domingo, 4 de janeiro de 2026

1984 não foi profecia. Foi aviso. Manual.

 

by Deise Brandão

O que eu vejo quando olho para 1948

O que eu vejo ali é registro.

Quando Orwell escreve 1984, em 1948, o mundo já tinha atravessado o ponto de retorno. A revolução do proletariado, como promessa histórica, não caiu apenas por repressão — caiu porque se mostrou inútil para quem queria poder durável. Revolução é barulho, é risco, é instabilidade. Sistema é silêncio. E silêncio governa melhor.

O que Orwell faz não é imaginar um futuro distante. Ele organiza, em forma de narrativa, aquilo que já estava funcionando: a substituição da força bruta pelo controle psicológico, da censura explícita pela edição da linguagem, da violência direta pela culpa internalizada. O poder não precisava mais de tanques. Precisava de adesão.

Por isso, quando chamam 1984 de profecia, eu vejo desatenção — ou comodismo. Profecia isenta quem lê. Aviso responsabiliza. 1984 é aviso.

E isso vale também para Os Simpsons. Não há previsão ali. Há leitura de padrão. Quem entende o funcionamento da mídia, do comportamento de massa e da repetição cultural não adivinha o futuro — apenas reconhece a trajetória antes que ela fique óbvia.

1948, para mim, é o ano-chave porque ali se consolida a virada:
a revolução fracassa como evento histórico, e o controle vence como método global. Não se trata mais de comunismo ou capitalismo. Trata-se de gestão do humano — de linguagem, de memória, de medo, de narrativa.

Nada disso aconteceu “de repente”.
Nada disso foi obra do acaso.
E nada disso precisa ser romantizado.

Quando olho para trás, não vejo profecias se cumprindo.
Vejo avisos ignorados — e um sistema que aprendeu a funcionar exatamente como foi descrito.

Essa é a leitura que eu faço.
E não consigo mais fingir que é ficção.

1984, Os Simpsons e o erro coletivo de chamar aviso de profecia

Existe um equívoco recorrente — e perigosamente confortável — em tratar certas obras como profecias. É o caso de 1984 e, em outro registro cultural, de Os Simpsons.

Não são previsões.
Não são “adivinhações geniais”.
São avisos baseados em leitura profunda da realidade do próprio tempo.

E isso muda tudo.

1948: quando o mundo já estava decidido

1984 foi concluído em 1948, não por acaso. Orwell não escreve sobre um futuro distante. Ele codifica o presente — e o projeta alguns passos à frente para torná-lo visível.

Naquele ano, o mundo já havia entendido algo fundamental:
a revolução do proletariado falhou como ruptura histórica.

A tomada do poder pelas massas mostrou-se instável, violenta e imprevisível. O modelo precisava mudar.
E mudou.

Do levante ao sistema

Até meados do século XX, o poder era disputado:

  • por armas,

  • por ruas,

  • por discursos inflamados.

Depois da Segunda Guerra, o eixo se desloca:

  • o poder passa a ser administrado,

  • o controle passa a ser psicológico,

  • a obediência passa a ser internalizada.

É exatamente isso que 1984 descreve.

Não como ficção futurista, mas como manual técnico do funcionamento do totalitarismo moderno:

  • controle da linguagem,

  • reescrita permanente da história,

  • vigilância normalizada,

  • medo difuso,

  • inimigo sempre mutável,

  • culpa coletiva,

  • supressão do indivíduo em nome de um “bem maior”.

Nada disso depende de bandeira ideológica específica.
Depende de estrutura.

Orwell não estava “prevendo”. Estava registrando.

George Orwell:

  • participou de conflitos reais,

  • conhecia propaganda por dentro,

  • viveu regimes autoritários,

  • rompeu com o romantismo político,

  • escrevia já doente, consciente da morte.

1984 não nasce de imaginação futurista, mas de observação brutal do que já estava em curso.

A inversão do ano no título não é jogo literário.
É assinatura histórica.

Os Simpsons seguem a mesma lógica — em outro tom

Quando Os Simpsons “acertam” acontecimentos, o público chama de profecia.
Não é.

O seriado opera com:

  • leitura aguda de tendências sociais,

  • exagero satírico,

  • análise de comportamento coletivo,

  • compreensão dos rumos do poder, da mídia e da tecnologia.

O que parece previsão é, na verdade, diagnóstico antecipado.

Assim como 1984.

O erro não está nas obras. Está no público.

Chamar isso de profecia é confortável porque:

  • transfere a responsabilidade,

  • cria misticismo,

  • impede reflexão crítica.

Mas o papel dessas obras é outro:
avisar enquanto ainda é possível perceber o mecanismo funcionando.

O problema é que avisos exigem consciência.
Profecias exigem apenas espanto.

1984 não “aconteceu”. Ele continua acontecendo.

Não vivemos sob um único regime totalitário clássico.
Vivemos sob fragmentos normalizados de controle:

  • narrativas oficiais mutáveis,

  • censura travestida de proteção,

  • vigilância aceita como conveniência,

  • linguagem moldada,

  • memória coletiva editada,

  • indivíduos pressionados a se auto-vigiar.

