenas dois dias, duas notícias mostraram faces muito diferentes da atuação do Ministério Público em Dois Irmãos.

Na quinta-feira, 24 de setembro, um casal foi levado ao Tribunal do Júri por um crime ocorrido em 4 de abril de 2020. Foram necessários mais de seis anos para que o processo chegasse ao julgamento.

O homem foi condenado por homicídio privilegiado, com o reconhecimento de que agiu sob intensa emoção depois de descobrir que sua filha, então com apenas seis anos, havia sido vítima de grave violência sexual. A pena foi fixada em quatro anos e oito meses. A mulher, que também permaneceu submetida ao processo durante todos esses anos, foi absolvida pelo Conselho de Sentença, que acolheu a tese de negativa de participação.

No dia seguinte, 25 de setembro, o próprio Ministério Público do Rio Grande do Sul publicou uma notícia institucional destacando a atuação do promotor Wilson Luís Grezzana na denúncia contra um professor municipal investigado por crimes sexuais contra alunas.

O texto posteriormente reproduzido pela imprensa local não resultou de investigação jornalística própria. A publicação anuncia expressamente: “Confira, na íntegra, a notícia divulgada pelo MPRS”.

O próprio Ministério Público do Rio Grande do Sul publicou uma notícia institucional para divulgar as providências adotadas no caso. Trata-se, portanto, da versão oficial produzida pela instituição sobre sua própria atuação, e não de uma apuração jornalística independente. 

Por essa razão, o conteúdo deve ser lido como comunicação institucional: apresenta as medidas tomadas pelo órgão, mas não necessariamente responde a todas as questões que o caso suscita.

O que chegou ao leitor foi, essencialmente, um release produzido pela própria instituição para divulgar sua atuação.

O QUE O RELEASE CONTA

Segundo o MPRS, o professor foi denunciado por dois crimes de importunação sexual contra duas alunas de 14 anos. Os fatos teriam ocorrido dentro de salas de aula de escolas diferentes: um em 2019 e outro em 2026.

O promotor requisitou ao Município a ficha funcional completa do servidor e informações sobre as transferências realizadas entre escolas. Pretende saber se elas ocorreram por iniciativa do próprio professor ou por interesse da administração e, neste último caso, se tiveram relação com alguma penalidade administrativa.

Também requisitou à Polícia Civil o interrogatório do denunciado e ajuizou uma ação de produção antecipada de provas para colher o depoimento especial de outras seis alunas ou ex-alunas. A finalidade declarada é preservar as provas, evitar a revitimização e apurar a possível existência de outros crimes.

Trata-se de investigação necessária e de extrema gravidade. As possíveis vítimas devem ser protegidas, ouvidas em ambiente adequado e preservadas de exposição pública. O acusado, por sua vez, deve ser investigado e julgado conforme as provas, com observância do devido processo legal e da presunção de inocência.

Isso, porém, não impede — e muito menos dispensa — perguntas sobre a atuação das instituições envolvidas.

O QUE O RELEASE NÃO EXPLICA

Se um dos fatos denunciados teria ocorrido em 2019, a primeira pergunta é inevitável:

Quando esse fato chegou ao conhecimento da escola, da Secretaria de Educação, do Município, da Polícia Civil e do Ministério Público?

A simples referência ao ano de 2019 não permite afirmar que o Ministério Público conhecia o caso desde aquela época. Seria irresponsável fazer essa acusação sem documentos. Mas é igualmente irresponsável divulgar uma notícia institucional exaltando providências recentes sem esclarecer quando cada órgão público tomou conhecimento dos fatos.

Outra questão importante envolve as transferências do professor entre escolas. Por que ocorreram? Houve reclamações anteriores? Alguma direção escolar comunicou comportamentos inadequados? Existiu sindicância, advertência ou procedimento administrativo? Alguém decidiu apenas transferir o problema de lugar?

É correto requisitar essas informações. O que precisa ser explicado é por que elas estão sendo buscadas somente agora e o que já era conhecido pelos responsáveis pela educação municipal.

Também chama atenção a sequência informada pelo próprio MPRS: a denúncia foi oferecida por dois fatos, enquanto ainda se requisita o interrogatório do acusado e se tenta produzir antecipadamente o depoimento de outras seis estudantes.

