sexta-feira, 17 de outubro de 2025

O que é, afinal, ser criador de conteúdo?

 


by Deise Brandão

Nos últimos anos, muita gente passou a se autointitular “criador de conteúdo”. A expressão ganhou status, foi parar em perfis, bios e cartões de visita — mas, na prática, pouca gente parece entender o peso real desse título.
Criar conteúdo não é apertar o botão de “compartilhar” e colar uma legenda vazia como “fato”, “verdade” ou “bem assim”. Isso se chama replicar. Criar é outra coisa.

Criar é interpretar (de preferência com alto conhecimento da semâtica!) 

Um criador de conteúdo não é apenas um mensageiro. Ele observa, filtra, pensa, interpreta, analisa, dá contexto e oferece uma leitura própria do mundo.
Quando alguém compartilha uma notícia, um vídeo ou um post sem acrescentar nada — sem questionar, sem contextualizar, sem explicar — não está criando: está apenas repassando.

Criar é se posicionar

Criar conteúdo exige voz própria. Seja informando, opinando ou provocando reflexão, quem cria assina com sua identidade — ainda que seja em silêncio, o olhar autoral está lá.
Quando tudo o que se publica é neutro, raso e automático, não se está construindo nada: está apenas enchendo linha do tempo.

 Criar dá trabalho

Criar conteúdo verdadeiro exige pesquisa, tempo, olhar crítico e responsabilidade. Não basta catar fragmentos e colar no feed como se fosse sabedoria pronta. O verdadeiro criador constrói pontes — não apenas ecoa palavras de terceiros.

Criar é pensar

Num mar de cópias, repetidores e “fatos” jogados sem critério, o diferencial está em pensar. Em provocar. Em se comprometer com a própria palavra. O resto é ruído.

Criador de conteúdo não é um papagaio digital. É alguém que pensa, interpreta, contextualiza e assume a autoria de sua visão sobre o mundo.
Compartilhar sem toque pessoal não é criar — é terceirizar pensamento.
E quem terceiriza tudo, no fundo, não cria nada.

O ridículo do mimetismo

 

                        

by Deise Brandão

Há algo de profundamente constrangedor em assistir alguém tentando copiar a alma de outra pessoa — não apenas seu estilo, mas seus pensamentos, suas emoções, sua trajetória interior. É como ver um ator mal ensaiado tentando interpretar uma peça que não compreende: a máscara escorrega, e o falso se denuncia por si só.

O mimetismo social e pessoal não eleva ninguém. Pelo contrário: expõe. Revela insegurança, inveja e vazio interior. Quem precisa roubar a forma de ser do outro — os gestos, a voz, as ideias, as “coincidências” forçadas — confessa, sem perceber, que não tem substância própria.

A tentativa de se apropriar de experiências íntimas ou de despertar espiritual alheio é especialmente grotesca. Não se imita o que é genuíno. Não se falsifica a essência. Por mais bem ensaiada que pareça a encenação, para quem conhece a origem, o resultado é risível — e para quem não conhece, é enganoso por um tempo… mas só por um tempo.

O imitador acha que está sendo admirado, quando na verdade está sendo notado pelo ridículo. Acredita que está “elevado” quando, na prática, está se afundando num teatro de terceira categoria. O esforço de parecer sufoca qualquer possibilidade de ser.

Imitar pode ser sabedoria quando significa aprender com quem inspira. Mas copiar para usurpar, competir ou mascarar a própria mediocridade é apenas uma caricatura barata. E caricaturas, cedo ou tarde, viram piada.

Das intenções e dos danos do mimetismo

O mimetismo não é inocente. Quando ultrapassa a mera admiração ou o desejo de aprender com alguém, passa a ser instrumento de reescrita da realidade — um gesto estratégico para usurpar narrativas, redesenhar afetos e ocultar responsabilidades. Nesta segunda parte, descrevo com clareza quais são as intenções que movem quem imita de forma predatória e quais danos concretos esse comportamento causa — sobretudo quando se mistura com violência institucional e dolo.

I — Das intenções por trás do mimetismo

  1. Ocultar responsabilidades

    • Imitar falas, posturas ou sentimentos alheios permite a quem o faz desviar o foco de atos próprios. É técnica de camuflagem: enquanto ocupam a cena emocional do outro, desviam a atenção sobre suas omissões ou crimes.

  2. Confundir testemunhas e criar dúvida

    • Ao replicar memórias, frases e reações, o imitador produz uma narrativa paralela que, para quem chega de fora, pode parecer legítima. Essa duplicação deliberada gera incerteza e fragiliza testemunhos verídicos.

  3. Deslegitimar a vítima

    • Ao vestir-se com a linguagem da vítima — adotando seus “insights”, suas dores, sua postura — o imitador busca ocupar o lugar moral: transforma a vítima em uma figura improvável, pouco confiável, diminuindo a força de sua acusação.

  4. Controlar o imaginário público

    • O mimetismo é também ferramenta de engenharia social: cria impressões coletivas, viraliza versões convenientes e redefine reputações. A intenção é política (no sentido amplo): manipular percepções para ganhos práticos.

