quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Quando a Justiça se Corrompe, o Preço é Coletivo

        

                   

by Deise Brandão

Durante séculos, o poder judicial soube que havia algo pior do que errar: trair a própria função.

Uma antiga história persa, registrada na Antiguidade e retomada muitas vezes ao longo do tempo, fala de um juiz chamado Sisamnes. Seu crime não foi violento, nem passional. Foi mais simples — e mais perigoso: corrompeu a justiça.

Sisamnes não matou ninguém.
Não liderou uma revolta.
Não traiu o rei.

Ele aceitou um suborno e proferiu uma decisão injusta.

Para o poder da época, isso não era um desvio individual. Era um ataque direto à ideia de justiça como fundamento do Estado. A punição imposta por Cambises II — extrema para os padrões de hoje — tinha menos a ver com vingança e mais com mensagem: quando o juiz se vende, todo o sistema apodrece.

Séculos depois, essa história voltou a ser usada como alerta. Não em livros, mas nas paredes dos próprios tribunais. No final do século XV, uma pintura foi encomendada para ficar exposta em local público, onde juízes trabalhavam diariamente. Não era arte para deleite. Era lembrança permanente de responsabilidade.

O recado era simples:a cadeira do juiz não é um trono, não é herança,não é proteção.

Hoje, evidentemente, não se fala mais em castigos físicos. Mas o princípio permanece — ou deveria permanecer.

A corrupção judicial contemporânea raramente aparece em atos explícitos. Ela se manifesta de outras formas: decisões seletivas, processos que desaparecem, prazos que só correm para um lado, interpretações elásticas para alguns e rígidas para outros, silêncio institucional diante de abusos evidentes.

Nada disso deixa marcas visíveis como na Antiguidade.Mas deixa vítimas. Muitas.

O problema é que, ao contrário do passado, a mensagem deixou de ser pública, a punição deixou de ser exemplar. E a memória institucional foi substituída pelo esquecimento conveniente.

Quando juízes corruptos não enfrentam consequências reais, não é apenas a lei que perde força, é a confiança coletiva. É o pacto social. É a própria noção de justiça.

A história de Sisamnes sobrevive não pela violência que descreve, mas pela clareza que oferece: não existe justiça neutra quando quem julga trai sua função.

O poder pode até proteger por um tempo.
Mas a corrupção judicial nunca é neutra —ela cobra o preço em silêncio, ao longo das gerações.

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