21/08/2026

Quem anda pela cabeça alheia é piolho. E jamais terá seu próprio chapéu!


by Deise Brandão

Ganhei meu primeiro chapéu aos 16 anos. Yellow! Foi presente da minha mãe.

Talvez ela não soubesse, naquele momento, que não estava apenas colocando um acessório sobre a minha cabeça. Estava me entregando um símbolo que me acompanharia pela vida inteira: minha identidade, minha liberdade e o direito de pensar por conta própria.Desde então, tive muitos chapéus. Mas a cabeça sempre foi minha.

Pensar por conta própria exige estudo, coragem e disposição para enfrentar o pensamento dominante. Exige observar os fatos, comparar informações e não aceitar uma afirmação apenas porque foi pronunciada por alguém com aparência de autoridade.

Há pessoas que atravessam a vida repetindo opiniões alheias. Falam o que ouviram, defendem o que não compreenderam e obedecem a ideias que jamais tiveram o trabalho de examinar.

Chamam isso de opinião. Não é. Opinião nasce da reflexão. A repetição nasce da dependência.

Quem não conhece a própria história, não enfrenta os próprios medos e não reconhece suas fragilidades torna-se presa fácil de qualquer pessoa que fale mais alto, use palavras difíceis ou se apresente como dona de uma verdade superior.

Também não existe profundidade automática em um texto porque ele menciona física, energia, vibração, códigos, sistemas, geometria ou consciência. Palavra complicada não transforma banalidade em conhecimento.

No fim, certas construções aparentemente profundas querem dizer apenas isto: Estude. Fortaleça sua personalidade. Conheça a si mesmo. Examine o que lhe dizem. Pense por conta própria.

Autonomia não consiste em dominar os outros nem em imaginar que o universo se curvará aos nossos desejos. Consiste em assumir responsabilidade pelas próprias escolhas e suportar as consequências de não seguir o rebanho.

Meu primeiro chapéu veio de minha mãe quando eu tinha 16 anos.Os outros eu escolhi, e continuo usando cada um deles sobre a única cabeça na qual sempre fiz questão de pensar: a minha.

Porque quem pensa pela cabeça alheia é piolho. E piolho jamais terá seu próprio chapéu.

20/08/2026

CONTAS DE LUZ ASTRONÔMICAS NO RS: ONDE ESTÁ O MINISTÉRIO PÚBLICO?


by Deise Brandão

Milhares de consumidores gaúchos receberam contas de energia elétrica com aumentos incompatíveis com seu histórico de consumo. Faturas que habitualmente ficavam entre R$ 200 e R$ 400 saltaram para R$ 800, R$ 1 mil, R$ 2 mil e, em alguns casos, valores ainda maiores.

O problema alcança diferentes municípios do Rio Grande do Sul. Em Caxias do Sul, somente nos meses de julho e agosto, o Procon recebeu 298 solicitações e instaurou 114 processos relacionados às contas de energia elétrica e à dificuldade de atendimento pela CPFL/RGE.

Em Passo Fundo, o Procon suspendeu o pagamento de faturas e notificou a concessionária. Consumidores de Gramado, Canela e de diversas outras cidades também contestam aumentos que não correspondem a qualquer alteração real em sua rotina.

A própria RGE afirma que o reajuste tarifário autorizado pela Aneel foi de aproximadamente 14,98% para consumidores residenciais. Esse percentual não explica contas que duplicaram, triplicaram ou aumentaram cinco, seis e até dez vezes.

Alegar frio, chuveiro elétrico ou aquecedor também não resolve a questão. Não estamos diante de um consumidor isolado que esqueceu um equipamento ligado. Estamos diante de milhares de consumidores, distribuídos por inúmeros municípios, relatando aumentos extraordinários no mesmo período.Isso tem nome: problema coletivo.

O PARCELAMENTO NÃO RESOLVE A COBRANÇA

Paralelamente aos aumentos, a RGE informou que uma alteração em seu sistema de faturamento afetou aproximadamente 740 mil consumidores — 23% de seus clientes no Estado.A conta correspondente a agosto será apresentada apenas para conferência e cobrada automaticamente em seis parcelas, entre outubro de 2026 e março de 2027.

A concessionária apresenta o parcelamento como forma de reduzir o impacto financeiro. Mas parcelar uma cobrança não comprova que ela esteja correta.

Se uma conta de R$ 300 foi transformada em uma cobrança de R$ 1.800, dividir os R$ 1.800 em seis parcelas de R$ 300 não corrige o consumo, não explica a leitura, não demonstra a memória de cálculo e não elimina a cobrança indevida. Apenas esconde o aumento dentro das contas seguintes.

O consumidor continuará pagando o consumo mensal normal e, ao mesmo tempo, uma parcela correspondente ao valor que contesta.A RGE criou o problema no faturamento, definiu unilateralmente o parcelamento e transferiu aos consumidores a obrigação de pagar primeiro e discutir depois.

O PROBLEMA NÃO DEVE SER TRANSFORMADO EM MILHARES DE AÇÕES INDIVIDUAIS

Não é aceitável obrigar cada consumidor a enfrentar sozinho a concessionária, reunir faturas, registrar protocolo, procurar o Procon e ingressar no Juizado Especial para impedir o pagamento de uma conta que não reconhece.

Quando milhares de pessoas são atingidas pela mesma empresa, no mesmo período e por cobranças com características semelhantes, existem direitos individuais homogêneos de origem comum.

É exatamente para situações como essa que o Ministério Público possui atribuição constitucional para instaurar inquérito civil e propor ação civil pública.

O artigo 129, inciso III, da Constituição Federal atribui ao Ministério Público a defesa do patrimônio público e social e dos interesses difusos e coletivos. O Código de Defesa do Consumidor também reconhece sua legitimidade para atuar coletivamente em defesa dos consumidores. Portanto, não falta competência. Falta atuação proporcional à dimensão do problema.

