sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Nem tudo que é normal é humano

 Imagem gerada pela IA Gemini

by Deise Brandão

Existe uma forma de adoecimento que quase ninguém reconhece como tal — justamente porque ela é socialmente aceita, incentivada e aplaudida. Seu nome é normose.

O termo foi cunhado pelo psicólogo e educador Pierre Weil para definir um fenômeno inquietante:
o sofrimento produzido pela adaptação excessiva às normas sociais.

Normose é a patologia da normalidade.

Não se trata de um transtorno individual, nem de fragilidade emocional. Ao contrário: muitas vezes, atinge justamente pessoas lúcidas, éticas, sensíveis e conscientes. Pessoas que percebem — ainda que não saibam nomear — que algo profundamente errado foi naturalizado.

Na normose, o critério deixa de ser saúde e passa a ser conformidade.

Trabalhar até a exaustão é normal.
Viver ansioso é normal.
Não ter tempo para pensar é normal.
Engolir abusos para manter estabilidade é normal.
Produzir sem sentido é normal.
Silenciar desconfortos morais é normal.

Tudo isso passa despercebido porque “todo mundo faz”. E é exatamente aí que mora o perigo.

A normose inverte os sinais. Quem se adapta demais é visto como ajustado, responsável, maduro. Quem desacelera, questiona ou se recusa a seguir o fluxo é rotulado como problemático, improdutivo, estranho ou emocionalmente instável.

O corpo costuma ser o primeiro a denunciar. Exaustão crônica, bloqueio criativo, apatia sem depressão clara, perda de sentido, falta de vontade que não se explica. A mente tenta normalizar. O corpo diz não. E quando o corpo diz não, o sistema responde com rótulos: burnout, desmotivação, fraqueza, falta de resiliência. Raramente se pergunta se o modo de vida “normal” é que está doente.

Normose não é doença pessoal. É adoecimento coletivo.

Ela sustenta instituições, mercados, burocracias e relações abusivas. Pessoas normóticas funcionam bem dentro de sistemas disfuncionais. Produzem, obedecem, repetem, silenciam. Não fazem perguntas perigosas. Não interrompem fluxos.Por isso, sair da normose incomoda tanto.Quem para de se explicar o tempo todo, quem deixa de produzir por obrigação, quem já não corre atrás de validação, quem só quer o que é seu — torna-se difícil de manipular.

O sistema chama isso de estagnação.Mas, muitas vezes, é retirada saudável.

Sair da normose não significa virar antissocial, improdutivo ou apático. Significa recuperar soberania. Escolher onde colocar energia. Recusar a lógica da exaustão permanente. Não confundir sobrevivência com vida.

Talvez o maior sinal de saúde, hoje, seja justamente este:não aceitar adoecer só para continuar sendo considerado normal.

Porque nem tudo que é normal é humano.
E nem tudo que é humano cabe na normalidade vigente.

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