sábado, 6 de dezembro de 2014

Proposta de reforma do Código Penal transforma caixa dois em crime

O texto do senador Vital do Rêgo (PMDB-PB) impõe prisão de dois a cinco anos para quem for condenado

O senador Vital do Rêgo, autor da proposta que criminaliza o caixa dois
O senador Vital do Rêgo, autor da proposta que criminaliza o caixa dois (Agência Senado/VEJA)
Nos próximos dias, o Senado irá apresentar uma proposta de reforma do Código Penal para endurecer as penalidades a quem comente desvios de dinheiro público e crimes de corrupção. O texto eleva a pena para esses crimes e pune com prisão quem comete caixa dois e o servidor ou político que se enriquece ilicitamente. A proposta também prevê sanções severas, até mesmo com a dissolução, para empresas que tenham cometido crimes contra a administração pública.
A minuta do novo Código Penal, obtida pelo jornal O Estado de S. Paulo, prevê que os crimes de corrupção ativa e corrupção passiva tenham uma pena mínima elevada de dois para quatro anos de prisão e a máxima permaneça em 12 anos. Essa mudança tem como objetivo impedir que o condenado pelos crimes consiga se livrar de uma punição mais efetiva. Pelo regime atual, o condenado à pena mínima pode, por exemplo, prestar serviços para a comunidade. Segundo a proposta, ele teria obrigatoriamente de começar a cumprir pena em regime semiaberto, isto é, trabalhar fora e dormir na cadeia.
O projeto também propõe que a pena pelo crime de peculato (crime praticado pelo funcionário público contra a administração) terá a mesma punição que a de corrupção.
O texto será apresentado na quarta-feira pelo relator da proposta, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. A intenção é votar a proposta no colegiado na semana seguinte, dia 17.
Segundo a proposta, a corrupção e o peculato entram na nova lista dos crimes hediondos, isto é, tornam-se crimes inafiançáveis e não passíveis de serem perdoados pela Justiça, tendo regimes de cumprimento de pena mais rigoroso que os demais crimes.
É introduzida a figura do crime de enriquecimento ilícito do servidor público, uma das promessas da presidente Dilma Rousseff nas eleições e inexistente na atual legislação. O delito é punido com pena de dois a cinco anos de prisão, além do confisco dos bens. A proposta também cumpre outra promessa eleitoral de Dilma, que prevê pena de prisão de dois a cinco anos para quem for condenado por caixa dois. Atualmente, a prática é punível apenas com a desaprovação das contas do partido ou candidato.
O texto ainda prevê aumento generalizado de penas para crimes como compra e venda de votos e lavagem de dinheiro. Prevê também punições para empresas que cometerem crimes contra a administração pública. 
(Com Estadão Conteúdo)

Cápsula Órion volta à Terra depois de sua primeira viagem ao espaço

Nave com quea Nasa pretende levar humanos a Marte passa por primeiro teste não tripulado


POR 

CABO CANAVERAL - A cápsula Órion, da Nasa, voltou à Terra no início da tarde desta sexta-feira após sua primeira viagem ao espaço. Com um dia de atraso, a agência espacial americana lançou a nave às 10h05 de hoje em seuprimeiro voo de teste do Centro Espacial Kennedy, em Cabo Canaveral, Flórida.

Na quinta-feira, um problema no foguete Delta IV Heavy, da empresa United Launch Alliance (ULA), obrigou a Nasa a adiar o voo da cápsula, com a qual planeja enviar astronautas para explorar um asteroide capturado por uma nave robótica e trazido à órbita da Lua na década de 2020 e para Marte em meados dos anos 2030 — primeira iniciativa do tipo desde que as missões Apollo levaram o homem à Lua, há 40 anos.

Neste primeiro teste, a Nasa pretende analisar principalmente o desempenho de sistemas como a separação por etapas do foguete lançador, a blindagem contra a alta radiação em algumas regiões do espaço e o calor abrasador de 2.200°C que atinge seu escudo térmico durante a descida.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/capsula-orion-volta-terra-depois-de-sua-primeira-viagem-ao-espaco-14746356#ixzz3L8wPSoHJ
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Como vivem os frangos que comemos



Produtor fica revoltado com a falsidade da propaganda de frigorífico e denuncia em vídeo as condições de vida das aves criadas para abate nos EUA

Nicholas Kristof
THE NEW YORK TIMES
Frangos criados para a Perdue, dos EUA: vídeo revela maus tratos (Reprodução/Youtube)
Frangos criados para a Perdue, dos EUA: vídeo revela maus tratos (Reprodução/Youtube)
Ao comprar um frango da marca Perdue no mercado, poderíamos imaginar que o animal teve uma confortável existência de ave de classe média.
“Fazer a coisa certa significa tratar as galinhas com consideração”, diz Jim Perdue, diretor da empresa, num vídeo promocional. Os rótulos da empresa trazem um selo de aprovação do Departamento da Agricultura garantindo que a ave foi “criada fora de gaiolas” e, às vezes, “criadas livres de maus tratos”, embora a Perdue diga que este último será gradualmente aposentado.
Os consumidores aprovam. A maioria de nós é formada por carnívoros que ainda assim desejam um tratamento decente para os animais, e uma pesquisa revelou que 85% dos consumidores prefeririam comprar frangos que viessem com selos como o de “criadas livres de maus tratos” visto nos rótulos da Perdue.
Entra em cena Craig Watts, 48 anos, granjeiro da Carolina do Norte que diz criar 720 mil frangos por ano para a Perdue. Ele assistiu ao vídeo de Jim Perdue e teve uma crise de consciência. “Meu queixo caiu”, disse ele. “A verdade não poderia ser mais diferente.”Assim, Watts abriu suas quatro granjas para mostrar como é a vida dos frangos da Perdue. A visão é perturbadora.
Watts convidou um grupo de defesa dos direitos dos animais, Compassion in World Farming, para documentar durante meses as condições do local. A organização acaba de lançar o vídeo resultante em sua página da internet.
O mais chocante é que o ventre de quase todos os frangos perdeu as penas, parecendo uma enorme ferida. A barriga da imensa maioria das galinhas é uma contínua escara. Como menino do interior que criava pequenos bandos de galinhas e gansos, nunca vi nada parecido.
Um motivo parece ser a técnica moderna de reprodução: as galinhas são agora criadas para terem peitos imensos, e isso faz com que muitas vezes seus corpos sejam pesados demais para as pernas. A revista científica Poultry Science calculouque, se os humanos crescessem a um ritmo semelhante ao dos frangos humanos, uma pessoa pesaria 330kg quando chegasse a oito semanas de idade.
Esses frangos não correm por aí nem ciscam como pássaros normais. Eles cambaleiam alguns passos, muitas vezes sobre pernas deformadas, e então desabam no excremento de dezenas de milhares de pássaros anteriores. O chão é encharcado com amônia, que parece atacar as penas e a pele.
Entrei em contato com a Perdue para saber o que a empresa tinha a dizer. Jim Perdue não quis fazer nenhum comentário, mas uma porta-voz da empresa, Julie DeYoung, concordou que o ventre dos animais não deveria estar praticamente em carne viva. Ela deu a entender que o granjeiro talvez estivesse cuidando mal da propriedade.
Essa alegação não foi engolida por Watts, cuja família é dona da granja desde o século 18; ele diz que cria frangos para a Perdue desde 1992, seguindo meticulosamente as especificações da empresa.
Para Watts, a Perdue percebeu que os consumidores estavam preocupados com o bem estar dos animais e a segurança alimentar, e decidiu manipular o público.
O selo que atesta que os frangos foram criados “fora de gaiolas” é enganosa, porque as aves criadas para o abate não ficam em gaiolas. O problema das gaiolas afeta as galinhas criadas para botarem ovos, e não as aves que comemos. Assim, dizer que as galinhas são “criadas fora de gaiolas” só faz sentido para as aves que botam ovos, e não para os frangos de abate. Além disso, os frangos da Perdue ficam tão amontoados na granja que é como se ficassem em gaiolas. Cada ave na granja Watts tem para si apenas 0,05m2.
Por que o governo americano está aprovando esses métodos como “livres de maus tratos”, enganando assim o consumidor?
“O depto. de Agricultura dos EUA é cúmplice da Perdue num empreendimento enganoso contra o consumidor”, diz Leah Garces, diretora da Compassion in Food Farming nos EUA, que descreve o caso como fraude de marketing.
Talvez a Perdue tenha optado por rever algumas dessas afirmações. A empresa fez um acordo com a Humane Society of the US ao concordar em remover o selo de “criado livre de maus tratos” de alguns dos rótulos, embora negue qualquer tipo de má conduta.
Tudo isso deixa milhões de americanos – eu entre eles – sem saída. Comemos carne, mas queremos minimizar a crueldade contra o animais. Trata-se de um rumo incerto, inconsistente e talvez até hipócrita, e já seria difícil o bastante sem empresas gigantescas do setor dos alimentos tentando nos manipular – em conluio com nosso próprio governo.
Leah sugere que tais consumidores procurem etiquetas com os dizeres “certificado de bons tratos”, “parceria global pelos animais” ou “aprovado pelo bem estar animal”. Mas essas são mais caras e difíceis de encontrar.
Os métodos de criação de frangos da Perdue são típicos da agricultura industrial. Assim, chegamos ao grande dilema: a grande indústria da agricultura obteve sucesso impressionante na produção de alimento barato – o preço do frango teve queda de 75% em termos reais desde 1930. Mas há imensos custos externos, como a resistência aos antibióticos e apoluição da água, bem como uma crueldade rotineira que só toleramos porque é cometida longe dos nossos olhos.
Basta torturar uma única galinha e podemos ser presos. Mas, se abusarmos de centenas de milhares de galinhas durante toda a sua vida, isso não passa de agribusiness.
Não sei onde estabelecer o limite. Mas, quando as galinhas têm imensas feridas abertas na barriga, eu me pergunto se a criação de animais não se converteu em abuso contra os animais./Tradução de Augusto Calil