O QUE O MINISTÉRIO PÚBLICO DEVE FAZER
  • O Ministério Público do Rio Grande do Sul deve ter instaurado imediatamente procedimento coletivo estadual para:requisitar à RGE os dados completos da alteração realizada em seu sistema de faturamento;
  • identificar todos os consumidores atingidos, os períodos de leitura e os critérios utilizados para calcular as contas;
  • comparar as cobranças atuais com o histórico de consumo das unidades;
  • determinar a apresentação das leituras reais dos medidores e das respectivas memórias de cálculo;
  • apurar a existência de faturamento acumulado, estimado ou produzido por falha operacional;
  • investigar a relação entre a migração do sistema e os aumentos extraordinários;
  • exigir auditoria técnica independente;
  • impedir a cobrança das parcelas relativas aos valores contestados;
  • proibir cortes de energia, negativação, protesto e cobrança de encargos enquanto durar a apuração;
  • determinar o refaturamento das contas incompatíveis com o consumo comprovado;
  • assegurar a restituição dos valores indevidamente pagos;
  • e ajuizar ação civil pública, caso a concessionária não apresente solução imediata e coletiva.
  • A Aneel e a Secretaria Nacional do Consumidor já foram acionadas. O superintendente de Mediação Administrativa e das Relações de Consumo da Aneel declarou que serão verificadas as causas das “majorações expressivas” registradas em Caxias e em todo o Rio Grande do Sul.
  • O Procon de Caxias também informou que mantém agenda com o Ministério Público para discutir as reclamações e avaliar medidas conjuntas.
  • Mas uma agenda para discutir providências não suspende contas, não impede cortes e não protege os consumidores quando as parcelas começarem a ser cobradas.
  • A dimensão estadual do problema exige uma atuação estadual, pública, imediata e transparente.
A DISFUNÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO

O Ministério Público foi criado para defender a sociedade quando a desigualdade entre o cidadão e o poder econômico impede uma reação individual eficiente.

Uma concessionária de serviço público possui estrutura jurídica, técnica e financeira para enfrentar milhares de reclamações separadamente. O consumidor, por outro lado, precisa faltar ao trabalho, enfrentar filas, repetir a mesma história em diversos canais e provar que não gastou aquilo que a empresa decidiu cobrar.

Quando o Ministério Público permanece aguardando que cada pessoa resolva isoladamente o mesmo problema, deixa de exercer a função coletiva que justifica sua existência. A disfunção está em transformar um fato estadual em milhares de conflitos particulares.

Está em permitir que a RGE escolha unilateralmente como cobrará valores ainda não explicados.
Está em admitir que o parcelamento automático seja apresentado como solução antes da comprovação da dívida. Está em deixar a investigação nas mãos da própria empresa que produziu as cobranças.

O Ministério Público não precisa esperar que milhares de consumidores sejam negativados, tenham a energia cortada ou ingressem na Justiça. As reclamações já existem. Os aumentos já foram documentados. Os Procons já identificaram o caráter coletivo. A Aneel já reconheceu a necessidade de verificar as majorações expressivas. O fato está posto.

Cabe ao Ministério Público decidir se cumprirá sua função constitucional ou se assistirá à transformação de um problema coletivo em milhares de processos individuais.

EM TEMPO DE ELEIÇÕES: AS OBRIGAÇÕES DO ESTADO

Em tempo de eleições, convém lembrar ao povo — transformado em chacota na atual “democracia” e cuja soberania virou limpa-pés de qualquer autoridade — que o Procurador-Geral de Justiça é nomeado pelo governador do Estado, entre os integrantes da lista tríplice formada dentro do próprio Ministério Público.

Também convém lembrar que o Estado não existe apenas para arrecadar, autorizar tarifas e assegurar a continuidade dos lucros das concessionárias.

O Estado possui obrigação de fazer: fiscalizar, investigar, exigir transparência, proteger os consumidores, impedir cobranças indevidas e assegurar a prestação adequada de um serviço público essencial.

E possui obrigação de não fazer: não pode permitir que valores ainda não explicados sejam automaticamente parcelados e cobrados; não pode admitir cortes de energia, negativação, protesto ou imposição de encargos enquanto a dívida estiver sob contestação; tampouco pode transferir a cada consumidor a obrigação de enfrentar sozinho uma irregularidade que atinge milhares de pessoas.

O cidadão vota, paga impostos, sustenta as instituições e recebe contas de energia que não consegue explicar nem pagar. Enquanto isso, precisa aguardar que as autoridades decidam se cumprirão as funções para as quais existem.

Como estamos vendo, podemos ficar no escuro por muito tempo.E não será o apocalipse enviado por Deus. Será apenas a RGE abusando, o Ministério Público se omitindo e o Estado descumprindo sua obrigação de impedir. O Povo? Melhor não comentar.

"Tem um Ministério Público no nosso caminho. No nosso caminho tem um Ministério Público"

16/08/2026

1990 - A escalada fascista


[publicado em 24 de março de 1990]

Assassinos da ordem jurídica, anunciadores do tumulto fascista que se desencadeia sobre a sociedade brasileira, esbirros de uma ditadura ainda sem nome -"Era Collor"?, "Brasil Novo"?- invadiram ontem a Folha de S.Paulo. Este fato culmina a série de agressões, de arbitrariedades e de violências que, em nome do combate à inflação, configuram um clima de terrorismo de Estado só comparável ao dos períodos mais infames e vergonhosos da história brasileira.

Esta Folha, que criticou duramente a candidatura Fernando Collor -como, aliás, todas as outras-; mas que aprovou a audácia do presidente na edição das medidas econômicas, vê essa audácia transformar-se em prepotência e tirania; vê nos apelos do chefe de Estado aos "descamisados", nas ameaças que profere contra a livre iniciativa, na arrogância pretensamente incontrastável de suas atitudes, na precária corte de bajuladores que se acanalha à sua volta e no espetáculo de desorganização política, de obscurantismo e mistificação que se estabelece em seu governo, os sinais inequívocos, alarmantes e inaceitáveis de uma aventura totalitária. Não se agrediu um jornal. Agrediu-se a democracia. O chefe de Estado não parece ver limites para seu messianismo; este se constrói na arbitrariedade, sustenta-se na ignorância, mantém-se pela força, prossegue no arbítrio: é o momento de dizer basta.