  5. Aprofundar o corte emocional

    • Copiar momentos íntimos — lutos, revelações, pequenas viradas espirituais — é um ato de violência simbólica. É uma tentativa de roubar o território íntimo da pessoa, deixando-a sem exclusividade sobre a própria dor.

      — Dos danos produzidos pelo mimetismo

  1. Erosão da verdade

    • Quando as palavras e os gestos de uma pessoa são clonados por outrem, a verdade factual perde contornos. Investigações, memórias e depoimentos ficam sujeitos à contaminação de versões paralelas.

  2. Revitimização contínua

    • A vítima sofre uma nova violência sempre que suas experiências são copiadas e reencenadas. Cada mimetismo é um revés: não cura, repete a ferida na praça pública e prolonga o sofrimento.

  3. Isolamento social

    • A confusão criada tende a afastar aliados e testemunhas. Amigos e conhecidos, sem conseguir distinguir o original da imitação, esmorecem ou duvidam — e a quem resta a tarefa de provar a autenticidade da própria vida?

  4. Instrumentalização judicial e administrativa

    • Em contextos em que documentos, relatos e aparências influenciam decisões (processos, perícias, sindicâncias), o mimetismo pode virar arma para forjar presunções contrárias à vítima — atrasando, silenciando ou invertendo responsabilidades.

  5. Destruição da autoridade moral da vítima

    • A repetição artificial de discursos íntimos corrói a autoridade de quem sofreu. A sensação pública passa a ser de “história duplicada”, reduzindo a empatia e facilitando a impunidade dos reais responsáveis.

  6. Dano relacional e patrimonial

    • Além do psicológico, o mimetismo pode provocar perdas concretas: rompimento de laços, afastamento de filhos, perda de oportunidades e até prejuízos econômicos quando usado para justificar esbulhos, apropriações ou fraudes.

    - Porque a intenção importa (e como prová-la)

A diferença entre imitação inocente e mimetismo malicioso está na intenção. É essa intenção — a repetição calculada, a consistência dos padrões e a coordenação com outros atos — que transforma uma “cópia” em crime simbólico ou instrumento de criminalidade. Para quem documenta, é fundamental demonstrar padrão:

  • frequência das cópias (quando e como reaparecem);

  • correspondência entre imitação e atos efetivos (por exemplo: cópia de narrativa seguida de falsificação documental, ocultação de provas, silêncio institucional);

  • existência de beneficiários diretos (quem ganha com a reescrita?);

  • contextos coordenados (mesmas frases em redes diferentes, uso de perfis distintos, reaparição de “memórias” idênticas).

O mimetismo predatório não é só falta de identidade: é ferramenta. Ferramenta para ludibriar, para desviar responsabilidades, para fabricar consensos falsos. Quando isso se mistura a omissão institucional ou a crimes reais — como mortes não esclarecidas, manipulações processuais ou apropriações patrimoniais — a violência se torna dupla: simbólica e prática.

Resistir exige três coisas simples e implacáveis: documentar, mostrar o padrão e não ceder ao impulso de responder na mesma moeda. A força da verdade está na consistência das provas. Transforme a cópia em evidência — e deixe que, no tempo certo, a justiça (a institucional ou a da memória coletiva) faça o resto.

domingo, 12 de outubro de 2025

Japão não está construindo cidade subaquática — entenda a verdade por trás da manchete

             

by Deise Brandão

Nos últimos dias, manchetes chamativas como “Japão constrói cidade subaquática” voltaram a circular nas redes e em sites de notícias. O título é impactante — mas também enganoso.
A verdade é que o Japão não está construindo uma cidade futurista no fundo do mar. O que existe, de fato, é um projeto conceitual chamado Shimizu Corporation, que propõe a criação de uma cidade subaquática batizada de Ocean Spiral.

    O que realmente existe

A proposta foi apresentada ainda em 2014 e chama atenção pela ousadia: uma estrutura em forma de espiral que desceria até o fundo do oceano, abrigando uma cidade completa — com moradias, áreas comerciais e espaços de pesquisa.
A ideia inclui geração de energia a partir da diferença de temperatura entre a superfície e as camadas mais profundas do mar, por meio da chamada tecnologia OTEC (Ocean Thermal Energy Conversion), que já está em fase de testes no Japão.

    O que ainda não existe

Apesar do entusiasmo, o Ocean Spiral ainda é um conceito futurista.
Nenhuma obra foi iniciada. Especialistas apontam que:

  • o custo estimado ultrapassa dezenas de bilhões de dólares;

  • as tecnologias necessárias ainda não estão maduras;

  • há desafios gigantescos em segurança, engenharia e sustentabilidade.

Ou seja: não há uma “cidade subaquática japonesa” sendo construída neste momento — apenas estudos e protótipos de tecnologias relacionadas.

    Como manchetes distorcem a informação

Esse é um bom exemplo de como títulos sensacionalistas podem induzir o público ao erro. Ao dizer “Japão constrói cidade subaquática”, cria-se a impressão de que a obra está em andamento, quando o correto seria dizer:

“Japão apresenta projeto futurista de cidade subaquática.”