Primeiro ônibus do mundo movido a esgoto começa a circular

ECONOMIA & NEGÓCIOS
21 Novembro 2014

Veículo que funciona com gás biometano ganhou dos ingleses o apelido de ‘número dois’

Bio-bus, movido a gás biometano (Foto: divulgação)
Bio-bus, movido a gás biometano (Foto: divulgação)
O primeiro ônibus do mundo movido a esgoto começou a circular na Grã-Bretanha. O ônibus ecológico tem um motor alimentado por dejetos humanos e lixo orgânico.
Com 40 lugares, o Bio-bus vai circular entre a cidade de Bath e o aeroporto de Bristol movido a gás biometano.
O combustível é produzido a partir do tratamento do esgoto da região. O veículo eco-friendly pode viajar até 300 quilômetros com um tanque. A capacidade do tanque equivale à produção anual de esgoto de cinco pessoas. Agências internacionais

Ônibus que funciona com titica de galinha já está circulando

ECONOMIA & NEGÓCIOS

05 Dezembro 2014 | 18:26

Combustível alternativo do veículo é produzido por 84 mil aves de uma granja em Foz do Iguaçu, no Paraná

Novo combustível: titica de galinha (Foto: Divulgação)
Novo combustível: titica de galinha (Foto: Divulgação)
Já está circulando no Brasil o primeiro ônibus movido a gás proveniente de titica de galinha. O projeto é da geradora de energia Itaipu, localizada no Paraná, e da fabricante de caminhões e ônibus Scania, que lançaram o veículo abastecido com biometano.
O gás usado é produzido a partir de dejetos de 84 mil aves de uma granja que fica a cem quilômetros da usina.
O novo combustível teria algumas vantagens em relação ao óleo diesel, como emitir 70% a menos de poluentes e sair até três vezes mais barato. O ônibus já está circulou no Paraná e agora seguirá para demonstrações no Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro. Ele é o primeiro do tipo na história da indústria de veículos comerciais do Brasil.
Silvio Munhoz, diretor de Vendas de Ônibus da Scania no Brasil, explica que o veículo é fabricado na Suécia, e atende às normas internacionais. O ônibus é considerado um dos mais modernos do transporte público do mundo, com motor dedicado ao uso tanto do com gás natural veicular (GNV) quanto do biometano.
Segundo ele, várias cidades já entraram em contato para conhecer a nova tecnologia. “O mais importante é perceber que ela é 100% viável para comercialização”, afirma Munhoz. Durante quase um mês o veículo fez o transporte de trabalhadores e estudantes, sendo abastecido apenas com biometano.
O presidente da Associação Brasileira de Biogás, Cícero Bley Júnior, conta que o objetivo é demonstrar a viabilidade da aplicação do biometano na mobilidade urbana, para que ele possa ser integrado à matriz de combustíveis do país. Atualmente a Agência Nacional do Petróleo (ANP) está com uma consulta pública aberta para regulamentar o uso do combustível.
“Acreditamos na viabilidade e estamos iniciando um novo período na busca de alternativas mais sustentáveis ao meio ambiente”, afirma Bley. No primeiro teste, o ônibus circulou 3 mil quilômetros e, em relação ao preço por quilometragem, o custo do biometano foi menor em 56% em relação a um veículo similar a diesel.
Capacidade. O ônibus Scania tem 15 metros de comprimento, com dois eixos direcionais e capacidade para até 120 passageiros. As características do motor Scania Euro 6 a gás permitem que o veículo rode não só com biometano, mas também com gás natural ou a combinação de ambos.
Antes de chegar ao Brasil, o coletivo passou pelo México e pela Colômbia, sempre abastecido com GNV. Em Bogotá, foi testado em condições extremas: altitude elevada, baixa pressão atmosférica, tráfego pesado e ladeiras.
O motorista Miguel Morales Gomes garante que não notou diferença de desempenho do veículo abastecido com biometano ou com o GNV convencional, derivado do petróleo. “A diferença é zero, tanto em topografias de subidas quanto de descidas”. No Brasil, a granja que fornece os dejetos produz 700 metros cúbicos de biometano por dia. Rene Moreira, especial para O Estado de S. Paulo

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Brasil Justiça mantém júri, mas reduz pena de Alexandre Nardoni






Os desembargadores da 4ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de SP negou a anulação do julgamento do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá (Foto: Juliana Cardilli/ G1)

Os desembargadores da 4ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo decidiram por unanimidade, nesta terça-feira (3), negar a anulação do julgamento do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, condenados em 2010 por matar Isabella (filha de Nardoni) em 2008. No entanto, a pena de Alexandre Nardoni foi reduzida em cerca de 11 meses devido a uma falha no cálculo da pena em relação aos agravantes. A pena de Anna Jatobá, madrasta da garota, foi mantida.

A pena de Alexandre ficou definida em 30 anos, 2 meses e 20 dias. Em 27 de março de 2010, depois de quatro dias de julgamento, ele tinha sido sentenciado a 31 anos, 1 mês e dez dias de prisão sob a acusação de ter jogado a própria filha Isabella da janela do sexto andar do prédio. A madrasta da menina recebeu pena de 26 anos e 8 meses de reclusão pela esganadura antes da queda.

A redução da pena ocorreu devido a um erro em seu cálculo, quando foram incorporados os valores dos agravantes - houve uma sobreposição na sua aplicação. Em casos de crimes com agravantes, sobre a pena base se incidem frações dela mesma para cada qualificadora. No caso de Alexandre, um dos agravantes não foi calculado sobre a pena base, e sim sobre a pena já com duas qualificadoras. Por isso, houve um ligeiro aumento na pena correta.

“Não é por mérito dele [Alexandre Nardoni], ou porque ele merecia menos pena, ou porque a pena foi exacerbada. Nós temos que calcular a pena em três fases. Houve um acerto de colocação de pena. Eu não mudei nenhum fator de incidência da pena. O que eu fiz é um novo cálculo matemático em cima de todos os valores que incidem na origem”, disse o relator do processo, desembargador Luís Soares de Mello Neto.

