sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Pink Floyd: 35 anos de “The Wall”

pinkfloydthewall1979
Pink Floyd: “The Wall”
Lançado em 30 de novembro de 1979
Concebido pelo baixista Roger Waters, “The Wall” é o 11° disco do Pink Floyd e se tornou um dos álbuns conceituais mais famosos e bem sucedidos da história do rock. Até hoje é aclamado por fãs e crítica, pela riqueza de detalhes conceituais e musicais.
A inspiração para escrever “The Wall” veio quando, durante um show em Montreal, Quebec, Waters cuspiu na cara de um fã que apresentava um comportamento perturbador. Enojado com sua própria atitude, surgiu a ideia de construir um muro (“wall”, para os leigos em inglês) entre a banda e a plateia, desenrolando, a partir daí, a ideia da opera rock.
O conceito do álbum retrata a vida de um anti-herói chamado Pink, excluído da sociedade desde os primeiros dias de vida. Pink constrói um muro em sua consciência para separá-lo da sociedade, ficando em seu próprio e fantasioso mundo. Durante uma alucinação gerada por drogas, ele se torna um ditador fascista, onde seu juiz interior ordena que derrube seu muro e viva a vida. Em 1982 foi lançada uma versão em filme para a história, com o ator Bob Geldof representando o protagonista.
Muito aclamado pela mídia e pelos fãs, “The Wall” atingiu facilmente o 1° lugar nas paradas americanas e 3° nas paradas inglesas. São mais de 30 milhões de cópias vendidas no mundo todo. Além disso, o disco é considerado o duplo mais vendido da história da música. Canções bem trabalhadas, ótima produção, processo criativo minucioso e instrumental forte são os destaques do álbum.
Apesar do genial Roger Waters ter tomado o controle sobre o Pink Floyd – o que deu início aos conflitos que culminariam no fim do grupo -, os destaques para esse disco, ao meu ver, ficam por conta das canções onde a identidade de David Gilmour predomina mais, seja em sua voz, seja em suas melodias, seja em seus solos de guitarra.
“The Wall” transcende a música. Seja pelo conceito, pelo contexto histórico que envolve a sua concepção, pela produção ou por ter um conteúdo musical que, ao mesmo tempo, é requintado e subversivo. O Pink Floyd uniu os dois mundos em um de seus grandes trabalhos.
Destaques para a sensacional “Comfortably Numb” e seu belíssimo solo de guitarra, a apoteótica “Another Brick In The Wall”, a melódica “Mother” e a feroz “Young Lust”, onde a voz de Gilmour mostra uma potência e um drive incrível, além de um solo de guitarra repleto de pegada e feeling. Mas a recomendação é que se aprecie este clássico incontestável da cabeça aos pés.
Roger Waters – vocal, baixo, sintetizadores, guitarra e violão adicional
David Gilmour – vocal, guitarra, baixo adicional, seqüenciador, sintetizadores, clavinet, percussão
Richard Wright – piano, órgão, sintetizadores, clavinet, bass pedal
Nick Mason – bateria, percussão
Músicos adicionais:
Jeff Porcaro – bateria em “Mother”
Lee Ritenour – guitarra-base em “One Of My Turns” e violão em “Comfortably Numb”
Joe Porcaro – caixa em “Bring The Boys Back Home”
Bleu Ocean – caixa em “Bring The Boys Back Home”
Freddie Mandel – órgão Hammond em “In The Flesh?” e “In The Flesh”
Bobbye Hall – percussão
Ron di Blasi – violão clássico em “Is There Anybody Out There?”
Larry Williams – clarineta em “Outside The Wall”
Trevor Veitch – mandolin
Frank Marrocco – concertina
Bob Ezrin – co-produtor, arranjos orquestrais, teclado
Michael Kamen – arranjos orquestrais
James Guthrie – co-produtor, engenheiro de som, percussão, sintetizadores em “Empty Spaces”, seqüenciador, bateria em “The Happiest Days Of Our Lives”
Disco 1
01. In The Flesh?
02. The Thin Ice
03. Another Brick In The Wall (Part 1)
04. The Happiest Days of Our Lives
05. Another Brick In The Wall (Part 2)
06. Mother
07. Goodbye Blue Sky
08. Empty Spaces
09. Young Lust
10. One Of My Turns
11. Don’t Leave Me Now
12. Another Brick In The Wall (Part 3)
13. Goodbye Cruel World
Disco 2
01. Hey You
02. Is There Anybody Out There?
03. Nobody Home
04. Vera
05. Bring The Boys Back Home
06. Comfortably Numb
07. The Show Must Go On
08. In The Flesh
09. Run Like Hell
10. Waiting For The Worms
11. Stop
12. The Trial
13. Outside The Wall
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“The Wall” completou 35 anos; obra marcou rito de passagem para o Pink Floyd


