segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Os Pais da Ginecologia e o Lado Sombrio da Ciência: Quanto Há de Verdade na Acusação de Assassinatos?


by Deise Brandão

De tempos em tempos, a internet ressuscita histórias da medicina que parecem saídas de um filme de terror. A mais recente envolve dois nomes reverenciados na Obstetrícia: William Hunter e William Smellie, frequentemente chamados de “pais da Ginecologia moderna”.
A alegação?Que eles teriam encomendado o assassinato de dezenas de mulheres grávidas no século XVIII para produzir seus atlas anatômicos.

A história é chocante — mas o que há de fato por trás dela?
O que é comprovado historicamente:

1. Hunter e Smellie foram gigantes da Obstetrícia
Ambos revolucionaram o estudo da gestação e do parto.
Hunter publicou, em 1774, o famoso Anatomia Uteri Humani Gravidi, considerado até hoje uma obra-prima de precisão anatômica.

2. Eles tiveram acesso anormalmente abundante a corpos de gestantes
No século XVIII, corpos de mulheres grávidas eram extremamente raros nas mesas de dissecação.A maioria dos anatomistas passava a vida inteira sem ver um único útero grávido.
Hunter e Smellie, porém, dissecavam dezenas — pelo menos 30 a 35 corpos em diferentes estágios da gravidez. Isso é um fato histórico e está documentado.

O que é suspeita forte (mas não prova)
Em 2006, o historiador Don Shelton publicou uma investigação detalhada no Journal of the Royal Society of Medicine, um dos periódicos médicos mais respeitados do mundo.
Ele analisou:
datas das dissecações,
grau de preservação dos corpos,
registros de mortes da época,
logística para obtenção de cadáveres,
práticas conhecidas de ladrões de corpos (“resurrectionists”).
E encontrou inconsistências preocupantes.

Por que os corpos levantam suspeitas?
Muitas das mulheres pareciam saudáveis e próximas do parto.
As condições dos cadáveres indicavam pouca decomposição — improvável se fossem mortes naturais adquiridas dias depois.
O número de cadáveres excede em muito o que seria possível conseguir de forma “normal”.
Shelton propôs então a hipótese: esses corpos podem ter sido obtidos por meio de assassinatos cometidos para abastecer a anatomia.
Não seria a primeira vez.
Casos como o de Burke e Hare (Escócia, 1828), que realmente mataram pessoas para vender aos anatomistas, são historicamente documentados.

O que NÃO é verdade (mas viralizou na internet)
Não existe prova de que Hunter e Smellie mataram alguém.
Não há cartas, confissões, testemunhos ou registros oficiais.
Não há prova de que eles “mandaram matar” 35 mulheres.
O que existe é a suspeita de que eles compraram corpos obtidos por meios violentos, algo que — infelizmente — era parte do submundo anatômico da época.
Chamar os dois de “assassinos em série” é anacrônico.
A categoria “serial killer” nasceu apenas no século XX.
Aplicar isso retroativamente distorce o contexto.

O paradoxo que incomoda até hoje
Os atlas produzidos por Hunter e Smellie: salvaram vidas,ensinaram gerações de médicos,foram fundamentais para o avanço da Obstetrícia.
Mas o material que permitiu esses avanços — os corpos de dezenas de gestantes — pode ter vindo de uma origem violenta e criminosa.
É a face sombria da história da medicina:o progresso muitas vezes foi construído sobre práticas antiéticas que só mais tarde seriam reconhecidas como crime.
Conclusão: verdade, suspeita e mito

A história não é limpa nem simples.
O que sabemos hoje é:
Fato: eles dissecavam um número impossível de gestantes.
Fato: a origem desses corpos é extremamente suspeita.
Fato: há indícios de envolvimento indireto com assassinatos.
Não é fato: que eles mesmos mataram ou comandaram execuções.
Não é fato: que são “assassinos em série” nos termos modernos.

