sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O crime que não morre com o autor: o feminicídio de Eliane de Grammont



            

by Deise Brandão

A morte recente de Lindomar Castilho recoloca em evidência um dos crimes mais emblemáticos da história da música brasileira: o assassinato de Eliane de Grammont, em 1981, em pleno palco, durante uma apresentação musical em São Paulo.

Não se trata de reabrir curiosidades biográficas nem de romantizar tragédias. Trata-se de nomear corretamente o fato: feminicídio.

Um casamento marcado por controle e violência

Lindomar Castilho e Eliane de Grammont foram casados entre 1979 e 1981. O relacionamento teve início no ambiente profissional da gravadora RCA e resultou no nascimento de uma filha, Liliane. Relatos da época, inclusive constantes nos autos judiciais, apontam um convívio marcado por ciúmes excessivos, conflitos recorrentes e episódios de violência física, agravados pelo consumo de álcool por parte do cantor.

Eliane decidiu se separar. Essa decisão — comum, legítima e legal — foi tratada por ele como afronta pessoal.

O assassinato em público

Em 30 de março de 1981, Lindomar Castilho entrou armado na casa de shows Belle Époque, na capital paulista. No momento em que Eliane interpretava “João e Maria”, composição de Chico Buarque, o cantor efetuou cinco disparos de arma de fogo contra ela.

A motivação apontada foi o ciúme em relação ao violonista Carlos Randall, primo de Lindomar, que acompanhava Eliane naquela apresentação. Randall também foi atingido, mas sobreviveu.

Eliane de Grammont morreu aos 26 anos, ainda no trajeto para o hospital. O crime foi cometido diante do público, em um espaço de trabalho, como demonstração extrema de posse e controle.

Condenação e cumprimento da pena

Lindomar Castilho foi condenado por homicídio em 1984. O cumprimento da pena ocorreu da seguinte forma:

  • Regime fechado: 1984 a 1986

  • Regime semiaberto: a partir de 1986

  • Extinção da pena: 1996

Após cumprir a pena, obteve liberdade total. Sua trajetória artística jamais se desvinculou do crime, embora parte do discurso público tenha tentado, ao longo dos anos, deslocar o foco da vítima para a “queda” do agressor.

As marcas que permanecem

Liliane, filha do casal, já declarou publicamente que o assassinato destruiu a estrutura familiar e alterou definitivamente a imagem paterna. Ao falar sobre perdão, afirmou tratar-se de um processo íntimo e subjetivo, que não apaga o fato nem suas consequências.

Carlos Randall, em depoimento concedido em 2022, relatou as sequelas psicológicas e profissionais de ter sobrevivido ao ataque que matou sua colega de palco, destacando a dificuldade de retomar a carreira artística após o episódio.

O nome correto do crime

Eliane de Grammont não morreu por “ciúme”, “paixão” ou “tragédia pessoal”. Foi assassinada por não aceitar viver sob violência e controle. Isso tem nome: feminicídio.

A morte do autor do crime não encerra a história, não reescreve os fatos e não reduz a gravidade do que ocorreu. O passado permanece — não como curiosidade, mas como registro histórico de uma violência que o país ainda insiste em repetir.

Lembrar Eliane é mais do que recordar um caso antigo. É afirmar que a sociedade não pode continuar tratando crimes contra mulheres como notas de rodapé biográficas.

O silêncio genético do HIV

Imagem gerada pela GPT

by Deise Brandão

Pesquisadores da Temple University, nos Estados Unidos, vêm explorando uma abordagem ousada contra o HIV: atacar o vírus no ponto mais difícil de alcançar — o DNA das células humanas onde ele permanece oculto. Usando a ferramenta de edição genética CRISPR/Cas9, os cientistas conseguiram localizar e remover trechos específicos do material genético do HIV-1 integrados ao genoma de células do sistema imune.

A proposta é radicalmente diferente do tratamento convencional, que se baseia no uso contínuo de antirretrovirais para manter o vírus sob controle, sem eliminá-lo. Aqui, a ideia é intervir diretamente na raiz do problema: remover o HIV dos seus esconderijos genéticos mais persistentes.

