sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Desconstruindo a Nota de Alexandre de Moraes

                                        Imagem criada pela IA GPT

by Deise Brandão

A recente nota divulgada pelo ministro Alexandre de Moraes como resposta à reportagem “O encontro de Moraes com o presidente do BRB na mansão de Vorcaro” revela mais sobre o que optou por não negar do que sobre o que tentou refutar com veemência.

De início, salta aos olhos que a nota nega algo que a matéria, de fato, não afirma. Em nenhum momento os repórteres Andreza Matais e André Shalders sustentam que houve uma “reunião” formal entre Moraes e o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, na residência de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. O que se narra, com riqueza de detalhes, é um encontro social em um ambiente reservado da mansão de Vorcaro, onde Moraes e Costa teriam conversado informalmente sobre a negociação de aquisição do banco Master pelo BRB. Negar o que não foi dito é, no mínimo, um desvio retórico.

Mais preocupante, no entanto, é o silêncio eloquente da nota. Em nenhum trecho se nega que Alexandre de Moraes esteve na casa de Daniel Vorcaro — pelo menos duas vezes — acompanhado de assessor, degustando vinhos e charutos, inclusive em um espaço descrito como "bunker". Tampouco se refuta que uma das visitas ocorreu em 6 de novembro de 2024, durante a apuração da eleição presidencial norte-americana.

O contexto não é trivial: ambas as visitas se deram durante a vigência de um contrato de R$ 129 milhões entre o banco de Vorcaro e o escritório de advocacia da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes. Tal fato, por si só, já suscita questionamentos sobre potencial conflito de interesses e aparência de parcialidade — elementos que, no plano ético, bastariam para exigir explicações transparentes por parte de qualquer agente público, especialmente um ministro do Supremo Tribunal Federal.

É ainda mais notável que, quando vieram à tona as suspeitas de pressão exercida por Moraes junto ao Banco Central para aprovação da venda do Master ao BRB, ele negou não apenas as pressões — o que seria esperado —, mas também negou que o escritório de sua esposa tenha atuado na negociação. Porém, não há registro de qualquer atuação relevante do referido escritório que justifique o vultoso contrato com o Banco Master.

A parte final da nota é especialmente grave. Ao alegar que a reportagem "segue um padrão criminoso de ataques desqualificados contra os integrantes do Supremo Tribunal Federal", o ministro deixa de defender sua conduta e parte para o ataque genérico, imputando desonestidade à imprensa e tentando agregar aos demais membros do STF a responsabilidade por um episódio que lhes é alheio. A tentativa de blindagem coletiva não apenas foge ao mérito como compromete a clareza do debate público.

No cerne da controvérsia, portanto, permanece o fato inabalável: a proximidade entre um ministro do Supremo Tribunal Federal e um banqueiro investigado por possíveis fraudes bancárias em escala bilionária. É essa relação — e não supostas reuniões formais ou notas de indignação — que a sociedade brasileira precisa compreender e debater com serenidade, mas com firmeza.

Apontar indícios de condutas irregulares ou crimes cometidos por membros do Supremo Tribunal Federal não constitui ofensa nem crime — é dever republicano. Criticar a mais alta Corte de Justiça do país, especialmente quando há elementos que apontam para uma possível corrupção endêmica, sistêmica e epidêmica, não é atentar contra a democracia. Pelo contrário: é exercer plenamente os direitos democráticos e, acima de tudo, cumprir o papel essencial da cidadania.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Quando O TEMA é sério e o entendimento distorcido

 

by Deise Brandão

Nos últimos anos, a palavra narcisismo passou a circular com força no debate público.

Ela aparece para explicar tudo: política, relações pessoais, redes sociais, conflitos sociais e até crises institucionais.

Mas há um problema sério nisso:o termo está sendo usado de forma imprecisa, abusiva e, muitas vezes, ideológica. Antes de diagnosticar uma “era narcísica”, é preciso entender do que estamos falando de verdade.

O QUE É NARCISISMO (SEGUNDO A PSICOLOGIA)

Na psicologia, o narcisismo não é sinônimo de egoísmo, vaidade ou amor-próprio.

Ele se refere a um traço de personalidade que existe em graus variados em todas as pessoas.
Em níveis saudáveis, o narcisismo está ligado a: autoestima, senso de identidade, capacidade de se afirmar no mundo.

O problema surge quando esse traço se torna rígido, inflado e defensivo, evoluindo para o Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN).

Esse transtorno se caracteriza por:necessidade constante de admiração,incapacidade de lidar com críticas,empatia reduzida ou instrumental,uso do outro como espelho ou objeto,reações agressivas à frustração.

Não é comum.Não é diagnóstico coletivo.  Não define uma sociedade inteira.

O QUE NARCISISMO NÃO É

Narcisismo não édiscordar, se posicionar politicamente, ter autoestima, criticar instituições, buscar reconhecimento profissional, reagir a injustiças.

Chamar tudo isso de narcisismo é esvaziar o conceito e transformá-lo em rótulo moral.Quando o termo vira xingamento intelectual, ele deixa de explicar e passa apenas a desqualificar.