Formação clássica do Pink Floyd, com David Gilmour, Nick Mason, Roger Waters e Richard Wright
Formação clássica do Pink Floyd, com David Gilmour, Nick Mason, Roger Waters e Richard Wright
No dia 30 de novembro um dos discos mais emblemáticos da história da música completou 35 anos. “The Wall” foi o projeto mais ambicioso da banda na época em que era liderada pelo baixista Roger Waters e é possível traçar um paralelo nada otimista em relação ao recente lançamento do grupo, “The Endless River”.
Pink Floyd teve 4 eras bem definidas. No início, mais especificamente em “The Piper at the Gates of Dawn” (1967) e “A Saucerful  of Secrets” (1968), a banda tinha uma pegada psicodélica e mais crua, permeada pela criatividade e insanidade de Syd Barrett.
Após seus surtos se tornarem incontroláveis, ele teve de se afastar do grupo, abrindo espaço para uma segunda fase em que a colaboração de Waters, Gilmour, Mason e Wright era bastante recíproca. Trocando em miúdos, a partir de 1970, o Pink Floyd passou a agir como uma banda de verdade pela primeira vez.
Com o clássico “Dark Side of The Moon” (1972) e o já nostálgico “Wish You Were Here” (1975), essa estrutura de cooperação começou a ruir – apenas no sentido do relacionamento dos integrantes, pois foi o início do ápice musical e comercial. Em “Animals”, de 1977, o Floyd já havia se tornado a banda de apoio da mente megalomaníaca de Roger Waters.
O disco duplo “The Wall” (1979) foi praticamente um projeto solitário do baixista, eternizando faixas como “Another Brick in the Wall pt. 2″, “Hey You'', “Confortably Numb'' e “Mother''. A obra marcou o rito de passagem do Pink Floyd de uma das maiores fontes de música inovadora e autêntica do mundo durante os anos 70 para um cover de si mesmo que seguiria fórmulas seguras e infalíveis por três décadas.
Roger Waters interpreta "The Wall" em Berlim, Alemanha
Roger Waters interpreta “The Wall'' em Berlim, Alemanha
A briga de egos se tornou insustentável após mais um ataque de Waters com “The Final Cut” (1983), e após sua saída, o cenário continuou o mesmo, mas com a banda sob o comando do guitarrista David Gilmour, que lançou “A Momentary Lapse of Reason” em 1987.
O lançamento dos álbuns duplos ao vivo “Delicate Sound of Thunder”, “Pulse” e “Is There Anybody Out There?” demonstrou que o Floyd ainda era um titã enorme caminhando sem rumo definido. O segundo disco de estúdio dessa era, “The Division Bell”, deu uma direção mais estável, cautelosa e radiofônica ao grupo, e o transformou em um gigante adormecido por vinte anos, dependendo de coletâneas e compilações.
“The Endless River” acordou o Pink Floyd trazendo-o novamente para um lado muito sofisticado e nada comercial, mas o manteve sob as rédeas de Gilmour, que produziu o disco com seu trabalho de curadoria de arquivo previamente descartado, reciclando faixas do falecido tecladista Richard Wright para, em parceria com o baterista Nick Mason, dar à banda o último sopro de vida.
Tanto o disco recente quando clássico que está completando 35 anos têm em comum a característica de projetos mais solo do que em conjunto, mas a diferença fundamental entre os dois é o excesso de ambição de um e a falta no outro. Ambos têm identidades próprias e distintas entre si, e representam momentos opostos da carreira da maior e mais conturbada banda de rock progressivo de todos os tempos.
Enquanto “The Wall” é o fim do auge, “The Endless River” é o fim do declínio. Descanse em paz, velho Floyd!
André Cáceres
Rádio UOL