Em testes realizados em laboratório, a técnica foi aplicada em células T em estado latente, conhecidas por funcionarem como reservatórios silenciosos do vírus. Nessas condições experimentais, o DNA viral foi retirado sem comprometer a integridade da célula hospedeira. Mais do que isso: as células editadas demonstraram resistência a novas tentativas de infecção, sugerindo que o vírus não conseguiu mais se reinserir nem retomar seu ciclo de replicação.

Em síntese, o que esse estudo demonstra não é uma cura disponível, tampouco uma solução imediata para pessoas vivendo com HIV, mas a prova concreta de que a ciência já consegue intervir diretamente no DNA viral integrado às células humanas — algo que até pouco tempo atrás era considerado inalcançável. Trata-se de um avanço conceitual relevante, restrito ao ambiente experimental, que abre possibilidades reais para pesquisas futuras, mas que ainda exige tempo, cautela e rigor antes de qualquer aplicação clínica. O marco aqui não é o fim do HIV, e sim a confirmação de que seus reservatórios genéticos deixaram de ser um território intocável.

Os próprios autores, no entanto, deixam claro que os resultados ainda se limitam ao ambiente de laboratório e a modelos experimentais. Antes de qualquer aplicação clínica, são necessários estudos extensos de segurança, precisão e eficácia em organismos vivos e, posteriormente, em humanos. Ainda assim, o trabalho é visto como um passo importante na direção de terapias que, no futuro, possam ir além do controle e apontar para a possibilidade real de erradicação do vírus.

Fonte: 
Nature Communications (2019)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O Brasil engolindo o que o poder cospe: 10 frases de Luiz Inácio que embrulham o estômago — não pelo vocabulário, mas pelo que revelam.

by Deise Brandão

O presidente Lula  (também) coleciona episódios em que uma frase, dita de improviso, desloca o foco do assunto central e vira o fato do dia. Em alguns casos, as declarações foram acusadas de machismo, capacitismo ou insensibilidade social; em outros, provocaram desgaste diplomático e ruído político com impacto real.

O problema aqui não é “gafe” como folclore. É o efeito acumulado: cada frase controversa vira munição, rompe pontes, alimenta polarização e enfraquece a autoridade simbólica que um chefe de Estado deveria preservar — especialmente em temas sensíveis. Veja-se:

1) “Se o cara é corintiano, tudo bem”

Em reunião no Palácio do Planalto, Lula comentou uma pesquisa que apontaria aumento da violência contra a mulher após jogos de futebol. No meio do raciocínio, disse:

“Hoje, eu fiquei sabendo de uma notícia triste, eu fiquei sabendo que tem pesquisa, Haddad, que mostra que depois de jogo de futebol, aumenta a violência contra a mulher. Inacreditável. Se o cara é corintiano, tudo bem, como eu. Mas eu não fico nervoso quando perco, eu lamento profundamente”.

A frase foi criticada por parecer relativizar um problema grave ao encaixar a observação futebolística (“corintiano”) no mesmo fluxo do tema “violência contra a mulher”. Dias depois, Lula tentou corrigir o tom com a afirmação de que “homem com fé em Deus não bate em mulher”.

2) “Quando vai fechar a porteira?”

Durante entrega de unidades do Minha Casa Minha Vida em Maceió, Lula perguntou a uma mãe de cinco filhos quando ela “iria fechar a porteira”, sugerindo que deveria parar de ter filhos.

A declaração foi classificada como machista por tratar a maternidade com ironia pública e por transformar um contexto social (família, renda, acesso a políticas públicas) em comentário pessoal — ainda que em tom informal.

3) “Uma máquina de lavar roupa é uma coisa muito importante para as mulheres”

+ “Eu não tinha noção que no Rio Grande do Sul tinha tanta gente negra”

Em evento no Rio Grande do Sul, durante anúncio de ações de reconstrução, Lula enfatizou a importância de eletrodomésticos para o cotidiano das mulheres, com a frase:

“Uma máquina de lavar roupa é uma coisa muito importante para as mulheres”.