Isso não torna automaticamente a denúncia ilegal. O interrogatório policial não é condição indispensável para que o Ministério Público ofereça uma acusação, desde que já existam elementos suficientes. Entretanto, a própria sequência demonstra que a apuração ainda está em desenvolvimento e que o caso pode ser muito mais amplo do que os dois fatos inicialmente denunciados.

A sociedade tem o direito de saber, com clareza, o que já foi apurado, o que ainda depende de investigação e por que existe diferença entre o universo de possíveis vítimas mencionado durante a investigação e os dois fatos incluídos na denúncia inicial.

DUAS NOTÍCIAS, DUAS IMAGENS DA MESMA INSTITUIÇÃO

O contraste não pode ser ignorado.

No dia 24, o promotor atuou em um julgamento referente a um crime ocorrido em abril de 2020. Uma mulher permaneceu durante mais de seis anos na condição de acusada para, somente no Tribunal do Júri, ser absolvida por negativa de participação.

No dia 25, o MPRS publicou um release apresentando uma sucessão de providências tomadas pelo mesmo promotor em outro caso: denúncia, requisições, investigação funcional e produção antecipada de provas.

Uma notícia mostra a demora concreta de um processo que atravessou mais de seis anos. A outra constrói a imagem institucional de atuação rápida, firme e protetiva.

As providências no caso das estudantes são necessárias. O problema não está em divulgá-las. O problema está em transformar atos que constituem obrigação funcional em peça de promoção institucional, sem oferecer ao público o contexto completo e sem responder pelas demoras observadas em outros processos da mesma comarca.

O texto oficial coloca o promotor no centro da narrativa. As vítimas aparecem como fundamento das medidas anunciadas, mas as perguntas sobre o funcionamento da rede de proteção, a eventual circulação do professor por diferentes escolas e o tempo decorrido desde o fato de 2019 continuam sem resposta.

A ATUAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO SE MEDE PELOS RESULTADOS, NÃO PELA PROPAGANDA

A atuação de um promotor não pode ser medida pela quantidade de notícias institucionais publicadas nem pela reprodução dessas notícias por veículos locais.

Ela precisa ser avaliada pelo conjunto do trabalho:

  • pelo tempo de tramitação dos procedimentos;

  • pela qualidade jurídica das denúncias;

  • pelo respeito ao devido processo legal;

  • pela proteção efetiva das vítimas;

  • pela ausência de nulidades;

  • pela capacidade de concluir investigações;

  • pela coerência entre acusações e provas;

  • e pelos resultados concretos entregues à sociedade.

Quando processos levam seis, oito ou mais anos para chegar ao julgamento, não basta divulgar no dia seguinte uma notícia cuidadosamente construída para transmitir eficiência.

Quando uma pessoa é mantida durante mais de seis anos como ré e termina absolvida por negativa de participação, é necessário perguntar quais elementos justificaram a permanência daquela acusação até o último momento.

Quando um fato envolvendo uma estudante remonta a 2019, é necessário esclarecer quando ele foi conhecido, quem tomou providências, quem permaneceu em silêncio e por quais escolas o servidor passou desde então.

Não se trata de reduzir a gravidade das acusações contra o professor. Muito menos de impedir a investigação. Ao contrário: justamente porque se trata de crianças e adolescentes, a apuração precisa ser completa, técnica, transparente e independente de interesses de imagem.

PROPAGANDA NÃO SUBSTITUI PRESTAÇÃO DE CONTAS

O Ministério Público dispõe de estrutura pública, assessoria de comunicação e espaço institucional para apresentar suas ações. A imprensa pode reproduzir esse conteúdo, mas precisa deixar claro ao leitor quando está apenas replicando a versão oficial — e quando realizou apuração própria.

Reproduzir integralmente um release do MPRS, sem contrapontos e sem investigar as lacunas existentes, produz um resultado evidente: fortalece a imagem do agente público escolhido como protagonista da notícia.

Não é possível afirmar, sem prova, qual foi a intenção pessoal de quem publicou. Mas é possível avaliar o efeito editorial da escolha: o leitor recebe a versão produzida pelo próprio órgão interessado em demonstrar eficiência, sem as perguntas que uma matéria jornalística independente deveria fazer.

    As duas notícias precisam ser lidas juntas.

