terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Manifesto pela Praia que Não É Mais a Mesma

 


by Deise Brandão

Na Praia Brava, algo se quebrou. E não foi apenas a vida de dois cães.

Orelha foi assassinado. Pretinha resistiu o quanto pôde, mas também morreu, carregando no corpo as marcas da violência. Não foi por acaso, nem uma doença isolada. Foi consequência — de mãos humanas, da covardia, da omissão, de um tipo de brutalidade que não termina no ato, mas se estende no tempo, nos corpos, na memória.

Dizem que a medicina fez tudo o que era possível. E fez. O que nunca foi feito — e ainda não é — foi impedir que essa violência acontecesse.

Hoje há casinhas vazias na praia. Isso não é metáfora. É sinal visível de que a crueldade não mata só indivíduos: ela mata o espírito de um lugar.

Quem fez isso não feriu apenas dois animais indefesos. Feriu uma comunidade inteira, feriu a ideia de convivência, feriu a sensação de segurança, feriu o direito de existir sem medo.

Não aceitamos o silêncio como resposta, nem o esquecimento como solução. Não aceitamos que isso seja tratado como “mais um caso”, porque não foi.

Enquanto não houver responsabilização real, enquanto a violência contra os vulneráveis continuar sendo relativizada, enquanto a vida seguir sendo tratada como descartável — nenhuma praia será apenas uma praia.

Este manifesto não é sobre cães. É sobre humanidade.
E se isso não nos revolta, então já perdemos muito mais do que Orelha e Pretinha.

#JustiçaPorOrelhaEPretinha
#PraiaBravaFerida
#ViolênciaNãoÉAcidente
#CausaAnimalÉUrgente
#NãoFoiSóUmCaso
#OmissãoTambémMata
#ProteçãoAnimalJá
#VulneráveisImportam
#NenhumaPraiaÉSóPraia
#ManifestoPorHumanidade

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Do Supremo ao Master: os R$ 5 milhões que a nota oficial não explica



by Deise Brandão

O que era para ser uma transição tranquila do mundo jurídico para o governo federal ganhou contornos controversos. A ministra Gleisi Hoffmann, ao ser questionada nesta semana sobre os contratos de consultoria privada firmados por Ricardo Lewandowski antes de assumir o Ministério da Justiça, declarou que o então ministro “avisou” o presidente Lula. E, ao ser instada sobre o contrato específico com o Banco Master, respondeu que Lewandowski "deve ter avisado".

O tom vago da resposta revela um desconforto inegável. Afinal, o escritório do ex-ministro do STF firmou contrato de R$ 5 milhões com o banco de Daniel Vorcaro, o mesmo que seria posteriormente alvo de intervenção do Banco Central e cujo presidente seria preso pela Polícia Federal, justamente durante a gestão do próprio Lewandowski no Ministério da Justiça. A cronologia, por si só, já merece atenção.
 
A legalidade não encerra a discussão
A ministra insiste que “não há crime, irregularidade ou problema” no contrato, e que o então ministro teria se desligado das consultorias. Contudo, a legalidade formal não basta para encerrar o debate. Trata-se de uma questão que vai além do Código Penal: envolve ética pública, moralidade administrativa e confiança institucional.

É legítimo questionar: por que um banco como o Master, envolvido em uma das maiores fraudes bancárias do país, contrataria justamente o ex-presidente do STF, que logo viria a ocupar o comando da pasta responsável pela Polícia Federal? E por que o contrato permaneceu ativo mesmo após sua posse, sendo encerrado apenas sob pressão pública?

“Foi na gestão de Lewandowski que Vorcaro foi preso”
A frase de Gleisi Hoffmann — usada como argumento de defesa — é dúbia. Sim, a prisão ocorreu sob sua gestão. Mas isso não apaga o fato de que, antes disso, o ex-ministro mantinha contrato milionário com o mesmo banco. O fato de a apuração ter se dado “dentro de casa” não é blindagem suficiente; ao contrário, deveria ter imposto um grau máximo de transparência e cautela — o que não se viu.

