quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O espetáculo da ignorância: quando o povo vira torcida de corrupção

 


by Deise Brandão

Nos últimos dias, uma matéria circulou em Santa Catarina mostrando que 31 prefeitos foram presos ou afastados por corrupção nos últimos cinco anos.O dado é real. A reportagem é pública. A fonte é o ND+. No entanto, o que mais choca não é o número. É o que as pessoas fazem com ele.

Não vejo indignação nem desejo de justiça. Vejo torcida organizada. Direita contra esquerda. Santa Catarina contra Rio Grande do Sul. “Deus, pátria e família” contra “comunistas”. Nordeste contra Sul. Enquanto isso, os corruptos agradecem.

Quando o povo troca justiça por identidade

Em vez de perguntar “Quem roubou?” as pessoas perguntam “De que lado ele estava?” Se for “do meu lado”, relativiza. Se for “do outro”, pede cadeia.

Isso não é política. É tribalismo. Não é consciência cívica. É guerra de torcidas.

O eleitor brasileiro não está defendendo honestidade — está defendendo a própria fantasia ideológicaSanta Catarina não é exceção. É laboratório

Quando os presos são de Santa Catarina: “Parabéns, a justiça funciona.” Quando são do Nordeste: “Lá todo mundo rouba.” Quando são de Brasília: “É tudo PT.”ou “É tudo bolsonarista.”

Isso é analfabetismo político funcionalCorrupção não tem bandeira.Tem método.

E o método se repete em qualquer sigla quando há:

  • poder sem controle

  • orçamento sem transparência

  • promiscuidade entre político, empresário e cartório

  • Ministério Público seletivo

  • imprensa domesticada

A farsa de “Deus, Pátria e Família”

Talvez a parte mais obscena seja ver políticos presos e a população respondendo com: “Deus, pátria e família”.

Isso não é fé. É escudo moral para quadrilha.

Religião não purifica corrupção. Patriotismo não limpa desvio de verba. Família não absolve roubo. Quem rouba dinheiro público rouba: merenda, hospital, estrada, escola, saneamento. Rouba vida.

A tragédia brasileira

A tragédia não é só a corrupção. É o povo defendendo corrupto para não admitir que foi enganado. É o eleitor preferindo brigar com o vizinhodo que encarar o próprio erro de voto. É gente pobre defendendo político rico preso como se fosse parte da própria vida. Isso não é ideologia. É síndrome de Estocolmo eleitoral.

A pergunta que ninguém quer fazer

Enquanto as pessoas brigam por sigla,os mesmos grupos continuam ganhando eleições, contratos, cargos e proteção.

A verdadeira pergunta não é “é de direita ou de esquerda?”mas “por que continuam roubando — e continuamos votando neles?”

Muitos sequer leram a matéria. Repetem frases prontas.Sem conferir nomes.Sem olhar dados. Sem ler uma linha. Outros usam o dado para ridicularizar Santa Catarina, transformando corrupção em piada regional.

E o mais perverso: gente do Rio Grande do Sul debochando das prisões, quando o lógico seria lamentar que em seu próprio estado os corruptos não estejam sendo presos.

Ou seja:o problema não é que Santa Catarina tenha prefeitos corruptos. O problema, para eles, é que lá eles estão sendo pegosIsso revela uma inversão moral brutal.

Quem debocha da prisão de prefeitos em outro estado está, na prática, dizendo: “Eu prefiro que os meus corruptos fiquem livres.” E esse talvez seja o retrato mais honesto do Brasil.

Esse comportamento, neste momento, também escancara a pobreza política em que o Rio Grande do Sul se encontra — quando, no meu entendimento, eleger Eduardo Leite como governador já deveria ter sido o último degrau da degradação institucional do Estado.

O que vivenciamos hoje não é obra do acaso. É consequência direta das escolhas feitas nas urnas. Porque caráter não é crime —ser mau-caráter, infelizmente, continua sendo legal. O que deveria ser intolerável é outra coisa: escolher quem nos representa.

E é exatamente aí que a responsabilidade real aparece.

Nota pessoal:
Não voto desde 1994. Nem justifico.Não reconheço governo algum.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O cromossomo Y está desaparecendo?

 

                                                        Imagem gerada por IA - GPT

by Deise Brandão

O cromossomo Y, peça central na determinação do sexo biológico masculino em humanos, voltou ao centro de debates científicos — e também de manchetes exageradas. Estudos de genética evolutiva mostram que, ao longo de aproximadamente 300 milhões de anos, o Y perdeu cerca de 97% de seus genes ancestrais, tornando-se muito menor e geneticamente mais limitado do que já foi no passado.

Esse dado é real, comprovado e amplamente aceito pela ciência. O que divide especialistas é a interpretação sobre o futuro desse cromossomo.