A democracia brasileira não tolera aspirantes a Ceausescu ou versões juvenis de Mussolini. Aberta, como qualquer empresa, à fiscalização das autoridades, esta Folha não aceita intimidações grosseiras nem ameaças policiais. O governo federal investe na subversão das leis e na destruição das liberdades políticas. A escalada repressiva terá de ser interrompida: mais uma vez, quando já parecia consolidado o processo de transição para a democracia, cumpre lutar contra os inimigos da liberdade.


03/08/2026

Quando a notícia cria a notícia

 

by Deise Brandão

Há uma linha tênue entre informar um fenômeno e ampliá-lo. Nem sempre ela é perceptível ao leitor. Às vezes, nem ao próprio jornalista.

A imprensa tem como missão revelar fatos relevantes, antecipar tendências e apresentar novos comportamentos sociais. Mas existe um efeito colateral pouco discutido: ao colocar determinados temas sob os holofotes, a cobertura jornalística também pode contribuir para aumentar sua visibilidade, despertar curiosidade e, em alguns casos, impulsionar sua disseminação.

Não se trata de censurar pautas ou defender que certos assuntos sejam ignorados. O desafio está em distinguir aquilo que representa um fenômeno social consolidado daquilo que ainda é apenas um comportamento localizado, uma experiência isolada ou uma curiosidade estatística.

No ambiente digital, essa diferença se torna ainda mais delicada.

É comum encontrar manchetes que anunciam uma "nova febre", uma "tendência mundial" ou um comportamento que "está dominando as redes". Muitas vezes, porém, essas afirmações se apoiam em poucos indicadores: um vídeo com milhões de visualizações, um aplicativo que ganhou repercussão em determinado nicho ou um levantamento produzido pela própria empresa interessada.

A pergunta que raramente aparece na reportagem é: isso realmente representa um fenômeno social ou apenas um conteúdo que chamou atenção do algoritmo?

Popularidade não é sinônimo de relevância social. Da mesma forma, alcance digital não significa adoção em larga escala.

Outro aspecto merece reflexão. A curiosidade é um dos motores do jornalismo. É natural que o leitor queira conhecer aquilo que nunca viu. Entretanto, ao apresentar determinados comportamentos de forma repetitiva, a cobertura pode produzir um efeito inesperado: pessoas que jamais teriam contato com aquela prática passam a conhecê-la justamente por meio da notícia.

Em outras palavras, a reportagem deixa de ser apenas uma observadora da realidade para também participar de sua circulação.

Esse fenômeno não é novo. Ao longo da história, diferentes áreas da comunicação estudaram como determinados comportamentos ganharam projeção nacional depois de intensa exposição midiática. Em alguns casos, a cobertura prestou um serviço público. Em outros, transformou exceções em aparentes regras.

É justamente por isso que o contexto é indispensável.

Sempre que uma reportagem apresenta um comportamento como tendência, algumas perguntas deveriam acompanhar a narrativa:

  • Existem dados independentes que comprovem sua dimensão?
  • Há pesquisas revisadas que sustentem as conclusões apresentadas?
  • O comportamento é frequente ou apenas incomum?
  • Estamos diante de uma mudança social ou de uma curiosidade interessante?

Essas perguntas não enfraquecem a notícia. Ao contrário: fortalecem sua credibilidade.

O jornalismo não precisa abrir mão de pautas curiosas ou inovadoras. Mas também não pode permitir que o entusiasmo por uma boa história substitua a proporcionalidade dos fatos.

Em tempos em que a informação circula na velocidade de um clique, talvez o maior compromisso do jornalista não seja apenas contar o que é novo, mas ajudar o leitor a compreender o tamanho real daquilo que está sendo noticiado.

Porque informar é essencial. Mas existe um momento em que a notícia deixa de apenas retratar a realidade e passa, ela própria, a influenciar a realidade que pretende explicar.

Reconhecer essa fronteira é um exercício permanente de responsabilidade jornalística.

20/07/2026

Esqueça os mortos. Eles não levantam mais.

 

Por Deise Brandão

A Câmara Municipal de Porto Alegre aprovou um projeto que assegura a travestis e pessoas transexuais o uso do nome social em cerimônias funerárias, urnas, lápides, jazigos e registros internos de cemitérios e crematórios.

A proposta foi apresentada como um avanço civilizatório. Segundo sua autora, trata-se de garantir “dignidade póstuma” às pessoas que não conseguiram retificar o nome civil enquanto estavam vivas.

Mas há uma pergunta anterior, elementar e aparentemente esquecida no entusiasmo parlamentar: se o nome social já é reconhecido em vida pelo poder público, qual seria exatamente o impedimento para utilizá-lo numa lápide?

A identidade de gênero declarada permite que uma pessoa seja socialmente identificada pelo nome escolhido, utilize serviços públicos, apresente-se em repartições, frequente espaços correspondentes ao gênero com o qual se identifica, case-se e exerça funções políticas e institucionais. A própria Câmara de Porto Alegre reconhece essa identidade durante a vida.

Por que, então, seria necessária uma lei específica para autorizar que o mesmo nome fosse gravado numa pedra?

Se a pessoa alterou oficialmente o registro civil, a questão deveria estar resolvida: o nome reconhecido legalmente é aquele que constará nos documentos e poderá ser utilizado pela família nos atos funerários.

Se não houve alteração registral, mas a pessoa deixou manifestação expressa de sua vontade, também não parece existir mistério. Cumpre-se aquilo que ela determinou.

O problema começa quando o projeto permite que familiares, companheiros ou responsáveis solicitem o uso de um nome social sem que a pessoa falecida tenha deixado qualquer declaração escrita nesse sentido.

O morto não confirma. Não contesta. Não explica. Não escolhe. Não assina.

Quem falará em seu nome?