Além disso, a revelação de que o contrato foi intermediado por um senador governista, Jaques Wagner (PT-BA), lança mais dúvidas sobre a rede de relações entre poder político, elite jurídica e mercado financeiro.
 
O silêncio seletivo da moralidade institucional
Não se trata de criminalizar a advocacia privada nem de demonizar consultorias jurídicas. O problema está na superposição de funções e interesses: a consultoria privada de um ex-ministro do STF, a posterior nomeação para o Executivo, a permanência do contrato durante o exercício do cargo, e o vínculo com uma instituição investigada por fraude. Tudo isso, somado, compromete a confiança pública.

A saída de Lewandowski, embora oficialmente justificada por “razões pessoais e familiares”, ocorre sob a sombra dessa sequência de eventos que, no mínimo, exigem respostas claras — não suposições vagas como “deve ter avisado o presidente”.

Quando ex-ministros do Supremo, agora no Executivo, mantêm vínculos com instituições alvo de investigação e recebem milhões sob a rubrica genérica de “consultoria”, não é só a lisura do contrato que deve ser analisada, mas sim o impacto sobre a legitimidade democrática e o princípio republicano da impessoalidade.

A Atuação do Filho de Lewandowski e os Tentáculos da Cadeia Consignada
A teia de relações envolvendo o Banco Master, o Ministério da Justiça sob comando de Ricardo Lewandowski e o núcleo familiar do ex-ministro ganhou mais um capítulo revelador: em dezembro de 2025, Enrique de Abreu Lewandowski, filho do então ministro, atuou no Superior Tribunal de Justiça (STJ) em favor da Capital Consig S.A., uma financeira sob investigação por fraudes em empréstimos consignados a servidores do Estado de Mato Grosso.

Segundo apuração da Gazeta do Povo, a empresa é apontada como uma das fornecedoras de crédito que integraram as carteiras do Banco Master — justamente o banco que, à época, mantinha um contrato de R$ 5 milhões com o escritório da família Lewandowski.

Trata-se, mais uma vez, de uma situação em que não há ilegalidade formal, mas há clara sobreposição de interesses, proximidade familiar e funcional, e uma cadeia de vínculos que desafia os princípios republicanos de impessoalidade e moralidade pública.

O processo no STJ — um pedido de tutela cautelar antecedente contra o governo de Mato Grosso — tinha como objetivo reverter a suspensão da autorização da Capital Consig para operar empréstimos consignados. Enrique Lewandowski atuava formalmente como advogado da empresa. O relator, ministro Francisco Falcão, indeferiu a liminar.

O que está em jogo: aparência de imparcialidade
Embora Ricardo Lewandowski tenha se afastado da advocacia ao assumir o Ministério da Justiça, o fato de seu filho ter atuado em causa sensível ligada a uma empresa envolvida em cadeia de negócios que cruzava com o Master — financiador do escritório da família — agrava ainda mais o cenário de confusão entre o público e o privado.

A coincidência de datas e de vínculos (contratos, ministério, processos, família) não é mero detalhe técnico: compromete a aparência de imparcialidade, valor basilar do Estado Democrático de Direito.

O relatório ignorado
Importa notar que a suspensão dos consignados imposta pelo governo de Mato Grosso teve por fundamento um relatório técnico do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT), que apontou irregularidades graves: das mais de 90 mil operações analisadas, apenas 30% estavam regulares. Ainda assim, a Capital Consig acionou o Judiciário para tentar suspender a medida, com Enrique Lewandowski como patrono.

A empresa nega as irregularidades e sustenta que o relatório é inconclusivo. Ainda assim, o episódio reforça a sobreposição de esferas de poder, típicas de um ambiente institucional enfraquecido por tramas paralelas ao interesse público.