Psicopatas: como agem esses indivíduos tão temidos pela sociedade


O termo “psicopata” caiu na boca do povo, embora na maioria das vezes seja usado de forma equivocada. Na verdade, poucos transtornos são tão incompreendidos quanto a personalidade psicopática.
Descrita pela primeira vez em 1941 pelo psiquiatra americano Hervey M. Cleckley, do Medical College da Geórgia, a psicopatia consiste num conjunto de comportamentos e traços de personalidade específicos. Encantadoras à primeira vista, essas pessoas geralmente causam boa impressão e são tidas como “normais” pelos que as conhecem superficialmente. No entanto, costumam ser egocêntricas, desonestas e indignas de confiança. Com frequência adotam comportamentos irresponsáveis sem razão aparente, exceto pelo fato de se divertirem com o sofrimento alheio. Os psicopatas não sentem culpa. Nos relacionamentos amorosos são insensíveis e detestam compromisso. Sempre têm desculpas para seus descuidos, em geral culpando outras pessoas. Raramente aprendem com seus erros ou conseguem frear impulsos.
Não é de surpreender, portanto, que haja um grande número de psicopatas nas prisões. Estudos indicam que cerca de 25% dos prisioneiros americanos se enquadram nos critérios diagnósticos para psicopatia. No entanto, as pesquisas sugerem também que uma quantidade considerável dessas pessoas está livre. Alguns pesquisadores acreditam que muitos sejam bem-sucedidos profissionalmente e ocupem posições de destaque na política, nos negócios ou nas artes.
Especialistas garantem que a maioria dos psicopatas é homem, mas os motivos para esta desproporção entre os sexos são desconhecidos. A freqüência na população é aparentemente a mesma no Ocidente e no Oriente, inclusive em culturas menos expostas às mídias modernas. Em um estudo de 1976 a antropóloga americana Jane M. Murphy, na época na Universidade Harvard, analisou um grupo indígena, conhecido como inuite, que vive no norte do Canadá, próximo ao estreito de Bering. Falantes do yupik, eles usam o termo kunlangeta para descrever “um homem que mente de forma contumaz, trapaceia e rouba coisas e (…) se aproveita sexualmente de muitas mulheres; alguém que não se presta a reprimendas e é sempre trazido aos anciãos para ser punido”. Quando Murphy perguntou a um inuit o que o grupo normalmente faria com um kunlangeta, ele respondeu: “Alguém o empurraria para a morte quando ninguém estivesse olhando”.
O instrumento mais usado entre os especialistas para diagnosticar a psicopatia é o teste Psychopathy checklist-revised (PCL-R) – veja imagem acima -, desenvolvido pelo psicólogo canadense Robert D. Hare, da Universidade da Colúmbia Britânica. O método inclui uma entrevista padronizada com os pacientes e o levantamento do seu histórico pessoal, inclusive dos antecedentes criminais. O PCL-R revela três grandes grupos de características que geralmente aparecem sobrepostas, mas podem ser analisadas separadamente: deficiências de caráter (como sentimento de superioridade e megalomania), ausência de culpa ou empatia e comportamentos impulsivos ou criminosos (incluindo promiscuidade sexual e prática de furtos).

