sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Intento não é propósito ou intenção

 


by Deise Brandão


Há uma confusão recorrente — e profundamente limitadora — entre propósito, intenção e intento. Em português, essa confusão é quase inevitável, porque as palavras parecem vizinhas. Mas, na prática, elas pertencem a camadas completamente diferentes da experiência humana.

O propósito nasce do eu. Ele se organiza dentro da identidade, da biografia, da narrativa pessoal. Pode ser formulado, explicado, defendido. Costuma vir acompanhado de frases como “meu propósito é”, “nasci para”, “quero realizar”. Ele orienta escolhas, dá sentido à trajetória, ajuda a atravessar fases. É legítimo. É humano. Mas é frágil.

O propósito depende de energia emocional, de motivação, de esperança de resultado. Ele cresce quando tudo parece possível — e vacila quando o mundo resiste. Basta o cansaço, a frustração, a perda de sentido, e o propósito enfraquece. Porque ele precisa que o eu esteja convencido.

A intenção também pertence a esse mesmo campo. É mental, psicológica, deliberada. A intenção é algo que se formula: “minha intenção é…”. Pode ser boa, ética, bem direcionada — e ainda assim falhar. Ela depende da vontade, do foco, da persistência. Muda com o humor, com o medo, com a conveniência. Intenção é esforço interno tentando produzir um efeito externo.

Já o intento, no sentido usado por Dom Juan Matus, não nasce do eu. E é aqui que quase todo leitor se perde.

O intento não é um desejo refinado.Não é uma intenção fortalecida.Não é um propósito espiritualizado. O intento é impessoal. Ele não se formula, não se explica, não se defende. Não pergunta “por quê”, não pede garantia, não negocia com a realidade. O intento não responde ao que alguém quer — ele responde à forma como alguém está.

Enquanto o propósito organiza a vida pessoal e a intenção tenta conduzir os acontecimentos, o intento organiza a própria relação entre a consciência e o real. Essa diferença é decisiva.

A intenção tenta mover o mundo.O intento remove o ruído para que o mundo se mova através de alguém.

Por isso, na tradição do guerreiro, o comportamento impecável não é uma virtude moral, nem um ideal ético elevado. É uma exigência técnica. Emoção excessiva, queixa, indulgência, dramatização, necessidade de reconhecimento — tudo isso interfere na conexão. Não por erro ou pecado, mas por ruído.

O intento responde à coerência. A coerência é o idioma do intento.

O propósito pode te sustentar enquanto as condições colaboram. A intenção pode funcionar enquanto há energia emocional disponível. O intento, não. O intento opera mesmo quando todos os pensamentos dizem que está perdido. Ele não depende de motivação, porque não nasce do humor. Não depende de crença, porque não nasce da mente. Não depende de esperança, porque não negocia com o medo.

É por isso que o guerreiro não explica. Explicar reforça o eu. Reforçar o eu quebra a sintonia.

Existe um ponto sutil — e decisivo — em que o propósito deixa de ser um obstáculo e passa a servir ao intento. Isso acontece quando ele deixa de ser identidade. Quando já não precisa ser defendido, justificado ou reconhecido. Quando deixa de ser “meu”.

Nesse ponto, o guerreiro não “tem” propósito. Ele funciona.

O intento não pergunta o que tu queres fazer da vida. Ele responde ao que precisa acontecer — através de ti. Não a teu favor, não contra ti. Simplesmente através. E é aqui que a confusão com a intenção precisa ser encerrada de vez.

A intenção é algo que tu fazes. O intento é algo que acontece quando tu paras de atrapalhar.

A intenção pergunta: “o que eu quero?”O intento responde: “agora.”

A intenção explica. O intento age.

A intenção precisa ser sustentada. O intento sustenta.

Uma intenção muito forte ainda é apenas intenção, porque continua girando em torno do eu. O intento começa exatamente onde o eu deixa de ser o centro.

Talvez por isso o intento assuste tanto. Porque ele elimina a queixa.Elimina a indulgência.Elimina a barganha com a vida. Em troca, entrega algo raro:direção sem explicação, eficácia sem esforço emocional, paz sem promessa. Não é confortável. É funcional.

E isso muda tudo.

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