05/07/2026

Celular no silencioso: O que essa escolha revela sobre a sua mente, segundo a psicologia


Muito além de evitar barulho, manter o aparelho no modo silencioso tornou-se uma estratégia de sobrevivência emocional e produtividade na era da hiperconectividade.

Por Deise Brandão

Você provavelmente conhece alguém que mantém o celular no modo silencioso 24 horas por dia — ou talvez você seja essa pessoa. Em um mundo onde a conectividade constante é a regra, a escolha de emudecer o aparelho pode parecer um ato de rebeldia digital. No entanto, para a psicologia e a neurociência, esse comportamento revela muito mais do que uma simples preferência por discrição: trata-se de uma ferramenta psicológica para preservar a saúde mental e o foco.

A ditadura das interrupções e o preço do foco

Viver com o celular emitindo bipes e vibrações constantes coloca o cérebro em um estado de alerta permanente. O neurocientista Daniel J. Levitin, autor do livro “The Organized Mind”, explica que a expectativa por respostas imediatas e o ruído digital constante prejudicam severamente nossa capacidade de raciocínio. Segundo o especialista, muitas pessoas escolhem o silêncio absoluto como uma forma consciente de recuperar a calma e blindar a produtividade.

O impacto das notificações no nosso cérebro é mensurável. Pesquisas indicam que, após sofrer uma única interrupção externa (como um som de WhatsApp ou uma chamada), o cérebro leva, em média, 23 minutos e 15 segundos para retomar totalmente a concentração na tarefa anterior. Ao silenciar o telefone, o indivíduo assume o controle do seu tempo, decidindo o momento exato em que vai interagir com o mundo, em vez de ser interrompido por ele.

Um escudo contra o "Tecnoestresse"

O termo "tecnoestresse" não é novo. Cunhado pelo psiquiatra americano Craig Brod em 1984, o conceito definia o esgotamento causado pela introdução dos computadores no ambiente de trabalho. Hoje, transbordou para a vida pessoal. O bombardeio diário de estímulos visuais e sonoros gera uma sobrecarga mental que o corpo absorve na forma de ansiedade.

Silenciar as notificações funciona como um gerenciamento proativo do estresse. Instituições de saúde e universidades, como a UNAM, recomendam impor limites rígidos às telas e aos horários de alertas para incentivar as conexões reais. No ambiente social, inclusive, deixar o telefone mudo durante uma conversa cara a cara é um forte indicador de inteligência social: sinaliza empatia e mostra que a pessoa à sua frente tem toda a sua atenção.

O paradoxo do silêncio: O efeito FOMO

Apesar dos inúmeros benefícios para a paz de espírito, o modo silencioso esconde uma armadilha psicológica curiosa. Um estudo publicado em 2022 no periódico Computers and Human Behavior revelou que deixar o celular no mudo pode, paradoxalmente, fazer com que algumas pessoas olhem para a tela mais vezes ao longo do dia.

Isso acontece devido ao fenômeno do FOMO (Fear of Missing Out, ou o "medo de estar perdendo algo"). A incerteza gerada pela ausência do som faz com que o usuário cheque o aparelho de forma compulsiva, movido pela ansiedade de que possa haver uma mensagem importante esperando por ele.

O veredito

No balanço final, a psicologia valida o celular no silencioso como uma escolha madura de autoconhecimento. Se a ausência de toques estridentes ajuda você a estabelecer barreiras saudáveis entre o mundo digital e a sua vida pessoal, reduzindo a ansiedade, você já ganhou mais qualidade de vida do que imagina. O silêncio, afinal, virou o maior luxo da vida moderna.

03/07/2026

MPRS entra com ação de R$ 40 milhões contra Corsan e Aegea por cobranças abusivas


Investigação em Santa Maria aponta cobranças indevidas, faturamento por serviços não prestados e aplicação de multas sem respaldo técnico. Órgão pede interrupção imediata das práticas.

by Deise Brandão

O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) ajuizou uma Ação Civil Pública contra a Corsan e a Aegea Saneamento, acusando as concessionárias de adotarem um modelo de cobrança marcado por práticas abusivas. A ofensiva jurídica, que toma como base uma investigação conduzida em Santa Maria, aponta que milhares de consumidores vêm sendo penalizados financeiramente por irregularidades sistemáticas na prestação do serviço.

Além de exigir a suspensão imediata das cobranças consideradas ilegais, o MPRS requer a condenação das empresas ao pagamento de R$ 40 milhões por danos morais coletivos. Caso a Justiça conceda a condenação, o montante será revertido ao Fundo para Reconstituição de Bens Lesados (FRBL).

As irregularidades apontadas

A ação é fruto de um procedimento investigatório liderado pela promotora de Justiça Giani Saad. O órgão reuniu um robusto conjunto de provas que inclui dados do Procon, processos judiciais em andamento, relatórios de órgãos reguladores e centenas de denúncias diretas de usuários.