De um lado, um júri realizado mais de seis anos depois do crime, com uma ré absolvida após atravessar todo esse período sob acusação.

Do outro, um release institucional publicado no dia seguinte, enumerando providências e projetando uma imagem de atuação imediata.

A sociedade não precisa de heróis produzidos por assessorias de comunicação. Precisa de instituições que funcionem, processos conduzidos dentro da lei, vítimas protegidas, acusações sustentadas por provas e respostas oferecidas em tempo razoável.

O Ministério Público não presta favor quando denuncia, requisita documentos ou pede a produção de provas. Está cumprindo sua obrigação.

E publicidade institucional, por mais bem redigida e reproduzida que seja, jamais poderá substituir transparência, eficiência e prestação de contas.

25/09/2026

QUANDO O JORNALISMO ENCONTRA O QUE O ESTADO NÃO VÊ


by Deise Brandão

Converso com todo mundo. No mercado, nas lojas, nas filas e nas ruas. É nesses lugares que as pessoas contam suas histórias — muitas vezes sem perceber que estão contando.

Recentemente, comecei uma conversa banal com uma senhora idosa. Falávamos sobre alimentação, rótulos e aquelas preocupações cotidianas que surgem diante de uma prateleira. Aos poucos, porém, percebi que havia nela uma tristeza muito maior do que o assunto permitia enxergar.

Ela tentava conversar normalmente, mas estava fechada, abatida, quase pedindo licença para existir.

Como sou naturalmente expansiva, permaneci ali por mais tempo. Escutei. Fiz algumas perguntas com cuidado. O que surgiu daquela conversa foram sinais preocupantes de controle familiar, gritos, ausência de liberdade e possível dependência patrimonial. Não tenho elementos para acusar ninguém nem transformar uma conversa casual numa conclusão definitiva. Mas também não consigo fingir que não ouvi.

E então aparece o dilema: o que fazer?

Uma intervenção precipitada pode piorar a vida de quem se pretende ajudar. Uma denúncia feita sem conhecer toda a situação pode retirar da pessoa idosa o pouco controle que ainda possui sobre a própria vida. Pode provocar represálias, rompimentos familiares ou encaminhamentos que ela não deseja.

Também não posso levá-la para minha casa e assumir uma responsabilidade que pertence à família, à rede de proteção e ao Estado.

É nesse momento que ser jornalista se torna complicado.

Não se trata de encontrar uma história triste, publicá-la e colher atenção. Isso seria fácil — e irresponsável. Jornalismo não é transformar a fragilidade alheia em espetáculo. Muito menos numa cidade pequena, onde dois ou três detalhes bastam para identificar alguém.

Todos os dias aparecem anúncios sobre programas, verbas, campanhas e estruturas destinadas à proteção dos idosos. Há autoridades, entidades e profissionais apresentando projetos e garantindo que existe uma grande rede de atendimento.

Mas quem encontra a senhora entristecida numa conversa comum sou eu.

É no mercado, na farmácia, na loja e na calçada que surgem as histórias que não chegam aos relatórios oficiais. A matéria-prima do jornalismo está ali: nas pessoas, no olhar, na mudança de voz, na frase interrompida e naquilo que alguém conta quando finalmente encontra quem escute.

Jornalista que permanece apenas dentro de uma redação pode analisar notícias, escrever colunas e comentar acontecimentos. Mas o jornalismo vivo está na rua. É lá que a realidade aparece antes de virar estatística.

O problema é que enxergar não significa automaticamente saber como agir.

Se eu publicar detalhes, posso expor essa senhora. Se fizer uma denúncia impensada, posso colocá-la em situação ainda mais vulnerável. Se me calar completamente, permaneço com a sensação de ter encontrado alguém que precisava de ajuda e ter seguido adiante.

Por isso, responsabilidade também é reconhecer limites.

Nem toda história que chega a um jornalista deve virar matéria. Algumas exigem silêncio, cuidado, acompanhamento e uma tentativa discreta de mostrar caminhos — sempre respeitando a vontade e a autonomia de quem está vivendo aquela situação.

O Estado anuncia que protege. A família afirma que cuida. Os relatórios apresentam números.

Enquanto isso, uma senhora desconhecida revela sua tristeza entre uma prateleira e outra, e uma jornalista volta para casa tentando descobrir como ajudá-la sem destruir o pouco que ainda lhe resta.