A diferença parece pequena, mas muda completamente o sentido.

    Um olhar para o futuro

O projeto Ocean Spiral representa, sim, uma visão ousada de futuro — uma tentativa de pensar formas alternativas de habitação diante da superpopulação e das mudanças climáticas.
Mas, por enquanto, continua sendo um sonho de engenharia, e não uma construção real.

Antes de compartilhar manchetes chamativas, vale a pena olhar além do título. Nem tudo que parece futurista já está acontecendo — e nesse caso, a cidade subaquática do Japão ainda está debaixo d’água… no papel.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Cris Pereira: o caso que virou espetáculo — e escondeu o verdadeiro protagonista

                      

by Deise Brandão

Não sei se Cris Pereira é culpado ou inocente. O que me interessa — e que ninguém parece querer discutir — é que a mãe da menina não condenou ninguém.

Não foi ela quem reverteu a absolvição.
Não foi ela quem levou o caso a uma Câmara Criminal.

Foi o Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul.
E quem assinou a condenação final foi o Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul.
 

O que ninguém está falando

Se fosse uma armação da mãe, como muitos estão repetindo, o processo teria morrido na primeira instância — como morrem todos os processos em que não há prova suficiente.
Mas não.
O Ministério Público recorreu.E quatro desembargadores acataram o recurso e condenaram.
 

A pergunta óbvia que ninguém faz é: por quê?

👉 Quais foram os fundamentos desse recurso?
👉 Que elementos convenceram um colegiado inteiro a reverter uma sentença absolutória?
👉 Por que essa informação não está sendo divulgada com transparência mínima?

O peso da minha experiência

Falo como alguém que conhece, na pele, como o MP e o Judiciário podem manipular destinos.
Sei que decisões podem ser distorcidas, invertidas, usadas politicamente.
Sei que em certas comarcas “padrão”, a versão oficial é apenas o verniz de um jogo muito mais sujo.

Então, sim, é mais plausível — do ponto de vista institucional — que tenha havido manobra ou jogo de bastidores, do que imaginar que uma mãe “armou” algo tão grande a ponto de dobrar promotor e quatro desembargadores sozinha.

Afinal, quem teria dinheiro e poder para isso? 

A engenharia do bode expiatório

Enquanto a sociedade briga entre “mãe mentirosa” e “comediante injustiçado”,
o verdadeiro protagonista do ato jurídico passa despercebido: o Estado.

👉 Não foi a mãe que recorreu.
👉 Não foi a mãe que condenou.
👉 Não foi a mãe que sustentou a tese em segunda instância.

Mas é a mãe que está sendo linchada.
E junto com ela, a filha — que sequer tem voz para se defender da narrativa pública.
 

O silêncio que grita

A sentença de primeiro grau absolveu.
A sentença de segundo grau condenou.
Entre uma e outra, há uma peça processual que ninguém está cobrando: a apelação do MP.

Essa peça tem um nome. Tem um autor. Tem uma fundamentação jurídica.
E deveria — por obrigação institucional — estar clara à sociedade.

Mas não está. 

Eu não defendo Cris. Eu defendo a verdade.

Se ele for inocente, que o Estado explique por que o condenou.
Se ele for culpado, que o Estado explique por que esconde as provas.
Em ambos os cenários, há algo podre:
ou uma condenação sem transparência,
ou uma verdade que está sendo enterrada.

E no meio disso tudo, transformam uma mãe em vilã pública — para que ninguém olhe para cima. 

    A cobrança é clara:

  •  Quem assinou a apelação do MP?
  • Qual foi a fundamentação que convenceu quatro desembargadores?
  • Por que o TJRS não dá transparência mínima ao caso?
  • Por que o foco foi desviado para a mãe, quando a responsabilidade é institucional? 

Não aceito narrativas prontas. Não aceito linchamentos públicos de quem não condenou.E não aceito que um Estado que se diz de Direito aja na penumbra.

Que a sociedade exija respostas, em vez de destilar achismos e veneno contra pessoas que sequer conhece — de um lado ou de outro. E se conhece, que tenha a coragem de parecer imparcial e cobrar de quem realmente tem poder para responder: o Estado.

 

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Lápis que viram vida

 


by Deise Brandão

Um projeto nas Filipinas está dando novo destino ao que o mundo costuma jogar fora.
Jornais velhos, papel amassado, tinta esquecida — tudo isso renasce em forma de lápis ecológicos. 
Mas não são lápis comuns: na ponta de cada um, há uma cápsula com sementes de manjericão.

Quando o lápis chega ao fim, em vez de ir pro lixo, ele vai pra terra.
E dali, em poucas semanas, nasce uma planta.
Simples assim: o que um dia foi notícia, vira tempero, vira vida.

É mais que reciclagem — é uma lição de coerência.
Um lembrete silencioso de que tudo pode ter um ciclo bonito, se houver intenção.
Esses lápis ensinam o que o mundo anda esquecendo: que sustentabilidade não é discurso, é gesto.
É plantar o que se usa, devolver o que se tira, e permitir que a natureza continue escrevendo conosco.

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JBS: Poder & Dinheiro inimagináveis.

 

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