quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Porto Alegre e a Roda dos Expostos

 by Deise Brandão


No Rio Grande do Sul, a prática é bem documentada principalmente em Porto Alegre, na Santa Casa de Misericórdia, a mais antiga instituição hospitalar do estado.

A roda foi instalada no muro do hospital a partir de 1837–1838 e funcionou por mais de um século, acolhendo recém-nascidos deixados ali por mães que, por diferentes razões — pobreza, estigma social ou impossibilidade de criar o filho — optavam pelo abandono anônimo.

O dispositivo era simples:
A mãe ou responsável deixava o bebê em uma abertura giratória de madeira no muro.
Girava-se a roda e a criança ficava do lado de dentro, acessível às cuidadoras.
Uma campainha ou sino era acionado para alertar a equipe interna da chegada da criança.
Dali, o bebê era examinado, aquecido, alimentado e cadastrado em livros de entrada.
 
Contexto social e significado
A Roda dos Expostos funcionava num contexto social no qual:
mulheres sem apoio familiar ou econômico tinham poucas alternativas para criar um filho;
o estigma social associado ao nascimento fora do casamento era severo;
a mortalidade infantil era alta e a estrutura de proteção social inexistente;
instituições religiosas e de caridade preenchiam lacunas que o Estado não cobria.

Embora vista por alguns contemporâneos como um “mecanismo de misericórdia”, historicamente a roda também refletia as desigualdades e violências estruturais da época, oferecendo acolhimento imediato, mas inserindo muitos desses bebês em trajetórias de adoção, trabalho ou abandono subsequente.
 
O fim da roda
No Brasil, a prática de rodas dos expostos foi gradualmente sendo eliminada ao longo do século XX, à medida que novas legislações e políticas sociais surgiram para regulamentar o direito das crianças e a proteção ao nascituro e ao infante, culminando na retirada desses dispositivos e no desenvolvimento de outras formas de entrega voluntária com amparo legal.

Estatísticas e relatos históricos
Os registros variam conforme o período, mas estudos apontam que, ao longo do século XIX, centenas ou milhar de crianças passaram pela roda em Porto Alegre — em alguns anos dezenas, em outros muitos mais. Um registro citado num jornal local mostra que em 1876, por exemplo, 196 recém-nascidos foram deixados no dispositivo, muitos deles filhos de mulheres pobres ou solteiras.

A roda continuou em operação até cerca de 1940, quando foi progressivamente desativada à medida que a sociedade e as instituições buscaram outras formas de amparo à infância e políticas públicas de assistência social se desenvolveram.
Em relatos mais antigos, jornais da própria época discutiam o destino dos “enjeitados”: alguns recebiam nome e cuidados, outros tinham trajetórias difíceis — espelhando as tensões sociais e econômicas de uma Porto Alegre em transformação ao longo do século XIX e início do XX.

Outras referências no RS
Além de Porto Alegre, há pesquisa acadêmica que trata da Casa da Roda dos Expostos na cidade do Rio Grande (RS), indicando que uma prática similar também estava presente em outras localidades gaúchas ao longo do século XIX, ligada às Santas Casas e à assistência institucional às crianças enjeitadas.

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