Isso não é coincidência.
É método.

Chega de romancear

1984 e Os Simpsons não são bolas de cristal.
São espelhos adiantados.

Quem chama de profecia perdeu o ponto central:
o sistema não caiu do céu — ele foi construído, testado e aplicado.

E 1948 é um marco porque ali ficou claro que:

  • a revolução aberta fracassou,

  • o controle silencioso venceu,

  • o poder deixou de gritar e passou a organizar.

Não é literatura fantástica.
É história mal digerida.

Aqui não tem profecia.
Tem leitura de mundo — e aviso ignorado.
_____________________________
Documentario sobre 1984, George Orwel. Vale muito assistir. 


Erin Brockovich: Uma mulher de talento.

by Deise Brandão

O nome dela é Erin Brockovich.

E tudo começou com uma pergunta simples — e perigosa: por quê?

Em 1993, Erin era mãe solo de três filhos, duas vezes divorciada, sem dinheiro e sem prestígio. Trabalhava arquivando papéis em um pequeno escritório de advocacia. Um lugar onde ninguém espera que você pense. Muito menos que questione. Mas ela questionou.

Ao organizar documentos de um caso imobiliário, percebeu algo fora do lugar: exames médicos misturados a registros de terras. Laudos, resultados de sangue, diagnósticos. Por que uma empresa de energia precisava disso? Ela não fingiu que não viu.

Foi até Hinkley, uma cidade pequena, quente, silenciosa — e doente. Conversando dentro das casas, ouvindo histórias na mesa da cozinha, percebeu o padrão: sangramentos, dores constantes, problemas respiratórios, câncer demais para um lugar tão pequeno.

A empresa garantia que a água era segura. Que continha apenas cromo “inofensivo”. Erin foi atrás dos fatos. Descobriu que havia dois tipos — e que o usado ali era o cromo-6, altamente tóxico e cancerígeno.

Durante anos, resíduos foram despejados no solo. A água foi envenenada. E as pessoas, adoeceram em silêncio.

Erin reuniu provas, convenceu seu chefe e bateu de frente com uma gigante bilionária. Não era mais um processo. Era um levante.Foram 634 moradores.

Em 1996, a empresa pagou 333 milhões de dólares — o maior acordo judicial direto da época. Mas o valor real não foi o dinheiro.

Foi provar que uma mulher fazendo a pergunta certa pode desmontar um sistema inteiro.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Crise na Venezuela: Trump Confirma Captura de Maduro e Brasil Monitora Impactos

Imagem Ilustrativa gerada por IA

by Deise Brandão

Em um dos eventos geopolíticos mais surpreendentes dos últimos anos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou neste sábado (03) que o governo norte-americano realizou uma operação militar na Venezuela que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. Segundo Trump, ambos estão sendo levados para os Estados Unidos, onde enfrentarão acusações criminais.

Trump detalha a operação

Durante entrevistas e comunicados oficiais, Trump descreveu a ação como uma operação coordenada entre agências militares e de inteligência. Ele afirmou que a complexidade da missão “se assemelhava a um programa de televisão” e que ela foi acompanhada em tempo real por autoridades americanas.

Maduro e Cilia Flores, segundo o presidente, foram levados para um navio de guerra americano com destino a Nova York, onde responderão por acusações já existentes de narcotráfico e outros crimes federais.

Trump também anunciou que os Estados Unidos assumirão temporariamente a administração da Venezuela, até que uma “transição segura e apropriada” possa ser implementada. Além disso, revelou planos para a entrada de empresas americanas na indústria petrolífera venezuelana, com foco na reconstrução econômica do país.

Contexto e motivações da operação

A ofensiva é parte de uma campanha diplomática e militar iniciada ainda em 2025, com bloqueios navais e ataques pontuais a instalações supostamente ligadas ao narcotráfico. O governo americano justificou a intervenção como necessária para combater crimes transnacionais e restaurar a ordem democrática no país vizinho.

Reações internacionais e clima de incerteza

A operação gerou fortes reações internacionais.

  • O governo venezuelano, que ainda resiste em Caracas, classificou a ação como um “ato de agressão” e “violação da soberania nacional”.

  • Líderes de oposição, como María Corina Machado, celebraram o que consideram o “início da liberdade”.

  • Organismos multilaterais e países como Alemanha, Rússia e China manifestaram preocupações com a legalidade da ação americana e pediram uma transição pacífica.

Enquanto isso, não há confirmação independente do paradeiro atual de Maduro, e o controle efetivo do território venezuelano permanece em disputa.

O povo nas ruas: medo, esperança e divisão

Em Caracas e outras cidades, o clima nas ruas é de silêncio e apreensão.
Moradores relatam temor de novos bombardeios ou confrontos armados, e muitos evitam sair de casa.
Ao mesmo tempo, manifestações populares dividem-se entre apoiadores do chavismo, convocados pelo governo, e grupos oposicionistas que comemoram a queda de Maduro.