Três mitos


Apesar das pesquisas realizadas nas últimas décadas, três grandes equívocos sobre o conceito de psicopatia persistem entre os leigos. O primeiro é a crença de que todos os psicopatas são violentos.
Estudos coordenados por diversos pesquisadores, entre eles o psicólogo americano Randall T. Salekin, da Universidade do Alabama, indicam que, de fato, é comum que essas pessoas recorram à violência física e sexual. Além disso, alguns serial killers já acompanhados manifestavam muitos traços psicopáticos, como a capacidade de encantar o interlocutor desprevenido e a total ausência de culpa e empatia. No entanto, a maioria dos psicopatas não é violenta e grande parte das pessoas violentas não é psicopata.
Dias depois do incidente da Universidade Virginia Tech, em 16 de abril de 2007, em que o estudante Seung-Hui Cho cometeu vários assassinatos e depois se suicidou, muitos jornalistas descreveram o assassino como “psicopata”. O rapaz, porém, exibia poucos traços de psicopatia. Quem o conheceu descreveu o jovem como extremamente tímido e retraído.
Infelizmente, a quarta edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-IV-TR) reforça ainda mais a confusão entre psicopatia e violência. Nele o transtorno de personalidade anti-social (TPAS), caracterizado por longo histórico de comportamento criminoso e muitas vezes agressivo, é considerado sinônimo de psicopatia. Porém, comprovadamente há poucas coincidências entre as duas condições.
O segundo mito diz que todos os psicopatas sofrem de psicose. Ao contrário dos casos de pessoas com transtornos psicóticos, em que é freqüente a perda de contato com a realidade, os psicopatas são quase sempre muito racionais. Eles sabem muito bem que suas ações imprudentes ou ilegais são condenáveis pela sociedade, mas desconsideram tal fato com uma indiferença assustadora. Além disso, os psicóticos raramente são psicopatas.
O terceiro equívoco em relação ao conceito de psicopatia está na suposição de que é um problema sem tratamento. No seriado Família Soprano, dra. Melfi, a psiquiatra que acompanha o mafioso Tony Soprano, encerra o tratamento psicoterápico porque um colega a convence de que o paciente era um psicopata clássico e, portanto, intratável. Diversos comportamentos de Tony, entretanto, como a lealdade à família e o apego emocional a um grupo de patos que ocuparam a sua piscina, tornam a decisão da terapeuta injustificável.
Embora os psicopatas raramente se sintam motivados para buscar tratamento, uma pesquisa feita pela psicóloga Jennifer Skeem, da Universidade da Califórnia em Irvine, sugere que essas pessoas podem se beneficiar da psicoterapia como qualquer outra. Mesmo que seja muito difícil mudar comportamentos psicopatas, a terapia pode ajudar a pessoa a respeitar regras sociais e prevenir atos criminosos.
Cristina* tem 22 anos de idade e apenas 7 anos de escolaridade. Aparentemente, ela parece ser uma garota normal com falta de estímulo aos estudos, mas foi levada ao psiquiatra por solicitação da mãe do namorado dela.
Há cerca de um ano, Cristina mora na casa do namorado com a família dele. O ambiente é de uma família de classe média, bem estruturada, que deseja oferecer à namorada do rapaz uma oportunidade de estudo ou trabalho. A garota vem de uma região pobre da periferia da cidade e, até então, vivia com uma pequena quantia de dinheiro que recebeu de uma prima depois que seu pai foi assassinado por um traficante de drogas. Quando a prima propõe a Cristina que a aceite como companheira, ela foge e vai morar com o namorado. No consultório, ao ser indagada se pretendia casar-se com ele, a jovem reflete por alguns instantes e responde: “eles (o namorado e a família dele) são tão diferentes de mim, eles estudam ou trabalham… e eu nunca tive a sorte de arranjar um emprego rentável”. Ela conta que saiu da escola antes de concluir o ensino fundamental porque “era tudo tão chato e ficava de saco cheio nas aulas”.
Durante as consultas, ela admite que, as vezes, se torna muito agressiva. Quando ainda estudava, uma colega chamou-a de vagabunda, mas Cristina decidiu conter sua reação no calor do momento e esperou a hora do intervalo. Seguiu a colega até o banheiro e a agrediu por trás, sufocando-a com uma chave de braço. A garota afirma que também tem ciúmes do namorado e já cortou os pulsos mais de uma vez por conta disso. Cristina reconhece que é muito mentirosa e não tem o menor controle sobre suas finanças: “se tenho R$ 800,00, gasto R$ 1.000,00 em sapatos e roupas em menos de um dia”. Ela pode parecer só uma garota com problemas emocionais e falta de autocontrole, mas Cristina tem traços de um comportamento psicopata. *Nome alterado para proteger a identidade da paciente.