A autoria do crime e a validade do julgamento, entretanto, não geraram dúvidas ao desembargador. “O recurso estava muito bem feito, me deu muito trabalho, mas tenho certeza absoluta de que tudo correu exatamente como eu falei, que foram os dois os autores do homicídio.”

Defesa Para o defensor do casal, Roberto Podval, a redução da pena foi uma vitória. “Eu saio achando que ganhamos, com uma redução de pena, ainda que pequena. Era inesperada qualquer redução neste tribunal, nesta Câmara, fomos surpreendidos com uma redução, acho que pequena, acho que poderia ter sido maior, poderia ter sido de ambos, mas para mim foi o começo de uma vitória. Não tenho dúvida de que outras virão nos tribunais superiores”, afirmou.


Em relação à manutenção do júri que condenou seus clientes, o advogado afirmou que a decisão já era esperada. “O que aconteceu aqui era em grande parte previsível, a maioria das teses já tinham sido trazidas através de habeas corpus, já tinham sido negadas, mas é necessário trazê-las de novo para poder subir aos tribunais superiores.”


Já o promotor que acompanhou todo o caso, Francisco Cembranelli, minimizou a redução da pena. “Não significou nada, isso é irrelevante no contexto. Foi tão mínima no contexto da sanção que passou completamente despercebida, em uma pena de mais de 30 anos reduziu-se menos de um ano, isso não vai significar nada no cumprimento da sanção. A defesa vem colhendo desde o início do caso decisões desfavoráveis e todas por unanimidade, o que mostra que a acusação esta absolutamente e categoricamente correta”, afirmou.


A procuradora Sandra Jardim, que discursou durante o julgamento, ressaltou que a função do tribunal é reparar eventuais erros, e que a principal questão desta terça, a anulação do processo, foi negada. “Eu acho que essa é a função do tribunal, operar quando visualiza um equívoco, embora o juiz que aplicou a pena tivesse um entendimento particular nessa questão. É uma correção que, na prática, vai ter um efeito quase que nenhum, inexpressivo. No que importava realmente, foi mantida a sentença.”


Fonte: Portal G1

Em livro, Rosane conta sobre vida com Collor: do impeachment a ritual macabro com fetos humanos Ex-primeira-dama conta o que viu e viveu com ex-presidente da República

POR BRUNO GÓES

Fernando Collor e Rosane após o impeachment - Sergio Marques / O Globo


RIO — Cortejada pelo então prefeito de Maceió Fernando Collor de Mello, a menina que ainda usava uniforme escolar, aos 15 anos, e vivia sob ordens severas do pai não imaginava que seria a futura esposa do 32º presidente da República do Brasil. Envaidecida e animada com os elogios, ela levou adiante o flerte, consumado anos mais tarde, após um telefonema surpresa. O roteiro que poderia ser apenas de uma garota apaixonada esbarrou no destino atribulado de Rosane. Ela enfrentou, no centro do poder, crises de depressão, medo do suicídio do marido e “humilhações públicas”, segundo diz no livro lançado na quinta-feira, em Maceió. “Tudo o que vi e vivi” (R$ 39,90, editora LeYa) é a versão de Rosane Malta (agora com o nome de divorciada) sobre a sua relação com o ex-presidente apeado do poder.

— É uma história dolorosa e triste. Mas uma história bonita que poderia terminar da melhor forma possível. Eu aprendi desde criança a falar a verdade. Se não pudesse, não falava nada. Então, tudo o que digo no livro é verdade — afirma ela ao GLOBO.

Mesmo vivenciando a conturbada rotina de primeira-dama, com muitas brigas conjugais, Rosane subiu a rampa do Palácio do Planalto após o impeachment, apertou a mão de Collor, e disse: “Levante a cabeça. Não abaixe, não. Seja forte”. Collor é, segundo ela, o maior amor e a maior decepção de sua vida. Em 288 páginas, Rosane relata intrigas familiares, os rituais macabros que eram realizados na Casa da Dinda, os esquemas do ex-tesoureiro de campanha de Collor, além da morte de PC Farias e do destino do dinheiro do esquema de corrupção.

Durante a Presidência da República, ela conta que Collor usava a Casa da Dinda para rituais que pudessem fortalecê-lo politicamente. O relato mais forte sobre as sessões realizadas pela Mãe Cecília, de confiança do ex-marido, envolveu fetos humanos.

“Cecília me contou que, certa vez, fez um trabalho para Fernando envolvendo fetos humanos. Ela pegou filhas de santo grávidas, fez com que abortassem e sacrificou os fetos para dar às entidades. Uma coisa terrível, da qual ela obviamente se arrepende. Quando eu soube disso, chorei copiosamente”.

Um dos primeiros “trabalhos” dos quais Rosane teve notícia ocorreu quando Collor ficou enfurecido com a decisão de Silvio Santos de se candidatar à Presidência em 1989. E ainda mais com o apoio de José Sarney, seu inimigo político. O dono do SBT havia dito a Collor que não concorreria ao cargo, mas descumpriu o acordo. O candidato do PRN, então, encomendou um “trabalho”. Pouco depois, a candidatura de Silvio foi impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Perguntada se tem medo da repercussão e de possíveis processos judiciais por conta das revelações do livro, Rosane responde de forma tranquila:

— Estamos muito bem documentados. E não temos preocupação em relação isso. Tudo o que eu falei eu vi e vivi, como diz o título do livro. É realmente isso.

COLLOR E A CUNHADA

“O grande problema de Fernando era com Pedro. E o meu, com Thereza, a mulher dele”. Rosane diz que o irmão caçula do ex-marido tinha ódio do ex-presidente. Segundo ela, Pedro sustentava que Fernando cantava Thereza.

“Acredito na tese de que os dois tiveram algo antes do meu casamento e Thereza continuou apaixonada. Eu também não duvido que tenha sido por Thereza, por essa obsessão que ela tinha pelo cunhado, que Pedro resolveu destruir o próprio irmão”, diz ela.

Pedro Collor denunciou à revista “Veja”, em 1992, que PC Farias era testa de ferro do então presidente, e que o jornal Tribuna de Alagoas, que PC queria lançar em Maceió, na verdade pertenceria a seu irmão.

No período mais agitado da República desde a redemocratização, ela diz que não tinha dúvidas de que Collor era inocente. “Eu era muito nova, pouco experiente e acreditava no meu marido. Eu achava normal que as pessoas ajudassem Fernando espontaneamente, como fazia PC Farias”. Depois, no entanto, mudou de opinião e relatou que “algumas dúvidas foram surgindo”.

Rosane descreve o deslumbramento da jovem que desfrutou o poder: a dedicação ao figurino e as palavras elogiosas que trocou com a princesa Diana, além da amizade com Cláudia Raia e outras pessoas famosas. Conta que foi elogiada por Fidel Castro:

“Esse presidente do Brasil é muito esperto. Arrumou uma esposa novinha e linda” teria dito o ditador cubano a Collor. Segundo Rosane, mesmo após o impeachment, Fidel continuou a enviar charutos da ilha caribenha ao ex-presidente.

AMIGA DE ROGER ABDELMASSIH

Em busca por tratamento para a gravidez, Rosane, que abortou naturalmente filhos de Collor, procurou Roger Abdelmassih, hoje condenado a 181 anos, 11 meses e 12 dias de reclusão por abusar sexualmente de pacientes. Ele era amigo do casal.

“O doutor Roger era nosso amigo. Frequentávamos a casa dele, e ele, a nossa. Houve até um Natal em que assistimos a uma missa em sua casa antes de ir para a festa na residência de Patsy Scarpa (falecida em 2012,aos 82 anos), mãe do Chiquinho Scarpa, onde comemorei a data por três anos. (...) Fiquei muito assustada quando vieram à tona as histórias de mulheres que dizem ter sido abusadas por Roger durante as consultas”.

COLLOR NÃO TEM CARÁTER

Nos últimos oito anos, Rosane briga com Collor no tribunal para que seja reconhecido o direito de ser compensada pelo fato de ter deixado de lado a sua própria vida profissional para acompanhá-lo. Recentemente conseguiu que ele fosse condenado, mas o processo ainda não terminou.