A internet transforma suspeitas históricas em manchetes absolutas.
A verdade é mais complexa — e, justamente por isso, mais perturbadora.

domingo, 23 de novembro de 2025

O Lado Esquecido da História da Central Telefônica da Av. São Miguel

by Deise Brandão

Com o anúncio do leilão do antigo prédio da CRT na Avenida São Miguel, em Dois Irmãos, vale lembrar um capítulo da nossa história que quase ninguém mais menciona — mas que faz toda a diferença.

No início dos anos 1990, quando ter uma linha telefônica era um luxo e a instalação podia levar anos, os moradores da cidade foram chamados a contribuir financeiramente para acelerar a conclusão da central telefônica local.

Era assim: quem quisesse ter acesso mais rápido à linha podia pagar um valor na Prefeitura, como uma espécie de contribuição de melhoria. Muita gente colaborou. Eu fui uma dessas pessoas.

Essas contribuições ajudaram a viabilizar a obra que agora, três décadas depois, está sendo leiloada pelo Município — sem qualquer referência ao esforço coletivo da época, sem memória, sem registro simbólico, sem reconhecimento.

Não se trata de reivindicar dinheiro de volta — embora isso fosse o correto e o justo. O ponto aqui é lembrar que, quando essa central telefônica foi viabilizada, foi a própria comunidade que ajudou a pagar a conta. E mais: quem hoje administra a Prefeitura estava lá na época, ocupando exatamente as mesmas cadeiras. As funções mudaram entre prefeito e vice, mas os nomes são os mesmos.

Lembro bem da situação: quando disseram que as linhas haviam “acabado” justo na minha vez, a discussão não foi pequena. Fui falar diretamente com o Renato — que era vice ou Prefeito naquela época — e não aceitei a resposta pronta.

No fim, resolvi o problema onde realmente podia ser resolvido: direto na superintendência da CRT em Novo Hamburgo, com quem de fato mandava. Curiosamente, era o mesmo dirigente que, pouco tempo antes, tinha me concedido uma entrevista exclusiva — algo que ele se negava a fazer para quase todo mundo. Eu aceitei fazer a matéria, mesmo não cobrindo Novo Hamburgo no jornal.

Hoje eu entendo os bastidores desse privilégio , porque conheci a pessoa que cobria NH na época e… bem, me arrependo profundamente daquela proximidade. Mas isso é outra história. O que importa é que consegui minha linha telefônica, assim como vou retomar o queé meu e a Prefeitura esta bem enfiada na fraude... Também outra história, em breve pública, como todas as demais.

O fato é: a central telefônica existiu porque a população pagou.
Resgatar um fato histórico: a telefonia só chegou aqui porque a comunidade inteira colocou a mão no bolso quando o Estado não conseguia dar conta.

É bom lembrar isso agora, justamente quando o imóvel vai mudar de mãos.
Memória também é patrimônio.

Observação necessária

Curiosamente, o Google Maps,  aparece classificando esse endereço como “Bairro Floresta”, o que é completamente equivocado. Esse prédio sempre foi Centro, tanto no sentido urbanístico quanto histórico.
A Av. São Miguel jamais pertenceu ao Floresta em nenhum mapa oficial, planta urbana, documento imobiliário ou zoneamento da cidade. O erro vem de cadastros antigos e mal atualizados, que o Google replicou sem análise.

Mas para fins de leilão — e para fins de memória da cidade — é Centro. Sempre foi.
Qualquer outra classificação é erro de sistema, não de realidade.

sábado, 22 de novembro de 2025

Quatro Presidentes presos: o sintoma de um ESTADO apodrecido

 

by Deise Brandão

Desde a redemocratização, em 1989, quatro presidentes da República já foram presos: Fernando Collor, Luiz Inácio Lula da Silva, Michel Temer e, agora, Jair Bolsonaro.
O que deveria ser uma excepcionalidade histórica virou rotina institucional, revelando uma doença profunda: corrupção endêmica, sistêmica e epidêmica.

