segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Em tempos de Banco Master, de "eu não sabia de nada", relembrar É PRIMORDIAL

PF diz que grampos indicam Lula como dono de sítio em Atibaia; ouça



17/03/2016 19h20 - Atualizado em 18/03/2016 21h38

Gravações foram anexadas em autos da investigação nesta quinta (17).

Ex-presidente, familiares e donos do sítio foram grampeados pela PF.

Fernando Castro e Samuel Nunes
Do G1 PR


Em relatório anexado aos autos de investigação da 24ª fase da Operação Lava Jato nesta quinta-feira (17), a Polícia Federal (PF) aponta indícios de que o ex-presidente Lula seria o real dono do sítio Santa Barbara, em Atibaia (SP). As afirmações são baseadas em novas ligações grampeadas de Lula, familiares e os proprietários registrados do sítio.

 

As ligações foram anexadas nos mesmos autos de que o juiz Sérgio Moro levantou o sigilo na quarta (16). No relatório, a PF explica que essas ligações foram consideradas relevantes, mas que ainda não haviam sido apresentadas.

Veja fotos do sítio divulgadas pela Justiça Federal nesta quinta (17).

Foi gravada uma conversa entre Lula e um funcionário, em que o empregado avisa que a chave do sítio está com alguém chamado Marcos. Para a PF, trata-se de Marcos Silva, filho do ex-presidente. Lula avisa que vai cedo na manhã do dia seguinte para o sítio e por isso precisa da chave.

“Tais indícios sugerem que o sítio de fato seja da família de Lula, pois a chave do mesmo não fica com Fernando Bittar e Jonas Suassuna, mas com Lula e seus filhos”, aponta o relatório da PF. Veja a transcrição da conversa:

Lula: Ô Azevedo, sou eu.
Funcionário: Boa noite, presidente, pode falar.
Lula: Deixa eu falar uma coisa pra você. A chave do sítio tá com o Marcos, né?
Funcionário: Sim senhor
Lula: Você precisa entrar em contato com ele porque eu não sei que hroas ele vão chegar, vão chegar tarde pra cacete., pra gente pegar a chave amanhã de manhã, porque nós vamos pro sítio cedo amanhã
Funcionário: Ah, sim senhor, tá ok. Eu vou tentar falar com a dona Carla agora. Tá bom?
Lula: Tá bom
Funcionário: Tá ok, presidente

Outra ligação é entre o filho de Lula Fábio Silva e Kalil Bittar – irmão de Fernando Bittar – um dos donos do sítio. A PF informa que a gravação foi feita dias antes de uma manifestação marcada para acontecer em frente ao sítio, e pede que Kalil Bittar organize um churrasco no local no mesmo dia, para manter o sítio ocupado. Leia trecho:

Kalil: Eu vou ver se eu convenço o Fabiano de “vim” pra cá, né?
Fábio: É uma boa.
Kalil: Tá? Eu tenho sua autorização pra isso, tenho? Alô? Alô?
Fábio: Tô ouvindo.
Kalil: Eu tenho sua autorização pra isso?
Fábio: Você tem autorização pra tudo, meu amor.
Kalil: Então tá bom.
Fábio: Tá bom? Mas leva mais gente também. Faz um churrasco, compra picanha... tem cerveja lá... faz um churrasco.
Kalil: Tá.
Fábio: Passar o dia na piscina.

“Causa estranheza o fato de que apesar de, oficialmente, o sítio de Atibaia ser de propriedade de Fernando Bittar e Jonas Suassuna, Kalil Bittar pede autorização de Fábio Silva para convidar determinadas pessoas para o churrasco (...), bem como é Fábio quem conversa com Maradona (caseiro da propriedade) para avisar que Kalil vai chegar para passar o dia no sítio”, afirma a PF. Leia abaixo o diálogo:

Fábio: O irmão do Fernando, o Kalil, ta indo praí.
Maradona: Ah, tá bom.
Fábio: Ele te ligou do número 019 e acho que você não atendeu.
Maradona: Ah, é que eu tava lavando os pedalinhos ali no lago, ô, Fábio, eu vi agora tem uma ligação perdida mas eu nem vi de quem que é.
Fábio: É, é dele, se você puder retornar, retorna, senão ele vai ligar de novo e aí você atende.
Maradona: Ah, então tá bom, Fábio
(...)
Fábio: Ele tá indo praí, qualquer coisa você me liga, tá?
Maradona: Tá bom, Fábio, pode deixar.