— Muitas coisas que aconteciam, como abandonar a carreira, não concordava, com certeza. Mas não ia largá-lo. A mesma dignidade que eu tive com ele, ele não teve comigo. Ele não teve caráter — diz ela, que acrescenta:

— Eu amenizei muitas coisas que estão no livro, não passei ódio. Passei, sim, decepção. Eu não guardo ódio. Guardo decepção. Eu lutei para que a Justiça me desse os meus direitos.

Procurada pelo GLOBO sobre os assuntos descritos no livro, a assessoria de Fernando Collor ainda não retornou.

PRIMEIRA-DAMA EM APUROS

Enquanto o marido era presidente, Rosane estava à frente da Legião Brasileira de Assistência (LBA), um órgão assistencial público. À época, ela foi acusada de envolvimento na compra superfaturada de 1,6 milhão de quilos de leite em pó: cerca de 25% a mais pelo quilo do leite. Além disso uma cunhada sua, que ocupava uma superintendência do órgão, foi acusada de dirigir projetos que nunca saíram do papel.

No livro, ela diz que “sequer precisava assinar a autorização para esses projetos nos Estados. Cada superintendente estadual era indicado por uma liderança política da base aliada do governo”. Sobre o escândalo do leite, diz que “não tinha nada a ver com aquilo, como ficou comprovado depois na Justiça”. Ela relata que Collor ficava preocupado que o escândalo o atingisse.

Rosane também conta que foi acusada pela imprensa de dar uma festa de aniversário para a amiga com dinheiro público. Ela sustenta, no entanto, que apenas convidou-a para um evento de embaixatrizes no dia de seu aniversários.

Além dos fatos noticiados sobre a primeira-dama, Collor preocupava-se com irmão de Rosane, “Joãozinho”, que poderia atingir a imagem do presidente. Após saber que o prefeito Canapi, Mauro Fernandes da Costa, havia falado mal de Rosane, Joãozinho foi atrás dele em um bar, sacou um revólver, e atirou contra o prefeito. “Os Malta não levam desaforos para casa e, quando alguém provoca um parente, toda a família se sente atingida”, escreve Rosane.

PC FARIAS E CONTA SECRETA

No início das investigações contra o governo, abertas em 1992 para investigar o chamado esquema PC Farias, o secretário particular de Collor, Cláudio Vieira, afirmou que os gastos pessoais do presidente vinham de um empréstimo para a campanha de US$ 5 milhões feito no Uruguai. A versão foi desmentida após uma secretária relatar que o empréstimo ocorreu depois das eleições, apenas para encobrir o pagamento das contas da Casa da Dinda.

"Quando eu ouvia de Fernando que os depósitos que recebíamos não eram fruto de negócios escusos, mas simplesmente de doações de empresas que não foram usadas na campanha, eu não tinha por que duvidar. Parecia normal para mim, talvez por inexperiência, ter recursos de campanha, e que usufruir disso não era errado", conta Rosane.

Sobre a conta no exterior dos restos de campanha, no montante de US$ 50 milhões, como admitiu Collor em 2009 à Globonews, Rosane diz que ouviu "algumas conversas de que essa bolada realmente existia". A versão não oficial era a de que seu irmão, Augusto, a movimentava.

Na segunda metade da década de 1990, Collor teria dito a Rosane que estava tendo dificuldade para acessar uma conta gerida pelo irmão. Ela sugere no texto que era a tal conta do escândalo. "Além do mais, eu conheci o suíço Gerard".

Aos 50 anos, Rosane diz que ainda tem muito a contar. Outras histórias podem ficar para um segundo volume.

— Quem sabe? Vamos como me saio com esse livro. Depois a gente vê.

Leia alguns trechos do livro cedidos pela editora LeYa:

“O grande problema de Fernando era com Pedro. E o meu, com Thereza, a mulher dele. Em seu livro cheio de rancor ‘Passando a Limpo – A Trajetória de um Farsante’, publicado em 1993, sobre a rivalidade entre ele e o irmão, Pedro defende a tese de que Fernando dava em cima da cunhada. Eu não acredito nisso. Acredito na tese de que os dois tiveram algo antes do meu casamento e Thereza continuou apaixonada. Eu também não duvido que tenha sido por Thereza, por essa obsessão que ela tinha pelo cunhado, que Pedro resolveu destruir o próprio irmão”.

“Logo depois de Fernando assumir a presidência, comecei a ser alvo de críticas porque meus gastos aumentaram. Isso é uma bobagem tremenda. É claro que eu estava gastando mais! Afinal, eu passei a ter certas obrigações que não tinha como primeira-dama do Estado ou como esposa de um deputado federal. Uma primeira-dama do país gasta mais do que todas as outras, é óbvio! Até mesmo as roupas do dia a dia têm que ser muito alinhadas. Não se pode, por exemplo, comparecer a uma entrevista com um traje simplesinho. Para cada um dos eventos, é preciso pensar em um figurino diferente. E tem ainda as viagens... Um país diferente requer roupas específicas. E eu sempre gostei de boas marcas”.

“Pela péssima execução daquilo que ficou conhecido como Plano Collor, Zélia, para mim, está associada ao primeiro grande erro de Fernando como presidente. Na minha opinião, ela não estava preparada para o cargo de ministra, apesar de ser uma mulher muito inteligente e de ter ajudado muito na elaboração do programa de governo. Ali eu acredito que o governo perdeu muita credibilidade e tornou-se uma vitrine muito frágil para todas as pedras que foram atiradas depois”.

“Aliado a PC Farias, Fernando começou a criar a Tribuna de Alagoas. Na época, ninguém sabia que se tratava de um jornal do presidente. O que se sabia era que PC e seus irmãos estavam montando um diário que, em teoria, concorreria com o jornal da família Collor. E que, por mais estranho que fosse, Fernando apoiava a iniciativa. Só isso. Mas Fernando estava, sim, envolvido no negócio. Tanto é que discutiu com Pedro diversas vezes por causa disso. Pedro temia que a Tribuna tomasse o mercado e os funcionários da Gazeta, e cobrava do irmão uma postura enérgica, pois sabia que PC era seu braço direito. Fernando se negou a fazer qualquer coisa, o que deixou Pedro furioso.”

“Lembro apenas que, depois de um tempo de governo, Fernando começou a se incomodar um pouco com Itamar. Segundo meu marido, seu vice era uma pessoa demasiadamente sensível, que tem um ego dependente de elogios, de afago. Por qualquer coisinha, Itamar se chateava e, para que isso não acontecesse, alguém precisava sempre elogiá-lo, valorizá-lo. Fernando odiava tal comportamento.”

“Dizem que Fernando ficou devendo meses de aluguel da Casa da Dinda para a mãe, dona Leda, quando era deputado. Não duvido. Ele gastava sem saber se tinha dinheiro para bancar e, depois, tinha que fazer essas maluquices para cobrir a conta.”

“Em 12 de outubro de 1992, um helicóptero que fazia um voo entre São Paulo e Angra dos Reis (RJ) caiu e desapareceu no mar. Dentro dele estavam o deputado Ulysses Guimarães e sua mulher, além de outros passageiros e, claro, o piloto. Apesar de todas as buscas, o seu corpo nunca foi encontrado. Era a primeira manifestação do que ficou conhecido como “a maldição do impeachment”, uma série de mortes estranhas e trágicas de pessoas ligadas a Fernando ou ao seu afastamento da presidência. Além do deputado Ulysses, também Pedro Collor, PC Farias e sua mulher, Elma, supostamente haviam sido atingidos por tal maldição. Todos eles morreram poucos anos depois do impeachment. Todos vítimas de magia negra? Eu não sei quem espalhou esse boato, só sei que ele faz algum sentido.”