A sociedade brasileira não pode naturalizar a promiscuidade entre a advocacia de influência, o exercício de funções públicas sensíveis e a atuação de parentes em setores diretamente impactados pelas decisões governamentais. Em tempos de desconfiança generalizada, a blindagem institucional deve ceder lugar à responsabilidade e à transparência.

E, mais uma vez, é preciso repetir: criticar não é atacar. Denunciar não é subverter. O verdadeiro atentado contra a democracia é ignorar os sinais de corrupção sistêmica que se alojam nos corredores do poder.

Apontar possíveis irregularidades não é ataque. É vigilância cidadã. É cumprir o dever de questionar o poder — qualquer poder. Afinal, como já dito, criticar o Estado quando tudo aponta para corrupção endêmica, sistêmica e epidêmica não é atentar contra a democracia. É usá-la. E, sobretudo, é exercê-la.

Desconstruindo a Nota de Alexandre de Moraes

                                        Imagem criada pela IA GPT

by Deise Brandão

A recente nota divulgada pelo ministro Alexandre de Moraes como resposta à reportagem “O encontro de Moraes com o presidente do BRB na mansão de Vorcaro” revela mais sobre o que optou por não negar do que sobre o que tentou refutar com veemência.

De início, salta aos olhos que a nota nega algo que a matéria, de fato, não afirma. Em nenhum momento os repórteres Andreza Matais e André Shalders sustentam que houve uma “reunião” formal entre Moraes e o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, na residência de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. O que se narra, com riqueza de detalhes, é um encontro social em um ambiente reservado da mansão de Vorcaro, onde Moraes e Costa teriam conversado informalmente sobre a negociação de aquisição do banco Master pelo BRB. Negar o que não foi dito é, no mínimo, um desvio retórico.

Mais preocupante, no entanto, é o silêncio eloquente da nota. Em nenhum trecho se nega que Alexandre de Moraes esteve na casa de Daniel Vorcaro — pelo menos duas vezes — acompanhado de assessor, degustando vinhos e charutos, inclusive em um espaço descrito como "bunker". Tampouco se refuta que uma das visitas ocorreu em 6 de novembro de 2024, durante a apuração da eleição presidencial norte-americana.

O contexto não é trivial: ambas as visitas se deram durante a vigência de um contrato de R$ 129 milhões entre o banco de Vorcaro e o escritório de advocacia da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes. Tal fato, por si só, já suscita questionamentos sobre potencial conflito de interesses e aparência de parcialidade — elementos que, no plano ético, bastariam para exigir explicações transparentes por parte de qualquer agente público, especialmente um ministro do Supremo Tribunal Federal.

É ainda mais notável que, quando vieram à tona as suspeitas de pressão exercida por Moraes junto ao Banco Central para aprovação da venda do Master ao BRB, ele negou não apenas as pressões — o que seria esperado —, mas também negou que o escritório de sua esposa tenha atuado na negociação. Porém, não há registro de qualquer atuação relevante do referido escritório que justifique o vultoso contrato com o Banco Master.

A parte final da nota é especialmente grave. Ao alegar que a reportagem "segue um padrão criminoso de ataques desqualificados contra os integrantes do Supremo Tribunal Federal", o ministro deixa de defender sua conduta e parte para o ataque genérico, imputando desonestidade à imprensa e tentando agregar aos demais membros do STF a responsabilidade por um episódio que lhes é alheio. A tentativa de blindagem coletiva não apenas foge ao mérito como compromete a clareza do debate público.

No cerne da controvérsia, portanto, permanece o fato inabalável: a proximidade entre um ministro do Supremo Tribunal Federal e um banqueiro investigado por possíveis fraudes bancárias em escala bilionária. É essa relação — e não supostas reuniões formais ou notas de indignação — que a sociedade brasileira precisa compreender e debater com serenidade, mas com firmeza.