Categorias de maldade



Bem diferente do tipo “comum” de psicopatas que a ficção hollywoodiana criou (aquele assassino sem escrúpulos que gosta de torturar suas vítimas), Cristina se encaixa na categoria de psicopatas comunitários, que podem ser pessoas sociáveis, afetuosas, comunicativas e simpáticas, porém caracterizam-se por um tipo de comportamento frequente que gera conflitos no ambiente de trabalho, em casa ou nos relacionamentos amorosos.
O neurologista Ricardo de Oliveira Souza, coordenador da Unidade de Neurociência Cognitiva e Comportamental da rede Labs D’or, do Rio de Janeiro, criou a categoria “psicopatas comunitários” para diferenciar essas pessoas dos perfis dos psicopatas que a mídia costuma exibir.
Neurologista clínico desde 1980, Ricardo ampliou sua área de atuação na neuropsiquiatria poucos anos depois de fazer residência em neurologia. E é ele quem revela o caso que abre esta matéria: uma garota que não é uma assassina em série, nem uma torturadora, mas que, ainda assim, possui traços de um comportamento considerado psicopata. “Passados alguns anos, verifiquei que os próprios médicos (na maioria psiquiatras) raramente formulavam o diagnóstico de psicopata e, quando o faziam, aplicavam a casos quase caricaturais, de assassinos em série e homicidas”, explica. Para Ricardo, os psicopatas que ele encontrava no dia a dia são diferentes dessa figura grotesca e caricata do imaginário popular. Segundo ele, existem muito mais pessoas com traços desse comportamento do que podemos imaginar. A Organização Mundial de Saúde afirma que, a cada 100 pessoas uma é psicopata, sendo assim, cerca de 1% a 3% da população sofreria do distúrbio de psicopatia, o que representaria algo entre 8 milhões e 24 milhões de potenciais psicopatas no mundo.
Indo ao encontro às informações de Ricardo, o psicólogo Sílvio José Lemos Vasconcellos, mestre em Ciências Criminais pela PUC-RS e doutor em psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, explica que o psicopata pode manifestar suas tendências antissociais em diferentes graus de intensidade, logo, pode ser mais ou menos identificável. “Um golpista que nunca feriu fisicamente suas vítimas pode ser um psicopata. Um assassino em série que tortura e mata pode ser um psicopata e, de fato, a maioria absoluta dos assassinos em série apresenta esse diagnóstico”, ressalta.

Máscaras sociais

O cinema e a mídia trouxeram à tona os traços de personalidade do psicopata de forma sanguinária, mas vale lembrar que nem todo psicopata é um serial killer, e que ele pode se esconder por trás de personalidades muito mais comuns do que se pode imaginar. Assim como o estudioso Robert Hare conta em seu livro Sem Consciência: O Mundo Perturbador dos Psicopatas que Vivem Entre Nós ( Psiquiatria, 240 páginas, editora Artmed, ano 2013, R$49,00), psicopatas utilizam diversas máscaras sociais, conquistam, manipulam e abrem caminho na vida cruelmente, deixando um longo rastro de corações partidos, expectativas frustradas e carteiras vazias. Os que não partem para a violência física podem ser caracterizados por diversas marcas, como mentiras frequentes, impulsividade, desorganização financeira, e, principalmente, imprevisibilidade de ações. Esse tipo de comportamento atende aos critérios formais de personalidade antissocial do DSM, sigla em inglês para Manual Estatístico e Diagnóstico de Desordem Mental, um dos documentos mais utilizados para avaliar transtornos psicológicos. Nele, o psicopata é caracterizado por impulsividade, desprezos por normas sociais e total indiferença aos sentimentos e direitos do próximo e causa danos emocionais ou financeiros para as pessoas que convivem e se relacionam com esses indivíduos.
Segundo Raphael Boechat, coordenador de psiquiatria do Hospital Santa Lúcia e pesquisador da Universidade de Brasília, é importante lembrar que nem todo psicopata é assassino e nem todo assassino é psicopata. “Alguns roubam, desviam dinheiro ou usam pessoas em relacionamentos. Existem várias formas de psicopatia sem morte”, explica. O psicopata cria suas próprias regras e valores, e age de acordo com sua conduta, na ele decide o que é ou não correto. “A mente desses indivíduos atua de uma forma perversa, sem os limites e as censuras que as pessoas normais aplicam em si mesmas”, revela Raphael Boechat. Geralmente esses indivíduos estabelecem relacionamentos com bastante facilidade, mas não conseguem mantê-los por muito tempo. “Isso acontece porque não conseguem lidar com as frustrações inerentes a todo e qualquer relacionamento interpessoal”, explica o psiquiatra Elias Abdalla.  Os estudos na área confirmam as observações clínicas que apontam nos psicopatas um comprometimento de determinados estados mentais essenciais para a vida social. “A capacidade de sentir emoções pró-sociais, como pena e remorso, não existe nesses indivíduos. São seres humanos incapazes de experimentar a dor ou o sofrimento alheio”, conta o psiquiatra.

Traços de um psicopatas

Identificar um psicopata é uma das tarefas mais difíceis, afinal o indivíduo consegue conviver de maneiro normal, com somente alguns traços do transtorno. De acordo com o psiquiatra Raphael Boechat, coordenador de psiquiatria do Hospital Santa Lúcia e pesquisador da Universidade de Brasília, o comportamento da maioria dos psicopatas é aparentemente normal e apenas pessoas muito próximas conseguem perceber algum traço diferente. “Normalmente esses indivíduos possuem um padrão de desprezo pelas normas sociais, uma grande capacidade de convencimento e podem ter uma inteligência superior à média”, explica.

