domingo, 22 de maio de 2022

Eu sinto muito Ana Paula





Publicação sobre a morte da mãe de uma criança autista chama atenção para a invisibilidade de mulheres que têm filhos com deficiênciaFoto: Reprodução/Instagram


"Eu sinto muito, Ana Paula" é o título de uma publicação da jornalista e escritora Andrea Werner no Instagram, onde tem mais de 59 mil seguidores, sobre a morte de uma mulher de 39 anos em São Sebastião do Paraíso, na região sul de Minas Gerais. Ana Paula faleceu em casa após sofrer um infarto fulminante e o filho dela, um menino autista de 6 anos que ainda não aprendeu a falar, ficou 12 dias sozinho no imóvel, comendo o que havia por lá. O corpo dela foi sepultado nesta quarta-feira, 18.

Mães de pessoas com deficiência costumam ser chamadas, até se apresentam, como atípicas. É fato que a maternidade, de maneira geral, no caso de filhos com ou sem deficiência, sempre exige muita energia e dedicação, e não considero justo classificar como menor ou mais fácil o empenho de quem cuida de suas crias porque essas não têm restrições de mobilidade, condições intelectuais ou sensoriais diferentes.

Ser mãe é ser mãe. Podemos acrescentar que, quando há uma criança com deficiência, tudo deixa de ser comum, regular, habitual ou típico.

Mães atípicas convivem com uma semelhança muito cruel, o isolamento provocado pela maneira preconceituosa como nossa sociedade ainda trata pessoas com deficiência, principalmente crianças com sequelas severas. E esse era o caso de Ana Paula.

Recebo relatos constantes de mães que não sabem mais a quem recorrer porque seus filhos com deficiência são negligenciados nas escolas, são atacados em grupos de pais ou do condomínio no WhatsApp, são alvo de piadas maldosas até mesmo entre familiares.


Andrea Werner é uma mãe atípica, tem um filho autista prestes a completar 14 anos. Fundou o Instituto Lagarta Vira Pupa, que faz acolhimento materno, dá apoio às famílias de pessoas com deficiência e também constrói mobilização social e política.

"Esse mito da mãe especial esconde muitos abandonos", diz Andrea Werner.

"Meu marido viu a notícia sobre a Ana Paula e me mandou. A situação mexeu muito comigo, porque não é a primeira", diz Andrea.

No ano passado, em Jataí (GO), a 320 quilômetros de Goiânia, uma criança autista de 7 anos ficou trancada dentro da própria casa, sozinha, por vários dias, depois que a mãe dela, Renata Duarte de Oliveira, de 28 anos, morreu de causas naturais. A criança usou o celular para avisar conhecidos e até fez imagens da mãe caída, mas não havia sinal de internet e os pedidos de ajuda não chegaram.

Em outubro de 2021, em Uberlândia (MG), os corpos de mãe e filho foram encontrados dentro da casa ondem moravam juntos. Ilza Maria Assunção, de 56 anos, ficou quatro dias sem se comunicar com a família e um de seus irmãos foi até residência. Ela estava caída e Breno dos Reis Gomes de Assunção, de 19 anos, filho de Ilza, um jovem com deficiência, tetraplégico, que era cuidado pela mãe, também estava sem vida.

"Ana Paula não foi a primeira e será a última, são muitas mães nessa situação", afirma Andrea Werner. O post que ela compartilhou no Instagram nesta quarta-feira, 18, se espalhou rapidamente e já tem mais de 6,6 mil compartilhamentos.

"O isolamento e a invisibilidade das mães de pessoas com deficiência, das mãe atípicas, são resultados de muita coisa, do machismo estrutural e do ensinamento de que o cuidado é dom feminino. Não é à toa que 78% dos pais abandonam a família quando um filho é diagnosticado com doença rara ou deficiência. E, tanto para sociedade quanto para o Estado, é mais fácil dar um tapinha nas costas e chamar de 'guerreira é escolhida por Deus' do que acolher, incluir e criar políticas públicas, cuidar de quem cuida. Esse mito da mãe especial esconde muitos abandonos. Nesses casos é inevitável a gente se perguntar: cadê o pai? É normal não ter notícias do filho por 12 dias? Tudo bem isso? Não deram falta dele na escola? Muitas estruturas de proteção social que falharam", completa Andrea.


Leia a íntegra do texto publicado por Andrea Werner.

"Ana Paula morava em São Sebastião do Paraíso, interior de Minas, sozinha com seu filho de 6 anos, que é autista.

Ana Paula teve um infarto e faleceu aos 39 anos. Só foi achada cerca de 12 dias depois, no seu quarto, por um irmão que deu falta. Seu filho estava na cozinha. Ele não fala, e não conseguiu pedir ajuda.

Eu sinto muito, Ana Paula.

Sinto pela sua solidão. Sinto pelo fato de só notarem a sua ausência 12 dias depois. Se minha irmã fica um dia sem aparecer, eu já fico preocupada...

Eu sinto muito pelo que o seu filho passou. Eu imagino que isso era um dos seus piores pesadelos, e ele aconteceu.