“Íamos ao terreiro mais ou menos uma vez por mês, mas, sempre que queria algo, Fernando ligava para a mãe de santo e ela dizia o que precisava ser feito para atingir seus objetivos. Dali até a eleição para a presidência, Fernando não vivia sem as orientações daquela mulher. A Mãe Cecília também passou a frequentar o Palácio, aonde ia para receber as entidades (os espíritos) que falavam com o presidente. Anos depois, em uma entrevista, ela contou que, aos poucos, os santos foram se acostumando com o bom e o melhor. Só queriam champanhe e uísque importado e faziam questão de fumar charuto cubano. Fernando bancava tudo isso, para que os trabalhos espirituais tivessem efeito.”


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“O fato é que Fernando foi meu grande amor e também minha grande decepção. Não só por tudo o que ele me fez até hoje, mas por não me deixar viver em paz depois da separação. É claro que só vou conseguir deixá-lo no passado quando essa situação se resolver e eu encontrar um outro amor verdadeiro. Já tive alguns namorados desde a separação, pessoas muito queridas, mas nenhum conseguiu ocupar esse lugar. Mesmo assim, sinto-me bem resolvida no campo do coração.”

“Em 2014, 22 anos depois do impeachment, ele foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal, por falta de provas, das acusações restantes referentes aos anos em que esteve na presidência do país (peculato, falsidade ideológica e corrupção). O que mais ele queria da vida? Por que nada disso lhe deu a tranquilidade para conseguir me deixar em paz, dando-me uma oportunidade para que eu também pudesse reconstruir minha vida? Ele não parecia querer me ver livre. Eu, pelo contrário, não vejo a hora de essa novela acabar. Também escrevi uma carta pedindo a ele, por favor, que parasse, refletisse, que eu aceitava a proposta irrisória só para ter um ponto final, mas não adiantou. Então não me sobrou outra opção a não ser seguir tentando, para ter o que é meu de direito.”

“Enquanto esse problema não se resolve, eu não quero parar minha vida. E este livro é a prova de que a fila anda. Há anos recebo convites para me candidatar à deputada, vereadora e outros cargos, mas não era a hora, ainda. Outros desafios podem surgir, e estou preparada para enfrentá-los. Já venci tantos problemas... Meu futuro promete!”



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Pink Floyd: 35 anos de “The Wall”

pinkfloydthewall1979
Pink Floyd: “The Wall”
Lançado em 30 de novembro de 1979
Concebido pelo baixista Roger Waters, “The Wall” é o 11° disco do Pink Floyd e se tornou um dos álbuns conceituais mais famosos e bem sucedidos da história do rock. Até hoje é aclamado por fãs e crítica, pela riqueza de detalhes conceituais e musicais.
A inspiração para escrever “The Wall” veio quando, durante um show em Montreal, Quebec, Waters cuspiu na cara de um fã que apresentava um comportamento perturbador. Enojado com sua própria atitude, surgiu a ideia de construir um muro (“wall”, para os leigos em inglês) entre a banda e a plateia, desenrolando, a partir daí, a ideia da opera rock.
O conceito do álbum retrata a vida de um anti-herói chamado Pink, excluído da sociedade desde os primeiros dias de vida. Pink constrói um muro em sua consciência para separá-lo da sociedade, ficando em seu próprio e fantasioso mundo. Durante uma alucinação gerada por drogas, ele se torna um ditador fascista, onde seu juiz interior ordena que derrube seu muro e viva a vida. Em 1982 foi lançada uma versão em filme para a história, com o ator Bob Geldof representando o protagonista.
Muito aclamado pela mídia e pelos fãs, “The Wall” atingiu facilmente o 1° lugar nas paradas americanas e 3° nas paradas inglesas. São mais de 30 milhões de cópias vendidas no mundo todo. Além disso, o disco é considerado o duplo mais vendido da história da música. Canções bem trabalhadas, ótima produção, processo criativo minucioso e instrumental forte são os destaques do álbum.
Apesar do genial Roger Waters ter tomado o controle sobre o Pink Floyd – o que deu início aos conflitos que culminariam no fim do grupo -, os destaques para esse disco, ao meu ver, ficam por conta das canções onde a identidade de David Gilmour predomina mais, seja em sua voz, seja em suas melodias, seja em seus solos de guitarra.
“The Wall” transcende a música. Seja pelo conceito, pelo contexto histórico que envolve a sua concepção, pela produção ou por ter um conteúdo musical que, ao mesmo tempo, é requintado e subversivo. O Pink Floyd uniu os dois mundos em um de seus grandes trabalhos.
Destaques para a sensacional “Comfortably Numb” e seu belíssimo solo de guitarra, a apoteótica “Another Brick In The Wall”, a melódica “Mother” e a feroz “Young Lust”, onde a voz de Gilmour mostra uma potência e um drive incrível, além de um solo de guitarra repleto de pegada e feeling. Mas a recomendação é que se aprecie este clássico incontestável da cabeça aos pés.
Roger Waters – vocal, baixo, sintetizadores, guitarra e violão adicional
David Gilmour – vocal, guitarra, baixo adicional, seqüenciador, sintetizadores, clavinet, percussão
Richard Wright – piano, órgão, sintetizadores, clavinet, bass pedal
Nick Mason – bateria, percussão
Músicos adicionais:
Jeff Porcaro – bateria em “Mother”
Lee Ritenour – guitarra-base em “One Of My Turns” e violão em “Comfortably Numb”
Joe Porcaro – caixa em “Bring The Boys Back Home”
Bleu Ocean – caixa em “Bring The Boys Back Home”
Freddie Mandel – órgão Hammond em “In The Flesh?” e “In The Flesh”
Bobbye Hall – percussão
Ron di Blasi – violão clássico em “Is There Anybody Out There?”
Larry Williams – clarineta em “Outside The Wall”
Trevor Veitch – mandolin
Frank Marrocco – concertina
Bob Ezrin – co-produtor, arranjos orquestrais, teclado
Michael Kamen – arranjos orquestrais
James Guthrie – co-produtor, engenheiro de som, percussão, sintetizadores em “Empty Spaces”, seqüenciador, bateria em “The Happiest Days Of Our Lives”
Disco 1
01. In The Flesh?
02. The Thin Ice
03. Another Brick In The Wall (Part 1)
04. The Happiest Days of Our Lives
05. Another Brick In The Wall (Part 2)
06. Mother
07. Goodbye Blue Sky
08. Empty Spaces
09. Young Lust
10. One Of My Turns
11. Don’t Leave Me Now
12. Another Brick In The Wall (Part 3)
13. Goodbye Cruel World
Disco 2
01. Hey You
02. Is There Anybody Out There?
03. Nobody Home
04. Vera
05. Bring The Boys Back Home
06. Comfortably Numb
07. The Show Must Go On
08. In The Flesh
09. Run Like Hell
10. Waiting For The Worms
11. Stop
12. The Trial
13. Outside The Wall
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“The Wall” completou 35 anos; obra marcou rito de passagem para o Pink Floyd