Apontar indícios de condutas irregulares ou crimes cometidos por membros do Supremo Tribunal Federal não constitui ofensa nem crime — é dever republicano. Criticar a mais alta Corte de Justiça do país, especialmente quando há elementos que apontam para uma possível corrupção endêmica, sistêmica e epidêmica, não é atentar contra a democracia. Pelo contrário: é exercer plenamente os direitos democráticos e, acima de tudo, cumprir o papel essencial da cidadania.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Quando O TEMA é sério e o entendimento distorcido

 

by Deise Brandão

Nos últimos anos, a palavra narcisismo passou a circular com força no debate público.

Ela aparece para explicar tudo: política, relações pessoais, redes sociais, conflitos sociais e até crises institucionais.

Mas há um problema sério nisso:o termo está sendo usado de forma imprecisa, abusiva e, muitas vezes, ideológica. Antes de diagnosticar uma “era narcísica”, é preciso entender do que estamos falando de verdade.

O QUE É NARCISISMO (SEGUNDO A PSICOLOGIA)

Na psicologia, o narcisismo não é sinônimo de egoísmo, vaidade ou amor-próprio.

Ele se refere a um traço de personalidade que existe em graus variados em todas as pessoas.
Em níveis saudáveis, o narcisismo está ligado a: autoestima, senso de identidade, capacidade de se afirmar no mundo.

O problema surge quando esse traço se torna rígido, inflado e defensivo, evoluindo para o Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN).

Esse transtorno se caracteriza por:necessidade constante de admiração,incapacidade de lidar com críticas,empatia reduzida ou instrumental,uso do outro como espelho ou objeto,reações agressivas à frustração.

Não é comum.Não é diagnóstico coletivo.  Não define uma sociedade inteira.

O QUE NARCISISMO NÃO É

Narcisismo não édiscordar, se posicionar politicamente, ter autoestima, criticar instituições, buscar reconhecimento profissional, reagir a injustiças.

Chamar tudo isso de narcisismo é esvaziar o conceito e transformá-lo em rótulo moral.Quando o termo vira xingamento intelectual, ele deixa de explicar e passa apenas a desqualificar.

NARCISISMO NÃO EXPLICA A VIOLÊNCIA HISTÓRICA

A história humana não é marcada por surtos psicológicos coletivos, mas por: disputas de poder, dominação econômica, controle simbólico,violência institucional.

Guerras, perseguições religiosas, escravidão e repressões políticas não aconteceram porque as pessoas eram “doentes”, mas porque estruturas de poder permitiram e incentivaram esses atos.

Reduzir esses processos a “doenças típicas da época” é retirar a responsabilidade histórica de Estados, igrejas, elites e sistemas econômicos.

E A SAÚDE MENTAL HOJE?

O aumento de diagnósticos como: depressão, ansiedade, burnout, transtornos de atenção,não aponta para uma “era narcísica”. Aponta para: precarização do trabalho,  insegurança permanente, hiperexposição, cobrança de performance constante, colapso de vínculos sociais e institucionais. Ou seja: não é excesso de amor-próprio. É falta de proteção psíquica e social.

QUANDO O TERMO VIRA FERRAMENTA DE PODER

Há um uso perigoso do conceito de narcisismo no debate público:
quando ele serve para invalidar críticas, silenciar dissenso ou patologizar quem questiona.

Nesse caso, o narcisismo deixa de ser objeto de estudo e passa a ser instrumento de controle simbólico.

Quem critica vira “doente” Quem questiona vira “narcisista”. Quem obedece vira “maduro”. Isso não é psicologia. É retórica de deslegitimação.

O VERDADEIRO PROBLEMA DO NOSSO TEMPO

Se há algo que marca nossa época, não é uma epidemia de narcisismo, mas: instituições que não se autoavaliam,  concentração de poder, responsabilização seletiva e o uso de linguagem psicológica para esconder conflitos reais.O maior risco não é o espelho.É quem decide quem pode falar e quem deve ser rotulado.

Narcisismo é um conceito clínico sério. Usá-lo como slogan intelectual empobrece o debate e confunde a sociedade.O que precisamos hoje não é de diagnósticos morais travestidos de ciência,mas de responsabilidade, clareza conceitual e honestidade intelectual.

