02/09/2026

Quando a narrativa desenha conexões que os fatos não comprovam


by Deise Brandão

Coincidência de interesses, benefício político e simultaneidade de acontecimentos podem justificar uma investigação. Sem comunicação, financiamento, orientação ou ação conjunta, porém, não demonstram coordenação.

Uma narrativa política não precisa apresentar uma acusação direta para conduzir o leitor a determinada conclusão. Basta reunir fatos verdadeiros, identificar seus possíveis beneficiários, apontar interesses coincidentes e organizar tudo numa mesma sequência.

A ligação será feita pelo público.

O recurso é eficiente porque produz a imagem de uma engrenagem em movimento sem demonstrar que suas peças estejam efetivamente conectadas. Cada informação pode ser verdadeira. O problema está nas relações causais que o texto sugere, mas não comprova.

Uma autoridade toma determinada decisão. Um grupo político explora seus efeitos. Empresas possuem interesses econômicos relacionados ao assunto. Um governo estrangeiro mantém divergências com o país. Redes sociais amplificam a controvérsia.

Todos esses acontecimentos podem existir simultaneamente. A simultaneidade, contudo, não demonstra coordenação. A convergência não comprova causalidade. E interesse não significa participação.

As conexões precisam ser demonstradas

Para estabelecer que agentes diferentes participaram de uma mesma operação, não basta mostrar que desejavam resultados semelhantes.

É necessário identificar elementos concretos de ligação: comunicação, orientação, financiamento, divisão de tarefas, acordo, interferência ou alguma forma comprovável de ação conjunta.

Sem esses elementos, existem apenas atores distintos reagindo a uma mesma situação de acordo com seus próprios interesses.

A expressão “convergência objetiva de interesses” pode descrever adequadamente determinado cenário político. O problema surge quando ela passa a ocupar o lugar da prova ausente.

Interesses convergentes podem ajudar a formular uma hipótese. Não permitem, sozinhos, afirmar a existência de conspiração, golpe, interferência estrangeira ou operação coordenada.

Beneficiar-se não significa ter produzido

Identificar quem ganha com determinado acontecimento é uma etapa possível de qualquer investigação. Não é sua conclusão. 

Um partido pode ganhar votos depois de um escândalo envolvendo um adversário. Isso não demonstra que tenha produzido o escândalo.

Uma empresa pode lucrar com uma mudança legislativa. O lucro posterior não comprova que ela tenha provocado a alteração.

Um país pode obter vantagem geopolítica com uma crise ocorrida em outro território. Essa vantagem não demonstra que tenha criado ou dirigido a crise.

Uma plataforma digital pode ser beneficiada pelo enfraquecimento de determinada regulação. Isso não comprova sua participação numa operação contra os responsáveis pela regulamentação.

Benefício posterior não demonstra autoria anterior. Interesse não comprova participação. Correlação não estabelece causalidade.

Sem essa distinção, qualquer acontecimento político pode ser transformado em conspiração. Basta localizar alguém que tenha obtido alguma vantagem. E sempre haverá beneficiários.

“Guerra híbrida” exige rigor

O conceito de guerra híbrida descreve fenômenos reais. Operações de influência, desinformação, ataques cibernéticos, pressões econômicas e interferência externa podem ser utilizadas para desestabilizar países sem o emprego de uma guerra convencional.

Justamente por isso, a expressão não pode funcionar como substituta da demonstração factual.

Quando conflitos institucionais, disputas informacionais, interesses empresariais e vantagens geopolíticas são reunidos automaticamente sob o rótulo de “guerra híbrida”, o conceito deixa de explicar um fenômeno e passa apenas a nomear uma suspeita.

O problema se agrava quando a ausência de coordenação também é incorporada à própria teoria. Os agentes não precisariam se conhecer, conversar, receber ordens ou demonstrar qualquer vínculo. Bastaria que seus interesses apontassem na mesma direção.

A hipótese torna-se, então, impossível de testar.

Quando aparece uma conexão, ela é apresentada como confirmação. Quando a conexão não existe, a ausência é interpretada como característica de uma operação descentralizada e sem comando explícito.

Uma teoria capaz de absorver qualquer resultado deixa de funcionar como hipótese verificável.

Washington não explica automaticamente os acontecimentos brasileiros

Os Estados Unidos possuem interesses econômicos, tecnológicos e geopolíticos no Brasil. O Brasil também mantém interesses que podem coincidir ou entrar em conflito com os norte-americanos.