Formação clássica do Pink Floyd, com David Gilmour, Nick Mason, Roger Waters e Richard Wright
Formação clássica do Pink Floyd, com David Gilmour, Nick Mason, Roger Waters e Richard Wright
No dia 30 de novembro um dos discos mais emblemáticos da história da música completou 35 anos. “The Wall” foi o projeto mais ambicioso da banda na época em que era liderada pelo baixista Roger Waters e é possível traçar um paralelo nada otimista em relação ao recente lançamento do grupo, “The Endless River”.
Pink Floyd teve 4 eras bem definidas. No início, mais especificamente em “The Piper at the Gates of Dawn” (1967) e “A Saucerful  of Secrets” (1968), a banda tinha uma pegada psicodélica e mais crua, permeada pela criatividade e insanidade de Syd Barrett.
Após seus surtos se tornarem incontroláveis, ele teve de se afastar do grupo, abrindo espaço para uma segunda fase em que a colaboração de Waters, Gilmour, Mason e Wright era bastante recíproca. Trocando em miúdos, a partir de 1970, o Pink Floyd passou a agir como uma banda de verdade pela primeira vez.
Com o clássico “Dark Side of The Moon” (1972) e o já nostálgico “Wish You Were Here” (1975), essa estrutura de cooperação começou a ruir – apenas no sentido do relacionamento dos integrantes, pois foi o início do ápice musical e comercial. Em “Animals”, de 1977, o Floyd já havia se tornado a banda de apoio da mente megalomaníaca de Roger Waters.
O disco duplo “The Wall” (1979) foi praticamente um projeto solitário do baixista, eternizando faixas como “Another Brick in the Wall pt. 2″, “Hey You'', “Confortably Numb'' e “Mother''. A obra marcou o rito de passagem do Pink Floyd de uma das maiores fontes de música inovadora e autêntica do mundo durante os anos 70 para um cover de si mesmo que seguiria fórmulas seguras e infalíveis por três décadas.
Roger Waters interpreta "The Wall" em Berlim, Alemanha
Roger Waters interpreta “The Wall'' em Berlim, Alemanha
A briga de egos se tornou insustentável após mais um ataque de Waters com “The Final Cut” (1983), e após sua saída, o cenário continuou o mesmo, mas com a banda sob o comando do guitarrista David Gilmour, que lançou “A Momentary Lapse of Reason” em 1987.
O lançamento dos álbuns duplos ao vivo “Delicate Sound of Thunder”, “Pulse” e “Is There Anybody Out There?” demonstrou que o Floyd ainda era um titã enorme caminhando sem rumo definido. O segundo disco de estúdio dessa era, “The Division Bell”, deu uma direção mais estável, cautelosa e radiofônica ao grupo, e o transformou em um gigante adormecido por vinte anos, dependendo de coletâneas e compilações.
“The Endless River” acordou o Pink Floyd trazendo-o novamente para um lado muito sofisticado e nada comercial, mas o manteve sob as rédeas de Gilmour, que produziu o disco com seu trabalho de curadoria de arquivo previamente descartado, reciclando faixas do falecido tecladista Richard Wright para, em parceria com o baterista Nick Mason, dar à banda o último sopro de vida.
Tanto o disco recente quando clássico que está completando 35 anos têm em comum a característica de projetos mais solo do que em conjunto, mas a diferença fundamental entre os dois é o excesso de ambição de um e a falta no outro. Ambos têm identidades próprias e distintas entre si, e representam momentos opostos da carreira da maior e mais conturbada banda de rock progressivo de todos os tempos.
Enquanto “The Wall” é o fim do auge, “The Endless River” é o fim do declínio. Descanse em paz, velho Floyd!
André Cáceres
Rádio UOL

Psicopatas: como agem esses indivíduos tão temidos pela sociedade


O termo “psicopata” caiu na boca do povo, embora na maioria das vezes seja usado de forma equivocada. Na verdade, poucos transtornos são tão incompreendidos quanto a personalidade psicopática.
Descrita pela primeira vez em 1941 pelo psiquiatra americano Hervey M. Cleckley, do Medical College da Geórgia, a psicopatia consiste num conjunto de comportamentos e traços de personalidade específicos. Encantadoras à primeira vista, essas pessoas geralmente causam boa impressão e são tidas como “normais” pelos que as conhecem superficialmente. No entanto, costumam ser egocêntricas, desonestas e indignas de confiança. Com frequência adotam comportamentos irresponsáveis sem razão aparente, exceto pelo fato de se divertirem com o sofrimento alheio. Os psicopatas não sentem culpa. Nos relacionamentos amorosos são insensíveis e detestam compromisso. Sempre têm desculpas para seus descuidos, em geral culpando outras pessoas. Raramente aprendem com seus erros ou conseguem frear impulsos.
Não é de surpreender, portanto, que haja um grande número de psicopatas nas prisões. Estudos indicam que cerca de 25% dos prisioneiros americanos se enquadram nos critérios diagnósticos para psicopatia. No entanto, as pesquisas sugerem também que uma quantidade considerável dessas pessoas está livre. Alguns pesquisadores acreditam que muitos sejam bem-sucedidos profissionalmente e ocupem posições de destaque na política, nos negócios ou nas artes.
Especialistas garantem que a maioria dos psicopatas é homem, mas os motivos para esta desproporção entre os sexos são desconhecidos. A freqüência na população é aparentemente a mesma no Ocidente e no Oriente, inclusive em culturas menos expostas às mídias modernas. Em um estudo de 1976 a antropóloga americana Jane M. Murphy, na época na Universidade Harvard, analisou um grupo indígena, conhecido como inuite, que vive no norte do Canadá, próximo ao estreito de Bering. Falantes do yupik, eles usam o termo kunlangeta para descrever “um homem que mente de forma contumaz, trapaceia e rouba coisas e (…) se aproveita sexualmente de muitas mulheres; alguém que não se presta a reprimendas e é sempre trazido aos anciãos para ser punido”. Quando Murphy perguntou a um inuit o que o grupo normalmente faria com um kunlangeta, ele respondeu: “Alguém o empurraria para a morte quando ninguém estivesse olhando”.
O instrumento mais usado entre os especialistas para diagnosticar a psicopatia é o teste Psychopathy checklist-revised (PCL-R) – veja imagem acima -, desenvolvido pelo psicólogo canadense Robert D. Hare, da Universidade da Colúmbia Britânica. O método inclui uma entrevista padronizada com os pacientes e o levantamento do seu histórico pessoal, inclusive dos antecedentes criminais. O PCL-R revela três grandes grupos de características que geralmente aparecem sobrepostas, mas podem ser analisadas separadamente: deficiências de caráter (como sentimento de superioridade e megalomania), ausência de culpa ou empatia e comportamentos impulsivos ou criminosos (incluindo promiscuidade sexual e prática de furtos).

Três mitos


Apesar das pesquisas realizadas nas últimas décadas, três grandes equívocos sobre o conceito de psicopatia persistem entre os leigos. O primeiro é a crença de que todos os psicopatas são violentos.
Estudos coordenados por diversos pesquisadores, entre eles o psicólogo americano Randall T. Salekin, da Universidade do Alabama, indicam que, de fato, é comum que essas pessoas recorram à violência física e sexual. Além disso, alguns serial killers já acompanhados manifestavam muitos traços psicopáticos, como a capacidade de encantar o interlocutor desprevenido e a total ausência de culpa e empatia. No entanto, a maioria dos psicopatas não é violenta e grande parte das pessoas violentas não é psicopata.
Dias depois do incidente da Universidade Virginia Tech, em 16 de abril de 2007, em que o estudante Seung-Hui Cho cometeu vários assassinatos e depois se suicidou, muitos jornalistas descreveram o assassino como “psicopata”. O rapaz, porém, exibia poucos traços de psicopatia. Quem o conheceu descreveu o jovem como extremamente tímido e retraído.
Infelizmente, a quarta edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-IV-TR) reforça ainda mais a confusão entre psicopatia e violência. Nele o transtorno de personalidade anti-social (TPAS), caracterizado por longo histórico de comportamento criminoso e muitas vezes agressivo, é considerado sinônimo de psicopatia. Porém, comprovadamente há poucas coincidências entre as duas condições.
O segundo mito diz que todos os psicopatas sofrem de psicose. Ao contrário dos casos de pessoas com transtornos psicóticos, em que é freqüente a perda de contato com a realidade, os psicopatas são quase sempre muito racionais. Eles sabem muito bem que suas ações imprudentes ou ilegais são condenáveis pela sociedade, mas desconsideram tal fato com uma indiferença assustadora. Além disso, os psicóticos raramente são psicopatas.
O terceiro equívoco em relação ao conceito de psicopatia está na suposição de que é um problema sem tratamento. No seriado Família Soprano, dra. Melfi, a psiquiatra que acompanha o mafioso Tony Soprano, encerra o tratamento psicoterápico porque um colega a convence de que o paciente era um psicopata clássico e, portanto, intratável. Diversos comportamentos de Tony, entretanto, como a lealdade à família e o apego emocional a um grupo de patos que ocuparam a sua piscina, tornam a decisão da terapeuta injustificável.
Embora os psicopatas raramente se sintam motivados para buscar tratamento, uma pesquisa feita pela psicóloga Jennifer Skeem, da Universidade da Califórnia em Irvine, sugere que essas pessoas podem se beneficiar da psicoterapia como qualquer outra. Mesmo que seja muito difícil mudar comportamentos psicopatas, a terapia pode ajudar a pessoa a respeitar regras sociais e prevenir atos criminosos.
Cristina* tem 22 anos de idade e apenas 7 anos de escolaridade. Aparentemente, ela parece ser uma garota normal com falta de estímulo aos estudos, mas foi levada ao psiquiatra por solicitação da mãe do namorado dela.
Há cerca de um ano, Cristina mora na casa do namorado com a família dele. O ambiente é de uma família de classe média, bem estruturada, que deseja oferecer à namorada do rapaz uma oportunidade de estudo ou trabalho. A garota vem de uma região pobre da periferia da cidade e, até então, vivia com uma pequena quantia de dinheiro que recebeu de uma prima depois que seu pai foi assassinado por um traficante de drogas. Quando a prima propõe a Cristina que a aceite como companheira, ela foge e vai morar com o namorado. No consultório, ao ser indagada se pretendia casar-se com ele, a jovem reflete por alguns instantes e responde: “eles (o namorado e a família dele) são tão diferentes de mim, eles estudam ou trabalham… e eu nunca tive a sorte de arranjar um emprego rentável”. Ela conta que saiu da escola antes de concluir o ensino fundamental porque “era tudo tão chato e ficava de saco cheio nas aulas”.
Durante as consultas, ela admite que, as vezes, se torna muito agressiva. Quando ainda estudava, uma colega chamou-a de vagabunda, mas Cristina decidiu conter sua reação no calor do momento e esperou a hora do intervalo. Seguiu a colega até o banheiro e a agrediu por trás, sufocando-a com uma chave de braço. A garota afirma que também tem ciúmes do namorado e já cortou os pulsos mais de uma vez por conta disso. Cristina reconhece que é muito mentirosa e não tem o menor controle sobre suas finanças: “se tenho R$ 800,00, gasto R$ 1.000,00 em sapatos e roupas em menos de um dia”. Ela pode parecer só uma garota com problemas emocionais e falta de autocontrole, mas Cristina tem traços de um comportamento psicopata. *Nome alterado para proteger a identidade da paciente.