Um cromossomo que encolheu — e sobreviveu

Comparações genômicas indicam que o cromossomo Y sofreu intensa degeneração ao longo da evolução, sobretudo por não recombinar amplamente como outros cromossomos. Isso o tornou mais vulnerável à perda de genes. Ainda assim, os genes que permaneceram estão majoritariamente ligados à fertilidade masculina e a funções celulares essenciais.

Além disso, a biologia já demonstrou que o cromossomo Y não é universalmente indispensável. Algumas espécies de mamíferos, como certos ratos-toupeira e ratos-espinhosos, perderam completamente o Y e desenvolveram mecanismos alternativos de determinação sexual.

A hipótese do desaparecimento

A possibilidade de que o cromossomo Y humano venha a desaparecer em um futuro distante é defendida por pesquisadores como a bióloga evolutiva Jenny Graves. Segundo essa linha de pensamento, se a taxa histórica de perda genética fosse mantida, o Y poderia deixar de existir em milhões de anos.

A própria Graves, no entanto, ressalta que isso não significaria o fim dos homens, mas sim uma eventual transição para outro sistema genético de diferenciação sexual — como já ocorreu em outras espécies.

A visão oposta: estabilidade, não colapso

Outros cientistas contestam essa projeção. Pesquisadores como Jennifer Hughes, ligada ao Massachusetts Institute of Technology, afirmam que o cromossomo Y humano não está em colapso.

Estudos genômicos mostram que os genes essenciais do Y vêm sendo preservados há pelo menos 25 milhões de anos, especialmente em primatas. O cromossomo teria desenvolvido mecanismos internos de autoproteção, como duplicações gênicas, que garantem sua funcionalidade ao longo do tempo.

Para esse grupo, o Y já teria passado por sua fase mais crítica e hoje estaria evolutivamente estabilizado.

Onde termina a ciência e começa o exagero

Apesar do debate legítimo, parte da repercussão pública extrapola os dados científicos. Não há evidência de que o cromossomo Y esteja prestes a desaparecer, tampouco de que exista qualquer ameaça iminente à masculinidade biológica humana.

Também não há comprovação de populações humanas com sistemas alternativos de determinação sexual ainda “ocultos” ao sequenciamento genômico. Essa ideia permanece no campo da especulação teórica, sem respaldo empírico.

Um debate aberto, sem alarmismo

O futuro do cromossomo Y segue em debate na comunidade científica. Ele pode estar caminhando, em escala evolutiva profunda, para uma transformação — ou pode simplesmente continuar existindo de forma discreta e funcional, como vem fazendo há milhões de anos.

Por ora, a única conclusão segura é esta:
não há colapso em curso, nem qualquer impacto prático para as gerações atuais. O que existe é um exemplo clássico de como a ciência trabalha com hipóteses, dados de longo prazo e incertezas — e de como isso pode ser distorcido quando vira manchete apressada.

Fontes
Nature, DOI: 10.1038/538405a
Nature, DOI: 10.1038/nature10843

Apagar não é matar de imediato.



by Deise Brandão

Apagar é retirar o chão.
As pessoas não desaparecem primeiro dos mapas, mas dos registros.
Da linguagem.
Da memória coletiva.
O poder não começa com a violência explícita. Começa quando decide quem merece ser lembrado e quem pode ser silenciado. 
Quando a história passa a ser escrita sem nomes, sem rostos, sem contexto — apenas com versões oficiais, símbolos vazios e narrativas convenientes.
É assim que se apagam pessoas ainda vivas.
Não se trata apenas de censura direta. Muitas vezes o apagamento vem travestido de neutralidade, de burocracia, de “nota técnica”, de gesto simbólico que parece humano, mas não diz nada.
Quando o símbolo substitui a explicação, quando a imagem ocupa o lugar da história, a memória começa a ser dissolvida.
Queimam-se livros — ou os tornam irrelevantes.
Silenciam-se histórias — ou as classificam como exagero, ressentimento, loucura.
Destróem-se raízes — ou as rebatizam com outro nome, outra origem, outra narrativa.
Depois, reescrevem.
Inventam outra cultura.
Outra versão dos fatos.
Outra memória coletiva aceitável.
E, aos poucos, a sociedade deixa de reconhecer o que aconteceu — e até quem aconteceu.
Por isso, a frase de Milan Kundera permanece atual e incômoda:
a luta contra o poder não é apenas política, jurídica ou institucional.
É, antes de tudo, uma luta pela memória.
Lembrar é resistir.
Nomear é existir.
Registrar é impedir o desaparecimento.
O apagamento é sempre o primeiro passo.
Porque quem controla a memória, controla o futuro.

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