A crítica foi direta: a fala reforçaria estereótipos de gênero ao associar mulheres à rotina doméstica como destino social.

Na mesma visita ao Estado, Lula também disse:

“Eu não tinha noção que no Rio Grande do Sul tinha tanta gente negra”.

A frase gerou repercussão por expor desconhecimento de uma realidade demográfica e histórica do próprio país, com interpretações de que o comentário reforça visões estereotipadas sobre o Sul.

4) “Que monstro vai sair do ventre dessa menina?”

Em entrevista à rádio CBN, Lula comentou o debate sobre um projeto que propõe equiparar aborto após 22 semanas ao crime de homicídio, dizendo:

“Por que uma menina é obrigada a ter um filho de um cara que estuprou ela? Que monstro vai sair do ventre dessa menina? Então essa é uma discussão mais madura, não é banal como se faz hoje”.

A oposição usou a frase como munição política, e parte da crítica pública apontou que o termo “monstro” desloca o debate (estupro, aborto, legislação) para uma imagem moralmente explosiva — que alimenta mais choque do que esclarecimento.

5) Israel e Holocausto: a crise diplomática

Em declaração sobre a guerra em Gaza, Lula afirmou:

“O que está acontecendo na Faixa Gaza não existe em nenhum outro momento histórico, aliás, existiu quando Hitler resolveu matar os judeus”.

A repercussão foi internacional. A comparação foi considerada gravíssima por Israel e gerou deterioração pública da relação diplomática, com respostas duras do governo israelense e escalada do desgaste.

6) “Não vou aparecer com muletas e andador”

Antes de uma cirurgia no quadril, Lula afirmou que não seria visto usando muletas ou andador, insinuando que isso prejudicaria sua imagem.

A fala foi acusada de capacitismo por sugerir vergonha ou demérito em instrumentos de mobilidade — reforçando estigmas que pessoas com deficiência enfrentam diariamente.

7) “Desequilíbrio de parafuso”

Após ataque a uma creche em Blumenau (SC), Lula disse:

“A OMS sempre afirmou que na humanidade deve haver 15% de pessoas com algum problema de deficiência mental. Se esse número é verdadeiro, e você pega o Brasil com 220 milhões de habitantes, significa que temos quase 30 milhões de pessoas com problema de desequilíbrio de parafuso. Pode uma hora acontecer uma desgraça”.

A crítica veio por associar violência a “deficiência mental” em tom generalizante e por usar expressão pejorativa (“desequilíbrio de parafuso”), interpretada como estigmatizante e ofensiva.

8) Banco Central “desajustado do Brasil”

Em entrevista, Lula chamou a política de juros do Banco Central de “a única coisa desajustada do Brasil” e questionou a independência da instituição.

A repercussão se deu no mercado e no debate público: críticos apontaram risco de pressão política sobre uma estrutura que deveria operar com autonomia; apoiadores viram uma crítica legítima ao custo do dinheiro e ao impacto social dos juros.

9) Venezuela: “vítima de narrativa”

Em coletiva ao lado de Nicolás Maduro, Lula afirmou que a Venezuela seria:

“vítima de uma narrativa de antidemocracia e autoritarismo”.

A frase recebeu críticas por relativizar denúncias internacionais sobre violações de direitos humanos e por colocar o Brasil no centro de um debate diplomático sensível, com custo de imagem externa.

10) Lava Jato, 7 a 1 e “f**** o Moro”

Na posse da presidente da Petrobras, Lula disse:

“Vocês estão lembrados quando nós começamos a fazer a Copa do Mundo, a quantidade de denúncias de corrupção dos estádios? (…) E, Deus é justo, nós tomamos de 7 a 1 naquela Copa, da Alemanha. Já que é para castigar, vamos castigar.”

Em outro episódio, relatou uma frase dita a procuradores durante o período em que esteve preso:

“Só vou ficar bem quando f**** o Moro”.

As falas reforçaram a leitura de confronto político permanente e alimentaram críticas sobre revanchismo e desprezo simbólico por pautas anticorrupção — ainda que parte do público as interprete como reação a abusos do próprio processo da Lava Jato.