Em busca das causas

Há várias possibilidades dentro da psicologia e da psiquiatria que justificam a forma de agir do psicopata; entretanto, as explicações sobre comportamento desses indivíduos ainda não são consenso. “A principal diferença entre um psicopata e uma pessoa normal é a incapacidade total ou relativa dos psicopatas sentirem pena dos outros ou culpa (remorso) pelo que possam fazer de mal a alguém”, diz Ricardo. Além disso, o médico alerta que, mesmo que os indivíduos se mostrem arrependidos e se penitencie pelo erro cometido, eles não modificam o comportamento e voltam a incidir nos mesmos erros em seguida. “O estado atual de conhecimento sobre o assunto sugere que a carga genética possa ser uma condição necessária para alguém se tornar psicopata, embora não seja uma condição suficiente. Isso significa dizer que o ambiente no qual o indivíduo desenvolve-se também exerce influência”, reflete o psicólogo Sílvio Lemos.
O neurologista Ricardo de Oliveira Souza demonstra que os resultados  dos estudos feitos nos últimos anos têm sido fascinantes e animadores. “Nos últimos 15 anos, um dos meus focos de pesquisas tem recaído no estudo do cérebro dos psicopatas e como eles diferem dos cérebros das pessoas normais”, revela. Para realizar os testes, foram utilizados diversos instrumentos de avaliação clínica, comportamental e neuropsicológica, assim como uma variedade de técnicas de ressonância magnética, tanto funcional como anatômica (estrutural). Com o estudo, foi possível verificar que os cérebros dos psicopatas é diferente do cérebro de um indivíduo normal. “Essas diferenças são notadas tanto na esfera anatômica quanto na esfera funcional”, explica o neurologista. Além disso, as alterações presentes no cérebro dos psicopatas estão em sintonia com as alterações comportamentais e de personalidade que os caracterizam. O córtex pré-frontal e o córtex orbitário são os locais onde as alterações anatômicas são mais observadas no cérebro dos psicopatas, assim como sobre o lobo parieto-temporal e os polos temporais. “Essas regiões são profundamente interconectadas e correspondem aos circuitos cerebrais relacionados ao comportamento social”, explica Ricardo.
A medicina diz que a psicopatia é, em grande parte, geneticamente determinada. Estima-se que 80% da “carga genética” influencie nesse tipo de comportamento, conforme definido pela PLC (sigla de expressão inglesa: Programmable logic controller – Controlador lógico programável) de psicopatia do psiquiatra americano Robert Hare. Outro ponto que contribui são os fatores são os fatores externos que podem influenciar o comportamento dessas pessoas desde muito cedo. “Há indivíduos com personalidade antissocial que ficam abaixo do limiar da psicopatia. Esses casos são bem mais suscetíveis às influências do ambiente (pais alcoólatras e negligentes) e, ao menos em tese, poderiam ser parcialmente recuperáveis”, pontua Elias Abdalla, psiquiatra forense no IML de Brasília e pós-doutor em Psiquiatria Forense pela Universidade de Londres. Ele conta que essas pessoas eram conhecidas antigamente como “sociopatas” para diferenciá-las dos psicopatas sanguinários, entretanto não há um consenso entre os dois termos. “Há quem prefira destacar o termo ‘sociopatia’ para dar ênfase à importância do meio social na constituição da personalidade transtornada, enquanto o termo psicopata engloba os aspectos biológicos (incluindo genético) e sociais”, explica. Ou seja, enquanto os psicopatas adotariam um comportamento mais violento, os sociopatas teriam um quadro clínico de transgressão social mais leve.