Pelo texto aprovado, a família poderá solicitar o chamado “nome social póstumo”. Mas o que acontecerá quando houver divergência entre os familiares? Quem decidirá qual nome representava efetivamente a pessoa? Bastará a declaração de um parente? Será necessário apresentar documentos, fotografias, registros profissionais ou testemunhas? E se outra parte da família se opuser? O cemitério realizará uma investigação sobre a identidade de gênero do falecido?

Nada disso foi adequadamente esclarecido.

A proposta assegura que o nome social, uma vez solicitado, seja o único a aparecer na lápide, no jazigo ou na urna funerária. O nome civil permanecerá restrito aos documentos internos. Uma emenda, porém, determinou que sejam respeitadas as normas federais sobre registros públicos e que os dados do registro civil oficial não sejam alterados.

Cria-se, assim, uma estranha situação: o documento oficial preserva um nome; a lápide apresenta outro; e a escolha pode ser feita por terceiros depois da morte, mesmo sem manifestação expressa deixada pela pessoa diretamente interessada.

Não se está protegendo apenas uma vontade comprovada. Em determinadas situações, está-se autorizando que alguém construa uma identidade póstuma em nome de quem já não pode dizer se concorda.

Isso não é um detalhe jurídico. É o centro da questão.

Quem fará e quem pagará?

O projeto também não responde satisfatoriamente às questões práticas.

Quem modificará as lápides já existentes? A Prefeitura? A administração dos cemitérios? As famílias? Empresas contratadas? A regra alcançará apenas sepultamentos realizados depois da entrada em vigor ou também túmulos antigos?

Quem pagará a retirada de uma inscrição, a substituição da placa ou a confecção de uma nova lápide?

O Município assumirá a despesa nos cemitérios públicos? A família deverá pagar? Os cemitérios privados serão obrigados a suportar os custos? Haverá verba orçamentária? Foi calculado algum impacto financeiro?

O projeto não apresenta estimativa. Limita-se a determinar que cemitérios e crematórios públicos e privados adaptem seus regulamentos e sistemas de informação. Também prevê sanções administrativas e possíveis responsabilidades civis e penais em caso de descumprimento, sem estabelecer com precisão qual conduta geraria responsabilidade penal — matéria que, aliás, não pode ser criada por uma lei municipal.

No vídeo que divulgou a polêmica, afirma-se que a Prefeitura “vai sair retificando” lápides. Isso não está escrito no projeto. A lei não institui uma operação municipal para percorrer cemitérios trocando placas. Mas a ausência dessa determinação não elimina o problema. Ao contrário: evidencia que foi aprovado um direito sem a explicação de como será executado, fiscalizado ou custeado.

A Câmara aprovou o princípio. Deixou a realidade para depois.

A cidade que ainda não se recuperou

A discussão seria apenas excêntrica se estivéssemos falando de uma cidade sem urgências. Mas estamos falando de Porto Alegre.

Em maio de 2024, a capital gaúcha foi tomada pela água. Bairros inteiros foram inundados. Pessoas morreram, famílias perderam suas casas, empresas desapareceram, hospitais foram atingidos e milhares de moradores ficaram desabrigados. O sistema de proteção contra cheias revelou falhas gravíssimas de manutenção, operação, fiscalização e planejamento.

Dois anos depois, a cidade ainda convive com as consequências daquela tragédia. Moradores continuam temendo novos alagamentos. Há bombas, comportas, diques, drenagens e redes pluviais cuja eficiência precisa ser permanentemente fiscalizada. A recuperação urbana está longe de representar segurança definitiva.

Não é correto afirmar que a Câmara nada tenha feito sobre o tema: houve reuniões, audiências e, em novembro de 2025, foi aprovado um projeto instituindo uma política municipal de incentivo ao desassoreamento de corpos hídricos. Mas o contraste permanece. Depois de uma catástrofe que matou pessoas e expôs a fragilidade do sistema de proteção da capital, o Legislativo ainda deve à população fiscalização rigorosa, respostas estruturais e garantias concretas de que Porto Alegre não voltará a ser submersa pela mesma combinação de chuva, negligência e improviso.

Nesse cenário, vereadores encontraram tempo político para discutir qual nome será colocado na lápide de alguém que já morreu.

Enquanto isso, os vivos esperam.

Esperam no ponto de ônibus. Esperam atendimento nos postos de saúde. Esperam obras de drenagem. Esperam o conserto das ruas. Esperam segurança contra uma nova enchente. Esperam que o dinheiro público seja aplicado naquilo que impede sofrimento, destruição e morte.

A dignidade das pessoas trans deve ser respeitada. Não há qualquer dúvida sobre isso. O nome escolhido em vida deve ser preservado quando houver registro ou manifestação inequívoca da própria pessoa.

Mas reconhecer esse direito não obriga ninguém a suspender o raciocínio crítico.

Uma sociedade pode respeitar identidades sem permitir que terceiros inventem vontades depois da morte. Pode combater a discriminação sem transformar toda demanda simbólica em prioridade legislativa. Pode reconhecer direitos sem abandonar critérios de necessidade, urgência, competência e impacto coletivo.

E, principalmente, pode perguntar por que a política se mostra tão eficiente para produzir símbolos e tão lenta para impedir tragédias.

Uma lápide não sente dor. Não passa fome. Não espera ônibus. Não perde a casa numa enchente. Não precisa de atendimento médico. Não teme morrer.

Os vivos, sim. Antes de garantir dignidade às pedras, é conveniente garantir segurança às pessoas.

Esqueça os mortos. Eles não levantam mais.


06/07/2026

Anatomia de uma Versão: Como a sociedade é manipulada sem perceber


by Deise Brandão

Existe uma diferença brutal entre informação e reprodução de roteiro. No jornalismo investigativo e na perícia forense, aprendemos cedo que o diabo não apenas mora nos detalhes, mas ele se esconde na pressa com que tentam nos entregar uma história "redonda". Quando uma notícia não fecha, quando as peças são encaixadas à força, o faro de quem busca a verdade acende o alerta.

Na noite de ontem, (5/7) um caso em São Francisco de Paula expôs as vísceras desse mecanismo de manipulação diária a que todos somos submetidos. Vamos analisar os fatos, os furos e o teatro da narrativa.