Entre a população civil, prevalece uma mistura de medo e esperança: para alguns, o fim de um governo autoritário; para outros, o receio de uma ocupação estrangeira e de uma nova crise prolongada.

Consequências para o Brasil: alerta máximo na fronteira

Diante da instabilidade na Venezuela, o governo brasileiro está em estado de alerta, especialmente nos estados de Roraima e Amazonas, que fazem fronteira com o país vizinho.

Principais riscos e medidas em curso:

Fluxo migratório:
Autoridades brasileiras temem um novo aumento no número de refugiados venezuelanos. A fronteira de Pacaraima (RR) já começou a registrar maior movimento, e o governo federal discute medidas de controle e assistência humanitária.

Tensão na segurança regional:
A possibilidade de confrontos armados na região de fronteira levou à mobilização de tropas do Exército Brasileiro para garantir a soberania e evitar a entrada de grupos armados.

Pressão sobre serviços públicos:
O sistema de saúde e assistência social de Roraima e Boa Vista pode novamente sofrer sobrecarga, como ocorreu em crises anteriores.

Diplomacia e riscos políticos

No plano diplomático, o Brasil ainda não reconheceu oficialmente nenhuma nova autoridade venezuelana e busca manter uma posição cautelosa. Um eventual apoio explícito aos EUA pode repercutir negativamente em países da região com visões divergentes sobre a intervenção.

No cenário interno, a crise já começa a ser instrumentalizada politicamente:

  • Setores à esquerda denunciam a intervenção como imperialismo.

  • Setores à direita comemoram o fim do chavismo e pedem alinhamento com os EUA.

Economia e geopolítica: riscos e oportunidades

Empresas brasileiras do setor energético estão de olho na possível abertura do mercado petrolífero venezuelano. Contudo, instabilidade jurídica e risco de sanções ainda geram cautela.

Enquanto isso, analistas apontam que o Brasil pode assumir papel relevante na mediação regional e na reconstrução democrática, caso atue com equilíbrio diplomático.

A situação da Venezuela continua em evolução acelerada, com fortes impactos políticos, sociais e diplomáticos na América do Sul. O Brasil, vizinho imediato, deve se preparar para desdobramentos migratórios, econômicos e de segurança, mantendo postura firme e prudente.

Em um momento delicado, a condução dos próximos passos pela diplomacia brasileira poderá definir não apenas o futuro da relação com a Venezuela, mas também o papel do Brasil no cenário internacional.

Beba na Fonte

Associated Press (AP News)
“Trump says US will run Venezuela at least temporarily after military option”

CNN Brasil
“Trump disse que assistiu à captura de Maduro como programa de televisão”

The Guardian
“Caracas on edge in aftermath of US blitz”

RTP Notícias (Portugal)
“EUA atacam Venezuela e capturam Nicolás Maduro e a mulher”

New York Post
“Maria Corina Machado celebrates US capture of dictator Nicolás Maduro”

Reuters
“World reacts to US strikes on Venezuela”

Veja
“Maduro é levado para Nova York após captura em Caracas”

Senado Federal (Brasil)
“Situação de brasileiros na Venezuela preocupa Comissão de Relações Exteriores”

EUA e a suposta captura de Nicolás Maduro: o que se sabe — e o que NÃO se sabe




by Deise Brandão

Circula nas últimas horas, em redes sociais e canais alternativos de informação, a alegação de que Nicolás Maduro teria sido capturado por forças ligadas aos Estados Unidos. A notícia se espalhou rapidamente, impulsionada pelo histórico de tensões entre Washington e Caracas.

Até agora, porém, não existe qualquer confirmação oficial, seja por parte do governo venezuelano, do governo norte-americano, da ONU ou de organismos internacionais independentes.
Por que esse boato ganha força?

Não surge do nada. Maduro:  é alvo de sanções econômicas severas; responde a denúncias internacionais por violações de direitos humanos; já foi formalmente acusado por autoridades norte-americanas em investigações relacionadas a narcotráfico e corrupção; governa um país sob colapso institucional prolongado.

Em cenários assim, qualquer ruído vira manchete, e qualquer desejo vira “informação”.
O padrão histórico: boatos antes de rupturas. Há precedentes claros: rumores semelhantes antecederam a queda de líderes no Oriente Médio;em outros casos, boatos foram usados para testar reações populares e internacionais; também há histórico de operações psicológicas (psyops) usando desinformação como arma.
Ou seja: o boato pode não ser verdadeiro, mas ele não é inocente.

Silêncio estratégico ≠ confirmação

O silêncio das autoridades não confirma captura alguma.
Em diplomacia e inteligência, silêncio pode significar apenas isso: silêncio.
Até que: haja nota oficial, imagens verificáveis, ou confirmação por agências internacionais confiáveis, qualquer afirmação deve ser tratada como especulação.

O que é fato, hoje: Maduro segue sob forte pressão internacional. Venezuela permanece instável política e economicamente, há interesse global real em uma mudança de cenário no país. Não há prova de captura
Notícia não é torcida. Desejo não é fato. E verdade não se constrói no grito.