Essa parte nunca aparece nas campanhas oficiais.

24/09/2026

POR QUE IRÍAMOS DESEJAR QUE FOSSE VERDADE?

 

by Deise Brandão

Existe uma pergunta muito simples que os defensores de Luiz Inácio jamais respondem: por que pessoas normais, lúcidas e diretamente atingidas pelo que acontece no país desejariam inventar escândalos sobre o presidente da República?

Que vantagem teríamos nisso?

Por que alguém desejaria viver cercado por suspeitas, desmandos do Estado, abusos institucionais, contratos inexplicáveis, autoridades sem limites e escândalos que se sucedem antes mesmo que o anterior tenha sido compreendido?

Eu gostaria que tudo fosse mentira.

Gostaria de ter boas notícias para publicar. Gostaria de acreditar que o presidente trabalha pelo país, que as instituições funcionam, que o dinheiro público é respeitado e que as autoridades têm algum compromisso com os limites do próprio cargo.

Eu não ganho absolutamente nada quando uma denúncia se confirma. Ao contrário: perco um pouco mais da confiança no país em que vivo.

Durante muitos anos, um dos meus maiores prazeres como jornalista era preparar uma jarra melita de café preto e percorrer as notícias do dia. Eu lia, comparava versões, procurava informações e fazia um apanhado do que estava acontecendo no Brasil e no mundo.

Hoje, esse prazer desapareceu.

Vejo as manchetes e já não sei em quem acreditar. Não acredito imediatamente na acusação, mas também não acredito no desmentido oficial. Preciso procurar documentos, confrontar datas, identificar a origem da informação e descobrir o que foi omitido por cada lado.

Isso não é prazer jornalístico. É sobrevivência informativa.

Transformaram o noticiário numa guerra de versões em que a palavra “fake news” passou a servir como escudo universal. Em vez de responder ao fato, atacam quem pergunta. Em vez de apresentar documentos, acusam o mensageiro. Em vez de explicar a contradição, dizem que tudo é perseguição contra Luiz Inácio.

Evidentemente existem notícias falsas. Existem montagens, exageros, manchetes enganosas e acusações sem prova. Tudo isso precisa ser identificado e desmentido.

Mas não é possível classificar automaticamente como mentira toda informação inconveniente ao governo.

Questionar não é desejar que a denúncia seja verdadeira. Investigar não é torcer contra o país. Criticar Luiz Inácio não significa ter prazer na desgraça nacional.

Muito pelo contrário.

Queremos saber a verdade justamente porque somos nós que vivemos sob as decisões desse governo. Somos nós que pagamos os impostos, suportamos os abusos, financiamos as instituições e enfrentamos as consequências quando o Estado ultrapassa seus limites.

A pergunta, portanto, não deve ser por que tanta gente fala sobre os escândalos envolvendo o governo.  A pergunta correta é: por que surgem tantos fatos que precisam ser explicados — e por que qualquer tentativa de examiná-los é imediatamente chamada de fake news?

Não quero que as denúncias sejam verdadeiras. Quero que sejam seriamente investigadas.

Se forem falsas, que se mostre a falsidade com documentos e fatos. Se forem verdadeiras, que os responsáveis respondam por elas. O que não aceito é ser tratada como mentirosa simplesmente porque me recuso a acreditar cegamente.

Não inventamos um país pior por diversão. Estamos tentando compreender o país que colocaram diante de nós. E, sinceramente, eu preferia continuar tomando meu café e encontrando razões para acreditar no Brasil. Democrático. Justo. Livre. 

23/09/2026

ELIANA CALMON: ENTRE A CORAGEM DO DIAGNÓSTICO E OS LIMITES DA AÇÃO

 

by Deise Brandão

Eliana Calmon construiu uma imagem pública rara dentro da magistratura brasileira. Primeira mulher a ocupar uma cadeira no Superior Tribunal de Justiça, tornou-se nacionalmente conhecida durante sua passagem pela Corregedoria Nacional de Justiça, entre 2010 e 2012, quando afirmou que existiam “bandidos de toga” infiltrados no Judiciário.

A frase atravessou os anos e transformou Calmon em símbolo de enfrentamento ao corporativismo judicial. Para muita gente — inclusive para mim — ela representava a possibilidade de que alguém de dentro finalmente abrisse as portas, levantasse os tapetes e mostrasse o que o Judiciário escondia.