O Caso: O Roteiro Oficial

Na noite de domingo, 5 de julho de 2026, uma ocorrência de violência doméstica (Lei Maria da Penha) no bairro Santa Isabel, em São Francisco de Paula, terminou com um homem morto após confronto com a Brigada Militar.

De acordo com o relato preliminar da Polícia Civil e as notas emitidas pela guarnição, os policiais foram acionados porque o homem, em visível estado de alteração, ameaçava incendiar a residência onde estava. Ao chegar ao local, a equipe tentou a abordagem, mas o suspeito teria desobedecido às ordens da equipe e permaneceu armado com uma faca. Diante da resistência, os policiais afirmam ter utilizado um dispositivo de incapacitação neuromuscular (taser), mas alegam que a medida "não foi suficiente" para conter a ação. O homem teria avançado contra os policiais empunhando a faca e, diante da "iminente ameaça", um dos integrantes da guarnição efetuou um disparo de arma de fogo. O SAMU foi acionado, mas o homem morreu no local. O caso será investigado pela Delegacia de Polícia local. (Fonte: Jornal Digital Canela)

A Desconstrução Pericial: Onde a Linha Desfia

Para o leitor comum, a história acima parece triste, mas "justificada". Para quem investiga, ela é uma colcha de retalhos lógica. Se começarmos a puxar os fios, a versão oficial desmorona em três pontos centrais:

1. O Sumiço do Fogo e o "Milagre" da Faca

A justificativa para o acionamento da polícia, o elemento que elevou a gravidade da ocorrência ao extremo, foi a ameaça de incendiar a residência. Para botar fogo em uma casa, a materialidade do crime exige um meio: fósforo, isqueiro, álcool, gasolina. No entanto, no momento em que a polícia chega, o material inflamável desaparece da narrativa e o homem surge apenas com uma faca na mão. Se ele queria queimar a casa, cadê o combustível? A incongruência é brutal. Ou a denúncia foi inflada para acelerar a viatura, fazendo a polícia entrar no local com a adrenalina no teto esperando um incendiário, ou a história do "incêndio" foi usada para pintar o homem como um monstro público perigosíssimo, legitimando uma ação mais agressiva.

2. O Mito do Taser que "Não Funciona"

A narrativa tenta criar uma linha do tempo onde os policiais foram heróis pacientes: usaram a força não letal (taser) e, como não deu certo, foram "obrigados" a atirar. Isso não se sustenta tecnicamente. O taser promove uma incapacitação neuromuscular imediata. O alvo perde o controle do corpo e cai. Se o indivíduo estava sob o efeito de álcool ou drogas, o choque o deixa grogue e incapacitado por um bom tempo. Dizer que o taser "não foi suficiente" e que, no instante seguinte, o homem "avançou com a faca" mostra uma transição rápida demais. Houve falha no equipamento? Os dardos pegaram na roupa grossa do inverno da Serra Gaúcha e não cravaram? Ou o protocolo de uso progressivo da força foi simplesmente atropelado pelo nervosismo da guarnição? A pressa em justificar o tiro letal grita nesse parágrafo.

3. A Falsa Cortina da "Proteção à Vítima"

A matéria se encerra com uma manobra editorial clássica: omite-se o nome do homem que morreu sob o pretexto de "preservar a identidade da vítima de violência doméstica". Vamos falar de realidade prática? São Francisco de Paula tem pouco mais de 22 mil habitantes. Em uma comunidade desse tamanho, um confronto com morte no bairro Santa Isabel é conhecido por Deus e o mundo em questão de horas. Ocultar o nome do falecido na notícia não protege a mulher; protege o histórico do morto. Impede que a sociedade e a imprensa independente questionem: quem era esse homem? Ele tinha antecedentes? Tinha histórico de surtos psiquiátricos? Estava em tratamento? Ao apagar o nome, apaga-se o contexto, restando apenas a figura genérica do "agressor com uma faca".

O Papel da Investigação: O que diz a Polícia Civil

A delegada Fernanda Aranha, titular da Delegacia de Polícia de São Francisco de Paula, confirmou à reportagem da Folha que a investigação ficará a cargo da Polícia Civil. O inquérito deverá apurar toda a dinâmica da ocorrência, incluindo as circunstâncias da intervenção policial.

Essa manifestação traz o peso técnico necessário ao caso, estabelecendo pontos fundamentais:

  • A conduta policial sob análise: Ao pontuar que o inquérito vai apurar as "circunstâncias da intervenção policial", a autoridade deixa claro que a ação da Brigada Militar não está previamente chancelada. A legalidade do disparo e o cumprimento dos protocolos de uso da força serão devidamente escrutinados pela polícia judiciária.

  • O sumiço da vítima real: Embora o rito legal do inquérito esteja garantido, o foco midiático imediato ainda escanteia a origem de tudo: a violência contra a mulher. No momento em que o agressor é baleado e morto, a ocorrência da Lei Maria da Penha desaparece do clamor público. Onde está o depoimento dessa mulher para confirmar as ameaças de fogo ou o ataque aos policiais? O trabalho investigativo terá que resgatar essa peça fundamental para entender a real atmosfera do cenário.

O Perigo do "Copia e Cola"

O que a grande maioria dos veículos de imprensa faz hoje — e que o público consome como verdade absoluta — não é jornalismo; é assessoria de imprensa técnica. O texto reproduzido é um "copia e cola" do boletim de ocorrência e das notas da corporaçãoEle foi desenhado para carimbar o caso como legítima defesa estrita antes mesmo que a perícia técnica de local de crime tenha analisado a trajetória da bala, a posição do corpo ou as marcas dos dardos do taser.

Beba na Fonte

05/07/2026

O papel aceita tudo. A imprensa compra e vende o tudo.

by Deise Brandão

     O papel aceita tudo, inclusive a pompa das coletivas de imprensa. Nesta semana, as forças de segurança do Rio Grande do Sul se reuniram na Cidade da Polícia para apresentar, com toda a formalidade de praxe, os resultados da Operação Mulher Segura. No release oficial distribuído à imprensa, os números parecem vistosos: 894 policiais mobilizados, 148 prisões em flagrante e 2.675 Medidas Protetivas de Urgência (MPUs) fiscalizadas ao longo de um mês em todo o estado.