Recuperação (quase) impossível

A cura para a psicopatia ainda percorre um caminho tortuoso. “Esses indivíduos não vão ao psiquiatra por vontade própria, a não ser quando levados por terceiros, porque eles não veem problema em sua conduta e nem em suas regras”, explica Ricardo de Oliveira Souza. Para Elias Abdalla, uma cura para os psicopata seria equivalente a algo como “mudar de personalidade”, o que é impossível.
Sílvio Vasconcellos reafirma que, embora a cura pareça distante, é possível apaziguar as manifestações antissociais características da psicopatia. Mesmo apostando no avanço que técnicas que diminuam o comportamento antissocial do indivíduo psicopata, o psicólogo alerta para o caráter violento de muitos deles e aponta a via penal como solução. “Se considerarmos o insucesso dos tratamentos nas diferentes áreas de saúde e o fato de que a contenção de comportamentos antissociais é primordial na sociedade em que vivemos, a privação da liberdade é, portanto, necessária. Seria ingênuo pensar que existe um modelo substitutivo capaz de dispensar a privação de liberdade nesses casos”, avalia.
Por mais que pareça radical, para Ricardo de Oliveira Souza, a integração de um psicopata à sociedade é impossível, já que o transtorno deste indivíduo é ele próprio. “Como ele tem uma falha em sua personalidade, o psicopata não consegue sentir arrependimento pela violência praticada. Por conta disso, ele não compreende sua prisão por sentimentos éticos, morais e humanos pela vítima. Consequentemente, não vai aprender com a experiência, com tendência a repetir seus atos de violência”, finaliza.

Características infantis indicam o problema

O diagnóstico de psicopatia só é possível após os 18 anos por meio de diagnóstico psiquiátrico. Até essa idade, os sinais que poderiam indicar um perfil psicopático podem no máximo serem diagnosticados como Transtorno de Conduta. Ainda assim, algumas características infantis indicam que a criança pode vir a ser um adulto com o transtorno. “Geralmente as que maltratam animais, mentem muito, fazem bullying, não obedecem regras, têm insensibilidade emocional, dificuldade em manter amizades, atitudes transgressoras como roubo, vandalismo e violência, têm mais chances de serem adultos assim”, afirma a psicóloga, explicando que, mesmo conhecendo as características, o diagnóstico exato só pode ser confirmado pelo especialista. “Como a maioria dos transtornos mentais, a psicopatia apresenta dois elementos causais fundamentais: uma disfunção neurobiológica e o conjunto de influências sociais e educativas recebidas ao longo da vida. Quando ela ocorre em grau leve e é detectada de forma precoce, pode, em alguns casos, ser modulada através de uma educação mais rigorosa, ou seja, um ambiente familiar mais estruturado e com acompanhamento dos filhos ditos ‘problemáticos’, o que certamente não evita a psicopatia, mas pode inibir uma manifestação mais grave”.
Apesar de se mostrar irreversível, a psicóloga deixa claro que a existência de algumas características da psicopatia não são motivo para a pessoa ser diagnosticada com o transtorno. “Existem casos de pacientes que foram diagnosticados com o problema, mas depois foi visto que ele não era um psicopata. E outros em que os sintomas não foram percebidos, porém, após um período, se mostraram extremamente passíveis de serem psicopatas. Por isso, dentre outros critérios, as características são avaliadas pela frequência e intensidade com as quais se manifestam”. Essa ludibriação do diagnóstico, conforme deixa claro Lara, não é algo tão incomum. “Muitos psicopatas já conhecem as características do distúrbio e, por isso, conseguem ser frios o bastante para enganar até os especialistas”.

Nem todos são assassinos

Muito pelo contrário: a proporção é de 1% da população mundial, sendo três homens para cada mulher. Além disso, vale frisar que existem diferentes graus de psicopatia e que nem todos os indivíduos com o distúrbio não têm qualquer limite. “Temos as psicopatias leves, moderadas e graves. Todas envolvem frieza emocional, mas, nos casos mais simples, remetem a pessoas que muitas vezes ocupam cargos de destaque, como líderes religiosos, executivos bem sucedidos e políticos que muitas vezes vivem de golpes, roubos, fraudes e estelionatos”.
Com estes indivíduos, a dica da psicóloga é se manter o mais longe e atento possível. “Se perceber alguém assim, fuja, pois a pessoa não vai mudar”, diz, deixando claro que os próprios psicopatas não vão atrás de ajuda médica. “Como eles não são incomodados com o próprio problema, não vão procurar ajuda. Geralmente quem costuma se tratar são as vítimas deles”.
Fonte: por Tamirys Seno e Lucas Santana (colaborador) / Segredos da mente – Ler & Saber Especial – Ano 1 – nº 1 – 2013 – Editora Alto Astral / Albert Einstein – Sociedade Beneficente Israelita Brasileira / Scott O. Lilienfeld e Hal Arkowitz / Artigo: O que é um psicopata?

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