Não há nada a comemorar.
Há, no máximo, o reconhecimento tardio de que o país falhou repetidas vezes em impedir que seus líderes tratassem o Estado como propriedade particular.

Collor: o primeiro sintoma
Fernando Collor inaugurou o triste ciclo.
Foi afastado em 1992 e, anos depois, tornou-se réu e condenado por corrupção.
Sua queda, à época, parecia um alívio — como se o sistema estivesse se purificando.
Hoje sabemos: era só o começo.

Lula: a era das ilusões
Luiz Inácio Lula da Silva, símbolo de esperança para milhões, acabou preso em 2018 após desdobramentos da Lava Jato. 
A prisão, anulada posteriormente por questões processuais, não apagou o cenário que se revelou ao país: contratos superfaturados, empreiteiras, partidos e estatais operando em engrenagens de corrupção crônica.
Aos que ainda esperam alguma redenção institucional, bastou observar os últimos anos para entender que o problema nunca foi uma pessoa — mas um sistema inteiro moldado para se proteger.

Temer: a normalização do absurdo
Michel Temer foi preso duas vezes em 2019, envolvido em esquemas de corrupção que atravessaram décadas na política paulista. Sua prisão escancarou algo gravíssimo: até os bastidores “silenciosos” do poder estavam contaminados.
A sensação pública já não era choque.
Era cansaço.

Bolsonaro: a continuação previsível
Em 2025, Jair Bolsonaro se torna o quarto ex-presidente preso desde 1989.
Não é exceção, não é surpresa, não é choque.
É somente mais um capítulo do mesmo roteiro vergonhoso.
O que sobra é a constatação:
a maior parte dos presidentes eleitos após a redemocratização terminou o ciclo sob suspeita, acusação ou prisão.
Isso não é acaso.
Isso é diagnóstico.

Um país que não aprende
O Brasil tem duas doenças simultâneas: uma elite política que age como casta hereditária, intocável, blindada e repetidamente criminosa e um povo que, enganado ou cansado, acaba aceitando o teatro da “salvação” a cada quatro anos.

Quando quatro ex-presidentes terminam algemados, investigados ou condenados, não estamos diante de “casos isolados”. Estamos diante de um Estado falido moralmente.
Não há herói. 
Não há santo. 
Não há renascimento político possível.

Lula e Bolsonaro sintetizam a polarização mais destrutiva da história recente: um país mantido refém de dois polos que se alimentam um do outro, se retroalimentam do caos e transformam o debate público em trincheira.

A prisão de Bolsonaro revela o óbvio: não existe lado “do bem”.
Existe um sistema inteiro podre, que usa seus líderes como peças descartáveis.
 
Veredito histórico
Enquanto o povo paga a conta, Brasília segue mudando as figuras, mas nunca o jogo.
Quatro presidentes presos não são sinal de justiça funcionando.
São sinal de justiça tardia, impunidade prolongada e sistema contaminado de alto a baixo.

O Brasil não precisa de salvadores.
Precisa de ruptura institucional, transparência real e fim do pacto silencioso que normalizou a corrupção como paisagem administrativa.Até lá, o ciclo continuará:prisões, escândalos, impunidade, histeria coletiva — e a eterna sensação de que o país vive num loop viciado.

A celebração do caos: quando a anomalia vira rotina
A reação pública à prisão de Bolsonaro — comemorações, fogos, memes — não é sinal de maturidade democrática.É sinal de anestesia coletiva.Quando o país comemora a queda de mais um ex-presidente, não percebe que está celebrando sua própria tragédia:Enquanto a corrupção segue, o povo aprende a rir de sua própria ruína. E isso é, em si, um colapso moral.

Em Alta

JBS: Poder & Dinheiro inimagináveis.

 

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