Empresas pressionam governos. Estados defendem empresas nacionais. Governos tentam influenciar outros governos. Nada disso constitui novidade nas relações internacionais.

Há, contudo, uma distância entre reconhecer a existência desses interesses e atribuir acontecimentos internos brasileiros à atuação estrangeira.

Essa distância precisa ser preenchida por provas.

O fato de uma potência desejar determinado resultado não demonstra que tenha produzido os acontecimentos que o favoreceram. Do contrário, uma mesma crise poderia ser atribuída simultaneamente a todos os países capazes de obter alguma vantagem com ela.

A análise internacional precisa identificar instrumentos, agentes, contatos, recursos e ações. A simples referência a Washington não substitui esse trabalho.

Empresas, governos e campos políticos não possuem vontade única

Outro recurso frequente consiste em transformar grupos complexos em personagens homogêneos: “as Big Techs querem”, “o mercado exige”, “Washington decidiu”, “a direita planeja”, “a esquerda pretende”.

Essas expressões podem facilitar uma explicação geral, mas frequentemente escondem divergências importantes.

Empresas de um mesmo setor competem entre si. Órgãos de um mesmo governo podem defender posições diferentes. Partidos possuem disputas internas. Autoridades vinculadas ao mesmo campo político divergem. Interesses que coincidem em determinado assunto podem entrar em choque no seguinte.

Transformar todos esses agentes num único sujeito, dotado de vontade, estratégia e direção, produz uma história mais simples e politicamente mais atraente. Não necessariamente produz uma descrição fiel da realidade.

A exigência de prova deve valer para todos

É correto exigir cautela quando uma investigação atinge uma autoridade. Indícios não devem ser apresentados como condenação. Informações incompletas não podem ser utilizadas para destruir reputações. Investigações inconclusas precisam ser tratadas como inconclusas.

O mesmo padrão deve orientar as acusações políticas construídas para explicar essas investigações.

Não se pode condenar alguém com base em indícios e, ao mesmo tempo, transformar coincidências em prova contra seus supostos acusadores.

Interesse não pode ser apresentado como participação. Benefício não pode substituir autoria. Contexto geopolítico não comprova comando. Convergência não demonstra coordenação. Uma hipótese não se transforma em fato apenas porque oferece uma explicação sedutora para os acontecimentos.

Quando a exigência é prova, ela precisa valer para todos os envolvidos.

A realidade pode ser menos cinematográfica

Instituições entram em conflito. Autoridades divergem sobre competências e procedimentos. Investigações alcançam pessoas poderosas. Documentos provocam consequências inesperadas. Partidos exploram politicamente os fatos que lhes são convenientes.

A imprensa publica aquilo que considera relevante. Redes sociais privilegiam as versões mais explosivas. Empresas defendem seus interesses. Governos estrangeiros fazem o mesmo.

Nada disso exige necessariamente uma sala secreta, uma direção centralizada ou uma operação internacional.

Pode significar apenas que agentes diferentes respondem ao mesmo acontecimento a partir de interesses próprios.

É uma explicação menos cinematográfica, mas plenamente compatível com o funcionamento da política, das instituições e da sociedade contemporânea.

“A quem interessa?” é o começo, não o fim

Perguntar quem se beneficia de determinado fato pode abrir uma investigação. Jamais deveria encerrá-la.

Depois dessa pergunta, é necessário verificar o que cada pessoa ou instituição efetivamente fez. É preciso procurar vínculos, contatos, ordens, financiamento, documentos e ações comprováveis.

Qual acontecimento liga concretamente um agente ao outro? Quem comunicou o quê? Quem orientou, financiou ou executou determinada medida? Em que documento a coordenação aparece?

Quando essas respostas não existem, permanece uma hipótese.

Ela pode ser plausível, relevante e merecedora de apuração. Pode, inclusive, vir a ser comprovada. Enquanto os elos não forem demonstrados, continuará sendo hipótese.

Fatos verdadeiros também podem compor uma narrativa enganosa

A desinformação não nasce apenas de documentos falsos ou acontecimentos inventados. Também pode resultar da organização tendenciosa de informações verdadeiras.