Categorias de maldade



Bem diferente do tipo “comum” de psicopatas que a ficção hollywoodiana criou (aquele assassino sem escrúpulos que gosta de torturar suas vítimas), Cristina se encaixa na categoria de psicopatas comunitários, que podem ser pessoas sociáveis, afetuosas, comunicativas e simpáticas, porém caracterizam-se por um tipo de comportamento frequente que gera conflitos no ambiente de trabalho, em casa ou nos relacionamentos amorosos.
O neurologista Ricardo de Oliveira Souza, coordenador da Unidade de Neurociência Cognitiva e Comportamental da rede Labs D’or, do Rio de Janeiro, criou a categoria “psicopatas comunitários” para diferenciar essas pessoas dos perfis dos psicopatas que a mídia costuma exibir.
Neurologista clínico desde 1980, Ricardo ampliou sua área de atuação na neuropsiquiatria poucos anos depois de fazer residência em neurologia. E é ele quem revela o caso que abre esta matéria: uma garota que não é uma assassina em série, nem uma torturadora, mas que, ainda assim, possui traços de um comportamento considerado psicopata. “Passados alguns anos, verifiquei que os próprios médicos (na maioria psiquiatras) raramente formulavam o diagnóstico de psicopata e, quando o faziam, aplicavam a casos quase caricaturais, de assassinos em série e homicidas”, explica. Para Ricardo, os psicopatas que ele encontrava no dia a dia são diferentes dessa figura grotesca e caricata do imaginário popular. Segundo ele, existem muito mais pessoas com traços desse comportamento do que podemos imaginar. A Organização Mundial de Saúde afirma que, a cada 100 pessoas uma é psicopata, sendo assim, cerca de 1% a 3% da população sofreria do distúrbio de psicopatia, o que representaria algo entre 8 milhões e 24 milhões de potenciais psicopatas no mundo.
Indo ao encontro às informações de Ricardo, o psicólogo Sílvio José Lemos Vasconcellos, mestre em Ciências Criminais pela PUC-RS e doutor em psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, explica que o psicopata pode manifestar suas tendências antissociais em diferentes graus de intensidade, logo, pode ser mais ou menos identificável. “Um golpista que nunca feriu fisicamente suas vítimas pode ser um psicopata. Um assassino em série que tortura e mata pode ser um psicopata e, de fato, a maioria absoluta dos assassinos em série apresenta esse diagnóstico”, ressalta.

Máscaras sociais

O cinema e a mídia trouxeram à tona os traços de personalidade do psicopata de forma sanguinária, mas vale lembrar que nem todo psicopata é um serial killer, e que ele pode se esconder por trás de personalidades muito mais comuns do que se pode imaginar. Assim como o estudioso Robert Hare conta em seu livro Sem Consciência: O Mundo Perturbador dos Psicopatas que Vivem Entre Nós ( Psiquiatria, 240 páginas, editora Artmed, ano 2013, R$49,00), psicopatas utilizam diversas máscaras sociais, conquistam, manipulam e abrem caminho na vida cruelmente, deixando um longo rastro de corações partidos, expectativas frustradas e carteiras vazias. Os que não partem para a violência física podem ser caracterizados por diversas marcas, como mentiras frequentes, impulsividade, desorganização financeira, e, principalmente, imprevisibilidade de ações. Esse tipo de comportamento atende aos critérios formais de personalidade antissocial do DSM, sigla em inglês para Manual Estatístico e Diagnóstico de Desordem Mental, um dos documentos mais utilizados para avaliar transtornos psicológicos. Nele, o psicopata é caracterizado por impulsividade, desprezos por normas sociais e total indiferença aos sentimentos e direitos do próximo e causa danos emocionais ou financeiros para as pessoas que convivem e se relacionam com esses indivíduos.
Segundo Raphael Boechat, coordenador de psiquiatria do Hospital Santa Lúcia e pesquisador da Universidade de Brasília, é importante lembrar que nem todo psicopata é assassino e nem todo assassino é psicopata. “Alguns roubam, desviam dinheiro ou usam pessoas em relacionamentos. Existem várias formas de psicopatia sem morte”, explica. O psicopata cria suas próprias regras e valores, e age de acordo com sua conduta, na ele decide o que é ou não correto. “A mente desses indivíduos atua de uma forma perversa, sem os limites e as censuras que as pessoas normais aplicam em si mesmas”, revela Raphael Boechat. Geralmente esses indivíduos estabelecem relacionamentos com bastante facilidade, mas não conseguem mantê-los por muito tempo. “Isso acontece porque não conseguem lidar com as frustrações inerentes a todo e qualquer relacionamento interpessoal”, explica o psiquiatra Elias Abdalla.  Os estudos na área confirmam as observações clínicas que apontam nos psicopatas um comprometimento de determinados estados mentais essenciais para a vida social. “A capacidade de sentir emoções pró-sociais, como pena e remorso, não existe nesses indivíduos. São seres humanos incapazes de experimentar a dor ou o sofrimento alheio”, conta o psiquiatra.

Traços de um psicopatas

Identificar um psicopata é uma das tarefas mais difíceis, afinal o indivíduo consegue conviver de maneiro normal, com somente alguns traços do transtorno. De acordo com o psiquiatra Raphael Boechat, coordenador de psiquiatria do Hospital Santa Lúcia e pesquisador da Universidade de Brasília, o comportamento da maioria dos psicopatas é aparentemente normal e apenas pessoas muito próximas conseguem perceber algum traço diferente. “Normalmente esses indivíduos possuem um padrão de desprezo pelas normas sociais, uma grande capacidade de convencimento e podem ter uma inteligência superior à média”, explica.