Outra conversa destacada é entre Renata, esposa de Fábio Silva, com Kalil Bittar, ocorrida no dia do referido churrasco. (Ouça ao lado)

"Kalil diz que está na casa daquela acumuladora chamada Marisa Letícia. Kalil fez uma 'limpa' na geladeira, porque ela estava cheia de comida vencida, que foi comer um hamburguerzinho, mas que estava vencido desde antes da eleição de Dilma. Kalil diz que abriu um vinho que deve ser muito caro, porque tem até número de série. Renata diz que não tem problema" relatam os policiais.

Na sequência, "Kalil diz que olhou no quarto da família, e que a arma que o presidente tem é uma lanterna".

Paulo Gordilho
Para a Polícia Federal, outro indício de que Lula é o verdadeiro dono do sítio está numa conversa de Paulo Gordilho, ex-diretor de engenharia da construtora OAS. Gordilho entrou na mira da Lava Jato depois que investigadores descobriram que foi ele quem encomendou e pagou os móveis planejados do sítio e do triplex no Guarujá.

Na gravação, ele reclama para uma mulher, que sofreu busca e apreensão da PF:

Paulo Gordilho: Não roubei, não matei, não ganhei nenhum dinheiro com isso... Presidente pediu... Eu fiz.
Mulher: É lógico, você cumpre ordens, né?
Paulo Gordilho: E ganhei, no final do ano, desemprego.

Os investigadores não dizem se o presidente citado por Paulo Gordilho é Lula ou Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS.

Contrato
Mais cedo, a Polícia Federal informou que apreendeu no apartamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em São Bernardo do Campo (SP), uma minuta de contrato de compra do Sítio Santa Bárbara.

O documento não tem assinatura e é datado de julho de 2012, sem o dia exato do mês. Ele indica um compromisso de venda do sítio em nome de Fernando Bittar e sua mulher, Lilian, para Lula e sua mulher, Marisa Letícia. O valor previsto da venda é de R$ 800 mil (R$ 200 mil no ato da compra, e R$ 600 mil divididos em três prestações mensais).

Esse documento foi apreendido, segundo a polícia, na 24º fase da Operação Lava Jato, realizada no dia 4 de março e que teve como alvo o ex-presidente. A propriedade é investigada na Lava Jato porque teria sido reformada por empreiteiras envolvidas no esquema de corrupção da Petrobras.

Minuta de contrato de venda do sítio em Atibaia para Lula pag.1 (Foto: Reprodução)
Minuta de contrato de venda do sítio em Atibaia para Lula pag.3 (Foto: Reprodução)
Minuta de contrato de venda do sítio em Atibaia para Lula pag.4 (Foto: Reprodução)

Outro lado
O ex-presidente nega as acusações. Desde que as investigações se tornaram públicas ele afirma que não é proprietário do espaço. O Instituto Lula chegou a afirmar que o ex-presidente nunca escondeu que frequenta o local, que pertence a amigos dele e de sua família, em dias de descanso. Leia na íntegra nota do Instituto Lula:

O ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva soube que a família de Jacó Bittar e Jonas Suassuna haviam comprado o “Sítio Santa Bárbara”, em Ataibaia (SP) em 13 de janeiro de 2011. Frequentou o local pela primeira vez em 15 de janeiro de 2011.

O sítio, além de servir para que amigos de longa data pudessem frequentar e conviver, também serviu para receber parte do acervo presidencial entregue ao ex-Presidente Lula pela Secretaria da Presidência da República ao final do seu mandato, como foi idealizado por Jacó Bittar – que é amigo de Lula e companheiro na política há mais de 35 anos.

As reformas que foram feitas no sítio foram realizadas pelos proprietários para adequar as instalações a essas necessidades. Amigos e parentes do ex-Presidente Lula acompanharam parte da reforma e auxiliaram no que era possível.

A partir de janeiro de 2011, quando o ex-Presidente e seus familiares passaram a frequentar o sítio em dias de descanso juntamente com os proprietários, também houve o auxílio para a manutenção do local.