Não é necessário falsificar cada peça. A disposição das peças pode induzir o leitor a enxergar uma imagem que nenhuma delas, isoladamente ou em conjunto, consegue demonstrar.

Esse mecanismo é especialmente sofisticado porque preserva a aparência de precisão factual. Os nomes estão corretos, os interesses existem e os acontecimentos realmente ocorreram. O problema está nas setas invisíveis desenhadas entre eles.

Jornalismo e análise política interpretam fatos. Isso faz parte de sua função. O dever fundamental é indicar com clareza onde termina a informação comprovada e onde começa a interpretação.

A responsabilidade aumenta quando estão em jogo acusações graves como golpe de Estado, guerra híbrida, interferência estrangeira ou destruição deliberada das instituições.

Documento é documento. Fato é fato. Indício é indício. Hipótese é hipótese. Interesse é interesse. Prova é prova.

Entre essas categorias existe uma distância que nenhuma narrativa, por mais coerente ou politicamente conveniente que pareça, pode apagar.

A convergência de interesses justifica perguntas. Não pode ser apresentada como resposta.

Investigar o poder não é atacar a democracia

                     
Conflitos entre autoridades, divulgação de documentos e investigações contra integrantes do Estado podem produzir crises institucionais. Transformá-los automaticamente em tentativa de golpe, porém, substitui a análise jurídica por uma narrativa política.


by Deise Brandão

Existe uma diferença fundamental entre crise institucional e golpe de Estado. A primeira expõe conflitos, falhas e disputas entre órgãos e autoridades. O segundo pressupõe uma ação destinada a romper a ordem constitucional, impedir o funcionamento regular dos Poderes ou tomar o controle do Estado por meios ilegítimos.

A distinção parece elementar. No debate público brasileiro, contudo, ela vem sendo progressivamente abandonada.

Decisões judiciais, investigações policiais e divulgação de documentos passaram a ser avaliadas menos por sua legalidade do que pelos efeitos políticos que podem produzir. Antes de se examinar a competência da autoridade, a validade da medida ou o respeito ao devido processo, procura-se identificar quem será beneficiado ou prejudicado.

Essa inversão transforma consequência política em prova de intenção. E abre espaço para que qualquer investigação incômoda seja apresentada como ameaça à democracia.

A legalidade deve anteceder a conveniência política

Uma investigação não se transforma em ataque ao Estado apenas porque alcança alguém que ocupa posição central dentro dele. Da mesma forma, documentos não perdem relevância porque sua divulgação poderá ser explorada eleitoralmente.

Conflitos entre integrantes de instituições também não demonstram, por si mesmos, a existência de uma operação coordenada para destruí-las. Podem revelar algo menos cinematográfico e muito mais comum às democracias: órgãos públicos submetidos às próprias contradições e aos mecanismos de controle previstos pelo sistema.

A primeira análise deve ser jurídica.

É necessário verificar se a autoridade possuía competência para determinar o ato, se existiam elementos que justificavam a providência, se o sigilo poderia ser retirado, se houve violação do devido processo e se alguma autoridade ultrapassou suas atribuições.

Essas questões admitem respostas verificáveis em leis, decisões, documentos e procedimentos.

Perguntar “quem se beneficia?” pode ser politicamente relevante. Não constitui prova da legalidade ou ilegalidade de um ato.

Instituições fortes investigam os próprios integrantes

Uma das ideias mais perigosas aplicadas ao funcionamento do Estado é a de que determinadas investigações devem ser contidas para preservar a confiança da população nas instituições.

A lógica democrática aponta na direção contrária.

Uma instituição não demonstra força impedindo o aparecimento de suspeitas contra seus integrantes. Demonstra força quando possui capacidade para examiná-las, identificar responsabilidades e corrigir irregularidades.

Um tribunal não perde legitimidade porque um de seus membros é investigado. Uma polícia não é destruída porque seus procedimentos são questionados. O Ministério Público não perde sua função constitucional quando a atuação de um procurador ou promotor é submetida a controle.

O problema surge quando a defesa da imagem institucional passa a ser confundida com a proteção pessoal de seus integrantes.

Instituições não são pessoas. Não possuem honra individual a ser preservada por meio do silêncio. Sua legitimidade depende da legalidade dos atos que praticam, da transparência possível e da existência de mecanismos efetivos de fiscalização.

Democracia não é reputação. É procedimento.