Quem nunca foi vítima de uma relação verdadeiramente narcísica não sabe, de fato, do que está falando. O narcisismo real não se revela em discursos grandiloquentes, mas na experiência concreta de quem foi silenciado, manipulado, esvaziado e usado como extensão do outro.

Fora dessa vivência, só há duas possibilidades: ignorância conceitual — ou o próprio narcisismo falando em causa própria.

O termo deslocado para um discurso genérico, histórico e moralista, onde tudo vira “doença da época”, não é análise. É confusão conceitual.

Narcisismo não é metáfora histórica. Não é rótulo moral. Não é explicação universal do mundo.

É um fenômeno psicológico específico, que se manifesta principalmente nas relações, produzindo vítimas reais, danos emocionais profundos e dinâmicas de poder silenciosas.

Quem nunca foi vítima de uma relação verdadeiramente narcísica não compreende o fenômeno em sua profundidade. E quando alguém fala sobre o tema sem rigor, ignorando a experiência das vítimas e distorcendo conceitos clínicos, resta uma hipótese incômoda: não se trata de análise — mas de projeção. 

"Sociedade do Cansaço" : O peso da liberdade irrestrita


 by Deise Brandão

Vivemos tempos em que tudo pode — ou, ao menos, é isso que se quer fazer crer. A antiga estrutura social, com seus limites claros, hierarquias visíveis e deveres bem delineados, foi substituída por uma nova ordem: a da performance, da autoexploração, da incessante positividade. Muitos a celebram como emancipação. Outros, porém, percebem nela a sutil metamorfose da opressão.

É curioso observar como o discurso da liberdade plena tem se tornado um imperativo sufocante. Já não há espaço para o descanso verdadeiro, para o silêncio interior, para o simples direito de dizer "não". Quem recusa é visto como antiquado, preguiçoso, ou — pior — como fracassado. Nesse novo modelo, não basta viver: é preciso superar-se continuamente, reinventar-se a cada dia, ser um “empreendedor de si”.

Essa lógica tem nome, e já foi descrita com precisão filosófica por Byung-Chul Han. O autor coreano-alemão, com o rigor que lhe é característico, identificou essa transição da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho. Não se trata de mera evolução ou progresso, mas de uma mutação nos mecanismos de poder e controle: antes, éramos sujeitos da obediência. Hoje, somos algozes de nós mesmos.

O sujeito do desempenho não é livre. Ele se torna cúmplice de sua própria dominação, internalizando as exigências do sistema sob a aparência de autonomia. Trabalha mais, se cobra mais, vive exausto, mas sem saber a quem responsabilizar — afinal, agora ele é seu próprio patrão, seu próprio carrasco.

Confundir essa nova estrutura com libertação é não compreender seus efeitos psíquicos devastadores: depressão, ansiedade, síndrome de burnout. A positividade constante se transforma em violência — uma violência que não vem de fora, mas se instala dentro de nós.

Há quem celebre essa nova ordem, vendo nela o triunfo do “projeto”, da “motivação”, do “progresso”. Mas talvez seja necessário parar — apenas parar — e escutar o cansaço. Não como sinal de fraqueza, mas como indício de que algo está profundamente errado.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

STF: NÃO É só “CRISE DE VALORES”. É crise de RESPONSABILIDADE



by Deise Brandão

Reduzir o que está acontecendo no Brasil a uma suposta “falência moral da sociedade” é a forma mais preguiçosa — e conveniente — de evitar o debate real.

Não estamos diante de um problema abstrato de “caráter do povo”.
Estamos diante de instituições que perderam o pudor de se autoavaliar.

Quando membros do Supremo Tribunal Federal passam a: atuar como atores políticos, 
escolher quando a Constituição vale e quando pode ser reinterpretada, blindar estruturas de poder enquanto o sistema financeiro implode silenciosamente, o problema não é educacional, não é “falta de valores em casa”, nem “grosseria do eleitor”. O problema é institucional.
 