Sua gestão não foi inerte. A Corregedoria recebeu mais de dez mil procedimentos, realizou inspeções, examinou a evolução patrimonial de magistrados, instaurou processos disciplinares e promoveu afastamentos preventivos. Houve também aposentadorias compulsórias, entre elas a do desembargador Roberto Wider, ex-corregedor do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Não se pode, portanto, afirmar honestamente que Eliana Calmon nada fez.

Também é necessário reconhecer que ela não tinha poderes ilimitados. A corregedora podia investigar, propor a abertura de processos e recomendar punições, mas não decidia sozinha. Dependia do plenário do CNJ, enfrentava a resistência das associações de magistrados e ainda via procedimentos serem contestados no Supremo.

Além disso, naquela época, a punição administrativa máxima aplicável a magistrados era a aposentadoria compulsória com vencimentos proporcionais. Era a indecência legalmente instituída: descobria-se uma conduta incompatível com a magistratura, afastava-se o responsável e preservava-se sua remuneração.

A própria Eliana Calmon defendia punições mais severas. Nesse ponto, é preciso ser justo: ela não poderia aplicar uma pena que a legislação não autorizava.

O problema começa depois.

A imagem pública que permaneceu foi a da magistrada destemida, implacável e disposta a enfrentar qualquer integrante do sistema. Entretanto, quando se observa sua trajetória posterior, aparece uma personagem mais contraditória.

Em 2014, depois de deixar o STJ, Calmon ingressou na política, filiou-se ao PSB, candidatou-se ao Senado pela Bahia e, no segundo turno, apoiou Aécio Neves contra Dilma Rousseff. Não se elegeu e voltou à condição de comentarista privilegiada das crises nacionais.

Em 2017, afirmou que a Operação Lava Jato precisava alcançar o Poder Judiciário. Dizia estranhar que Executivo e Legislativo fossem atingidos enquanto juízes e tribunais permaneciam na sombra. Chegou a prever que a Lava Jato alcançaria a magistratura em um “segundo momento”.

Esse segundo momento nunca chegou como ela previa.

Na mesma entrevista, Calmon elogiou a indicação de Alexandre de Moraes ao Supremo. Disse conhecê-lo, chamou-o de jovem, talentoso e brilhante intelectualmente e afirmou ter gostado de sua escolha para a vaga de Teori Zavascki.

Hoje, é justamente Moraes quem ocupa o centro das críticas de Eliana Calmon.

Em 2019, ela apoiou a ideia de investigar os tribunais superiores, mas declarou que a CPI da Lava Toga dificilmente avançaria porque muitos senadores e deputados estariam “nas mãos do STF”, em razão dos processos que tramitavam contra eles. Mais uma vez, o diagnóstico era grave. Mais uma vez, nenhuma consequência concreta apareceu.

Nos últimos anos, Calmon voltou a criticar os poderes excessivos do Supremo, o inquérito das fake news, as decisões de Alexandre de Moraes e a desorganização institucional do país. Agora, diante das informações que relacionam Moraes a Daniel Vorcaro e ao Banco Master, inicialmente defendeu uma investigação séria.

Depois da sessão tumultuada do STF, porém, recuou para a perplexidade.

Disse estar “profundamente confusa”. Afirmou que uma investigação poderia “implodir a República”, atingir o Congresso e a Presidência e até prejudicar as eleições. Ao mesmo tempo, declarou que o Supremo perdeu a credibilidade, que as instituições estão esfaceladas e que os “bandidos de toga” agora estariam dentro da própria Corte.

É aqui que surge a verdadeira incongruência.

Se existem fatos suficientemente graves para implodir a República, a investigação não se torna menos necessária. Torna-se ainda mais urgente.

A possibilidade de alcançar ministros, parlamentares, integrantes do governo ou a Presidência não pode ser utilizada como argumento para temer a apuração. Preservar instituições não significa ocultar aquilo que pode comprometê-las. Uma instituição não é protegida quando seus integrantes são poupados; é protegida quando consegue investigar e responsabilizar os próprios membros.