Benefício político não comprova articulação

Investigações, decisões judiciais e notícias produzem consequências políticas. Um grupo pode ganhar apoio eleitoral enquanto outro perde. Candidatos podem explorar documentos contra adversários. Governos estrangeiros podem preferir determinado resultado. Empresas podem entrar em conflito com órgãos reguladores ou tribunais.

Nada disso comprova, isoladamente, que o acontecimento tenha sido produzido para alcançar aquele resultado.

Quando uma força política utiliza uma investigação contra seus adversários, demonstra que soube explorá-la. Isso não prova que tenha criado ou dirigido a investigação.

A coincidência entre o interesse de um governo estrangeiro e determinada consequência interna também não demonstra coordenação. Para sustentar essa conclusão, é necessário apresentar contatos, ordens, financiamento, divisão de tarefas ou algum outro elemento concreto de conexão.

O mesmo vale para empresas de tecnologia que contestam decisões judiciais. O conflito pode ser econômico, jurídico ou regulatório. Para transformá-lo em participação numa operação política contra um tribunal, são necessárias provas adicionais.

Democracias não podem estabelecer culpa por convergência de interesses.

Sigilo não significa inexistência dos fatos

A divulgação de informações pertencentes a investigações ainda inconclusas pode produzir condenação social antes de uma decisão judicial. A preocupação é legítima, principalmente quando os documentos são apresentados de forma fragmentada ou sem o contexto necessário.

Isso não autoriza, porém, a conclusão inversa de que toda publicidade relacionada a uma investigação constitui agressão às instituições.

O sigilo processual possui fundamento jurídico. A publicidade dos atos públicos também.

A questão deve ser examinada a partir das regras aplicáveis ao caso concreto. É preciso saber se o procedimento estava legalmente protegido, quem possuía acesso às informações, qual autoridade determinou a divulgação e se havia competência para retirar ou manter o sigilo.

Classificar previamente a publicidade como “golpe” elimina a etapa indispensável da demonstração. Antes de atribuir intenção de ruptura institucional, é necessário apontar qual regra foi violada, quem praticou a violação e de que maneira o ato se conecta a uma operação contra a ordem democrática.

O Estado de Direito também vale nos casos incômodos

Durante anos, consolidou-se no debate brasileiro a afirmação de que ninguém pode estar acima da lei. O princípio permanece correto, mas perde sentido quando aplicado de forma seletiva.

Ele precisa valer quando o investigado é adversário, aliado, juiz, procurador, policial, parlamentar, empresário ou integrante do governo.

Não existe independência institucional condicionada à identidade de quem está sendo investigado. Também não existe devido processo reservado apenas aos grupos com os quais se mantém afinidade política.

Quando uma autoridade abusa de suas atribuições, o abuso deve ser demonstrado. Quando outra pratica irregularidade, deve ser investigada. Quando documentos são utilizados fora das regras processuais, é preciso identificar a norma violada. Quando há interferência política ou estrangeira, a conexão deve ser comprovada.

O espaço ainda vazio da prova não pode ser preenchido por uma narrativa conveniente.

Controle entre Poderes não representa colapso

Estados democráticos foram estruturados para que o poder encontre limites.

Decisões são revistas. Autoridades são fiscalizadas. Competências são questionadas. Tribunais apresentam divergências internas. Ministérios Públicos contestam investigações. Polícias discordam de determinações judiciais. Advogados questionam os atos de todos eles. A imprensa deve poder investigar o conjunto.

Esse funcionamento pode produzir tensão, desgaste e crise. Não configura automaticamente colapso institucional.

O risco aparece quando determinada autoridade passa a ocupar posição tão central numa narrativa política que qualquer controle exercido sobre ela é interpretado como ameaça à democracia.

Nesse momento, deixa-se de defender a instituição e começa-se a protegê-la do próprio sistema que deveria fiscalizá-la.

O debate não precisa de heróis

A personalização empobrece a discussão institucional.

Não é necessário transformar uma autoridade em salvadora para investigar outra. Tampouco é necessário atribuir a condição de conspirador a todo aquele que questiona seus atos.

O Brasil precisa conhecer os documentos, sua origem e sua integridade. Precisa compreender por que determinadas providências foram adotadas, quem as determinou, quais fundamentos foram apresentados e se as regras legais foram respeitadas.

Também precisa identificar responsabilidades quando existirem irregularidades.