     Para o cidadão comum, pode parecer um estrondo. Mas para quem tem olho clínico de jornalista raiz e se recusa a apenas copiar e colar relatórios oficiais, a conta simplesmente não fecha. Quando saímos da bolha da propaganda institucional e cruzamos a realidade com o tamanho do nosso estado, o que era para ser uma celebração se transforma no retrato escancarado de um Estado que está enxugando gelo.

         A contradição é matemática e dolorosa:

  • A Realidade das Mortes: Enquanto a publicidade foca em 148 prisões pontuais, o Rio Grande do Sul já atingiu a trágica marca de 40 feminicídios consumados neste ano. Esse número assustador representa exatamente a metade de todas as mortes de mulheres registradas ao longo de todo o ano anterior. O ritmo da violência acelerou, e nenhuma operação de trinta dias conseguiu conter essa sangria.

  • O Abismo dos Números: Celebrar a fiscalização de 2.675 medidas protetivas em âmbito estadual chega a ser tímido. Segundo dados do Tribunal de Justiça do RS (TJRS), correm hoje no estado mais de 100 mil ações ativas por violência doméstica. Só no ano passado, foram solicitadas 69 mil novas medidas protetivas pelas mulheres gaúchas. O que o Estado fiscalizou em um mês de esforço concentrado é um pingo d'água no oceano de processos que tramitam no Judiciário.

  • O Cerco Tecnológico: A própria Secretaria de Segurança Pública (SSP-RS) escancara a gravidade do cenário ao confirmar que precisou colocar 1,2 mil agressores sob monitoramento de tornozeleira eletrônica. O número quadruplicou em relação ao ano passado, provando que o policiamento tradicional e as ordens judiciais no papel já não dão conta de conter quem quer matar.

      Operações de impacto são válidas, geram imagens bonitas para os telejornais e alimentam as estatísticas do governo, mas não resolvem o deficit diário de estrutura que as mulheres enfrentam nas pontas — especialmente nas pequenas cidades do interior, onde a viatura não chega a tempo e o efetivo é escasso.

     A verdade nua e crua por trás dos releases é que o aparato de repressão corre atrás do prejuízo. Celebrar números absolutos sem contextualizar com a epidemia real é uma tentativa cinzenta de mascarar a insuficiência do sistema.

       O jornalismo de verdade não aplaude o palco; ele expõe o tamanho do abismo.

Celular no silencioso: O que essa escolha revela sobre a sua mente, segundo a psicologia


Muito além de evitar barulho, manter o aparelho no modo silencioso tornou-se uma estratégia de sobrevivência emocional e produtividade na era da hiperconectividade.

Por Deise Brandão

Você provavelmente conhece alguém que mantém o celular no modo silencioso 24 horas por dia — ou talvez você seja essa pessoa. Em um mundo onde a conectividade constante é a regra, a escolha de emudecer o aparelho pode parecer um ato de rebeldia digital. No entanto, para a psicologia e a neurociência, esse comportamento revela muito mais do que uma simples preferência por discrição: trata-se de uma ferramenta psicológica para preservar a saúde mental e o foco.

A ditadura das interrupções e o preço do foco

Viver com o celular emitindo bipes e vibrações constantes coloca o cérebro em um estado de alerta permanente. O neurocientista Daniel J. Levitin, autor do livro “The Organized Mind”, explica que a expectativa por respostas imediatas e o ruído digital constante prejudicam severamente nossa capacidade de raciocínio. Segundo o especialista, muitas pessoas escolhem o silêncio absoluto como uma forma consciente de recuperar a calma e blindar a produtividade.

O impacto das notificações no nosso cérebro é mensurável. Pesquisas indicam que, após sofrer uma única interrupção externa (como um som de WhatsApp ou uma chamada), o cérebro leva, em média, 23 minutos e 15 segundos para retomar totalmente a concentração na tarefa anterior. Ao silenciar o telefone, o indivíduo assume o controle do seu tempo, decidindo o momento exato em que vai interagir com o mundo, em vez de ser interrompido por ele.

Um escudo contra o "Tecnoestresse"

O termo "tecnoestresse" não é novo. Cunhado pelo psiquiatra americano Craig Brod em 1984, o conceito definia o esgotamento causado pela introdução dos computadores no ambiente de trabalho. Hoje, transbordou para a vida pessoal. O bombardeio diário de estímulos visuais e sonoros gera uma sobrecarga mental que o corpo absorve na forma de ansiedade.

Silenciar as notificações funciona como um gerenciamento proativo do estresse. Instituições de saúde e universidades, como a UNAM, recomendam impor limites rígidos às telas e aos horários de alertas para incentivar as conexões reais. No ambiente social, inclusive, deixar o telefone mudo durante uma conversa cara a cara é um forte indicador de inteligência social: sinaliza empatia e mostra que a pessoa à sua frente tem toda a sua atenção.

O paradoxo do silêncio: O efeito FOMO

Apesar dos inúmeros benefícios para a paz de espírito, o modo silencioso esconde uma armadilha psicológica curiosa. Um estudo publicado em 2022 no periódico Computers and Human Behavior revelou que deixar o celular no mudo pode, paradoxalmente, fazer com que algumas pessoas olhem para a tela mais vezes ao longo do dia.

Isso acontece devido ao fenômeno do FOMO (Fear of Missing Out, ou o "medo de estar perdendo algo"). A incerteza gerada pela ausência do som faz com que o usuário cheque o aparelho de forma compulsiva, movido pela ansiedade de que possa haver uma mensagem importante esperando por ele.

O veredito

No balanço final, a psicologia valida o celular no silencioso como uma escolha madura de autoconhecimento. Se a ausência de toques estridentes ajuda você a estabelecer barreiras saudáveis entre o mundo digital e a sua vida pessoal, reduzindo a ansiedade, você já ganhou mais qualidade de vida do que imagina. O silêncio, afinal, virou o maior luxo da vida moderna.