O ponto central: a frase vira o fato — e o país paga o custo

Há um padrão nessas controvérsias: o tema principal (violência doméstica, políticas públicas, reconstrução, guerra, governança econômica, direitos humanos) é engolido pelo ruído da frase. O debate público deixa de discutir conteúdo e passa a girar em torno de interpretação, indignação e “torcida”.

Analistas apontam que esse tipo de improviso pode até funcionar no palanque, mas cobra preço alto no exercício do cargo. Porque presidente não fala só como indivíduo — fala como Estado. E, nesse nível, cada palavra vira política. 

sábado, 13 de dezembro de 2025

Controle do dinheiro vivo: o que é fato, o que é exagero e o que está em jogo



by Deise Brandão

Circulam nas redes textos alarmantes dizendo que o Estado estaria prestes a proibir o uso de dinheiro em espécie, limitar quanto cada cidadão pode ter em casa e até confiscar valores automaticamente. A discussão voltou à tona após movimentações recentes em comissões do Congresso, incluindo a CCJ. Mas o cenário real é mais complexo — e mais perigoso justamente por isso.
O que é FATO

Existem, sim, projetos de lei e propostas regulatórias no Brasil e em outros países que buscam:
  • restringir transações em dinheiro acima de determinados valores;
  • ampliar a obrigação de comunicação ao Coaf em operações consideradas “atípicas”;
  • fortalecer mecanismos de rastreabilidade financeira, sob o argumento de combate à lavagem de dinheiro, sonegação e crime organizado.
Essas medidas não são novas, nem exclusivas do Brasil. Elas fazem parte de uma tendência global de redução do dinheiro físico e fortalecimento do sistema financeiro digital.

Também é verdade que o uso de dinheiro vivo já é tratado com suspeição crescente por órgãos de controle.
 
O que NÃO é verdade (ou está exagerado)
  • Não existe, neste momento, uma lei aprovada que proíba o cidadão de ter dinheiro em casa.
  • Não há confisco automático de valores apenas por posse.
  • Não existe um limite legal fixo nacional dizendo que você não pode guardar mais de “X” reais sob pena de perder tudo.
Muitas das cifras citadas (R$ 10 mil, R$ 100 mil, R$ 300 mil) aparecem em contextos diferentes, como:
regras bancárias,normas administrativas,obrigações de comunicação,projetos ainda em discussão,
e são misturadas propositalmente para criar a sensação de um pacote único já em vigor — o que não é verdade.
 
Onde está o PERIGO REAL

O risco não é um “confisco imediato”, mas algo mais sutil e estrutural.
O modelo que está sendo desenhado em vários países é este:
Tudo é permitido — desde que você explique.
E explicar significa:justificar origem,justificar destino,justificar intenção,justificar padrão de consumo.

Isso inverte a lógica da presunção de liberdade.
O cidadão deixa de ser livre até prova em contrário e passa a ser suspeito por padrão.
O dinheiro em espécie sempre foi:anônimo,descentralizado,resistente a bloqueios,
último instrumento de autonomia prática.
Reduzir seu uso não é só questão financeira, é questão de poder.
Não é “combate ao crime” apenasO discurso oficial sempre vem embalado em palavras bonitas:
“segurança”“transparência”“controle”“proteção da sociedade”

Mas, historicamente, toda arquitetura de vigilância começa assim:
devagar, técnica, burocrática, aparentemente razoável.
O problema não é investigar crimes.
O problema é tratar todo cidadão como um criminoso em potencial.

Não, o Brasil ainda não vive uma proibição total do dinheiro vivo.
Mas sim, há um movimento claro para:reduzir sua circulação,associar sua posse à suspeita,
condicionar a liberdade econômica à autorização estatal.
Não é distopia pronta.
É ensaio.
E ensaios servem justamente para testar até onde as pessoas aceitam.

O alerta não é para entrar em pânico. É para não normalizar.
Porque quando o dinheiro vira crime, a liberdade vira exceção.

Em Alta

JBS: Poder & Dinheiro inimagináveis.

 

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