O resultado da apuração poderá favorecer a esquerda, a direita, determinado candidato ou nenhum deles. Essa consequência é irrelevante para a verificação dos fatos.

Há uma diferença profunda entre destruir deliberadamente a credibilidade de uma instituição e exigir que ela explique os próprios atos.

Instituições democráticas não desabam quando são obrigadas a prestar contas. Perdem legitimidade quando precisam ser protegidas da verdade para permanecer de pé.

Por isso, a pergunta central não é apenas quem ganha ou perde politicamente com determinada investigação.

A questão que o país precisa responder é outra:

Por que investigar o poder passou a ser confundido com atacar a democracia?

29/08/2026

Assassinato de reputações

                          

by Deise Brandão

Destruir a imagem de alguém não é uma invenção da era do cancelamento ou do Twitter. O cancelamento moderno é apenas a democratização industrial de uma tecnologia política milenar. Desde o ostracismo na Grécia Antiga até as campanhas de difamação da Guerra Fria, a destruição do caráter sempre foi a ferramenta mais eficiente para neutralizar inimigos sem a necessidade de criar mártires. Quando você mata um homem, você o transforma em herói ou em símbolo. Mas quando você mata a sua reputação, você o transforma em um pária. Você faz com que os seus próprios aliados cruzem a calçada para não serem vistos ao seu lado. É a morte social, o banimento do debate público.

O assassinato de reputações opera em uma lógica perversa: a acusação é sempre impressa na primeira página, em letras garrafais; a absolvição, quando vem, anos depois, aparece enterrada na nota de rodapé da página dezessete. Porque a verdade, meus amigos, é pesada, complexa e exige tempo. A calúnia, por outro lado, é leve, veloz e deliciosamente palatável. Ela se alimenta do nosso viés de confirmação e do nosso desejo quase primitivo de ver o outro cair do pedestal.

Anatomia de um Crime Perfeito

Para entender como se destrói uma reputação, precisamos entender a mecânica do processo. Não se trata de uma mentira deslavada contada numa mesa de bar. O assassinato de reputações profissional exige método. Ele se baseia no que os especialistas em guerra psicológica chamam de "A Técnica da Linha de Contato": você pega uma verdade irrefutável, por menor que seja, e constrói ao redor dela uma catedral de insinuações.

O processo geralmente segue três fases distintas:

  1. A Seleção e o Isolamento: O alvo é escolhido não necessariamente pelo que fez, mas pelo impacto que sua queda causará no xadrez político, econômico ou social. Ele é isolado. Cortam-se suas redes de apoio através do medo por associação.
  2. A Descontextualização: Uma frase dita há dez anos, um relatório financeiro mal interpretado deliberadamente ou uma foto ambígua. O contexto é a primeira vítima. Sem o contexto, qualquer um de nós pode parecer um monstro ou um criminoso.
  3. A Amplificação Sincronizada: É aqui que entram os cúmplices involuntários e os profissionais. No passado, eram os colunistas de jornais de aluguel. Hoje, são as redes de bots, as páginas de fofoca que operam como milícias digitais e os influenciadores que lucram com a indignação.

"Uma mentira dá meia volta ao mundo antes que a verdade tenha tempo de calçar as botas." — Frase frequentemente atribuída a Mark Twain, que sintetiza perfeitamente a assimetria da informação.

O elemento mais cruel dessa dinâmica é que ela inverte o princípio fundamental do direito moderno: a presunção de inocência. No tribunal da opinião pública, você é sumariamente culpado até que prove o contrário. E mesmo se você provar, o veredito popular raramente é revogado. A mancha permanece. O "ouvi dizer" ganha status de fato consumado.

O Caso de Estudo: A História como Testemunha

Se olharmos para a história recente do Brasil e do mundo, os exemplos abundam. Lembram-se do caso da Escola Base em 1994? Proprietários de uma escola infantil em São Paulo foram acusados falsamente de abuso sexual contra os alunos. A imprensa comprou a narrativa de um delegado ambicioso sem checar os fatos. O resultado? A escola foi depredada, a vida daqueles cidadãos foi completamente destruída, a saúde mental deles colapsou. Meses depois, provou-se que tudo não passava de uma terrível histeria coletiva e má-fé. Mas a escola nunca reabriu. A reputação deles foi assassinada em praça pública, com transmissão ao vivo.