Registrar o boato como VERDADE NÃO é jornalismo e confirmá-lo sem prova é desinformação. E é exatamente nesse limite — entre o que se quer e o que se comprova — que se mede quem informa e quem manipula.

Pessoalmente, espero que seja o MELHOR para o POVO VENEZUELANO. Venezuela me serve de exemplo do que NAO DEVE SER.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Quando a militância substitui o jornalismo, e a Justiça vira retórica

 


by Deise Brandão

No Brasil, não falta lei. O que falta, com frequência, é Justiça no sentido real da palavra.
E isso precisa ser dito sem rodeios.

Juízes corruptos não fazem Justiça.
Juízes que inovam fora da lei não aplicam o Direito.
Juízes que ignoram direitos fundamentais não obedecem a Constituição, ainda que tentem se esconder atrás dela.

O Judiciário não é um ente mecânico que apenas “executa leis”. Essa narrativa é confortável, mas falsa. Juízes interpretam, decidem, escolhem — e, quando escolhem mal, quando agem por interesse, conveniência, corporativismo ou alinhamento político, violam a própria função que deveriam proteger.

Em 2019, isso ficou escancarado quando Dias Toffoli, então presidente do Supremo Tribunal Federal, determinou o acompanhamento e monitoramento de magistrados, (vários do RS), que vinham:

  • descumprindo direitos fundamentais,

  • inovando decisões sem base legal,

  • desrespeitando regras processuais,

  • atuando fora dos limites constitucionais.

Esse movimento não surgiu do nada. Ele foi resposta a abusos reiterados, a um Judiciário que, em muitos casos, deixou de ser garantidor para se tornar produtor de ilegalidades.

Por isso, é intelectualmente desonesto transferir toda a responsabilidade para o Legislativo ou para o Executivo, como se o Judiciário fosse uma engrenagem neutra e impotente. Não é. Nunca foi.
Quando a Justiça falha, ela falha por ação ou por omissão de quem julga.

Jornalismo não é militância seletiva.
Crítica institucional não pode ser discurso de conveniência.
E defender a legalidade exige coragem para dizer o óbvio: sem juízes comprometidos com a Constituição, não há Justiça — há apenas encenação institucional.

A Astúcia do Mal



by Deise Brandão

Não te detenhas na Bíblia como fábula, nem na maçã, nem em Eva. O que importa é entender o mecanismo.

A astúcia do mal não se vence no confronto direto, nem na força bruta. Ela atua nas frestas: na distração, na dúvida, na autossabotagem silenciosa. Nenhum ser humano derrota isso por arrogância ou coragem cega. O único antídoto real é vigília — lucidez contínua, alinhada a princípios.

O erro é subestimar. A inteligência do mal não é barulhenta; é estratégica. Atua confundindo, distorcendo, relativizando. Vende mentira com aparência de verdade, empacota engano como se fosse liberdade. Enquanto lhe damos atenção, ele não nos trata como adversários. Pelo contrário: nos usa.

Mas há um ponto em que ele falha sempre.
Não diante do grito.
Não diante da culpa.
Mas diante da verdade afirmada com clareza.

Quando a consciência está ancorada em algo maior — chame de Palavra, princípio, eixo ou verdade — não há espaço para negociação interna. A dúvida perde força quando encontra convicção. É por isso que o ataque vem em duas fases bem conhecidas: primeiro, o sussurro permissivo — “não é tão grave assim”. Depois, o golpe acusatório — “agora já foi longe demais”

É o mesmo roteiro, repetido há séculos.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Feliz Ano Todo!

Ao encerrar este ciclo, reconheço: foi um ano muito bom. Produtivo, intenso, fértil. De equilíbrio fisico, mental e emocional. Ainda assim, sei que posso avançar mais — e o mesmo vale para cada um de nós.

Para 2026, não faço pedidos grandiosos. Apenas que eu permaneça inteira naquilo que me move, fiel ao meu eixo e lúcida no propósito. De 2025, levo gratidão profunda.

Fica, então, um convite simples e necessário: que cada pessoa se permita uma pausa honesta para olhar a própria travessia. Não como quem se julga, mas como quem avalia com maturidade o que foi construído, o que precisa ser ajustado e o que ainda aguarda coragem, disciplina e coerência para se realizar. A todos que acompanharam meu trabalho ao longo deste ano, deixo meu agradecimento genuíno.

Cada leitura atenta, cada reflexão amadurecida, cada gesto consciente ajuda á sustentar o campo que dá forma ao Novo Mundo que se apresenta. 

Gratidão, também, a quem soube respeitar meu silêncio. A quem entendeu que o afastamento não era frieza, era cuidado. Que o isolamento foi necessário — não por desprezo, mas por sobrevivência. Sem cobranças. Sem julgamentos. Sem perguntas invasivas. Permanecendo mesmo à distância, aos quais dedico minha lealdade e meu carinho. Nem todo amor faz barulho. Alguns apenas ficam — e isso basta. ❤🌸

Que em 2026 sigamos adiante, ainda que em solitude ou solidão quando for necessária, mas sempre em estado de consciência. Que saibamos cultivar uma vida justa, ética e alinhada a princípios universais — aqueles que não se negociam, que elevam o humano e restauram a harmonia entre o que somos por dentro e o mundo que ajudamos a construir. Amanhã já é futuro e dele nada sabemos... Nosso Presente é precioso.