Aconteceu porque mães atípicas, muitas vezes, recebem um tapinha nas costas, são chamadas de guerreiras, e depois são abandonadas.

Aconteceu porque mães atípicas solo são tão sobrecarregadas que não conseguem cuidar da própria saúde.

Aconteceu porque tantas dificuldades e abandonos pesam...no corpo, na mente, no coração.

Aconteceu porque a sociedade e o Estado não acolhem, não cuidam de quem cuida, e nem veem o cuidado como um trabalho.

Eu sinto muito. Sinto tanto. Espero que seu filho seja acolhido pela sua família. Mas não sei nem o que esperar de uma família que demora 12 dias pra dar falta de alguém".

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Secretário de Meio Ambiente de Canela é preso preventivamente por suspeita de irregularidades em liberação de licenças ambientais

Mandado judicial foi cumprido nesta manhã junto a outros de busca e apreensão
19/05/2022 - 10h29minAtualizada em 19/05/2022 - 13h15min
PIONEIRO

Nesta manhã foram cumpridas ainda mandados de busca e apreensão na prefeitura de CanelaPolícia Civil / Divulgação

O secretário de Meio Ambiente de Canela, Jackson Müller, foi preso preventivamente na manhã desta quinta-feira (19) durante a 8ª fase da Operação Caritas, que investiga corrupção na prefeitura do município há mais de um ano. A informação foi obtida pelo repórter Giovani Grizotti, da RBS TV, e confirmada pelo delegado regional de Gramado, Heliomar Franco, em entrevista ao programa Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha.


— Foi preso preventivamente, na manhã de hoje (quinta-feira), o secretário de Meio Ambiente de Canela, senhor Jackson Müller. Está preso para o processo judicial. Em razão do envolvimento direto dele com essas práticas de dificultar a obtenção de licenças ambientais na cidade de Canela e também algum envolvimento em licitações que eram 'viciadas', que passavam pela secretaria e que tinham que ter a interveniência desse secretário e também eram objeto de fraude em licitação — declarou Franco.

Segundo o delegado, essa fase da operação tinha o objetivo de cumprir 180 medidas judiciais em 15 municípios de três estados, Rio Grande o Sul, Santa Catarina e Goiás. O alvo das investigações nessa oitava fase são contratos e licenças ambientais na Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Canela. Durante o cumprimento dos mandados, foram encontrados documentos que serão objeto de análise. Ainda são investigados crimes de lavagem de dinheiro e peculato.

— No decorrer dos trabalhos investigativos, a equipe da Delegacia de Canela, conseguiu demonstrar que se instalou, na Secretaria do Meio Ambiente de Canela, uma organização criminosa. São indivíduos ligados a servidores públicos que dificultavam a obtenção de licenças ambientais fazendo com que a pessoa que quisesse obter o licenciamento para algum empreendimento tivesse que procurar determinada empresa ligada ao secretário do Meio Ambiente. Em Canela, só se conseguia (licença) quando se contratava determinada empresa, aí, foi se verificar que essa empresa era ligada diretamente ao próprio secretário de Meio Ambiente que era sócio oculto dessa empresa — explicou o Franco.


O delegado disse ainda que não tem nos autos indicação de envolvimento do prefeito de Canela, Constantino Orsolin (MDB).

A reportagem não conseguiu contato da defesa do secretário, até esta publicação. Segundo a prefeitura, Jackson Müller já atuou como secretário do Meio Ambiente em Estância Velha e Novo Hamburgo, foi diretor técnico da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), entre outros cargos.

Segundo a Polícia Civil, 27 pessoas são alvo das medidas cumpridas nesta quinta, sendo 18 pessoas físicas e nove pessoas jurídicas. Ao todo, desde o início da primeira fase da Caritas, são mais de 30 os investigados no inquérito policial.

Sobre a Operação Caritas

A Operação Caritas começou em 9 de abril de 2021, quando foram apreendidos materiais de construção do Hospital de Caridade de Canela que haviam sido desviados para propriedade particular. Ainda conforme a Polícia Civil, foram encontrados indícios de uma rede de corrupção para lavagem de dinheiro. Entre as práticas, estariam suspeitas de falsificação de documentos, crimes em licitação, ocultação de bens, desvio de materiais de construção adquiridos para reforma do Hospital de Caridade, canalização de verbas, orçamentos fraudulentos em licitações e rachadinha.

Na segunda fase, em 30 de junho, policiais civis apreenderam uma lista com nomes de cargos de confiança que, segundo a apuração, pagavam valores em dinheiro para partido político. Isso ocorreu após os policiais acompanharem, durante todo o dia, a atividade de recolhimento do dinheiro em diversos locais, inclusive prédios públicos.

Já no dia 8 de novembro, 175 policiais civis cumpriram simultaneamente 176 medidas judiciais. As pessoas que ocupavam os cargos, à época, de presidente da Câmara de Vereadores de Canela (Alberi Gavani Dias, do MDB), de secretário municipal de Obras (Luis Claudio da Silva) e de interventor do Hospital de Caridade (Vilmar da Silva dos Santos) chegaram a ser presos preventivamente, mas foram soltos no dia seguinte e afastados das funções públicas temporariamente.