No plano geopolítico, o assassinato de reputações é a base da diplomacia de coerção. Antes de se invadir um país ou sancionar uma economia, destrói-se a reputação do seu líder. Ele deixa de ser um adversário político e passa a ser retratado como um psicopata, um louco, um perigo iminente para a humanidade. Toda nuance é jogada no lixo. A complexidade das relações internacionais é reduzida a um filme de super-herói maniqueísta, onde o público é induzido a torcer pela aniquilação do "vilão".

E não se enganem achando que isso é um privilégio de apenas um espectro político. A destruição de reputações é uma arma de uso universal. À esquerda, rotula-se o dissidente como fascista, traidor da causa ou agente infiltrado. À direita, o opositor é transformado em comunista devorador de criancinhas, corrupto degenerado ou ameaça à família tradicional. O rótulo varia, mas a fôrma é a mesma: desumanizar o outro para que sua eliminação do debate não cause remorso.

A Economia Política do Cancelamento

Por que isso se intensificou tanto nos últimos anos? A resposta está na economia da atenção. Hoje, a indignação gera engajamento. O engajamento gera cliques. Os cliques geram receita publicitária. Destruir uma reputação tornou-se um negócio altamente lucrativo.

As plataformas digitais não são neutras. Elas foram desenhadas para privilegiar o conflito em detrimento do consenso. Um tuíte ponderado, que analisa os dois lados de uma questão, recebe três curtidas e nenhum compartilhamento. Um tuíte bombástico, acusatório, recheado de adjetivos violentos e certezas absolutas, viraliza em minutos. Nós fomos condicionados a atuar como juízes de um coliseu digital, onde o algoritmo nos pede, diariamente, para apontar o polegar para baixo e exigir o sangue do gladiador da vez.

Nesse cenário, a verdade é apenas um dano colateral. O que importa é a narrativa. Se a narrativa se alinha com o que o meu grupo político ou social acredita, eu a compartilho sem pestanejar. Nós nos tornamos cúmplices da execução pública de reputações pelo simples prazer hedonista de nos sentirmos moralmente superiores por alguns segundos.

O Efeito Silenciador e o Fim do Debate

O maior perigo do assassinato de reputações não é apenas o sofrimento individual do alvo — embora este seja devastador. O perigo real é o efeito colateral coletivo: o efeito silenciador (chilling effect).

Quando a sociedade assiste a um cientista, a um jornalista, a um político ou a um artista ser linchado publicamente por emitir uma opinião divergente ou por cometer um erro menor, a mensagem enviada para todos os outros é clara: "Cale-se". O medo de ser a próxima vítima faz com que as mentes mais brilhantes se recolham. O debate público empobrece. As pessoas passam a policiar cada palavra, cada gesto, cada curtida. A mediocridade e o conformismo passam a ser a única estratégia de sobrevivência segura.

Quem ganha com isso? Os extremistas de todos os matizes. Os donos do poder que não querem ser questionados. Afinal, se você não pode refutar o argumento de alguém, a saída mais fácil é destruir o argumentador. Se você não consegue vencer o debate no campo das ideias, você quebra as pernas do seu oponente no vestiário.

Considerações Finais: Como Sobreviver ao Linchamento?

Existe vacina contra o assassinato de reputações? Infelizmente, não uma que seja 100% eficaz. Mas o primeiro passo para o antídoto é o ceticismo radical. Diante de uma denúncia bombástica, de um escândalo moralizante ou de um exposed apoteótico, a nossa primeira reação deve ser a pausa.

Devemos nos perguntar:

  • A quem interessa a destruição desta pessoa neste exato momento?
  • Quais são as fontes originais e onde está o contexto completo desta declaração?
  • Estou compartilhando isso porque tenho certeza do fato ou porque odeio o alvo?

Precisamos resgatar urgentemente o direito ao erro, à contradição e, acima de tudo, a presunção de inocência. Uma sociedade que troca o devido processo legal pelo linchamento virtual está a apenas um passo da barbárie. A reputação de um indivíduo leva uma vida inteira para ser construída e apenas alguns segundos para ser desfeita por um clique impensado.

Em Alta

Mudam as moscas, a Merd@ continua

by Deise Brandão Enquanto o sistema te distrai com brigas, discursos e promessas, as regras do jogo estão sendo reescritas diante dos teus o...

Mais Lidas