Em busca das causas

Há várias possibilidades dentro da psicologia e da psiquiatria que justificam a forma de agir do psicopata; entretanto, as explicações sobre comportamento desses indivíduos ainda não são consenso. “A principal diferença entre um psicopata e uma pessoa normal é a incapacidade total ou relativa dos psicopatas sentirem pena dos outros ou culpa (remorso) pelo que possam fazer de mal a alguém”, diz Ricardo. Além disso, o médico alerta que, mesmo que os indivíduos se mostrem arrependidos e se penitencie pelo erro cometido, eles não modificam o comportamento e voltam a incidir nos mesmos erros em seguida. “O estado atual de conhecimento sobre o assunto sugere que a carga genética possa ser uma condição necessária para alguém se tornar psicopata, embora não seja uma condição suficiente. Isso significa dizer que o ambiente no qual o indivíduo desenvolve-se também exerce influência”, reflete o psicólogo Sílvio Lemos.
O neurologista Ricardo de Oliveira Souza demonstra que os resultados  dos estudos feitos nos últimos anos têm sido fascinantes e animadores. “Nos últimos 15 anos, um dos meus focos de pesquisas tem recaído no estudo do cérebro dos psicopatas e como eles diferem dos cérebros das pessoas normais”, revela. Para realizar os testes, foram utilizados diversos instrumentos de avaliação clínica, comportamental e neuropsicológica, assim como uma variedade de técnicas de ressonância magnética, tanto funcional como anatômica (estrutural). Com o estudo, foi possível verificar que os cérebros dos psicopatas é diferente do cérebro de um indivíduo normal. “Essas diferenças são notadas tanto na esfera anatômica quanto na esfera funcional”, explica o neurologista. Além disso, as alterações presentes no cérebro dos psicopatas estão em sintonia com as alterações comportamentais e de personalidade que os caracterizam. O córtex pré-frontal e o córtex orbitário são os locais onde as alterações anatômicas são mais observadas no cérebro dos psicopatas, assim como sobre o lobo parieto-temporal e os polos temporais. “Essas regiões são profundamente interconectadas e correspondem aos circuitos cerebrais relacionados ao comportamento social”, explica Ricardo.
A medicina diz que a psicopatia é, em grande parte, geneticamente determinada. Estima-se que 80% da “carga genética” influencie nesse tipo de comportamento, conforme definido pela PLC (sigla de expressão inglesa: Programmable logic controller – Controlador lógico programável) de psicopatia do psiquiatra americano Robert Hare. Outro ponto que contribui são os fatores são os fatores externos que podem influenciar o comportamento dessas pessoas desde muito cedo. “Há indivíduos com personalidade antissocial que ficam abaixo do limiar da psicopatia. Esses casos são bem mais suscetíveis às influências do ambiente (pais alcoólatras e negligentes) e, ao menos em tese, poderiam ser parcialmente recuperáveis”, pontua Elias Abdalla, psiquiatra forense no IML de Brasília e pós-doutor em Psiquiatria Forense pela Universidade de Londres. Ele conta que essas pessoas eram conhecidas antigamente como “sociopatas” para diferenciá-las dos psicopatas sanguinários, entretanto não há um consenso entre os dois termos. “Há quem prefira destacar o termo ‘sociopatia’ para dar ênfase à importância do meio social na constituição da personalidade transtornada, enquanto o termo psicopata engloba os aspectos biológicos (incluindo genético) e sociais”, explica. Ou seja, enquanto os psicopatas adotariam um comportamento mais violento, os sociopatas teriam um quadro clínico de transgressão social mais leve.

Recuperação (quase) impossível

A cura para a psicopatia ainda percorre um caminho tortuoso. “Esses indivíduos não vão ao psiquiatra por vontade própria, a não ser quando levados por terceiros, porque eles não veem problema em sua conduta e nem em suas regras”, explica Ricardo de Oliveira Souza. Para Elias Abdalla, uma cura para os psicopata seria equivalente a algo como “mudar de personalidade”, o que é impossível.
Sílvio Vasconcellos reafirma que, embora a cura pareça distante, é possível apaziguar as manifestações antissociais características da psicopatia. Mesmo apostando no avanço que técnicas que diminuam o comportamento antissocial do indivíduo psicopata, o psicólogo alerta para o caráter violento de muitos deles e aponta a via penal como solução. “Se considerarmos o insucesso dos tratamentos nas diferentes áreas de saúde e o fato de que a contenção de comportamentos antissociais é primordial na sociedade em que vivemos, a privação da liberdade é, portanto, necessária. Seria ingênuo pensar que existe um modelo substitutivo capaz de dispensar a privação de liberdade nesses casos”, avalia.
Por mais que pareça radical, para Ricardo de Oliveira Souza, a integração de um psicopata à sociedade é impossível, já que o transtorno deste indivíduo é ele próprio. “Como ele tem uma falha em sua personalidade, o psicopata não consegue sentir arrependimento pela violência praticada. Por conta disso, ele não compreende sua prisão por sentimentos éticos, morais e humanos pela vítima. Consequentemente, não vai aprender com a experiência, com tendência a repetir seus atos de violência”, finaliza.

Características infantis indicam o problema

O diagnóstico de psicopatia só é possível após os 18 anos por meio de diagnóstico psiquiátrico. Até essa idade, os sinais que poderiam indicar um perfil psicopático podem no máximo serem diagnosticados como Transtorno de Conduta. Ainda assim, algumas características infantis indicam que a criança pode vir a ser um adulto com o transtorno. “Geralmente as que maltratam animais, mentem muito, fazem bullying, não obedecem regras, têm insensibilidade emocional, dificuldade em manter amizades, atitudes transgressoras como roubo, vandalismo e violência, têm mais chances de serem adultos assim”, afirma a psicóloga, explicando que, mesmo conhecendo as características, o diagnóstico exato só pode ser confirmado pelo especialista. “Como a maioria dos transtornos mentais, a psicopatia apresenta dois elementos causais fundamentais: uma disfunção neurobiológica e o conjunto de influências sociais e educativas recebidas ao longo da vida. Quando ela ocorre em grau leve e é detectada de forma precoce, pode, em alguns casos, ser modulada através de uma educação mais rigorosa, ou seja, um ambiente familiar mais estruturado e com acompanhamento dos filhos ditos ‘problemáticos’, o que certamente não evita a psicopatia, mas pode inibir uma manifestação mais grave”.
Apesar de se mostrar irreversível, a psicóloga deixa claro que a existência de algumas características da psicopatia não são motivo para a pessoa ser diagnosticada com o transtorno. “Existem casos de pacientes que foram diagnosticados com o problema, mas depois foi visto que ele não era um psicopata. E outros em que os sintomas não foram percebidos, porém, após um período, se mostraram extremamente passíveis de serem psicopatas. Por isso, dentre outros critérios, as características são avaliadas pela frequência e intensidade com as quais se manifestam”. Essa ludibriação do diagnóstico, conforme deixa claro Lara, não é algo tão incomum. “Muitos psicopatas já conhecem as características do distúrbio e, por isso, conseguem ser frios o bastante para enganar até os especialistas”.

Nem todos são assassinos

Muito pelo contrário: a proporção é de 1% da população mundial, sendo três homens para cada mulher. Além disso, vale frisar que existem diferentes graus de psicopatia e que nem todos os indivíduos com o distúrbio não têm qualquer limite. “Temos as psicopatias leves, moderadas e graves. Todas envolvem frieza emocional, mas, nos casos mais simples, remetem a pessoas que muitas vezes ocupam cargos de destaque, como líderes religiosos, executivos bem sucedidos e políticos que muitas vezes vivem de golpes, roubos, fraudes e estelionatos”.
Com estes indivíduos, a dica da psicóloga é se manter o mais longe e atento possível. “Se perceber alguém assim, fuja, pois a pessoa não vai mudar”, diz, deixando claro que os próprios psicopatas não vão atrás de ajuda médica. “Como eles não são incomodados com o próprio problema, não vão procurar ajuda. Geralmente quem costuma se tratar são as vítimas deles”.
Fonte: por Tamirys Seno e Lucas Santana (colaborador) / Segredos da mente – Ler & Saber Especial – Ano 1 – nº 1 – 2013 – Editora Alto Astral / Albert Einstein – Sociedade Beneficente Israelita Brasileira / Scott O. Lilienfeld e Hal Arkowitz / Artigo: O que é um psicopata?

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