Além disso, naquela ocasião, foram afastados de maneira cautelar o então secretário municipal de Turismo (Angelo Sanches Thurler), o subsecretário de Obras (Osmar José Zangalli Bonetti), e um funcionário contratado como cargo em comissão na pasta de Obras (Denis Roberto de O. de Souza).

No dia 29 de novembro, 30 policiais civis cumpriram mandados de busca e apreensão na cidade e em Gramado em endereços ligados a empresas que prestam serviços de maquinário e terraplanagem para a prefeitura de Canela. Ao todo, cinco locais foram alvos de buscas nas duas cidades. Em 16 de dezembro foram cumpridos três mandados de busca e apreensão em residências e propriedades rurais localizadas na cidade e também no interior.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Ainda viva, filha de Maria Bonita e Lampião processa motel por propaganda



Maria Bonita e Lampião são dois dos personagens mais marcantes da cultura nordestina do Brasil. Integrantes do Cangaço, eles tiveram uma vida difícil em meio à violência existente no sertão.

Pouquíssima gente sabe, mas o casal deixou uma filha, Expedita Ferreira Nunes, que ainda está viva e hoje tem 89 anos de idade.“Alexa, toca minhas músicas”. Frete grátis na 3ª geração do Echo Dot, o aparelhinho da Amazon que todo mundo quer ter em casa – perfeito para qualquer ambiente! Acesse, confira e compre clicando aqui.

Recentemente, Expedita chamou a atenção por mover um processo judicial contra uma rede hoteleira de Pernambuco na tentativa de proteger a imagem dos pais.

A questão é que a filha do casal cangaceiro viu um motel no agreste pernambucano utilizando o seguinte slogan: “Maria Bonita, acenda o Lampião“.

Como já era de se esperar, ela não gostou nada da propaganda com sentido sexual feita com o nome dos pais dela e decidiu processar a administradora do motel, alegando “uso indevido de imagens para fins comerciais, implicando a posse indevida do patrimônio imaterial dos personagens”.

O Tribunal de Justiça de Sergipe definiu no valor de R$ 8 mil a indenização para a filha de Maria Bonita e Lampião. A administradora do motel defende, no entanto, que é inadmissível o uso exclusivo de pseudônimos ligados à cultura nordestina.

Para Expedita Ferreira Nunes, a frase feita com os nomes de Maria Bonita e Lampião tinha “fins nitidamente comerciais“, o que implica em “posse indevida do patrimônio imaterial das lendárias figuras”.

Diante da questão polêmica, o Tribunal de Justiça ainda levará um tempo para julgar o caso.

Veja uma foto do casal, Maria Bonita e Lampião, forte símbolo da cultura nordestina:
Foto: Reprodução
A história de Maria Bonita

Natural da cidade de Paulo Afonso, na Bahia, Maria Gomes de Oliveira, mais conhecida como Maria Bonita, possuía uma vida atípica para a época. Aos 15 anos era casada com um primo sapateiro e já se sentia frustrada com a realidade que vivia.

Símbolo de poder e resistência, Maria Bonita entrou para a história após trocar a vida comum de uma dona de casa para se entregar por noves anos ao cangaço ao lado de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião – ou como é mais conhecido: Rei do Cangaço –, com quem casou-se posteriormente.

Como dito anteriormente, Maria Bonita e Lampião tiveram uma filha chamada Expedita Ferreira Nunes, que foi criada posteriormente por amigos vaqueiros de fora do bando, já que lá não era permitido a presença de crianças.

Maria chegou a engravidar outras vezes, mas sofreu abortos espontâneos.

O casal referência quando o assunto é cangaço brasileiro esbanjava muitas joias caras que foram roubadas no sertão pelo Lampião à sua amada e usavam loção francesa para se perfumar, além de possuir punhais luxuosos de prata, marfim e ônix.

Também foram responsáveis pela criação de identidade estética do cangaço, confeccionando peças e bordados que marcaram a década de 1930.

Apesar de ser considerada empoderada e transgressora, Maria estava muito longe de ser feminista. A cangaceira não só ajudou a torturar as vítimas de seu companheiro, como também apoiava o assassinato de mulheres adúlteras.

Além disso, Maria Bonita vivia sob regras do sertão nordestino, que por sua vez possuía o pensamento machista de que mulheres eram coadjuvantes e não sabiam atirar.

Entretanto, o grupo funcionava por divisão de tarefas e funções básicas de uma casa eram obrigações de todos, independente de gênero.

Maria Bonita não resistiu após ser baleada de forma impiedosa no abdômen por policiais no esconderijo do bando, localizado no sertão de Sergipe, e faleceu em 28 de julho de 1938.

Seu marido, Lampião, e outros nove cangaceiros também foram dizimados durante o ataque surpresa.

Seu corpo foi abandonado com as pernas abertas com um pedaço de madeira enfiado na vagina pelos soldados, enquanto sua cabeça – e a dos outros cangaceiros – seguiram caminho rumo a uma exposição pública em Maceió, Alagoas.

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