AUTORIDADE NÃO É INFALIBILIDADE
Democracia não se sustenta em cargos vitalícios tratados como dogmas.
Se sustenta em controle, transparência e limites. Quando qualquer poder  deixa de prestar contas, reage à crítica com censura moral, trata questionamento como ameaça, critica LEGITIMA como OFENSA.  ele já não atua como guardião da Constituição, mas como parte interessada do jogo.
Nenhuma Corte está acima do escrutínio público.
Nenhuma toga transforma erro em virtude.
Nenhum cargo converte silêncio cúmplice em “defesa da democracia”.
 
O DISCURSO DO “GOLPE” VIROU UM ESCUDO
Chamar tudo de “golpismo” virou uma estratégia de bloqueio: bloqueia investigação, bloqueia crítica, 
bloqueia perguntas incômodas.
Isso não protege a democracia.
Isso atrofia a democracia.
A pergunta que realmente importa não é: “Quem grita mais alto?”Mas sim:  Quem se beneficia do silêncio institucional?
 
O MAIOR ESCÂNDALO NÃO É O QUE SE DIZ — É O QUE NÃO SE INVESTIGA
O país atravessa o maior escândalo financeiro dos últimos tempos, com impactos diretos sobre bancos,  fundos, investidores, economia real.  
E, ainda assim, o debate público é empurrado para  moralismo raso,  xingamentos,rótulos ideológicos.

Enquanto isso, ninguém responde pelo núcleo do problema. Ninguém é responsabilizado e punido, e assim, a cultura do VIL se sedimenta.
Não é ignorância popular.
É gestão seletiva da verdade.

QUESTIONAR O STF NÃO É ATAQUE À DEMOCRACIA É EXERCÍCIO DELA
Democracia não exige devoção.
Exige vigilância.
Quando o Supremo erra, deve ser questionado.
Quando acerta, deve ser elogiado.
Quando se cala diante de estruturas que ruem, deve ser cobrado.

Isso não é extremismo.É maturidade cívica.
O Brasil não precisa de sermão. Precisa de responsabilização real.
E nenhuma instituição — nenhuma — pode se colocar fora desse alcance.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Em tempos de Banco Master, de "eu não sabia de nada", relembrar É PRIMORDIAL

PF diz que grampos indicam Lula como dono de sítio em Atibaia; ouça



17/03/2016 19h20 - Atualizado em 18/03/2016 21h38

Gravações foram anexadas em autos da investigação nesta quinta (17).

Ex-presidente, familiares e donos do sítio foram grampeados pela PF.

Fernando Castro e Samuel Nunes
Do G1 PR


Em relatório anexado aos autos de investigação da 24ª fase da Operação Lava Jato nesta quinta-feira (17), a Polícia Federal (PF) aponta indícios de que o ex-presidente Lula seria o real dono do sítio Santa Barbara, em Atibaia (SP). As afirmações são baseadas em novas ligações grampeadas de Lula, familiares e os proprietários registrados do sítio.

 

As ligações foram anexadas nos mesmos autos de que o juiz Sérgio Moro levantou o sigilo na quarta (16). No relatório, a PF explica que essas ligações foram consideradas relevantes, mas que ainda não haviam sido apresentadas.

Veja fotos do sítio divulgadas pela Justiça Federal nesta quinta (17).

Foi gravada uma conversa entre Lula e um funcionário, em que o empregado avisa que a chave do sítio está com alguém chamado Marcos. Para a PF, trata-se de Marcos Silva, filho do ex-presidente. Lula avisa que vai cedo na manhã do dia seguinte para o sítio e por isso precisa da chave.

