domingo, 4 de dezembro de 2011

"A profissão me ensinou a guardar distância de entrevistados. Em nome do senso crítico, aprendi desde cedo que jogador..."

by Antero Greco
 

O Doutor fugiu a padrões normais.

Injusto avaliá-lo como um qualquer

    A profissão me ensinou a guardar distância de entrevistados. Em nome do senso crítico, aprendi desde cedo que jogador não pode ser visto como amigo, muito menos como ídolo. Esse é sentimento de torcedor. Há exceções - Sócrates foi uma delas. O Doutor, ou o Magrão, como todos da minha geração o chamavam, fugiu à regra, quebrou padrões. Dentro de campo foi tão craque como outros abençoados com o dom de domar a bola. Fora, mostrou-se incomum, diferente. Suas atitudes e ideias não seguiram parâmetros habituais para os boleiros. E, por métodos tradicionais, também não poderia ser avaliado. Sócrates foi único. Injusto tratá-lo como os demais.
Sócrates destoava a partir do visual e do tipo físico. Era muito magro, mas aguentava caneladas com coragem. Era alto e, para não perder o equilíbrio, desenvolveu a técnica de dar passes de calcanhar. Era barbudo, numa época em que raros jogadores por aqui ousavam ir além de bigodes. Não escondia convicções políticas, num período em que a mão de ferro tratava de calar vozes dissidentes. Bebia - e o fazia às claras.
Sócrates era boêmio, gostava de conversa de mesa de bar, onde concedeu entrevistas antológica. Seu universo de interesses passava por política, filosofia, arte, amor e... futebol, que conhecia como poucos. O jeito despojado fascinava jovens repórteres dos idos dos anos 1970. Também éramos barbudos, também queríamos liberdade, também imaginávamos mudar o jornalismo. Por isso, o víamos como um de nós. Era nosso ídolo, embora fosse pecado admiti-lo em público.
Acompanhei a carreira dele, do surgimento em Ribeirão Preto, passando pelo auge na Democracia Corintiana e na seleção, ao declínio no fim dos anos 1980. Emocionei-me com o gol que marcou contra a Itália, tive vontade de dar-lhe um abraço após o fatídico 5 de julho de 1982. Me contive, para ser isento. Naquele dia, lágrimas teimosas me escaparam por causa de uma derrota esportiva. Agora, brotam porque se foi um grande do futebol, um Brasileiro especial.
Caramba, me dou conta que éramos coetâneos! Entro na fase em que se colecionam saudades: John Lennon, George Harrison, Sócrates...


The lonely change

Por Marcos Bayer

Alguns estudos falam que temos 850 milhões de pessoas desempregadas pelo mundo. Sabendo que somos sete bilhões de habitantes, excluindo as crianças que não trabalham e os aposentados, é provável que a relação seja de um desempregado para cada quatro empregados. Então, um quinto da humanidade estaria sem emprego formal. Várias são as explicações presumidas. Da robotização nos processos industriais ao uso intensivo da Internet nas diversas relações laborais que aumenta a rapidez da troca de informações até a demissão de trabalhadores que se tornam obsoletos pela incorporação tecnológica.
É uma mudança silenciosa. Na medida em que as oportunidades ficam escassas, os que trabalham sabem que perderão conquistas universais, não importa a região do mundo onde vivem. Concomitantemente, ocorre o alargamento dos anos de trabalho para obtenção de aposentadoria. A Europa nos mostra diariamente a situação.

Porém, a questão transcende ao aspecto trabalho, renda, consumo e produção - que é o princípio básico da proposição econômica de Keynes.

A sociedade informatizada que oferece a possibilidade de emissão de passagens aéreas à compra de livros, sem intermediários, cria seu novo homem.

Destruiu o pequeno jornaleiro que gritava: Extra, extra: Novas vagas na indústria – e criou uma rede interminável de blogs e congêneres na rede mundial dos computadores.

Mas, ainda não é este o ponto principal. O que não nos damos conta é do mundo silencioso que estamos construindo. Um mundo sem fala, sem tato e sem reunião.

A sociedade atual é totalmente dependente desta nova tecnologia. Do controle dos estoques ao acompanhamento processual judicial.

Relações amorosas antes permeadas por carícias físicas, pelo som da voz, por expressões faciais, sorrisos e gargalhadas, choros ou lágrimas, são substituídas por ícones gráficos das redes sociais que traduzem o sentimento humano numa nova e simbolizada linguagem. Um sânscrito glacial e sem alma.

Este novo mundo, sem humanidade e sem contato físico, esteriliza as pessoas e as faz mais solitárias do que nunca. A riqueza de uma conversa, de um olhar ou de um sorriso, foi substituída, inexoravelmente, por uma lista de “favoritos”, presumo que sempre no canto superior direito da tela do computador, onde a condição humana é relegada à frieza de todas as ausências. Estamos interagindo com a solidão. A nova “amiga” do mundo digital.
Faceless.
 
 
 

Acho um saco ter que viver assim.. Ninguém vive da forma que eu vivo e pode se dar este luxo. E olha que já estou muito, mas muito melhor. Mas creio que nunca mais saberei o que é dormir uma noite inteira sem me acordar com o mínimo de barulho. Vivo como escoteiro: SEMPRE ALERTA. As vezes eu me canso. Saio fora. Descanso. Para em seguida, levantar e começar tudo novamente. by Deise




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