by Deise Brandão
Existe uma forma de adoecimento que quase ninguém reconhece como tal — justamente porque ela é socialmente aceita, incentivada e aplaudida. Seu nome é normose.
Normose é a patologia da normalidade.
Não se trata de um transtorno individual, nem de fragilidade emocional. Ao contrário: muitas vezes, atinge justamente pessoas lúcidas, éticas, sensíveis e conscientes. Pessoas que percebem — ainda que não saibam nomear — que algo profundamente errado foi naturalizado.
Na normose, o critério deixa de ser saúde e passa a ser conformidade.
Tudo isso passa despercebido porque “todo mundo faz”. E é exatamente aí que mora o perigo.
A normose inverte os sinais. Quem se adapta demais é visto como ajustado, responsável, maduro. Quem desacelera, questiona ou se recusa a seguir o fluxo é rotulado como problemático, improdutivo, estranho ou emocionalmente instável.
O corpo costuma ser o primeiro a denunciar. Exaustão crônica, bloqueio criativo, apatia sem depressão clara, perda de sentido, falta de vontade que não se explica. A mente tenta normalizar. O corpo diz não. E quando o corpo diz não, o sistema responde com rótulos: burnout, desmotivação, fraqueza, falta de resiliência. Raramente se pergunta se o modo de vida “normal” é que está doente.
Ela sustenta instituições, mercados, burocracias e relações abusivas. Pessoas normóticas funcionam bem dentro de sistemas disfuncionais. Produzem, obedecem, repetem, silenciam. Não fazem perguntas perigosas. Não interrompem fluxos.Por isso, sair da normose incomoda tanto.Quem para de se explicar o tempo todo, quem deixa de produzir por obrigação, quem já não corre atrás de validação, quem só quer o que é seu — torna-se difícil de manipular.
Sair da normose não significa virar antissocial, improdutivo ou apático. Significa recuperar soberania. Escolher onde colocar energia. Recusar a lógica da exaustão permanente. Não confundir sobrevivência com vida.
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