Entre as principais ilegalidades identificadas pelo Ministério Público estão:

  • Cobrança por média: Faturamento baseado em estimativas, sem respaldo técnico ou leitura real dos hidrômetros.

  • Tarifa de esgoto indevida: Cobrança pelo serviço de esgotamento sanitário em imóveis localizados em regiões onde sequer existe rede coletora ou possibilidade de ligação.

  • Contas incompatíveis: Discrepâncias graves entre o consumo real de água das residências e os valores cobrados nas faturas.

  • Multas abusivas: Aplicação de penalidades financeiras sem a devida comprovação de irregularidades por parte do consumidor.

Impacto na população vulnerável

Para o Ministério Público, o cenário apurado não reflete falhas isoladas de sistema, mas sim uma prática comercial recorrente. O impacto é sentido de forma mais severa pela população de baixa renda. De acordo com o texto da ação, famílias em situação de vulnerabilidade social estão sendo obrigadas a comprometer o orçamento de despesas básicas e essenciais, como alimentação e saúde, para evitar o corte no abastecimento de água.

"O conjunto de provas demonstra irregularidades sistemáticas na prestação do serviço e no faturamento dos consumidores", sustenta o MPRS na petição, reforçando a necessidade de uma liminar urgente para estancar os prejuízos aos usuários.O pedido de indenização de R$ 40 milhões possui, segundo os promotores, um caráter pedagógico e punitivo, com o objetivo de forçar as concessionárias a adequarem seus procedimentos operacionais à legislação consumerista e garantirem o respeito aos direitos dos cidadãos gaúchos.

O que dizem as empresas

Até o momento, a Corsan e a Aegea Saneamento não se manifestaram oficialmente sobre o teor da ação civil pública. O espaço segue aberto para o posicionamento das concessionárias.

Origem dos dados: Jornal Essência do Vale / Ministério Público do RS.

O Pragmatismo que Engole a Memória: As Voltas que a Política Dá no RS

 

Por Deise Brandão

Quem acompanha os bastidores da política com o olhar atento de quem não se deixa levar por discursos prontos sabe que a memória é o primeiro cadáver a tombar no altar das conveniências eleitorais. No Rio Grande do Sul, o cenário político frequentemente nos oferece espetáculos de contorcionismo ideológico que desafiam a lógica do eleitor, mas revelam a essência do pragmatismo pelo poder.

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa dinâmica ocorreu no desfecho da eleição para o governo do Estado em 2022. Para entender o tamanho da ironia, precisamos retroceder um pouco no tempo.

Anos antes, a esquerda gaúcha, liderada pelo PT, empunhava bandeiras pesadas contra a gestão de Eduardo Leite. Cobrava-se vigorosamente a fiscalização da saúde pública, trazendo à tona episódios desgastantes como o escândalo dos exames de pré-câncer por amostragem em Pelotas, herdado do período em que o tucano foi prefeito. Criticava-se, com igual veemência, a condução econômica do Estado e a adesão ao Regime de Recuperação Fiscal, apontada pela oposição como o sufocamento definitivo das finanças gaúchas.

As urnas de 2022, contudo, desenharam um roteiro digno de cinema. Após um primeiro turno decidido por uma nesga de pouco mais de 2,4 mil votos — que tirou Edegar Pretto (PT) do páreo e empurrou Eduardo Leite para a etapa final contra Onyx Lorenzoni (PL) —, o cenário mudou drasticamente.

Em questão de dias, os mesmos palanques que despejavam críticas contundentes à gestão de Leite viram-se na obrigação de recalcular a rota. Sob a justificativa do "voto útil" e da necessidade de barrar o avanço do bolsonarismo no Rio Grande do Sul, o PT gaúcho anunciou um inédito, embora desconfortável, apoio crítico à reeleição do tucano.

A nível nacional, a costura já havia sido pavimentada: Geraldo Alckmin, outrora símbolo do PSDB histórico, migrava para o PSB para compor como vice na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva. No plano estadual, embora Leite corresse com Gabriel Souza (MDB) como seu vice oficial, foi o eleitorado de esquerda, outrora crítico ferrenho, que garantiu o combustível necessário para mantê-lo no Palácio Piratini.

O resultado dessa grande salada política está aí para quem quiser ver.

Para uma parcela expressiva do eleitorado, o abraço pragmático entre velhos rivais deixou um gosto amargo. As promessas de campanha e as coalizões de ocasião frequentemente cobram seu preço na governabilidade, e as críticas do passado sobre o colapso dos serviços públicos e o endividamento do Estado continuam ecoando nas conversas de balcão e no bolso do cidadão gaúcho.

A política, afinal, tem dessas coisas: une os distantes, silencia os críticos e prova que, no tabuleiro do poder, o inimigo de ontem pode ser o oxigênio de amanhã. Resta saber até quando o eleitor aceitará o papel de mero espectador dessas conveniências.

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