Um 2026 de despertar coletivo é meu desejo. Feliz Ano Todo!



domingo, 28 de dezembro de 2025

Patrimônio imobiliário e cargos públicos: o rastro de imóveis de Alexandre de Moraes




by Deise Brandão

Entre novembro de 2006 e agosto de 2009, um período sensível da carreira pública de Alexandre de Moraes, chama atenção pelo volume e pelo padrão dos negócios imobiliários realizados. Foram oito aquisições, incluindo apartamentos de andar inteiro em bairros nobres, terrenos em condomínio de luxo e propriedade rural, com valores declarados que somam R$ 4,5 milhões à época — sem correção monetária.

O intervalo coincide com sua saída do governo de Geraldo Alckmin, a atuação como conselheiro do Conselho Nacional de Justiça e parte do período em que foi secretário municipal na gestão de Gilberto Kassab. À época, sua renda pública conhecida não explicava, por si, a escalada patrimonial.

Do padrão médio ao alto luxo

Até 2005, Moraes declarava um patrimônio típico de classe média: dois apartamentos (Saúde e Aclimação) e uma casa de fim de semana em São Roque. Havia ainda herança familiar da esposa, Viviane Barci de Moraes, e rendimentos como professor e autor de obras jurídicas.

Em novembro de 2006, porém, ocorre a virada: um apartamento de 332 m², andar inteiro, no Itaim Bibi, por R$ 2,03 milhões (valor declarado). Embora a escritura registre pagamento exclusivo da esposa, um adendo posterior indica que um imóvel do próprio Moraes foi usado para abater R$ 650 mil do preço — contradição documental relevante.

Seis meses depois, em maio de 2007, outro salto: 365 m², também andar inteiro, cinco vagas, no edifício Mansão Tucumã, frente ao Clube Pinheiros. O preço declarado foi R$ 1,82 milhão (cerca de R$ 3,27 milhões corrigidos), enquanto a tabela municipal apontava R$ 4,1 milhões. Em 2014, o imóvel passou para a Lex Estudos Jurídicos, empresa ligada ao ministro.

À época dessas compras, Moraes era conselheiro do CNJ, com salário bruto em torno de R$ 23,2 mil.

Compra, venda e lucro

O apartamento do Itaim foi vendido em julho de 2010 por R$ 3,02 milhões (valor declarado), um lucro de cerca de R$ 1 milhão frente ao preço informado na compra. Na sequência, foi adquirido um imóvel de 217 m² no mesmo bairro, por R$ 850 mil, destinado ao escritório de advocacia.

A sequência na gestão Kassab

Nomeado secretário em agosto de 2007, Moraes acumulou pastas estratégicas (Transportes e Serviços), além de presidir SPTrans e CET. Nesse período, vieram mais seis aquisições:

  • Dez/2007: Aclimação (para a mãe) — R$ 145 mil

  • Fev/2008: Perdizes — R$ 200 mil

  • Jun/2009: Cambuci — R$ 150 mil

  • Jun/2009: dois terrenos em São RoqueR$ 100 mil

  • Ago/2009: 1/3 de sítio em Inimutaba (MG)R$ 40 mil

Os valores declarados, em vários casos, ficaram abaixo do mercado, segundo corretores e referências oficiais.

A casa de campo e os terrenos contíguos

Em São Roque, os dois terrenos de 2009 dobraram a área do lote já existente para 5.000 m², dentro do Patrimônio do Carmo, condomínio de alto padrão com segurança reforçada. Avaliações comparáveis indicam que lotes menores na mesma área foram avaliados entre R$ 150 mil e R$ 200 mil, enquanto um imóvel semelhante, com terreno menor, foi avaliado em R$ 1 milhão em leilão judicial (2016).

As terras em Minas

Em Inimutaba, Moraes adquiriu, com dois magistrados colegas da USP, 40 hectares do Sítio Novo Horizonte. Cada um declarou R$ 40 mil. Corretores locais estimam o hectare entre R$ 10 mil e R$ 12 mil, o que projeta valor total bem acima do declarado.

Um negócio atípico

Durante a gestão Kassab, Moraes vendeu apenas um imóvel: o apartamento da Aclimação (comprado em 1998). Em 2008, foi vendido a Luiz Herrmann Júnior, da Editora Atlas — editora das obras do ministro — por R$ 750 mil. Um mês depois, o comprador revendeu com prejuízo registrado de R$ 150 mil.

Iniciativa privada só depois

A entrada formal de Moraes na iniciativa privada ocorreu após deixar a prefeitura. Seu escritório, rebatizado com o sobrenome da esposa quando assumiu o ministério, passou a se chamar Barci de Moraes Advogados Associados. Reportagem posterior revelou pagamentos milionários recebidos da JHSF, empresa investigada à época.

Por que o tema permanece atual?