NARCISISMO NÃO EXPLICA A VIOLÊNCIA HISTÓRICA

A história humana não é marcada por surtos psicológicos coletivos, mas por: disputas de poder, dominação econômica, controle simbólico,violência institucional.

Guerras, perseguições religiosas, escravidão e repressões políticas não aconteceram porque as pessoas eram “doentes”, mas porque estruturas de poder permitiram e incentivaram esses atos.

Reduzir esses processos a “doenças típicas da época” é retirar a responsabilidade histórica de Estados, igrejas, elites e sistemas econômicos.

E A SAÚDE MENTAL HOJE?

O aumento de diagnósticos como: depressão, ansiedade, burnout, transtornos de atenção,não aponta para uma “era narcísica”. Aponta para: precarização do trabalho,  insegurança permanente, hiperexposição, cobrança de performance constante, colapso de vínculos sociais e institucionais. Ou seja: não é excesso de amor-próprio. É falta de proteção psíquica e social.

QUANDO O TERMO VIRA FERRAMENTA DE PODER

Há um uso perigoso do conceito de narcisismo no debate público:
quando ele serve para invalidar críticas, silenciar dissenso ou patologizar quem questiona.

Nesse caso, o narcisismo deixa de ser objeto de estudo e passa a ser instrumento de controle simbólico.

Quem critica vira “doente” Quem questiona vira “narcisista”. Quem obedece vira “maduro”. Isso não é psicologia. É retórica de deslegitimação.

O VERDADEIRO PROBLEMA DO NOSSO TEMPO

Se há algo que marca nossa época, não é uma epidemia de narcisismo, mas: instituições que não se autoavaliam,  concentração de poder, responsabilização seletiva e o uso de linguagem psicológica para esconder conflitos reais.O maior risco não é o espelho.É quem decide quem pode falar e quem deve ser rotulado.

Narcisismo é um conceito clínico sério. Usá-lo como slogan intelectual empobrece o debate e confunde a sociedade.O que precisamos hoje não é de diagnósticos morais travestidos de ciência,mas de responsabilidade, clareza conceitual e honestidade intelectual.

Quem nunca foi vítima de uma relação verdadeiramente narcísica não sabe, de fato, do que está falando. O narcisismo real não se revela em discursos grandiloquentes, mas na experiência concreta de quem foi silenciado, manipulado, esvaziado e usado como extensão do outro.

Fora dessa vivência, só há duas possibilidades: ignorância conceitual — ou o próprio narcisismo falando em causa própria.

O termo deslocado para um discurso genérico, histórico e moralista, onde tudo vira “doença da época”, não é análise. É confusão conceitual.

Narcisismo não é metáfora histórica. Não é rótulo moral. Não é explicação universal do mundo.

É um fenômeno psicológico específico, que se manifesta principalmente nas relações, produzindo vítimas reais, danos emocionais profundos e dinâmicas de poder silenciosas.

Quem nunca foi vítima de uma relação verdadeiramente narcísica não compreende o fenômeno em sua profundidade. E quando alguém fala sobre o tema sem rigor, ignorando a experiência das vítimas e distorcendo conceitos clínicos, resta uma hipótese incômoda: não se trata de análise — mas de projeção. 

"Sociedade do Cansaço" : O peso da liberdade irrestrita


 by Deise Brandão

Vivemos tempos em que tudo pode — ou, ao menos, é isso que se quer fazer crer. A antiga estrutura social, com seus limites claros, hierarquias visíveis e deveres bem delineados, foi substituída por uma nova ordem: a da performance, da autoexploração, da incessante positividade. Muitos a celebram como emancipação. Outros, porém, percebem nela a sutil metamorfose da opressão.

É curioso observar como o discurso da liberdade plena tem se tornado um imperativo sufocante. Já não há espaço para o descanso verdadeiro, para o silêncio interior, para o simples direito de dizer "não". Quem recusa é visto como antiquado, preguiçoso, ou — pior — como fracassado. Nesse novo modelo, não basta viver: é preciso superar-se continuamente, reinventar-se a cada dia, ser um “empreendedor de si”.

Essa lógica tem nome, e já foi descrita com precisão filosófica por Byung-Chul Han. O autor coreano-alemão, com o rigor que lhe é característico, identificou essa transição da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho. Não se trata de mera evolução ou progresso, mas de uma mutação nos mecanismos de poder e controle: antes, éramos sujeitos da obediência. Hoje, somos algozes de nós mesmos.

O sujeito do desempenho não é livre. Ele se torna cúmplice de sua própria dominação, internalizando as exigências do sistema sob a aparência de autonomia. Trabalha mais, se cobra mais, vive exausto, mas sem saber a quem responsabilizar — afinal, agora ele é seu próprio patrão, seu próprio carrasco.

Confundir essa nova estrutura com libertação é não compreender seus efeitos psíquicos devastadores: depressão, ansiedade, síndrome de burnout. A positividade constante se transforma em violência — uma violência que não vem de fora, mas se instala dentro de nós.

Há quem celebre essa nova ordem, vendo nela o triunfo do “projeto”, da “motivação”, do “progresso”. Mas talvez seja necessário parar — apenas parar — e escutar o cansaço. Não como sinal de fraqueza, mas como indício de que algo está profundamente errado.

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