“Tais indícios sugerem que o sítio de fato seja da família de Lula, pois a chave do mesmo não fica com Fernando Bittar e Jonas Suassuna, mas com Lula e seus filhos”, aponta o relatório da PF. Veja a transcrição da conversa:

Lula: Ô Azevedo, sou eu.
Funcionário: Boa noite, presidente, pode falar.
Lula: Deixa eu falar uma coisa pra você. A chave do sítio tá com o Marcos, né?
Funcionário: Sim senhor
Lula: Você precisa entrar em contato com ele porque eu não sei que hroas ele vão chegar, vão chegar tarde pra cacete., pra gente pegar a chave amanhã de manhã, porque nós vamos pro sítio cedo amanhã
Funcionário: Ah, sim senhor, tá ok. Eu vou tentar falar com a dona Carla agora. Tá bom?
Lula: Tá bom
Funcionário: Tá ok, presidente

Outra ligação é entre o filho de Lula Fábio Silva e Kalil Bittar – irmão de Fernando Bittar – um dos donos do sítio. A PF informa que a gravação foi feita dias antes de uma manifestação marcada para acontecer em frente ao sítio, e pede que Kalil Bittar organize um churrasco no local no mesmo dia, para manter o sítio ocupado. Leia trecho:

Kalil: Eu vou ver se eu convenço o Fabiano de “vim” pra cá, né?
Fábio: É uma boa.
Kalil: Tá? Eu tenho sua autorização pra isso, tenho? Alô? Alô?
Fábio: Tô ouvindo.
Kalil: Eu tenho sua autorização pra isso?
Fábio: Você tem autorização pra tudo, meu amor.
Kalil: Então tá bom.
Fábio: Tá bom? Mas leva mais gente também. Faz um churrasco, compra picanha... tem cerveja lá... faz um churrasco.
Kalil: Tá.
Fábio: Passar o dia na piscina.

“Causa estranheza o fato de que apesar de, oficialmente, o sítio de Atibaia ser de propriedade de Fernando Bittar e Jonas Suassuna, Kalil Bittar pede autorização de Fábio Silva para convidar determinadas pessoas para o churrasco (...), bem como é Fábio quem conversa com Maradona (caseiro da propriedade) para avisar que Kalil vai chegar para passar o dia no sítio”, afirma a PF. Leia abaixo o diálogo:

Fábio: O irmão do Fernando, o Kalil, ta indo praí.
Maradona: Ah, tá bom.
Fábio: Ele te ligou do número 019 e acho que você não atendeu.
Maradona: Ah, é que eu tava lavando os pedalinhos ali no lago, ô, Fábio, eu vi agora tem uma ligação perdida mas eu nem vi de quem que é.
Fábio: É, é dele, se você puder retornar, retorna, senão ele vai ligar de novo e aí você atende.
Maradona: Ah, então tá bom, Fábio
(...)
Fábio: Ele tá indo praí, qualquer coisa você me liga, tá?
Maradona: Tá bom, Fábio, pode deixar.

Outra conversa destacada é entre Renata, esposa de Fábio Silva, com Kalil Bittar, ocorrida no dia do referido churrasco. (Ouça ao lado)

"Kalil diz que está na casa daquela acumuladora chamada Marisa Letícia. Kalil fez uma 'limpa' na geladeira, porque ela estava cheia de comida vencida, que foi comer um hamburguerzinho, mas que estava vencido desde antes da eleição de Dilma. Kalil diz que abriu um vinho que deve ser muito caro, porque tem até número de série. Renata diz que não tem problema" relatam os policiais.

Na sequência, "Kalil diz que olhou no quarto da família, e que a arma que o presidente tem é uma lanterna".

Paulo Gordilho
Para a Polícia Federal, outro indício de que Lula é o verdadeiro dono do sítio está numa conversa de Paulo Gordilho, ex-diretor de engenharia da construtora OAS. Gordilho entrou na mira da Lava Jato depois que investigadores descobriram que foi ele quem encomendou e pagou os móveis planejados do sítio e do triplex no Guarujá.