Porque o conjunto — volume de aquisições, subavaliações recorrentes, contradições documentais e coincidência temporal com cargos estratégicos — segue levantando perguntas legítimas sobre transparência patrimonial e conflitos de interesse no topo do poder. Atualizar esses fatos é relembrar que patrimônio público e privado não podem caminhar sem escrutínio.


Nota de responsabilidade editorial
Este texto não formula acusações novas nem juízos criminais. A atualização consiste na reorganização cronológica dos fatos, contextualização institucional e análise jornalística a partir de informações previamente publicadas e documentos públicos acessíveis.  Esta matéria tem como base reportagens investigativas já publicadas, documentos públicos e registros oficiais, devidamente atualizados e contextualizados.O conteúdo reflete exclusivamente o trabalho editorial da autora, baseada nas fontes abaixo.

Imprensa
Série de reportagens investigativas (2017–2018), fundamentadas em: matrículas e escrituras imobiliárias,certidões de cartórios de São Paulo e Minas Gerais,entrevistas com corretores de imóveis, tabelas oficiais de avaliação imobiliária,imagens de satélite e plantas de condomínios.

Folha de S.Paulo
Reportagem publicada em outubro de 2017 informando que o escritório Barci de Moraes Advogados Associados recebeu cerca de R$ 4 milhões da empresa JHSF, investigada à época na Operação Acrônimo.

Documentos públicos consultados
Cartórios de Registro de Imóveis
São Paulo (Itaim Bibi, Aclimação, Perdizes, Cambuci)
São Roque (SP)
Inimutaba (MG)

Prefeitura de São Paulo
Tabelas oficiais de IPTU e valores venais
Registros de área construída e dados cadastrais
Leilões judiciais e avaliações públicas
Imóveis e terrenos no condomínio Patrimônio do Carmo (São Roque/SP)
Órgãos e informações institucionais
Conselho Nacional de Justiça
Dados funcionais e remuneração do período em que Alexandre de Moraes atuou como conselheiro.

Prefeitura de São Paulo
Nomeações e cargos exercidos durante a gestão Gilberto Kassab
Atuação nas secretarias municipais e empresas públicas vinculadas.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O crime que não morre com o autor: o feminicídio de Eliane de Grammont



            

by Deise Brandão

A morte recente de Lindomar Castilho recoloca em evidência um dos crimes mais emblemáticos da história da música brasileira: o assassinato de Eliane de Grammont, em 1981, em pleno palco, durante uma apresentação musical em São Paulo.

Não se trata de reabrir curiosidades biográficas nem de romantizar tragédias. Trata-se de nomear corretamente o fato: feminicídio.

Um casamento marcado por controle e violência

Lindomar Castilho e Eliane de Grammont foram casados entre 1979 e 1981. O relacionamento teve início no ambiente profissional da gravadora RCA e resultou no nascimento de uma filha, Liliane. Relatos da época, inclusive constantes nos autos judiciais, apontam um convívio marcado por ciúmes excessivos, conflitos recorrentes e episódios de violência física, agravados pelo consumo de álcool por parte do cantor.

Eliane decidiu se separar. Essa decisão — comum, legítima e legal — foi tratada por ele como afronta pessoal.

O assassinato em público

Em 30 de março de 1981, Lindomar Castilho entrou armado na casa de shows Belle Époque, na capital paulista. No momento em que Eliane interpretava “João e Maria”, composição de Chico Buarque, o cantor efetuou cinco disparos de arma de fogo contra ela.

A motivação apontada foi o ciúme em relação ao violonista Carlos Randall, primo de Lindomar, que acompanhava Eliane naquela apresentação. Randall também foi atingido, mas sobreviveu.

Eliane de Grammont morreu aos 26 anos, ainda no trajeto para o hospital. O crime foi cometido diante do público, em um espaço de trabalho, como demonstração extrema de posse e controle.

Condenação e cumprimento da pena

Lindomar Castilho foi condenado por homicídio em 1984. O cumprimento da pena ocorreu da seguinte forma:

  • Regime fechado: 1984 a 1986

  • Regime semiaberto: a partir de 1986

  • Extinção da pena: 1996

Após cumprir a pena, obteve liberdade total. Sua trajetória artística jamais se desvinculou do crime, embora parte do discurso público tenha tentado, ao longo dos anos, deslocar o foco da vítima para a “queda” do agressor.

As marcas que permanecem

Liliane, filha do casal, já declarou publicamente que o assassinato destruiu a estrutura familiar e alterou definitivamente a imagem paterna. Ao falar sobre perdão, afirmou tratar-se de um processo íntimo e subjetivo, que não apaga o fato nem suas consequências.

Carlos Randall, em depoimento concedido em 2022, relatou as sequelas psicológicas e profissionais de ter sobrevivido ao ataque que matou sua colega de palco, destacando a dificuldade de retomar a carreira artística após o episódio.

O nome correto do crime

Eliane de Grammont não morreu por “ciúme”, “paixão” ou “tragédia pessoal”. Foi assassinada por não aceitar viver sob violência e controle. Isso tem nome: feminicídio.