Esses fatos justificam todos os documentos que foram apreendidos durante a busca e apreensão realizada na residência do ex-Presidente Lula e no próprio sítio em Atibaia.

Não se sabe qual o critério usado pela Polícia Federal para afirmar que não há pertences dos proprietários no sítio. De qualquer forma, essa afirmação não muda em nada a propriedade do local, que é atribuída a Fernando Bittar e Jonas Suassuna por título dotado de fé pública.

A defesa de Lula afirma ainda que Kalil Bittar não pede autorização a Fábio Luís Lula da Silva nesta ligação - e que ele havia telefonado diretamente para o caseiro do sítio, mas não havia conseguido contato. Segundo o advogado Cristiano Zanin Martins, o filho de Lula apenas auxiliou Kalil Bittar a localizar o caseiro.

O advogado do ex-presidente disse também que o sítio Santa Bárbara, em Atibaia, pertence a Fernando Bittar e a Jonas Suassuana, que pagaram pelo imóvel e podem dar a ele a destinação que quiserem.

Paulo Gordilho e Kalil Bittar não retornaram o contato.

Beba na Fonte

domingo, 25 de janeiro de 2026

Quando dizemos NÃO em silêncio

 

by Deise Brandão

Voltemos a 1973. Meio século pode parecer tempo suficiente para enterrar comportamentos arcaicos, mas a história de Lily Tomlin funciona como um banho de realidade: a carcaça do preconceito mudou, mas o esqueleto segue intacto.

No auge da carreira, Lily sentou-se no sofá de um dos programas mais vistos da televisão americana. Ao seu lado, o ator Chad Everett, exalando aquela autoconfiança tóxica que ainda hoje se encontra em qualquer esquina, disparou:
“Minha esposa é o animal mais bonito que eu possuo.”

A plateia riu. O apresentador gaguejou. Lily levantou-se e saiu.Sem escândalo. Sem discurso.Apenas a recusa física de permanecer onde a dignidade humana era tratada como patrimônio.

Quem acredita que isso ficou no passado está enganado.

Se em 1973 a palavra usada era “posse”, hoje a objetificação foi gourmetizada. Ela aparece nos algoritmos das redes sociais, no marketing que transforma corpos em vitrines e, de forma ainda mais perigosa, no ressurgimento de movimentos que tentam dar verniz intelectual à submissão feminina. O vocabulário mudou; a intenção de controle, não.

O preço de não sorrir

O custo de demonstrar desconforto continua alto. Sempre que uma mulher reage a um comentário machista, os rótulos surgem com rapidez cirúrgica: “louca”, “difícil”, “agressiva”. Lily foi criticada por não ter sido “educada”. Cinquenta anos depois, a exigência permanece a mesma: manter a harmonia social — mesmo quando o desrespeito é explícito. O sistema ainda odeia o “não”.

A invisibilidade como castigo

A trajetória de Lily Tomlin é, por isso mesmo, uma exceção incômoda. Viveu 42 anos ao lado de Jane Wagner antes de poder casar oficialmente, apenas em 2013. Aos 86 anos, segue brilhando em Grace and Frankie, desafiando o etarismo que tenta apagar mulheres assim que surgem as primeiras rugas.

Mas o sucesso dela não é regra. Para a maioria, o mercado de trabalho e a mídia continuam decretando uma “data de validade” feminina com uma crueldade que raramente se aplica aos homens.

A luta não é um quadro na parede — é o agora

Lily Tomlin não é apenas uma lembrança de uma era rebelde. Ela é a prova viva de que pouco mudou na essência das estruturas de poder. Direitos que pareciam consolidados seguem sob ameaça, e a liberdade de existir plenamente ainda exige uma coragem desproporcional.

O gesto de 1973 abriu caminho para que hoje nenhuma mulher precise sair sozinha do estúdio. O silêncio de Lily transformou-se em coro. Ainda assim, não há espaço para ilusão: a vigilância precisa ser constante.

Enquanto alguém tratar o outro como posse, a saída de Lily Tomlin continuará sendo um dos atos mais atuais — e necessários — do nosso tempo.

Em Alta

Os números do PT

by Deise Brandão Existe a narrativa de que o PT é um partido gigante, mas, quando se observam os números institucionais, o cenário é mais m...

Mais Lidas