Na gravação, ele reclama para uma mulher, que sofreu busca e apreensão da PF:

Paulo Gordilho: Não roubei, não matei, não ganhei nenhum dinheiro com isso... Presidente pediu... Eu fiz.
Mulher: É lógico, você cumpre ordens, né?
Paulo Gordilho: E ganhei, no final do ano, desemprego.

Os investigadores não dizem se o presidente citado por Paulo Gordilho é Lula ou Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS.

Contrato
Mais cedo, a Polícia Federal informou que apreendeu no apartamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em São Bernardo do Campo (SP), uma minuta de contrato de compra do Sítio Santa Bárbara.

O documento não tem assinatura e é datado de julho de 2012, sem o dia exato do mês. Ele indica um compromisso de venda do sítio em nome de Fernando Bittar e sua mulher, Lilian, para Lula e sua mulher, Marisa Letícia. O valor previsto da venda é de R$ 800 mil (R$ 200 mil no ato da compra, e R$ 600 mil divididos em três prestações mensais).

Esse documento foi apreendido, segundo a polícia, na 24º fase da Operação Lava Jato, realizada no dia 4 de março e que teve como alvo o ex-presidente. A propriedade é investigada na Lava Jato porque teria sido reformada por empreiteiras envolvidas no esquema de corrupção da Petrobras.

Minuta de contrato de venda do sítio em Atibaia para Lula pag.1 (Foto: Reprodução)
Minuta de contrato de venda do sítio em Atibaia para Lula pag.3 (Foto: Reprodução)
Minuta de contrato de venda do sítio em Atibaia para Lula pag.4 (Foto: Reprodução)

Outro lado
O ex-presidente nega as acusações. Desde que as investigações se tornaram públicas ele afirma que não é proprietário do espaço. O Instituto Lula chegou a afirmar que o ex-presidente nunca escondeu que frequenta o local, que pertence a amigos dele e de sua família, em dias de descanso. Leia na íntegra nota do Instituto Lula:

O ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva soube que a família de Jacó Bittar e Jonas Suassuna haviam comprado o “Sítio Santa Bárbara”, em Ataibaia (SP) em 13 de janeiro de 2011. Frequentou o local pela primeira vez em 15 de janeiro de 2011.

O sítio, além de servir para que amigos de longa data pudessem frequentar e conviver, também serviu para receber parte do acervo presidencial entregue ao ex-Presidente Lula pela Secretaria da Presidência da República ao final do seu mandato, como foi idealizado por Jacó Bittar – que é amigo de Lula e companheiro na política há mais de 35 anos.

As reformas que foram feitas no sítio foram realizadas pelos proprietários para adequar as instalações a essas necessidades. Amigos e parentes do ex-Presidente Lula acompanharam parte da reforma e auxiliaram no que era possível.

A partir de janeiro de 2011, quando o ex-Presidente e seus familiares passaram a frequentar o sítio em dias de descanso juntamente com os proprietários, também houve o auxílio para a manutenção do local.

Esses fatos justificam todos os documentos que foram apreendidos durante a busca e apreensão realizada na residência do ex-Presidente Lula e no próprio sítio em Atibaia.

Não se sabe qual o critério usado pela Polícia Federal para afirmar que não há pertences dos proprietários no sítio. De qualquer forma, essa afirmação não muda em nada a propriedade do local, que é atribuída a Fernando Bittar e Jonas Suassuna por título dotado de fé pública.

A defesa de Lula afirma ainda que Kalil Bittar não pede autorização a Fábio Luís Lula da Silva nesta ligação - e que ele havia telefonado diretamente para o caseiro do sítio, mas não havia conseguido contato. Segundo o advogado Cristiano Zanin Martins, o filho de Lula apenas auxiliou Kalil Bittar a localizar o caseiro.

O advogado do ex-presidente disse também que o sítio Santa Bárbara, em Atibaia, pertence a Fernando Bittar e a Jonas Suassuana, que pagaram pelo imóvel e podem dar a ele a destinação que quiserem.

Paulo Gordilho e Kalil Bittar não retornaram o contato.

Beba na Fonte

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