A morte do autor do crime não encerra a história, não reescreve os fatos e não reduz a gravidade do que ocorreu. O passado permanece — não como curiosidade, mas como registro histórico de uma violência que o país ainda insiste em repetir.

Lembrar Eliane é mais do que recordar um caso antigo. É afirmar que a sociedade não pode continuar tratando crimes contra mulheres como notas de rodapé biográficas.

O silêncio genético do HIV

Imagem gerada pela GPT

by Deise Brandão

Pesquisadores da Temple University, nos Estados Unidos, vêm explorando uma abordagem ousada contra o HIV: atacar o vírus no ponto mais difícil de alcançar — o DNA das células humanas onde ele permanece oculto. Usando a ferramenta de edição genética CRISPR/Cas9, os cientistas conseguiram localizar e remover trechos específicos do material genético do HIV-1 integrados ao genoma de células do sistema imune.

A proposta é radicalmente diferente do tratamento convencional, que se baseia no uso contínuo de antirretrovirais para manter o vírus sob controle, sem eliminá-lo. Aqui, a ideia é intervir diretamente na raiz do problema: remover o HIV dos seus esconderijos genéticos mais persistentes.

Em testes realizados em laboratório, a técnica foi aplicada em células T em estado latente, conhecidas por funcionarem como reservatórios silenciosos do vírus. Nessas condições experimentais, o DNA viral foi retirado sem comprometer a integridade da célula hospedeira. Mais do que isso: as células editadas demonstraram resistência a novas tentativas de infecção, sugerindo que o vírus não conseguiu mais se reinserir nem retomar seu ciclo de replicação.

Em síntese, o que esse estudo demonstra não é uma cura disponível, tampouco uma solução imediata para pessoas vivendo com HIV, mas a prova concreta de que a ciência já consegue intervir diretamente no DNA viral integrado às células humanas — algo que até pouco tempo atrás era considerado inalcançável. Trata-se de um avanço conceitual relevante, restrito ao ambiente experimental, que abre possibilidades reais para pesquisas futuras, mas que ainda exige tempo, cautela e rigor antes de qualquer aplicação clínica. O marco aqui não é o fim do HIV, e sim a confirmação de que seus reservatórios genéticos deixaram de ser um território intocável.

Os próprios autores, no entanto, deixam claro que os resultados ainda se limitam ao ambiente de laboratório e a modelos experimentais. Antes de qualquer aplicação clínica, são necessários estudos extensos de segurança, precisão e eficácia em organismos vivos e, posteriormente, em humanos. Ainda assim, o trabalho é visto como um passo importante na direção de terapias que, no futuro, possam ir além do controle e apontar para a possibilidade real de erradicação do vírus.

Fonte: 
Nature Communications (2019)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O Brasil engolindo o que o poder cospe: 10 frases de Luiz Inácio que embrulham o estômago — não pelo vocabulário, mas pelo que revelam.

by Deise Brandão

O presidente Lula  (também) coleciona episódios em que uma frase, dita de improviso, desloca o foco do assunto central e vira o fato do dia. Em alguns casos, as declarações foram acusadas de machismo, capacitismo ou insensibilidade social; em outros, provocaram desgaste diplomático e ruído político com impacto real.

O problema aqui não é “gafe” como folclore. É o efeito acumulado: cada frase controversa vira munição, rompe pontes, alimenta polarização e enfraquece a autoridade simbólica que um chefe de Estado deveria preservar — especialmente em temas sensíveis. Veja-se:

1) “Se o cara é corintiano, tudo bem”

Em reunião no Palácio do Planalto, Lula comentou uma pesquisa que apontaria aumento da violência contra a mulher após jogos de futebol. No meio do raciocínio, disse:

“Hoje, eu fiquei sabendo de uma notícia triste, eu fiquei sabendo que tem pesquisa, Haddad, que mostra que depois de jogo de futebol, aumenta a violência contra a mulher. Inacreditável. Se o cara é corintiano, tudo bem, como eu. Mas eu não fico nervoso quando perco, eu lamento profundamente”.

A frase foi criticada por parecer relativizar um problema grave ao encaixar a observação futebolística (“corintiano”) no mesmo fluxo do tema “violência contra a mulher”. Dias depois, Lula tentou corrigir o tom com a afirmação de que “homem com fé em Deus não bate em mulher”.

2) “Quando vai fechar a porteira?”

Durante entrega de unidades do Minha Casa Minha Vida em Maceió, Lula perguntou a uma mãe de cinco filhos quando ela “iria fechar a porteira”, sugerindo que deveria parar de ter filhos.

A declaração foi classificada como machista por tratar a maternidade com ironia pública e por transformar um contexto social (família, renda, acesso a políticas públicas) em comentário pessoal — ainda que em tom informal.

3) “Uma máquina de lavar roupa é uma coisa muito importante para as mulheres”

+ “Eu não tinha noção que no Rio Grande do Sul tinha tanta gente negra”

Em evento no Rio Grande do Sul, durante anúncio de ações de reconstrução, Lula enfatizou a importância de eletrodomésticos para o cotidiano das mulheres, com a frase:

“Uma máquina de lavar roupa é uma coisa muito importante para as mulheres”.