03/07/2026

MPRS entra com ação de R$ 40 milhões contra Corsan e Aegea por cobranças abusivas


Investigação em Santa Maria aponta cobranças indevidas, faturamento por serviços não prestados e aplicação de multas sem respaldo técnico. Órgão pede interrupção imediata das práticas.

by Deise Brandão

O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) ajuizou uma Ação Civil Pública contra a Corsan e a Aegea Saneamento, acusando as concessionárias de adotarem um modelo de cobrança marcado por práticas abusivas. A ofensiva jurídica, que toma como base uma investigação conduzida em Santa Maria, aponta que milhares de consumidores vêm sendo penalizados financeiramente por irregularidades sistemáticas na prestação do serviço.

Além de exigir a suspensão imediata das cobranças consideradas ilegais, o MPRS requer a condenação das empresas ao pagamento de R$ 40 milhões por danos morais coletivos. Caso a Justiça conceda a condenação, o montante será revertido ao Fundo para Reconstituição de Bens Lesados (FRBL).

As irregularidades apontadas

A ação é fruto de um procedimento investigatório liderado pela promotora de Justiça Giani Saad. O órgão reuniu um robusto conjunto de provas que inclui dados do Procon, processos judiciais em andamento, relatórios de órgãos reguladores e centenas de denúncias diretas de usuários.

Entre as principais ilegalidades identificadas pelo Ministério Público estão:

  • Cobrança por média: Faturamento baseado em estimativas, sem respaldo técnico ou leitura real dos hidrômetros.

  • Tarifa de esgoto indevida: Cobrança pelo serviço de esgotamento sanitário em imóveis localizados em regiões onde sequer existe rede coletora ou possibilidade de ligação.

  • Contas incompatíveis: Discrepâncias graves entre o consumo real de água das residências e os valores cobrados nas faturas.

  • Multas abusivas: Aplicação de penalidades financeiras sem a devida comprovação de irregularidades por parte do consumidor.

Impacto na população vulnerável

Para o Ministério Público, o cenário apurado não reflete falhas isoladas de sistema, mas sim uma prática comercial recorrente. O impacto é sentido de forma mais severa pela população de baixa renda. De acordo com o texto da ação, famílias em situação de vulnerabilidade social estão sendo obrigadas a comprometer o orçamento de despesas básicas e essenciais, como alimentação e saúde, para evitar o corte no abastecimento de água.

"O conjunto de provas demonstra irregularidades sistemáticas na prestação do serviço e no faturamento dos consumidores", sustenta o MPRS na petição, reforçando a necessidade de uma liminar urgente para estancar os prejuízos aos usuários.O pedido de indenização de R$ 40 milhões possui, segundo os promotores, um caráter pedagógico e punitivo, com o objetivo de forçar as concessionárias a adequarem seus procedimentos operacionais à legislação consumerista e garantirem o respeito aos direitos dos cidadãos gaúchos.

O que dizem as empresas

Até o momento, a Corsan e a Aegea Saneamento não se manifestaram oficialmente sobre o teor da ação civil pública. O espaço segue aberto para o posicionamento das concessionárias.

Origem dos dados: Jornal Essência do Vale / Ministério Público do RS.

O Pragmatismo que Engole a Memória: As Voltas que a Política Dá no RS

 

Por Deise Brandão

Quem acompanha os bastidores da política com o olhar atento de quem não se deixa levar por discursos prontos sabe que a memória é o primeiro cadáver a tombar no altar das conveniências eleitorais. No Rio Grande do Sul, o cenário político frequentemente nos oferece espetáculos de contorcionismo ideológico que desafiam a lógica do eleitor, mas revelam a essência do pragmatismo pelo poder.

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa dinâmica ocorreu no desfecho da eleição para o governo do Estado em 2022. Para entender o tamanho da ironia, precisamos retroceder um pouco no tempo.

Anos antes, a esquerda gaúcha, liderada pelo PT, empunhava bandeiras pesadas contra a gestão de Eduardo Leite. Cobrava-se vigorosamente a fiscalização da saúde pública, trazendo à tona episódios desgastantes como o escândalo dos exames de pré-câncer por amostragem em Pelotas, herdado do período em que o tucano foi prefeito. Criticava-se, com igual veemência, a condução econômica do Estado e a adesão ao Regime de Recuperação Fiscal, apontada pela oposição como o sufocamento definitivo das finanças gaúchas.

As urnas de 2022, contudo, desenharam um roteiro digno de cinema. Após um primeiro turno decidido por uma nesga de pouco mais de 2,4 mil votos — que tirou Edegar Pretto (PT) do páreo e empurrou Eduardo Leite para a etapa final contra Onyx Lorenzoni (PL) —, o cenário mudou drasticamente.

Em questão de dias, os mesmos palanques que despejavam críticas contundentes à gestão de Leite viram-se na obrigação de recalcular a rota. Sob a justificativa do "voto útil" e da necessidade de barrar o avanço do bolsonarismo no Rio Grande do Sul, o PT gaúcho anunciou um inédito, embora desconfortável, apoio crítico à reeleição do tucano.

A nível nacional, a costura já havia sido pavimentada: Geraldo Alckmin, outrora símbolo do PSDB histórico, migrava para o PSB para compor como vice na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva. No plano estadual, embora Leite corresse com Gabriel Souza (MDB) como seu vice oficial, foi o eleitorado de esquerda, outrora crítico ferrenho, que garantiu o combustível necessário para mantê-lo no Palácio Piratini.

O resultado dessa grande salada política está aí para quem quiser ver.

Para uma parcela expressiva do eleitorado, o abraço pragmático entre velhos rivais deixou um gosto amargo. As promessas de campanha e as coalizões de ocasião frequentemente cobram seu preço na governabilidade, e as críticas do passado sobre o colapso dos serviços públicos e o endividamento do Estado continuam ecoando nas conversas de balcão e no bolso do cidadão gaúcho.

