16/09/2025

Tratamentos Reais para Lesão Medular: O Que Já Foi Conquistado


by Deise Brandão

Lesões na medula espinhal causam perda parcial ou total de função motora e/ou sensação abaixo do nível da lesão. Cientistas vêm estudando várias abordagens: células-tronco, estimulação elétrica, dispositivos de reabilitação combinados. Embora ainda não haja “cura universal”, há resultados animadores em humanos, com melhorias funcionais importantes.

Estudos mais recentes e estatísticas

1.  ARC-EX Therapy: estimulação elétrica

  • Um ensaio clínico multicêntrico recente com 60 participantes com lesão cervical crônica (braço/pulso) avaliou a terapia chamada ARC-EX. Nature

  • Resultados:

    • 72% dos participantes tiveram melhora acima do limiar mínimo considerado clinicamente significativo em ambas as áreas de força e desempenho funcional da mão e do braço. Nature

    • Também houve melhora significativa na força de “pinça” entre dedos, preensão e sensibilidade. Nature

    • Nenhum evento adverso grave relacionado ao dispositivo foi reportado. Nature+1

  • Importância: mostra que estimulação elétrica externa + reabilitação pode recuperar funções mesmo em lesões crônicas. Nature+1

2. Terapia com células-tronco

  • Meta-análise (BMC Medicine, 2022): revisou 62 estudos envolvendo 2.439 pacientes com lesão medular tratados com diferentes tipos de células-tronco. BioMed Central

    • Aproximadamente 48,9% dos pacientes apresentaram melhora de pelo menos um grau na escala ASIA (escala de gravidade da lesão medular) após tratamento com células-tronco. BioMed Central

    • Funções urinárias melhoraram em ~ 42,1% dos casos. BioMed Central

    • Funções gastrointestinais melhoraram em ~ 52,0% nos casos avaliados. BioMed Central

    • Efeitos adversos foram comuns, mas majoritariamente menores (espasmos musculares, dor neuropática, sintomas transitórios). Nenhum tumor relatado nos seguimentos curtos/médios. BioMed Central

  • Estudo da Mayo Clinic (fase 1) com células mesenquimais derivadas de tecido adiposo: 10 adultos com lesão traumática medular. Mayo Clinic News Network

    • 7 dos 10 participantes tiveram melhoria na escala ASIA: sensação (ponta de agulha, toque leve), força em músculos motores, recuperação de contração voluntária relevância para função intestinal ou anal. Mayo Clinic News Network

    • O estudo confirmou que o uso foi seguro, sem grandes eventos adversos. Mayo Clinic News Network

3.  Novos ensaios clínicos de fase inicial

  • Griffith University (Austrália) iniciou recentemente um ensaio fase 1 para lesões crônicas com uso de olfactory ensheathing cells (células de revestimento olfatório, vindas do nariz). News-Medical

    • Objetivo: avaliar segurança e efeitos funcionais (movimento dos dedos, função de bexiga/intestino, etc.). News-Medical

    •  O que ainda falta / limites

  • Muitas das melhorias observadas não correspondem a recuperação total, e variam muito entre pacientes.

  • O tempo entre a lesão e o tratamento influencia bastante: tratamentos iniciados logo após a lesão tendem a apresentar melhores resultados.

  • Número de participantes ainda é pequeno em muitos estudos; seguimento (tempo de observação) muitas vezes é curto.

  • Há variabilidade em tipos de células, método de administração, intensidade/tempo da reabilitação, que dificulta comparações.

  • Segurança: embora não haja eventos graves nos estudos recentes maiores, efeitos menores são comuns; precisamos de seguimento para ver efeitos a longo prazo (por décadas).

Para leitores interessados:

  • Já é real que células-tronco, estimulação elétrica externa (como ARC-EX) e novos protocolos de reabilitação combinados estão dando resultados mensuráveis.

  • Podemos dizer que ~ metade dos pacientes submetidos a terapia com células-tronco podem experimentar ao menos uma melhora modesta (pelo menos 1 grau na escala ASIA).

  • Importante sublinhar: melhorias sensoriais e motoras são mais frequentes do que recuperação completa da mobilidade.

  • Segurança geral parece aceitável nos estudos menores; porém é necessário cuidado e mais observação, especialmente para efeitos tardios.

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