A crítica foi direta: a fala reforçaria estereótipos de gênero ao associar mulheres à rotina doméstica como destino social.

Na mesma visita ao Estado, Lula também disse:

“Eu não tinha noção que no Rio Grande do Sul tinha tanta gente negra”.

A frase gerou repercussão por expor desconhecimento de uma realidade demográfica e histórica do próprio país, com interpretações de que o comentário reforça visões estereotipadas sobre o Sul.

4) “Que monstro vai sair do ventre dessa menina?”

Em entrevista à rádio CBN, Lula comentou o debate sobre um projeto que propõe equiparar aborto após 22 semanas ao crime de homicídio, dizendo:

“Por que uma menina é obrigada a ter um filho de um cara que estuprou ela? Que monstro vai sair do ventre dessa menina? Então essa é uma discussão mais madura, não é banal como se faz hoje”.

A oposição usou a frase como munição política, e parte da crítica pública apontou que o termo “monstro” desloca o debate (estupro, aborto, legislação) para uma imagem moralmente explosiva — que alimenta mais choque do que esclarecimento.

5) Israel e Holocausto: a crise diplomática

Em declaração sobre a guerra em Gaza, Lula afirmou:

“O que está acontecendo na Faixa Gaza não existe em nenhum outro momento histórico, aliás, existiu quando Hitler resolveu matar os judeus”.

A repercussão foi internacional. A comparação foi considerada gravíssima por Israel e gerou deterioração pública da relação diplomática, com respostas duras do governo israelense e escalada do desgaste.

6) “Não vou aparecer com muletas e andador”

Antes de uma cirurgia no quadril, Lula afirmou que não seria visto usando muletas ou andador, insinuando que isso prejudicaria sua imagem.

A fala foi acusada de capacitismo por sugerir vergonha ou demérito em instrumentos de mobilidade — reforçando estigmas que pessoas com deficiência enfrentam diariamente.

7) “Desequilíbrio de parafuso”

Após ataque a uma creche em Blumenau (SC), Lula disse:

“A OMS sempre afirmou que na humanidade deve haver 15% de pessoas com algum problema de deficiência mental. Se esse número é verdadeiro, e você pega o Brasil com 220 milhões de habitantes, significa que temos quase 30 milhões de pessoas com problema de desequilíbrio de parafuso. Pode uma hora acontecer uma desgraça”.

A crítica veio por associar violência a “deficiência mental” em tom generalizante e por usar expressão pejorativa (“desequilíbrio de parafuso”), interpretada como estigmatizante e ofensiva.

8) Banco Central “desajustado do Brasil”

Em entrevista, Lula chamou a política de juros do Banco Central de “a única coisa desajustada do Brasil” e questionou a independência da instituição.

A repercussão se deu no mercado e no debate público: críticos apontaram risco de pressão política sobre uma estrutura que deveria operar com autonomia; apoiadores viram uma crítica legítima ao custo do dinheiro e ao impacto social dos juros.

9) Venezuela: “vítima de narrativa”

Em coletiva ao lado de Nicolás Maduro, Lula afirmou que a Venezuela seria:

“vítima de uma narrativa de antidemocracia e autoritarismo”.

A frase recebeu críticas por relativizar denúncias internacionais sobre violações de direitos humanos e por colocar o Brasil no centro de um debate diplomático sensível, com custo de imagem externa.

10) Lava Jato, 7 a 1 e “f**** o Moro”

Na posse da presidente da Petrobras, Lula disse:

“Vocês estão lembrados quando nós começamos a fazer a Copa do Mundo, a quantidade de denúncias de corrupção dos estádios? (…) E, Deus é justo, nós tomamos de 7 a 1 naquela Copa, da Alemanha. Já que é para castigar, vamos castigar.”

Em outro episódio, relatou uma frase dita a procuradores durante o período em que esteve preso:

“Só vou ficar bem quando f**** o Moro”.

As falas reforçaram a leitura de confronto político permanente e alimentaram críticas sobre revanchismo e desprezo simbólico por pautas anticorrupção — ainda que parte do público as interprete como reação a abusos do próprio processo da Lava Jato.

O ponto central: a frase vira o fato — e o país paga o custo

Há um padrão nessas controvérsias: o tema principal (violência doméstica, políticas públicas, reconstrução, guerra, governança econômica, direitos humanos) é engolido pelo ruído da frase. O debate público deixa de discutir conteúdo e passa a girar em torno de interpretação, indignação e “torcida”.

Analistas apontam que esse tipo de improviso pode até funcionar no palanque, mas cobra preço alto no exercício do cargo. Porque presidente não fala só como indivíduo — fala como Estado. E, nesse nível, cada palavra vira política. 

Em Alta

1984 não foi profecia. Foi aviso. Manual.

  by Deise Brandão O que eu vejo quando olho para 1948 O que eu vejo ali é registro . Quando Orwell escreve 1984 , em 1948, o mundo já ti...

Mais Lidas