A política, afinal, tem dessas coisas: une os distantes, silencia os críticos e prova que, no tabuleiro do poder, o inimigo de ontem pode ser o oxigênio de amanhã. Resta saber até quando o eleitor aceitará o papel de mero espectador dessas conveniências.

02/07/2026

RS - Ação da Polícia Civil apura fraudes em licitações e orçamentos judiciais envolvendo medicamentos de alto custo. Sete pacientes morreram durante o período de tratamento.

                                                  (Polícia Federal/Divulgação) 
by Deise Brandão

Uma investigação liderada pela Delegacia de Polícia de São Gabriel, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, desarticulou um grupo criminoso suspeito de fraudar o fornecimento de medicamentos oncológicos de alto custo custeados por verbas públicas. Denominada Operação Placebo, a ação cumpriu 57 mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão preventiva contra envolvidos em fraudes de orçamentos, uso de empresas de fachada e fornecimento de remédios falsificados.

As medidas cautelares miraram 15 pessoas e 14 empresas. Entre as decisões da Justiça, estão o bloqueio de R$ 2,5 milhões em bens dos investigados e a suspensão temporária do exercício profissional dos operadores do esquema.

Como funcionava a fraude

De acordo com os investigadores, o esquema começava com a atuação do médico oncologista Fernando Borges da Silva, que atua em Santa Maria. Cabia a ele captar os pacientes em tratamento e fornecer os laudos médicos necessários. Em seguida, o médico os encaminhava para três advogados parceiros no esquema: Éverson Dornelles de Dornelles, Esther Cowan Kotula e Rita Gabriela Schweickardt Werner.

Esse núcleo jurídico ingressava com ações na Justiça solicitando o bloqueio de verbas públicas para garantir o tratamento. Uma vez liberado o dinheiro — que chegava a R$ 800 mil por lote —, entrava em ação o núcleo empresarial, comandado pelo empresário Lisandro Henriques Hermes, de São Gabriel, que acabou preso preventivamente.

Lisandro utilizava sócios "laranjas" e empresas de fachada (como a Licifarma e a LH Medicamentos) para simular concorrência nos processos judiciais e garantir que suas distribuidoras vencessem as cotações. Em vez de entregar os remédios originais, o grupo fornecia medicamentos sob forte suspeita de falsificação ou realizava entregas parciais.

Erros de grafia chamaram a atenção

O caso começou a ser descoberto depois que uma farmacêutica da Santa Casa de São Gabriel desconfiou de embalagens do medicamento Enhertu (indicado para o tratamento de câncer de mama). O produto apresentava diversas inconsistências visuais e até erros grosseiros de grafia na caixa.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já havia emitido um alerta de apreensão e proibição de comercialização de lotes do medicamento após constatar unidades falsificadas no mercado.

Vítimas e desdobramentos

A Polícia Civil já mapeou pelo menos 39 pacientes que foram vítimas do golpe. Desse total, sete pessoas faleceram durante o tratamento. Exames periciais estão em andamento para determinar se as mortes foram aceleradas pela ausência do princípio ativo ou pela toxicidade do produto adulterado.

O prefeito de São Gabriel, Lucas Menezes, confirmou o afastamento do médico investigado das funções públicas no município. O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) informou que abrirá uma sindicância para apurar a conduta ética do profissional assim que receber os documentos oficiais da polícia.

O que dizem os citados

Lisandro Henriques Hermes (empresário): Negou qualquer envolvimento com o médico ou com os advogados, e declarou desconhecer a falsificação dos medicamentos. Sobre as caixas sem identificação apreendidas em sua posse, afirmou que eram descartes de controle de qualidade de uma fábrica, mas não explicou por que ele mantinha os produtos.

Fernando Borges da Silva (médico): Por meio de sua defesa, negou categoricamente a prática de qualquer conduta ilícita, afirmando estar totalmente à disposição da Justiça e confiante de que os fatos serão esclarecidos no decorrer das investigações.

Desdobramento II: Caminhão da Polícia Civil chega a São Gabriel lotado de medicamentos apreendidos em Taquara

As investigações da Operação Placebo ganharam um novo e robusto capítulo. No final da tarde desta quarta-feira (1º), um caminhão da Polícia Civil desembarcou na Delegacia de Polícia de São Gabriel trazendo uma grande quantidade de medicamentos apreendidos. O material é fruto de novas diligências realizadas no município de Taquara, na Região Metropolitana de Porto Alegre.

A chegada dessa nova carga comprova que as ramificações do esquema de fraudes na saúde — que utilizava verbas públicas judiciais destinadas a pacientes com câncer — iam muito além da Fronteira Oeste e da região central do Estado.

Perícia ou Incineração: O destino das apreensões

Sob a coordenação do delegado Daniel Severo, a equipe da DP de São Gabriel agora se debruça sobre o inventário do material trazido de Taquara. O destino de cada lote de medicamento seguirá critérios rigorosos:

Análise Pericial: Parte dos remédios de alto custo passará por exames laboratoriais detalhados para verificar a composição química e atestar se o princípio ativo foi adulterado ou se os produtos são integralmente falsificados.

Incineração: Os medicamentos que não tiverem sua procedência legal comprovada pelas distribuidoras investigadas, mas que não se enquadrarem como falsificações diretas, serão destruídos e queimados, seguindo os protocolos legais de descarte de resíduos de saúde.

O cerco se fecha contra a organização

A descoberta desse depósito de medicamentos em Taquara reforça a tese dos investigadores de que o grupo mantinha uma logística estruturada para simular concorrências e estocar insumos duvidosos.

O esquema consistia em usar empresas interligadas e sócios "laranjas" para vencer cotações judiciais de remédios oncológicos (como o Enhertu), elevando artificialmente os preços pagos pelo poder público e entregando remédios sob forte suspeita de falsificação.

A Polícia Civil reitera que os trabalhos continuam em ritmo acelerado para rastrear a rota financeira do grupo, identificar novos depósitos clandestinos e apontar todos os envolvidos que lucraram às custas da vida de pacientes oncológicos no Rio Grande do Sul.

Origem dos dados: Setor de Investigações da Delegacia de Polícia de São Gabriel.

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