by Deise Brandão
O
"lado B" de Clarice Lispector afasta a imagem de fada mística, musa
intocável ou criadora de frases motivacionais de internet. A realidade de sua
vida pessoal e de sua prática literária foi marcada por dependência química,
isolamento, pragmatismo financeiro e um temperamento extremamente difícil.
A
Vida Pessoal: Dependência e Isolamento
Longe
do misticismo, a rotina de Clarice nos seus últimos anos era fortemente ditada
pelo uso pesado de ansiolíticos, calmantes e anfetaminas. Ela sofria de insônia
crônica e alternava quimicamente entre estados de torpor e vigília para
conseguir funcionar e escrever.
Clarice
não era uma pessoa de convivência fácil. Relatos de amigos próximos, biógrafos
como Benjamin Moser e jornalistas da época descrevem uma mulher frequentemente
rígida, impaciente e de humor cortante. O isolamento em seu apartamento no Leme
não era um retiro poético, mas uma reclusão autoprovocada por uma profunda
paranoia e inadequação social.
O
casamento fracassado com o diplomata Maury Gurgel Valente deixou cicatrizes. A
vida no exterior como esposa de embaixador a sufocava. De volta ao Brasil, a
realidade financeira era instável e o diagnóstico de esquizofrenia de seu filho
mais velho, Pedro, gerava uma sobrecarga financeira e emocional devastadora,
que ela enfrentava com crônica exaustão.
A
Literatura: Sem Romantismo Existencial
A
literatura de Clarice não nascia apenas de "epifanias divinas". Ela
escrevia por necessidade financeira estrita. Clarice manteve colunas sob
pseudônimos em jornais (como Helen Palmer ou Ilka Soares) dando dicas de
beleza, receitas e conselhos matrimoniais puramente para pagar as contas, algo
que muitas vezes desprezava fazer.
Clarice
não sentava em uma escrivaninha organizada esperando a inspiração. Ela escrevia
de forma fragmentada, em pedaços de papel higiênico, maços de cigarro e
cadernos velhos, muitas vezes com a máquina de escrever no colo enquanto
cuidava dos filhos. O trabalho posterior de datilografia e organização desses
fragmentos — feito muitas vezes por sua secretária, Olga Borelli — era
exaustivo e puramente mecânico.
A
literatura clariceana não busca o belo ou o reconfortante. O foco de obras como
A Paixão Segundo G.H. é a desorganização humana, o nojo, a falência da
linguagem e a crueza da existência. Ela expunha a hipocrisia da classe média, o
tédio do casamento e o egoísmo de forma fria e sem nenhuma redenção moral ou
espiritual.
O
Jornalismo por Sobrevivência
Clarice não via as colunas de jornal como extensão de sua arte, mas como um trabalho puramente comercial. Sob os nomes de Helen Palmer e Ilka Soares, ou como ghostwriter para a modelo Tereza Rachel, ela escreveu colunas femininas dando conselhos de beleza, receitas e dicas de etiqueta. Era o oposto de sua literatura densa; ela fazia isso estritamente pelo salário.
Na
década de 1960 e 1970, realizou uma famosa série de entrevistas com
personalidades para a revista Manchete. Embora tenha conversado com grandes
nomes, ela frequentemente usava um questionário fixo e repetitivo, demonstrando
tédio pelo formato.
Quando
o foco mudava e ela passava a ser a entrevistada, a relação se tornava tensa e
imprevisível. Clarice detestava dar entrevistas. Ela frequentemente respondia a
repórteres com monossílabos, silêncios prolongados ou frases cortantes como
"não sei" e "isso não importa".
Meses
antes de morrer, Clarice concedeu uma entrevista histórica ao jornalista Júlio
Lerner. Na gravação, ela aparece visivelmente desconfortável, fumando
compulsivamente, pedindo para o repórter não usar certas respostas e exigindo
que o material só fosse ao ar após a sua morte. Ela declarou na entrevista:
"Eu mudei muito... Eu morri muitas vezes".
A
Manipulação da Própria Imagem
Apesar
de clamar por privacidade, Clarice tinha plena consciência do mito que orbitava
seu nome e sabia como manejá-lo. Ela era extremamente vaidosa e controladora com
sua imagem pública. Exigia ver e aprovar as fotos que saíriam nos jornais,
rejeitando ângulos que mostrassem as cicatrizes do incêndio de 1966 ou os
sinais do envelhecimento.
Ao
se recusar a explicar seus livros ou sua vida privada para os críticos
literários nos jornais, ela aumentava a aura de "esfinge" que a
imprensa criava ao seu redor. Ela reclamava do rótulo de hermética e
misteriosa, mas suas atitudes esquivas com os jornalistas solidificavam
exatamente esse estereótipo.
Clarice Lispector operava em um pragmatismo bruto que a ficção popular costuma apagar. Longe do mito da escritora intocável, sua trajetória na literatura, na vida pessoal e na imprensa foi ditada pelas urgências da sobrevivência material, pelo fardo da saúde mental e pela crueza das relações humanas.
O que a torna
monumental não é uma suposta iluminação divina, mas justamente sua capacidade
de produzir uma das obras mais radicais da língua portuguesa enquanto lidava
com o caos, a dependência química e a necessidade ordinária de pagar as contas.
Clarice não era uma esfinge mística; era uma mulher cindida entre a miséria do
cotidiano e a busca implacável pela palavra exata.
*Impressões
minhas após ler A Via Crucis do Corpo (1974).
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