Eliana Calmon passou anos dizendo que o Judiciário precisava ser investigado. Disse que a Lava Jato deveria chegar aos tribunais. Apoiou a Lava Toga. Denunciou o corporativismo. Defendeu punições mais duras. Alertou que pessoas desonestas encontravam na magistratura um ambiente protegido contra investigações.

Agora, quando uma apuração pode finalmente alcançar o coração do Supremo e espalhar-se pelas demais instituições, ela teme que a República não suporte a verdade.

Talvez seja exatamente essa a pergunta que Eliana Calmon deva responder: para que serviram tantos anos denunciando os “bandidos de toga” se, no momento em que a investigação pode efetivamente alcançá-los, o tamanho do escândalo passa a ser motivo para hesitação?

Não se trata de apagar sua trajetória nem de negar a coragem que demonstrou quando enfrentou o corporativismo judicial. Trata-se de separar a mulher real da imagem pública construída ao redor dela.

Eliana Calmon sempre foi muito mais contundente no diagnóstico do que efetiva na transformação do sistema. Parte disso decorreu dos limites do cargo, da legislação e da resistência institucional. Outra parte, porém, pertence às escolhas, aos recuos e aos silêncios da própria magistrada.

Ela identificou a doença antes de muitos. Falou sobre ela com clareza e coragem. Mas a história não pode se contentar eternamente com diagnósticos.

Chega um momento em que é preciso tratar o paciente — ainda que a verdade faça a República tremer.

O SILÊNCIO COMPROMETEDOR DE RICARDO LEWANDOWSKI

 

by Deise Brandão

Durante anos, Ricardo Lewandowski ocupou alguns dos cargos mais importantes da República. Foi ministro e presidente do Supremo Tribunal Federal, comandou o julgamento do impeachment de Dilma Rousseff e, depois de se aposentar antecipadamente da Corte, tornou-se ministro da Justiça do governo Lula.

Em janeiro de 2026, deixou o ministério alegando razões pessoais e familiares. Saiu discretamente e recolheu-se. O problema é que os fatos não se recolheram com ele.

Entre a aposentadoria do STF e a entrada no governo LULA, Lewandowski atuou como advogado do Banco Master. Posteriormente, o escritório de seu filho, Enrique Lewandowski, também manteve contrato com o banco de Daniel Vorcaro.

Agora, mensagens obtidas pela Polícia Federal e divulgadas pela imprensa indicam que Vorcaro pediu ao então diretor jurídico do Master que entregasse “algum caso ou parecer” ao filho de Lewandowski para justificar o contrato existente.

A frase é devastadora porque inverte a lógica normal de uma contratação profissional. Primeiro existiria o contrato; depois seria necessário encontrar algum trabalho capaz de justificá-lo.

Na época dessas mensagens, Ricardo Lewandowski não era apenas um ministro aposentado. Era o ministro da Justiça e Segurança Pública, autoridade máxima da estrutura política sob a qual atua a Polícia Federal.

Não se pode atribuir automaticamente ao pai um contrato firmado pelo escritório do filho. Também não se pode condenar ninguém com base apenas em mensagens de terceiros. Mas é indispensável esclarecer quando começou a relação do escritório com o banco, quais serviços foram efetivamente prestados, quanto foi pago, quais pareceres foram produzidos e por que Vorcaro falava em conseguir algum trabalho para “justificar” a contratação.

O escritório de Enrique afirma que prestava consultoria nas áreas fiscal e tributária. É uma resposta formal. Não é, porém, uma explicação suficiente para a conversa atribuída ao banqueiro.

E Ricardo Lewandowski permanece em silêncio.

O mesmo homem que passou décadas falando sobre Constituição, democracia, legalidade e instituições parece não encontrar palavras quando a questão alcança sua própria relação profissional e familiar com o Banco Master.

Lewandowski deixou o Supremo, passou pelo escritório que atendia Vorcaro, assumiu o Ministério da Justiça, saiu do governo e desapareceu do debate público justamente quando começaram a surgir as perguntas mais incômodas.

Seu paradeiro é conhecido. O que ainda não apareceu foi a explicação.

Em determinadas circunstâncias, o silêncio pode ser prudência. Quando envolve um ex-presidente do STF, um ex-ministro da Justiça, contratos familiares e um banqueiro investigado, porém, o silêncio deixa de ser simples reserva pessoal.

Torna-se um fato político.

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